17 de julho de 2019

Propositalmente ou propositadamente?


Como sempre alerto aos alunos, nossa língua tem mistérios que a própria gramática desconhece. Pode ser numa conjugação verbal, na grafia esdrúxula de um termo, numa palavra que você jura - de pés juntos! - não existir e, quando vai consultar os bons dicionários, acaba descobrindo que existe, sim, e é, por incrível que pareça, até recomendada pelos defensores da norma culta.
É, minha gente, estudar nosso rico idioma é isso aí: estar sempre às voltas com dúvidas, as mais variadas possíveis!
O que me traz aqui, hoje, é a dúvida da Mirian, aluna da Turma Regular do GETUSP, que me perguntou, em sala de aula, o seguinte:

"Qual a forma correta, professor: 
PROPOSITALMENTE, PROPOSITADAMENTE ou tanto faz?"

E lá fui eu consultar todas as minhas mais seguras fontes para sanar mais essa dúvidae compartilhar a informação com os leitores do blogue.
Via de regra, o que os grandes dicionaristas da nossa língua registram como forma vernácula é o advérbio PROPOSITADAMENTE, derivado do adjetivo PROPOSITADO, ou seja "feito de propoósito".
De acordo com o padrão culto, então, parece-me, diante da pesquisa realizada, que a preferência lexical está com essa forma.
Contudo, alguns outros estudiosos da língua parecem não fechar as portas de todo para a variação PROPOSITALMENTE, mostrando-nos que, enquanto fruto de um processo de derivação sufixal, essa forma é totalmente válida, uma vez que o adjetivo PROPOSITAL existe, de fato, no vocabulário da língua e, portando, assim como acontece com PROPOSITADO, também pode dar origem a novas palavras como,  no caso, o advérbio PROPOSITALMENTE.
Aqueles que defendem a existência de PROPOSITALMENTE, contudo, fazem uma ressalva: por não ser forma dicionarizada, embora perfeitamente concebível para os padrões de formação de palavras do português, eles recomendam que, em contextos mais formais, se utilize a forma vernácula PROPOSITADAMENTE.

Recomendação do gramático Napoleão Mendes de Almeida:
Não são consideradas de bom uso - a advertência é de João Ribeiro - proposital e propositalmente, convindo dizer propositado (ofensa propositada) e propositadamente: agiu propositadamente. São corretas as formas intencional e intencionalmente, derivadas de intenção.


Se podemos dizer intenção, intencional e intencionalmente, por que não propósito, proposital e propositalmente? Isso é coisa de Zé Maranhão.

Objeto direto preposicionado - o que raios é isso?


Muito bem. Estamos na aula sobre sintaxe do período simples, você imagina já ter entendido tudo sobre complementos verbais (objeto direto e objeto indireto) quando o professor vem com essa: "Vamos falar, agora, sobre o OBJETO DIRETO PREPOSICIONADO, turma!"
Como assim? Será que a gramática enlouqueceu? Será que ela está contrariando suas próprias normas e querendo nos deixar confusos?
Muita calma nessa hora, minha gente! Por mais "absurda" que, à primeira vista, isso possa parecer, eu garanto pra vocês: esse fenômeno e sua nomenclatura FAZEM, sim, MUITO SENTIDO!
É só você prestar bastante atenção e entender por que é possível preposicionar um objeto direto sem, contudo, transformá-lo num objeto indireto.
Preparados para desmistificar mais um ponto relacionado à sintaxe do nosso idioma?
Pois bem, aqui vamos nós!

ENTENDENDO O OBJETO DIRETO PREPOSICIONADO

Sabemos que objeto direto é o complemento que se liga ao verbo diretamente, isto é, sem o auxílio de preposição. Assim, em “Devemos respeitar nossos pais”, nossos pais é objeto direto do verbo respeitar porque se liga a ele sem a presença de preposição.(respeita Y)
Entretanto, às vezes, o objeto direto pode aparecer precedido de preposição – e essa preposição, geralmente, é “a” – sem que isso o transforme em objeto indireto (que, como você já sabe, é complemento ligado ao verbo através de uma preposição). Neste caso, temos o objeto direto preposicionado, como em “Amar a Deus sobre todas as coisas”. “Amar”, no contexto, é transitivo direto (X ama Y), mas mesmo assim apareceu a preposição “a” (amar a Deus). 
Como você vê, existem contextos em que podemos empregar a preposição em relação a complementos que se ligam a verbos transitivos diretos, não por exigência do verbo, porque se exigisse, o verbo seria transitivo indireto, mas por outras razões. Normalmente, quando isso acontece, há razões semânticas por trás do preposicionamento desse objeto direto. Há casos em que o uso do objeto direto preposicionado é facultativo e, e outros em que tal uso pode ser considerado até mesmo "obrigatório", uma vez que sua função é promover a desambiguação da frase. Vejamos mais detidamente como isso se processa:

Uso facultativo:

• Com certos pronomes: “Márcia beneficiava a todos a sua volta” e "Gato a quem mordeu a cobra tem medo à corda". 

• Com verbos que exprimem sentimentos: “A garota amava aos que a rodeavam” e “Detesto a Paulo e à sua corja.”.

• Nas antecipações do objeto, comuns em provérbios: "A quinta roda ao carro não faz senão embaraçar" e “Ao boi, pega-se pelo corno e ao homem, pela palavra". 

• Como reforço à clareza: “Cumprimentei-o e aos que com ele estavam” e “Expulsou-o e aos comparsas”. Sem a preposição, podemos imaginar ser o segundo elemento do objeto direto sujeito de algum verbo, que na realidade não existe.

Uso obrigatório:

• Para evitar ambiguidade, mais precisamente, para não haver confusão entre o sujeito e o objeto: “A Daniel Mariana contratou” e “O urso ao caçador surpreendeu”. Sem a preposição, teríamos as construções ambíguas “Daniel Mariana contratou” e “O urso o caçador surpreendeu”. Nelas, não se sabe quem contratou quem nem quem surpreendeu quem. É claro que, como você já deve ter se questionado a essa altura, a ordem direta das frases resolveria muito bem a dificuldade: “Mariana contratou Daniel” e “O urso surpreendeu o caçador” –, mas se o escritor quiser manter a ordem inversa, a preposição é indispensável para a clareza da frase.

• Quando o objeto direto é constituído de formas pronominais: “Viu-me e a si própria refletidos nas águas da lagoa” e “Escolheu a eles seus conselheiros”. Sem a preposição, impõe-se o pronome oblíquo: “Escolheu-os seus conselheiros”. Veja ainda que as formas a mim, a si, a nós, etc. podem, pleonasticamente, reforçar os objetos representados pelos pronomes metesenos e vos, como em “Concluí que me feri a mim mesmo” e “Prejudicou-se a si próprio com o ato”. Como se vê, é também possível reforço adicional mediante o auxílio dos demonstrativos mesmo e próprio com propósito enfático.

Outra particularidade é a que se refere a verbos como comer e beber. Em “Gertrudes comeu a torta” e “Miguel bebeu o chá”, esses verbos são claramente transitivos diretos e consideramos que os sujeitos consumaram a ação, ou seja, comeram e beberam tudo. O que dizer, porém, de “Gertrudes comeu da torta” e “Miguel bebeu do chá”? Entendemos, nessas novas versões, que ambos os sujeitos comeram e beberam parte da torta e um pouco do chá, funcionando o objeto direto preposicionado, nesse caso, como um indicador de partitivo.

À medida que ou na medida em que?

"Bem-estar cresce à medida que envelhecemos, diz pesquisa."


Você já ficou em dúvida sobre essas duas expressões? Aposto que sim!
E, não raro, elas podem aparecer numa questão de concurso e roubar algum tempinho de você até que a decisão por uma ou outra seja tomada.
A princípio de conversa, você precisa saber que as duas expressões existem na língua portuguesa, ou seja, não estamos falando de uma expressão correta e outra incorreta, mas de duas expressões corretas, com empregos diferenciados.
É importante entender, então, quando utilizar cada uma delas.
Vamos resolver o impasse?
Observe os exemplos:

1) À medida que estudamos, tornamo-nos mais eficientes.
2) Na medida em que conhecemos as pessoas, tornamo-nos mais incrédulos.

As duas expressões “à medida que” e “na medida em que” são locuções conjuntivas, ou seja, equivalem a uma conjunção. Sendo assim, como já lhes demonstrei em aula, tais locuções têm por objetivo ligar duas orações.
Apesar de desempenharem o mesmo papel, a expressão “à medida que” tem emprego semântico diferente de “na medida em que”. Vamos entender o porquê:

Quando empregamos "à medida que", estamos nos referindo a uma ideia de proporção, ou seja, esta é uma locução conjuntiva proporcional. Essa expressão pode ser substituída por “à proporção que” ou ao passo que. Sintaticamente, uma oração que contenha “à medida que” é subordinada à oração principal e mantém com ela uma relação de comparação que pode ser de igualdade, de superioridade ou inferioridade. Veja:

À medida que nós estudarmos, ficaremos mais preparados para a prova.
Nicete foi se emocionando à medida que as homenagens foram sendo apresentadas.

Já a expressão "na medida em que" é uma locução conjuntiva causal, portanto, como a própria nomenclatura denota, haverá noções de causa/consequência em jogo naquelas orações que apresentarem essa expressão. "Na medida em que", semanticamente, equivale a locuções do tipo: “uma vez que”, “porque”, dado que”, porquanto”, visto que”, “já que” e “tendo em vista que”. Observe os exemplos seguintes:

Nós precisamos estudar mais na medida em que queremos ser aprovados. (visto que, dado que, porquantoporque)
O simulado deve ser feito antes de janeiro, na medida em que vamos estar de recesso nesse período. (porquevisto quejá que)

Não existem as locuções à medida em que” nem “na medida que”.

Colocação pronominal - Próclise, mesóclise, ênclise, tempos compostos e locuções verbais


 Trata-se do estudo da colocação dos pronomes oblíquos átonos (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes) em relação ao verbo.
Os pronomes átonos podem ocupar 3 posiçõesantes do verbo (próclise), no meio do verbo (mesóclise) e depois do verbo (ênclise).
Esses pronomes se unem aos verbos porque são átonos, ou seja, “fracos” na pronúncia.

PRÓCLISE

Usamos a próclise nos seguintes casos:

1) Com palavras ou expressões negativasnão, nunca, jamais, nada, ninguém, nem, de modo algum, de jeito nenhum, em hipótese alguma.

Nunca te vi mais gordo.
Ninguém me falou a respeito do casamento.

2) Com conjunções subordinativas integrantes ou adverbiaisquando, se, porque, porquanto, que, conforme, consoante, segundo, embora, conquanto, logo, que.

Espero que nos vejamos breve.
- Ela desmaiou logo que vos contaram o acontecido.

As conjunções coordenativas e, nem, mas, porém, todavia, contudo, logo e portanto não atraem obrigatoriamente o pronome, somente as subordinativas.

3) Advérbios

- Ele sempre nos repete os mesmos conselhos.
- Ontem te disseram que o livro foi publicado.

ATENÇÃO: Se houver vírgula depois do advérbio, este (o advérbio) deixa de atrair o pronome.

- Talvez, diga-nos.
- Realmente, repetem-se os conselhos.

4) Pronomes relativosdemonstrativos e indefinidos.

- Todos se alegraram com a festa. (indefinido)
- Esse é o lugar onde me sinto bem. (relativo)
Isso me faz mudar de opinião. (demonstrativo)

5) Em frases interrogativas.

- Qual lhe interessa?

6) Em frases exclamativas ou optativas (que exprimem desejo).

- Deus nos ajude!
- Como te iludes!

7) Com verbo no gerúndio antecedido de preposição EM.

Em se comentando o caso, seja discreto.
Em se tratando de belezas naturais, o Brasil é um dos países mais belos do mundo.

8) Com formas verbais proparoxítonas

- Nós o amávamos.

MESÓCLISE

Usada quando o verbo estiver no futuro do presente (ex: vai acontecer – amarei, amarás, …) ou no futuro do pretérito (ex: ia acontecer mas não aconteceu – amaria, amarias, …)

Realizar-me-ão um milagre.
Realizar-me-iam um milagre.

Se houver uma palavra atrativa, a próclise será obrigatória.

Não (palavra atrativa) me realizarão um milagre.

ÊNCLISE

Ênclise de verbo no futuro ou na forma do particípio está sempre errada. Observe:

- Tornarei-me... (errada)
- Tinha entregado-nos... (errada)

Ênclise de verbo no infinitivo está sempre correta.

- Entregar-lhe (correta)
- Não posso recebê-lo. (correta) (receber + o = recebê-lo)

Outros casos:

- Com o verbo no início da frase: Cansei-me de esperar.
- Com o verbo no imperativo afirmativo: Amem-se uns aos outros.
- Com o verbo no gerúndio: Não prestou atenção, fazendo-se de boba.
- Com o verbo no infinitivo impessoal: Viver é adaptar-se.

OBS: se o gerúndio vier precedido de preposição ou de palavra atrativa, ocorrerá a próclise:

Em se tratando de amizade, devemos retribuir esse sentimento e amar-nos reciprocamente.
- Restaurou o celular do irmão, não nos revelando as verdadeiras razões.
- Desinstalou o programa do computador e alterou as configurações da TV, rapidamente nos informando os reais motivos.

COLOCAÇÃO PRONOMINAL NAS LOCUÇÕES VERBAIS E NOS TEMPOS COMPOSTOS

Locuções verbais são formadas por um verbo auxiliar + infinitivo, gerúndio ou particípio.
Tempos compostos são formados por um verbo auxiliar (ter ou haver) + particípio.


AUX + PARTICÍPIO: o pronome deve ficar depois do verbo auxiliar ou antes do verbo principal. Se houver palavra atrativa, o pronome deverá ficar antes do verbo auxiliar.

Havia-lhe ofertado um bom cargo.
- Havia lhe ofertado um bom cargo.
- Ontem (palavra atrativa) lhe havia ofertado um bom cargo.

AUX + GERÚNDIO OU INFINITIVO: se não houver palavra atrativa, o pronome oblíquo virá antes do verbo principal, depois do verbo auxiliar ou do verbo principal.

Infinitivo
- Quero-lhe mandar o livro hoje.
- Quero lhe mandar o livro hoje.
- Quero mandar-lhe o livro hoje.

Gerúndio
- Estavam-nos esperando na sala.
- Estavam nos esperando na sala.
- Estavam esperando-nos na sala.

Se houver palavra atrativa, o pronome oblíquo virá antes do verbo auxiliar, antes do verbo principal ou depois do verbo principal.

Infinitivo
- Hoje lhe quero mandar o livro hoje.
- Hoje quero lhe mandar o livro hoje.
- Hoje quero mandar-lhe o livro hoje.

Gerúndio
- Agora nos estavam esperando na sala.
- Agora estavam nos esperando na sala.
- Agora estavam esperando-nos na sala.

Presidente ou presidenta? Ou presidanta?


 O professor PASQUALE CIPRO NETO tira a dúvida.

Que têm em comum palavras como “pedinte”, “agente”, “fluente”, “gerente”, “caminhante”, “dirigente” etc.? Não é difícil, é? O ponto em comum é a terminação “-nte”, de origem latina. Essa terminação ocorre no particípio presente de verbos portugueses, italianos, espanhóis…
Termos como “presidente”, “dirigente”, “gerente”, entre inúmeros outros, são iguaizinhos nas três línguas, que, é sempre bom lembrar, nasceram do mesmo ventre. E que noção indica a terminação “-nte”? A de “agente”: gerente é quem gere, presidente é quem preside, dirigente é quem dirige e assim por diante.
Normalmente essas palavras têm forma fixa, isto é, são iguais para o masculino e para o feminino; o que muda é o artigo (o/a gerente, o/a dirigente, o/a pagante, o/a pedinte). Em alguns (raros) casos, o uso fixa como alternativas as formas exclusivamente femininas, em que o “e” final dá lugar a um “a”. Um desses casos é o de “parenta”, forma exclusivamente feminina e não obrigatória (pode-se dizer “minha parente” ou “minha parenta”, por exemplo). Outro desses casos é justamente o de “presidenta”: pode-se dizer “a presidente” ou “a presidenta”.
A esta altura alguém talvez já esteja dizendo que, por ser a primeira presidente/a do Brasil, Dilma Rousseff tem o direito de escolher. Sem dúvida nenhuma, ela tem esse e outros direitos. Se ela disser que quer ser chamada de “presidenta”, que seja feita a sua vontade - por que não?

Se juntarmos presidente com anta, teríamos uma forma, digamos, erótica, presidanta.

Crase sem crise


E quando o assunto é CRASE, abundam as dúvidas e a necessidade de conhecermos os motivos que nos levam ou não a aplicar o acentro grave, indicador do fenômeno.
Encontrei na rede mais um texto interessantíssimo que vale muito a pena ser lido dada a confiabilidade da fonte e dos esclarecimentos que nos proporciona.
Como a leitura é um dos fatores essenciais para o aprimoramento de nossas habilidades com a escrita, vamos praticar um pouquinho dela e ainda aproveitar para conhecer um pouco mais sobre esse assunto tão cheio de pormenores como é a ocorrência da CRASE na nossa tão amada língua portuguesa.
Espero que aproveitem!

Professor Daniel Vícola

ENSINO À DISTÂNCIA – crase com locuções adverbiais

Disse-me o professor José T. B. Neto, de Umuarama / PR: "Tenho certa resistência em grafar ensino a distância, sem o acento grave indicativo de crase, como é comum encontrar nos documentos exarados pelo MEC. Alguns autores classificam tal ocorrência como CRASE FACULTATIVA. (...)"

Não está errado o Ministério da Educação. Mas eu, assim como o professor, prefiro usar o acento – nessa e em outras locuções adverbiais que indicam circunstância, para evitar dupla interpretação ou duplicidade de sentido. O motivo é que a ausência do acento pode deixar o texto ambíguo, a presença do acento deixa o texto claro, evita ambiguidades, ou seja, sentido duvidoso. Em "ensinar/estudar a distância", por exemplo, fica-se com a impressão de que é a distância que está sendo ensinada ou estudada. É o mesmo caso de viu a distância, escreveu a distância, curou a distância, fotografe a distância, permanece a distância [= a distância permanece] e assim por diante, frases que parecem melhor com o acento indicativo de crase (que por questões didáticas também chamamos apenas de ‘crase’): viu à distância, escreveu à distância, curou à distância, fotografe à distância, permanece à distância.


Com a distância determinada, especificada, o a deve ser acentuado:

Fotografe à distância de um metro.
A casa à venda fica à distância de uns 10 km daqui.

Já na frase "Compramos uma chácara a grande distância daqui" não há crase, porque está subentendido o artigo indefinido: a (uma) grande distância.

Outras expressões de circunstância

Nas locuções adverbiais com palavras masculinas, como: a pé, a caminho, a cavalo, a frio, a gás, a gosto, a lápis, a meio pau, a nado, a óleo, a pé, a postos, a prazo, a sangue-frio, a sério, a tiracolo, a vapor etc. não se acentua o a, que é uma simples preposição. A exceção se dá quando está subentendida a palavra moda ou maneira: Salto à (moda de) Luís XV. / Era um poeta à (maneira de) Machado de Assis.

Nas locuções femininas que indicam meio ou instrumento, contudo, embora esse a possa ser só preposição – e se sabe que a crase é a fusão da preposição a com o artigo a –, é de tradição no Brasil crasear o a para evitar ambiguidade na frase, ou seja, por motivo de clareza. Compare nos exemplos abaixo o significado da frase sem a crase e com ela:

Foi caçada a bala (a bala foi caçada). – Foi caçada à bala.
Bateu a máquina (deu um choque ou pancada...). – Bateu à máquina.
Cortou a faca (cortou-a / cortou a própria faca). – Cortou à faca.
Vendeu a vista (vendeu os olhos). – Vendeu à vista.
Coloquei a venda (faixa nos olhos). – Sim, coloquei à venda.
Tranquei a chave (a chave foi trancada). – Tranquei à chave.
Pagou a prestação (pagou-a). – Pagou à prestação (em prestações).

Outras frases com diferenças bastante óbvias:

Lavar a mão. Lavar à mão.
Lavar a máquina. Lavar à máquina.
Fazer a mão. Fazer à mão.
Veio a tarde. Veio à tarde.
Combateremos a sombra. Combateremos à sombra.
Aguardavam a cabeceira do doente. Aguardavam à cabeceira do doente.

É por essa questão de clareza que se recomenda e geralmente se acentua o a nas locuções adverbiais de circunstância, mesmo não sendo ele rigorosamente a fusão de a + a. 
Para finalizar, outros exemplos de expressões em que, pelo bem da clareza e da correção gramatical, ocorre o fenômeno da crase: à disposição, às avessas, à beira-mar, às centenas, às escondidas, à frente, à mão armada, às mil maravilhas, à noite, às ordens, à paisana, à parte, à perfeição, à primeira vista, à revelia, à risca, à solta, à toa, à vela, às vezes, à vontade.

Transposição do discurso direto e indireto


TRANSPOSIÇÃO DO DISCURSO DIRETO PARA O INDIRETO 

Do confronto destas duas frases:

“- Guardo tudo o que meu neto escreve - dizia ela.” (A.F. Schmidt)
“Ela dizia que guardava tudo o que o seu neto escrevia.”

Verifica-se que, ao passar-se de um tipo de relato para outro, certos elementos do enunciado se modificam, por acomodação ao novo molde sintático.

a) Discurso direto: enunciado em 1ª ou 3ª pessoa.

“- Devia bastar, disse elaeu não me atrevo a pedir mais.” (M. de Assis)

Discurso indireto: o enunciado passa a ser construído todo em 3ª pessoa:

Ela disse que deveria bastar, que ela não se atrevia a pedir mais.”

b) Discurso direto: verbo enunciado no presente:

“- O major é um filósofo, disse ele, com malícia.” (Lima Barreto)

Passando para o discurso indireto, o verbo é enunciado no pretérito imperfeito:
“Disse ele, com malícia, que o major era um filósofo.”

c) Discurso direto: verbo enunciado no pretérito perfeito:

“- Caiubi voltou, disse o guerreiro Tabajara.” (José de Alencar)

Discurso indireto: verbo enunciado vai para o pretérito mais-que-perfeito:

“O guerreiro Tabajara disse que Caiubi voltara (ou tinha voltado).”

d) Discurso direto: verbo enunciado no futuro do presente:

“- Virão buscar você muito cedo? - perguntei.”

Discurso indireto: verbo vai para o futuro do pretérito:

“Perguntei se viriam buscar você muito cedo”

e) Discurso direto: verbo no modo imperativo:

Acabem logo com essa discussão! , gritaram em volta.

Discurso indireto: verbo no modo subjuntivo:

“Gritaram em volta que acabassem logo com aquela discussão.”

f) Discurso direto: enunciado justaposto:

“O dia vai ficar triste, disse Caiubi.”

Discurso indireto: enunciado subordinado, geralmente introduzido pela conjunção subordinativa integrante que:

“Disse Caiubi que o dia ia ficar triste.”

g) Discurso direto: enunciado em forma interrogativa direta:

“Pergunto - É verdade que a Aldinha do Juca está uma moça encantadora?” (Guimarães Rosa)

Discurso indireto: o enunciado em forma interrogativa indireta:

“Pergunto se é verdade que a Aldinha do Juca está uma moça encantadora.”

h) Discurso direto: pronome demonstrativo de 1ª pessoa (este, esta, isto) ou de 2ª pessoa
(esse, essa, isso).

Isto vai depressa, disse Lopo Alves.”(Machado de Assis)

Discurso indireto: pronome demonstrativo de 3ª pessoa (aquele, aquela, aquilo).

“Lopo Alves disse que aquilo ia depressa.”

i) Discurso direto: advérbio de lugar aqui:

“E depois de torcer nas mãos a bolsa, meteu-a de novo na gaveta, concluindo: - Aqui, não está o que procuro.”(Afonso Arinos)

Discurso indireto: o advérbio de lugar correspondente é “ali”:

“E depois de torcer nas mãos a bolsa, meteu-a de novo na gaveta, concluindo que ali não estava o que procurava.”

A ou na semana passada?



Já teve essa dúvida e não soube como solucioná-la? No uso cotidiano da língua impasses como esse sempre surgem e é muito pertinente que você, querendo conhecer um pouco mais do nosso idioma, dedique-se a solucioná-los e, através disso, melhorar sua capacidade de expressão escrita e falada.
Nesse caso específico, a gramática nos mostra que é indiferente usar a preposição "em" ou não. Assim, indistintamente, você poderá dizer/escrever: 

O presidente da empresa deu várias entrevistas o ano passado. 
O presidente da empresa deu várias entrevistas no ano passado. 

Esta semana pretendemos dar um grande impulso ao movimento. 
Nesta semana pretendemos dar um grande impulso ao movimento. 

Receberemos a mercadoria quinta-feira próxima. 
Receberemos a mercadoria na quinta-feira próxima. 

“No ano anterior, ali pelo mês de agosto, tendo eu quarenta e dois anos, fiz-me teólogo. – quero dizer, copiava os estudos de teologia de um padre de Niterói, antigo companheiro de colégio, que assim me dava. delicadamente, casa, cama e mesa. Naquele mês de agosto de 1859, recebeu ele uma carta de um vigário de certa vila do interior, perguntando se conhecia pessoa entendida, discreta e paciente, que quisesse ir servir de enfermeiro ao Coronel Felisberto, mediante um bom ordenado.” (Machado de Assis – O enfermeiro)

“A noite passada, você veio me ver / A noite passada, eu sonhei com você” (Herbert Viana)

“No dia em que o homem chegou, Betsy teve o derrame e ficou sem comer.” (Rubem Fonseca – Betsy)

“Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar.” (Chico Buarque de Holanda – Valsinha)

“(…) Uma noite, correu a notícia de que o bazar se incendiara.” (Cecília Meireles – Brinquedos incendiados)

“Um dia desses, indagado sobre qual das modernas comodidades tecnológicas eu não dispensaria, respondi de pronto: a energia elétrica.” (Gilberto Gil)

Estamos em pé ou de pé?


A dúvida foi levantada pelo aluno Diogo, da Federal Getussp. Alguma vez você também ficou em dúvida a respeito de qual das duas formas utilizar? Pois bem, uma pesquisa em diferentes fontes revelou que, neste caso, são corretas as duas formas de se dizer. Assim, via de regra, para muitos contextos, tanto faz dizer ou escrever "em pé" ou "de pé".
Mas, curioso por maiores explicações, foi em gramáticas portuguesas que encontrei maiores detalhes acerca da utilização dessas expressões. O que aprendi com nossos irmãos portugueses, então, compartilho abaixo, com todos vocês!
Cada um dos falantes da língua escolhe uma ou outra forma conforme lhe parecer melhor, pois que ambas as locuções significam, geralmente, em posição verticalereto, firmelevantado. São, pois, do ponto de vista semântico, locuções sinônimas. 
Há, porém, algumas pequenas nuances de significação quanto ao emprego: geralmente dizemos "de pé", quando aludimos à posição contrária à de sentado ou deitado
Veja alguns exemplos:

O meu professor dá as aulas sempre de pé
Fique de pé e ouça-me. 
Estou de pé desde as seis horas da manhã. 
Ficou de pé o dia inteiro para atender as pessoas. 
As árvores morrem de pé

Repare que, em todos os casos, a expressão "de pé" é antônima de "sentado(a)" ou "deitado(a)".

Geralmente dizemos "em pé" quando nos referimos à posição de eretofirmelevantado, sem pretendermos contrapô-la à de sentado ou deitado. 
Observe alguns exemplos:

O André é aquele que está ali, em pé, perto da Júlia. 
Vou até ao restaurante de comer em pé
Ele farta-se de trabalhar. Anda sempre em pé
Quanto a funcionário, geralmente dizemos que ele está sempre em pé no seu trabalho – sempre em pé para atender as pessoas – e não sempre de pé. Sendo assim, parece que devemos preferir: o funcionário trabalha em pé.