1 de dezembro de 2019

Literatura - Pré-Modernismo (3) / Vanguardas Artísticas Europeias

Autores do Pré-Modernismo

Augusto dos Anjos

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em 28 de abril de 1884, no Engenho do Pau d’Arco, interior da Paraíba.
Formou-se com distinção na Faculdade de Direito do Recife, a exemplo de seu pai, conhecido advogado da região.
Posteriormente, passou a lecionar na capital da Paraíba, casou-se e foi morar no Rio de Janeiro, onde permaneceu por quatro anos. Viajou a Minas Gerais e fixou residência na cidade de Leopoldina.
Vítima da tuberculose, morreu aos trinta anos, tendo apenas um único livro escrito e publicado, Eu (1912).

Augusto dos Anjos, Paraíba, 1884 - 1914.

Eu (1912). Única obra escrita e publicada de Augusto dos Anjos.

Trajetória

Augusto dos Anjos é considerado o poeta mais original do início deste século. Embora apresente influências formais parnasianas, como o gosto pelos versos alexandrinos e decassílabos, influências naturalistas como a crença no cientificismo e no determinismo e influências simbolistas como o pessimismo e a musicalidade dos versos, produziu uma poesia singular, expressa em uma única obra, Eu.
Em seus versos escabrosos, sem esperança e trágicos, surpreende o vocabulário, repleto de termos científicos e antipoéticos com expressões como vomito, vermes, escarro, podridão, cadáveres. Observe essas características no soneto abaixo:

Versos íntimos

“Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”
A obra de Augusto dos Anjos versa essencialmente sobre a visão da morte em seus aspectos mais chocantes e a linguagem cientificista.

Outros autores do Pré-Modernismo

Coelho Neto

Representante das correntes mais acadêmicas e tradicionais da época. Recebeu o título de príncipe dos prosadores brasileiros, em razão do estilo repleto de pompa e solene.
Deixou uma vasta obra, sendo O turbilhão (de 1906) e Rei negro (de 1914) seus romances mais admirados. Durante muitos anos, Coelho Neto foi o autor mais lido do Brasil. O autor assinava trabalhos com seu próprio nome e também escrevia sob inúmeros pseudônimos, como Anselmo Ribas, Caliban, Ariel, Amador Santelmo, etc.
Fatores como linguagem prolixa e o gosto pelo exagero verbal acabaram por ofuscar os eventuais méritos de suas obras. Foi combatido pelos modernistas, sendo pouco lido desde então, em verdadeiro ostracismo intelectual e literário.

Coelho Neto (1864 - 1934)

Outros autores do Pré-Modernismo

Simões Lopes Neto

João Simões Lopes Neto é considerado o responsável por consolidar uma corrente da ficção brasileira, fixando as diferentes zonas rurais do país.
Esta corrente teve seu início durante o Romantismo e recebeu o nome de regionalismo, descrevendo os tipos humanos, os costumes e a linguagem típica do Rio Grande do Sul.
Simões Lopes Neto só alcançou o sucesso literário após a sua morte, principalmente após o lançamento da edição crítica de Contos Gauchescos e Lendas do Sul, em 1949, organizada para a Editora Globo por Augusto Meyer, com apoio do editor Henrique Bertaso e de Érico Veríssimo.

Simões Lopes Neto (1865 - 1916)

Outros autores do Pré-Modernismo

Afonso Arinos

A ele é atribuída a precedência cronológica da chamada prosa regionalista, fato comprovado pelos seus livros Pelo sertão e o romance, baseado na Guerra de Canudos e assinado com o pseudônimo de Olívio de Barros, Os jagunços.
Apesar de apresentar um tom artificialmente retórico em suas histórias, aproximando-as das tendências parnasianas do período, Arinos, em alguns de seus relatos, soube retratar a paisagem física e humana do interior de Minas Gerais.

Afonso Arinos (1868 – 1916)
Afonso Arinos teve vários trabalhos publicados, na década de 1890, na Revista Brasileira e na Revista do Brasil. Convidado por Eduardo Prado assumiu, em 1897, a direção do Comércio de São Paulo.
Em viagem à Europa, adoeceu no navio e veio a falecer em Barcelona em 19 de fevereiro de 1916.

Outros autores do Pré-Modernismo

Alcides Maya

Alcides Maya é considerado o precursor na temática prosa de ficção, ao abordar a queda do velho latifúndio em razão da modernidade da agropecuária gaúcha.
Em suas obras Ruínas vivas (1910), Tapera (1911) e Alma bárbara (1922), o autor investiga a decadência das tradicionais estâncias gaúchas, utilizando linguagem capciosa e deixando transparecer a tristeza e dramaticidade em suas obras.
Foi o primeiro gaúcho a ingressar na Academia Brasileira de Letras, sendo o segundo ocupante da cadeira 4. Foi eleito em 6 de setembro de 1913, na sucessão de Aluísio Azevedo, tendo sido recebido por Rodrigo Otávio, em 21 de julho de 1914.

Alcides Maya (1878 – 1944)

Outros autores do Pré-Modernismo

Valdomiro Silveira

Viajando pelo interior paulista, Valdomiro Silveira procurava a convivência dos caboclos, observando-lhes os costumes e a linguagem.
Assim, escreveu a obra Os caboclos (1920), na qual utiliza o conto como forma de retratar os costumes, as cenas e sobretudo a fala típica do homem rural paulistano.
Alguns críticos o consideram o fundador da verdadeira linguagem regional. Valdomiro Silveira também foi deputado e secretário de Educação e Justiça do Estado de São Paulo. Além da obra Os cablocos, escreveu Nas serras e nas furnas (1931), Mixuangos (1937), Leréias (1945, póstumo) e várias narrativas ainda inéditas.

Valdomiro Silveira (1909 – 1941)

Vanguardas artísticas

As principais manifestações artísticas ocorridas no início do século XX foram essenciais para o desenvolvimento do Modernismo literário.
Recebe o nome de Vanguarda Europeia o conjunto de movimentos artísticos, não só na literatura, bem como na escultura e pintura, que apresentavam no início do século XX o comum desejo de renovação e de rompimento com as estéticas tradicionais.
Portanto, é correto afirmar que Vanguarda Europeia é a rebeldia, é a negação. Entre os principais movimentos de vanguarda que influenciaram não apenas a literatura, mas as artes em geral estão:
  • Cubismo (1907)
  • Futurismo (1909)
  • Expressionismo (1910)
  • Dadaísmo (1916)
  • Surrealismo (1924)
Estudaremos a partir de agora cada um desses movimentos.

Vanguardas artísticas (continuação)

Cubismo

O Cubismo surgiu na França em 1907 e tem como característica a fragmentação da realidade, o ilogismo, o humor e flashes cinematográficos.
Apresenta também uma sobreposição de assuntos, espaços e tempos diferentes e a linguagem utilizada de forma predominante é a nominal.

Características do cubismo na literatura

A literatura no Cubismo também retratou a fragmentação e a geometrização da realidade por meio da linguagem: as palavras são soltas e dispostas no papel com o objetivo de criar uma imagem.
  • Ilogismo:  Os textos cubistas são caracterizados pela exclusão da lógica formal, onde o pensamento não é racional, ele surge entre o consciente e o inconsciente do autor.
  • Linguagem caótica: Utiliza-se uma linguagem caótica, onde não há uma lógica, as palavras são soltas e dispostas de forma aleatória.
  • Tempo presente: Ansioso por viver seu tempo, o momento presente, para o escritor cubista tudo passa a ser tema para poesia, como por exemplo: paisagens, visões exóticas, viagens.
  • Humor: O humor encontra-se presente nos textos cubistas, provocado não só pelas ironias, mas pela própria disposição gráfica das palavras.
O poeta francês Guillame Apollinarie foi o responsável pelo primeiro manifesto da literatura cubista, logo após as primeiras exposições de artistas como Pablo Picasso e Braque.
Para saber mais:
Guillaume Apollinaire foi um escritor e crítico de arte francês, provavelmente o mais importante ativista cultural das vanguardas do início do século XX, onde ficou conhecido particularmente por sua poesia.
Na obra Il pleut de Apollinaire, podemos observar que o autor aproxima a poesia da pintura, onde busca reproduzir a queda da chuva, rompendo a organização de estrofe e verso.

Preocupação com a disposição gráfica das palavras. Poema Il pleut (Chove) de Apollinaire.
Para saber mais:
Tradução literal do poema Il pleut (Chove) de Apollinaire:
"Chovem vozes de mulheres como se estivessem mortas mesmo na recordação. Chovem também vocês maravilhosos encontros de minha vida ó gotinhas, e estas nuvens empinadas se põem a relinchar todo um universo de cidades minúsculas. Escuta se chove enquanto a mágoa e o desdém choram uma antiga música. Escuta caírem os laços que te retém embaixo e em cima."
A literatura cubista somente tomou forma através da poesia. A associação entre ilogismo, simultaneidade, algo instantâneo e humor foi explorado na busca de se criar novos pontos de vista e afirmar a necessidade de se manter as coisas em permanente relação. No Brasil, a influência dessa vanguarda surge nas obras de Oswald de Andrade.

O escritor Oswald de Andrade, em foto de 1928
Ao observarmos o poema de Oswald de Andrade, percebemos as estranhas associações que deslocam, ao mesmo tempo, o olhar para vários aspectos da realidade.
HÍPICA
  Saltos records
  Cavalos da Penha
  Correm jóqueis de Higienópolis
  Os magnatas
  As meninas
  E a orquestra toca
  Chá
  Na sala de cocktails
Oswald de Andrade apresenta em seu poema cubista o ambiente de uma corrida de cavalos na hípica. Nele, também existe uma “sobreposição” de imagens, que desloca o olhar do leitor da pista e o dirige para o público.
O resultado é a criação de uma imagem plural composta de diferentes planos da própria realidade.

Vanguardas artísticas (continuação)

Futurismo

Futurismo foi um movimento literário e artístico que surgiu oficialmente em 20 de fevereiro de 1909, a partir da publicação do Manifesto Futurista, do poeta italiano Filippo Marinetti, no jornal francês Le Figaro.
O manifesto renunciava ao moralismo e ao passado, proporcionado um novo tipo de beleza, exaltando a velocidade e a promoção da violência, “a ação agressiva, a guerra, as ondas multicolores e polifônicas da revolução nas capitais modernas, a velocidade e o voo elegante dos aviões cujas hélices rascam aos ventos qual estandartes e que parecem levantar vivas qual uma multidão entusiasmada.

Publicação do Manifesto Futurista, do poeta italiano Filippo Marinetti, no jornal francês Le Figaro.
Marinetti pregava a extermínio da sintaxe com substantivos dispostos ao acaso; emprego de verbos no infinitivo, abolição do adjetivo e do advérbio; uso de dois substantivos; e desprezava a pontuação, lutando em favor do verso livre. Para o autor, tudo deveria ser novo e veloz. Seu desejo era a exaltação da vida moderna e o rompimento total com o passado, propondo modificações de atitude e avanços sociais no caminho de uma suposta modernidade.

Características do Futurismo

  • Desvalorização da tradição e do moralismo;
  • Valorização do desenvolvimento industrial e tecnológico;
  • Propaganda como principal forma de comunicação;
  • Uso de onomatopeias (palavras com sonoridade que imitam ruídos, vozes, sons de objetos) nas poesias;
  • Poesias com uso de frases fragmentadas para passar a ideia de velocidade;
  • Pinturas com uso de cores vivas e contrastes. Sobreposição de imagens, traços e pequenas deformações para passar a ideia de movimento e dinamismo;

Futurismo no Brasil

No Brasil, o Futurismo teve grande influência nas produções de artistas ligados ao movimento modernista. Anita Malfatti e Oswald de Andrade entraram em contato com Marinetti e seu Manifesto Futurista, onde muitas ideias e conceitos futuristas foram incorporados às obras destes artistas modernistas brasileiros. Tais influências podem ser comprovadas na Semana de Arte Moderna de 1922.

Autores e obras do Futurismo

  • Vladimir Maiakovski, Russo: 150.000.000; O percevejo; Os banhos.
  • Filippo Tommaso Marinetti, Italiano: Manifesto Futurista.
  • Fernando Pessoa, Português: Do Livro do Desassossego; Autopsicografia; O Guardador de Rebanhos (Alberto Caeiro); A Fernando Pessoa (Álvaro de Campos); Cancioneiro (Ricardo Reis).
  • Oswald de Andrade, Brasileiro: Pau-Brasil; Primeiro Caderno de Poesia do Aluno Oswald de Andrade; Os Condenados; Memórias Sentimentais de João Miramar; Serafim Ponte Grande; O Rei da Vela; Um Homem sem Profissão.
O amor - poesia futurista de Oswald de Andrade:

A Dona Branca Clara
Tome-se duas dúzias de beijocas
Acrescente-se uma dose de manteiga do Desejo
Adicione-se três gramas de polvilho do Ciúme
Deite-se quatro colheres de açúcar da Melancolia
Coloque-se dois ovos
Agite-se com o braço da Fatalidade
E dê de duas horas em duas horas marcadas
No relógio de um ponteiro só!
O Futurismo desenvolveu-se em todas as artes e influenciou vários artistas, que depois constituíram outros movimentos modernistas.

Vanguardas artísticas (continuação)

Expressionismo

Expressionismo foi um movimento artístico e literário que surgiu inicialmente na Alemanha, no início do século XX, em oposição ao Impressionismo.
Esse movimento caracterizava-se pela expressão do mundo interior, pela expressão de imagens independente dos conceitos de beleza, apresentando obras dramáticas e angustiantes sobre o destino do homem. O importante era expressar-se, daí ser difundido como Expressionismo.
Para saber mais:
"O Grito" de Edvard Munch (1893) é considerado uma das obras mais importantes do movimento expressionista. O quadro possui uma figura andrógina (onde não é possível identificar se é homem ou mulher) em um momento de desespero e angústia. Ao fundo, está a doca de Oslofjord (Noruega) durante o pôr do sol.
Conseguir expressar a angústia por meio dos pinceis, como no quadro citado, com fundo distorcido e cores "falsas", são algumas características do expressionismo.

"O Grito", de Edvard Munch (1893)

Marco inicial

O movimento teve como marco determinante para o seu início a criação do grupo "Die Brucke" (A Ponte), em 1905, na cidade de Dresden. Seus integrantes se dedicaram especialmente à criação gráfica, ou seja, às litografias, águas fortes e xilografias.

Artistas do Die Brücke revolucionaram arte no início do século 20  - Reprodução da obra de Erich Heckel (1910) intitulada: “Duas Meninas na Água”.

O Expressionismo na literatura

No campo literário, esta corrente se manifesta na fundação de Der Sturn - A Tempestade, dirigida por Herwart Walden; da revista mais ligada à política, Die Aktion, de Frank Pfemfert; das revistas Die weissen, As Folhas Brancas, de 1913 e Der Stürmer, O Tempestuoso.


Der Sturm (A Tempestade)
A literatura também esteve presente em inúmeras publicações lançadas por todo o país. Pode-se afirmar que a partir da publicação da revista "A Tempestade", o expressionismo obteve seu auge, atingindo a maioria dos artistas da época.

Características do Expressionismo na literatura

O Expressionismo é marcado pela subjetividade do escritor, despreocupado quanto à organização do texto em estrofes, onde é feita uma análise meticulosa do subconsciente dos personagens, utilizando-se de metáforas exageradas ou grotescas. Em geral, utiliza uma linguagem direta e com frases curtas. O estilo é abstrato, simbólico e associativo. Como tudo era expressão, não havia a preocupação com a lógica do mundo exterior como nas estéticas anteriores.

Expressionismo no Brasil

Expressionismo influenciou e impulsionou o movimento modernista no Brasil. No país, o movimento expressava um desejo intenso de pesquisar nossa realidade social, espiritual e cultural.
Na obra "Amar, verbo intransitivo", de Mário de Andrade, pode-se observar a influência dessa vanguarda, onde existe a experiência de imagens distorcidas da realidade buscando evidenciar as vivências humanas. Em uma passagem do romance, Mário de Andrade descreve o impacto da Floresta da Tijuca em Fräulein Elza. Ao apreciar o magnífico espetáculo da natureza brasileira, a alemã é tomada por sensações e impressões que alteram o modo como vê montanhas e árvores.
Observe o trecho transcrito abaixo:
A luz delirava, apressada a um vago aviso da tarde. Era tal e tanta que embaçava de ouro a amplidão. Se via tudo de longe num halo que divinizava e afastava as coisas mais. Lassitude. No quiriri tecido de ruidinhos abafados, a cidade se movia pesada, lerda. O mar parava azul. [...] Fräulein botara os braços cruzados no parapeito de pedra, fincara o mento aí, nas carnes rijas. E se perdia. Os olhos dela pouco a pouco se fecharam, cega duma vez. A razão pouco a pouco escampou. Desapareceu por fim, escorraçada pela vida excessiva dos sentidos. Das partes profundas do ser lhe viam apelos vagos e decretos fracionados. Se misturavam animalidades e invenções geniais. [...] (Fragmento)

Um dos primeiros exemplares do livro de Mário de Andrade.

Autores e obras do Expressionismo

  • Mário de Andrade: Paulicéia Desvairada; Lira Paulistana; Contos Novos; Amar, Verbo Intransitivo; Macunaíma; A Escrava que não é Isaura; Os Filhos da Candinha.

Obra de Mario de Andrade – Paulicea Desvairada
  • Oswald de Andrade: Pau-Brasil; Primeiro Caderno de Poesia do Aluno Oswald de Andrade; Os Condenados; Memórias Sentimentais de João Miramar; Serafim Ponte Grande; O Rei da Vela; Um Homem sem Profissão.

Capa do livro Primeiro Caderno de Poesia do Aluno, Oswald de Andrade
Para saber mais:
Os principais artistas brasileiros que apresentam características expressionistas em suas criações são:
Anita Malfatti: Sua arte era livre das limitações impostas pelo academicismo.
Cândido Portinari: Expressava através de suas obras o papel que os artistas da época se propunham: denunciar as desigualdades da sociedade brasileira e as consequências desse desequilíbrio.
Lazar Segall: Suas cores fortes expressavam as paixões e sofrimentos dos seres humanos.
Osvaldo Goeldi: Autor de diversas gravuras. Dedicou-se a xilogravura (gravura em madeira).
Nelson Rodrigues: dramaturgo que apresentava características expressionistas em seus textos e em suas peças teatrais.
Podemos afirmar que o Expressionismo foi mais que uma forma de expressão, ele foi uma atitude em benefício dos valores humanos em um momento em que politicamente isto era o que menos interessava. Os expressionistas utilizaram a arte como uma forma de refletir os seus sentimentos, valendo-se do processo de purificação.

Vanguardas artísticas (continuação)

Dadaísmo

Dadaísmo é um movimento artístico e literário que surgiu na Europa, na cidade suíça de Zurique, em 1916, como uma negação de jovens franceses e alemães que não quiseram permanecer em seus países para não serem convocados para a guerra.
Por muitos críticos, é considerado o mais radical dos movimentos da Vanguarda Europeia. Esse movimento representava a destruição e anarquia de valores e formas.
Por se tratar de um movimento de crítica cultural mais amplo, que aborda não somente as artes, mas modelos culturais passados e presentes, é considerado um movimento radical de contestação de valores que utiliza vários canais de expressão: revista, manifesto, exposição e outros.

"Mona Lisa com bigodes, de Marcel Duchamp"
O movimento dadaísta promovia o "terrorismo cultural", pois negava todas as tradições sociais e artísticas. Tinha como base o niilismo (descrença absoluta), o ilogismo (ausência de lógica ou de regras) e o slogan "a destruição também é criação".
O movimento surgiu com a intenção de negar todos os sistemas e códigos estabelecidos no mundo da arte. É considerado um movimento antipoético, antiartístico, antiliterário, tendo em vista que questiona até a existência da arte, da poesia e da literatura. O Dadaísmo difundiu-se através da revista Dada e, através dela, as ideias deste movimento chegaram à Nova Iorque, Berlim e Paris.

Revista Dada nº 6

Origem do nome

O Dadaísmo é considerado como a estética do absurdo, do incoerente, do ilógico, do surreal, a começar pelo próprio nome. De acordo com a versão aceita sobre a origem do termo Dadaísmo, quando questionado sobre o significado da palavra dada, Tristan Tzara, poeta e criador do Dadaísmo, afirmou que dada não significava absolutamente nada, tratando-se de uma palavra infantil, sem sentido, que ele encontrou essa palavra por acaso, ao abrir o dicionário. Em suma, as imagens são retratadas fora da realidade.

Tristan Tzara, o criador do Dadaísmo.

Características do Dadaísmo na literatura

Na literatura, o dadaísmo apresenta a falta de sentido da linguagem, as palavras são dispostas conforme surgem no pensamento, a fim de ridicularizar o tradicionalismo. Apresenta ainda:
- Agressividade verbalizada
- Desordem das palavras
- Incoerência
- Banalização da rima, da lógica e do raciocínio.
- Elementos mecânicos;
- Desejo de romper o limite entre as varias modalidades artísticas;
- Irreverência artística;
- Protesto contra a guerra, o capitalismo e o consumismo;
- Caráter pessimista e irônico, principalmente em relação à política;
- Incorporação de diversos materiais;
- Utilização de diversas formas de expressão, como a fotografia, poesia, música sons, etc. na composição das obras de arte.

O Dadaísmo na literatura

A falta de lógica e a espontaneidade do Dadaísmo atingiram na literatura sua expressão máxima, se caracterizado através do improviso, da desordem e pela rejeição a qualquer tipo de racionalização e equilíbrio. Em seu último manifesto, Tristan Tzara afirma que o grande segredo da poesia é que "o pensamento sai da boca". Diante da dificuldade da compreensão desta afirmação, criou então uma receita de poema dadaísta para guiar seus seguidores:
Veja como escrever um poema dadaísta a partir da receita fornecida pelo próprio criador do movimento, Tristan Tzara:
Receita de um poema dadaísta:
Pegue um jornal.
Pegue uma tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar ao seu poema.
Recorte o artigo.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e meta-as num saco.
Agite suavemente.
Tire em seguida cada pedaço um após o outro.
Copie conscienciosamente na ordem em que elas são tiradas do saco.
O poema se parecerá com você.
E ei-lo um escritor infinitamente original e de uma sensibilidade graciosa, ainda que incompreendido do público.

Dadaísmo no Brasil

Dadaísmo no Brasil refletiu na produção de alguns artistas nos primeiros anos da arte modernista, como obras de Flavio de Carvalho e Ismael Nery.

Ascensão Definitiva de Cristo, obra de Flavio de Carvalho

Obra Figuras em azul, de Ismael Nery

Autores brasileiros e obras do Dadaísmo

O escritor Mário de Andrade apresenta forte referência dadaísta na publicação do livro Paulicéia Desvairada, que possui um poema intitulado “Ode ao burguês” e que já no prefácio o autor faz a recomendação de que só deveriam ler o poema quem soubesse urrar.

Mário de Andrade
Observe um trecho do poema:

Ode ao burguês

“Eu insulto o burgês! O burguês-níquel,
o burguês-burguês!
A digestão bem feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco! (...)”


O escritor Manuel Bandeira, considerado o maior poeta lírico brasileiro do Modernismo, mostrou muita influência dadaísta em suas obras, principalmente trabalhando no poema-piada.

Manuel Bandeira
Observe no poema a seguir a paródia feita a partir de um poema do romântico Joaquim Manuel de Macedo (A Moreninha).
Mulher, irmã, escuta-me: não ames,
Quando a teus pés um homem terno e curvo
Jurar amor, chorar pranto de sangue,
Não creias, não mulher: ele te engana!
As lágrimas são galas da mentira
E o juramento manto da perfídia.
Entre 1921 e 1922, o movimento dadaísta chega ao fim. Pode-se afirmar que o Dadaísmo serviu como base para vários movimentos artísticos do século XX, como o surrealismo, arte conceitual, pop art e expressionismo abstrato.

Vanguardas artísticas (continuação)

Surrealismo

Surrealismo foi um movimento artístico e literário que surgiu na França na década de 20. O movimento era caracterizado pela expressão do pensamento de maneira espontânea e automática, pregando a revolta contra tudo aquilo que reprimia a liberdade.
Os autores surrealistas sofreram influência direta dos estudos de Sigmund Freud, que mostram a importância do inconsciente na criatividade do ser humano, considerado como expressão máxima da liberdade humana. Através do sonho, o homem estava livre de toda a crítica, da censura e principalmente da lógica.

Sigmund Freud - criador da Psicanálise

Marco inicial

O marco inicial do Surrealismo foi a publicação do Manifeste du Surréalisme (Manifesto do Surrealismo), do francês André Breton, em 1924. 

André Breton - escritor e psicanalista francês

Manifeste du Surréalisme, de Andre Breton
Outros marcos importantes do surrealismo (1929)
  • Publicação da revista A Revolução Socialista
  • Publicação do segundo Manifesto Surrealista

Princípios básicos do Surrealismo

No Manifesto do Surrealismo, foram apontados os princípios básicos do movimento surrealista: a ausência da lógica, o resgate das emoções, a exaltação da liberdade de criação, do impulso humano, a adoção de uma realidade superior, entre outros.

Expansão Surrealista

A década de 30 é denominada como o período de expansão surrealista pelo mundo, onde os artistas, cineastas, dramaturgos e escritores assimilaram as ideias e o estilo do surrealismo e as colocaram em prática através de suas obras.
Para saber mais:
No campo das artes plásticas, destacaram-se:
Salvador Dalí e a obra “A Persistência da Memória”, de 1931. A Persistência da Memória é considerada a obra síntese do período surrealista, pois agrega os elementos característicos do movimento, como o rompimento com a razão, a liberação da imaginação, a estética onírica, etc.

Reprodução da obra Persistência da Memória, Salvador Dalí, 1931.
Joan Miró e a pintura O Carnaval de Arlequim, 1924.

Reprodução da obra O Carnaval de Arlequim, Joan Miró, 1924.
Os artistas do surrealismo que mais se destacaram foram: o escultor italiano Alberto Giacometti, o dramaturgo francês Antonin Artaud, os pintores espanhóis Salvador Dalí e Joan Miró, o belga René Magritte, o alemão Max Ernst, e o cineasta espanhol Luis Buñuel e os escritores franceses Paul Éluard, Louis Aragon e Jacques Prévert.

Características do Surrealismo

Como principais características do movimento surrealista, podemos destacar:
  • Pintura com elementos surreais;
  • Formas baseadas na fantasia (sonhos, inconsciente);
  • Busca da perfeição do desenho e das cores, dentro da dimensão do imaginário;
  • Impressão espacial, possuindo ilusões ópticas;
  • Dissociação entre imagens e legendas, conjugadas para construção de cenas de sonho ou de ironia.

O Surrealismo na literatura

Os autores do surrealismo inovaram e renunciaram o romance e a poesia em estilos clássicos, que representavam os valores sociais burgueses da época. As poesias e textos deste movimento são caracterizados pela liberdade e livre associação de ideias, o uso da escrita automática, que consistia em escrever tudo aquilo que vem à mente, sem cortes e, em frases feitas com palavras recortadas de revistas, jornais e imagens demonstravam as ideias do inconsciente.

Poesia surrealista - títulos e fragmentos cortados de jornais diários
Entre os principais escritores estão: Paul Éluard, Louis Aragon, Jacques Prévert e André Breton.

Surrealismo no Brasil

No Brasil, o movimento chegou na década de 1930 e foi absorvido pelo movimento Modernista. É possível observar características surrealistas nas pinturas Nu, de Ismael Nery, e Abaporu, de Tarsila do Amaral.

Nu, de Ismael Nery, 1927

Abaporu, de Tarsila do Amaral, 1928
Para saber mais:
Outros destaques nas artes plásticas foram:
  • Maria Martins - considerada uma das principais escultoras surrealistas;

Escultura de Maria Martins
  • Cícero Dias - pintor pernambucano que foi para Paris, onde se tornou amigo de vários integrantes do movimento surrealista;

Pintura de Cícero Dias, Sonho de uma prostituta (1930/32)
  • Ismael Nery - considerado um dos precursores do surrealismo no Brasil;

Obra de Ismael Nery, Baía da Guanabara

Vanguardas artísticas (continuação)

Escritores brasileiros surrealistas e suas obras

Na literatura brasileira, destacaram-se os seguintes autores e suas respectivas obras, onde através de seus poemas e textos, é visível a busca pela construção de imagens que trazem à tona o misterioso inconsciente.
Murilo Mendes (1901 – 1975): Poesia em Pânico; O Visionário; As Metamorfoses; Mundo Enigma; Contemplação de Ouro Preto; Poesias; A Idade do Serrote.

Murilo Mendes
Observe as características do surrealismo neste fragmento de Poesia liberdade:
  Aproximação do terror
1
Dos braços do poeta
Pende a ópera do mundo
(Tempo, cirurgião do mundo):
O abismo bate palmas,
A noite aponta o revólver.
Ouço a multidão, o coro do universo,
O trote das estrelas
Já nos subúrbios da caneta:
As rosas perderam a fala.
Entrega-se a morte a domicílio.
Dos braços...
Pende a ópera do mundo. (...)
Jorge de Lima (1893 - 1953): O Mundo do Menino Impossível; O acendedor de lampiões; Tempo e Eternidade; Invenções de Orfeu; Os anjos da noite Bizo; A mulher obscura; Guerra dentro do beco.

Jorge de Lima
Observe as características do surrealismo neste fragmento de Invenções de Orfeu:
Invenções de Orfeu
Canto III
Poemas relativos
I
Caída a noite
o mar se esvai,
aquele monte
desaba e cai
silentemente.
Bronzes diluídos
já não são vozes,
seres na estrada
nem são fantasmas,
aves nos ramos
inexistentes;
tranças noturnas
mais que impalpáveis,
gatos nem gatos,
nem os pés no ar,
nem os silêncios.
O sono está.
E um homem dorme. (...)
Roberto Piva (1937-2010): Paranoia; Praça da República dos meus Sonhos; Antologia Poética; Um Estrangeiro na Legião: obras reunidas, volume 1; Mala na Mão & Asas Pretas: obras reunidas, volume 2; Estranhos Sinais de Saturno: obras reunidas, volume 3.

Roberto Piva
Observe as características do surrealismo nesta poesia:
Paranoia em Astrakan
Eu vi uma linda cidade cujo nome esqueci
onde anjos surdos percorrem as madrugadas tingindo
seus olhos com lágrimas invulneráveis
onde as crianças católicas oferecem limões para
pequenos paquidermes que saem escondidos das tocas
onde adolescentes maravilhosos fecham seus cérebros
para os telhados estéreis e incendeiam internatos
onde manifestos nihilistas distribuindo pensamentos
furiosos puxam a descarga sobre o mundo
onde um anjo de fogo ilumina os cemitérios em
festa e a noite caminha no seu hálito
onde o sono de verão me tomou por louco e decapitei
o Outono de sua última janela
onde o nosso desprezo fez nascer uma lua
inesperada no horizonte branco
onde um espaço de mãos vermelhas ilumina aquela
fotografia de peixe escurecendo a página
onde borboletas de zinco devoram as góticas
hemorróidas das beatas
onde as cartas reclamam drinks de emergência
para lindos tornozelos arranhados
onde os mortos se fixam na noite e uivam por
um punhado de fracas penas
onde a cabeça é uma bola digerindo os aquários
desordenados da imaginação
Surrealismo foi o último movimento da vanguarda europeia.

Literatura - Pré-Modernismo (2)

Autores do Pré-Modernismo

Lima Barreto

Afonso Henrique de Lima Barreto foi um escritor e jornalista brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1881.
Foi filho de pais pobres, pai operário e mãe professora primária, ambos mestiços, sofrendo preconceito em toda sua vida. Ainda criança ficou órfão de mãe. Estudou na Escola Politécnica, no curso de Engenharia. Seu pai enlouqueceu e foi internado, obrigando Lima Barreto a abandonar o curso de Engenharia para sustentar a família.
Empregou-se na Secretaria de Guerra e, ao mesmo tempo, escrevia para quase todos os jornais do Rio de Janeiro. Ao produzir uma literatura inteiramente desvinculada dos padrões e do gosto vigente, recebia severas críticas dos letrados tradicionais. Explorava em suas obras as injustiças sociais e as dificuldades das primeiras décadas da República.

Lima Barreto, Rio de Janeiro, 1881 - 1922
Como fuga das complicações pessoais e sociais, Lima Barreto entregou-se ao álcool. Em razão dos contínuos ataques de depressão, várias vezes foi internado no hospital de alienados mentais.
Morreu vítima de um ataque cardíaco, na mais profunda miséria, aos quarenta e um anos de idade. Ainda em vida, caiu no esquecimento. Somente na década de 1970 sua obra voltou a circular no Brasil.

Publicação em jornal sobre a trajetória e obra de Lima Barreto

Trajetória

Lima Barreto enfrentou muitas dificuldades ao produzir uma literatura inteiramente desvinculada dos padrões e gosto vigentes no início do século XX, período este dominado pelos letrados tradicionais.
O escritor retratava em seus textos a tristeza dos subúrbios e de seu povo humilde. Sua obra está impregnada com a preocupação com os fatos históricos e costumes sociais, demonstrando grande carinho pelos menos favorecidos e humilhados, fugindo porém do sentimentalismo populista, onde se torna uma espécie de cronista apaixonado da antiga capital federal.
Lima Barreto é considerado o escritor da Primeira República por ter representado, sobretudo, as classes marginalizadas da sociedade carioca no começo deste século.

Denúncia social

Seus textos tem caráter de denúncia social e são carregados de originalidade, pois ele vê o mundo com o olhar dos derrotados, o olhar daqueles que sofrem com as injustiças, aqueles que são feridos pelos preconceitos. O motivo central de sua revolta é o preconceito de cor. Por ser mulato, sentiu muitas vezes a rejeição, declarada ou sutil, da discriminação da sociedade brasileira e, por esta razão, protesta intensamente.

Simplicidade do estilo

A oposição de Lima Barreto contra a estética dominante aparece também no seu estilo. Lima Barreto escreve com simplicidade, por vezes com algum desleixo proposital, desejando aproximar o texto escrito da linguagem coloquial. Por esta razão, foi acusado de escrever de forma incorreta e de não ser capaz de lidar com os padrões linguísticos da elite culta, sendo sua obra avaliada gramaticalmente e reprovada por suposta vulgaridade. No entanto, décadas depois, é possível constatar que Lima Barreto não é apenas o romancista mais respeitável do período, como também aquele que mais se aproxima da expressão prosaica, conquistada pela geração de 1922.

Principais obras

  • Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909);
  • Triste fim de Policarpo Quaresma (1911);
  • Numa e Ninfa (1915);
  • Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919);
  • Os Bruzundangas (1923);
  • Clara dos Anjos (1924);
  • Cemitério dos vivos (1957, edição póstuma).
Uma de suas obras mais importantes, Triste fim de Policarpo Quaresma, publicada inicialmente em folhetins em 1911, apenas em 1915 surge em livro.
Nesta obra, Lima Barreto descreve a história do Major Quaresma, sonhador personagem defensor do Marechal de Ferro – Floriano Peixoto – um nacionalista ingênuo, que se dedica ao estudo da cultura brasileira e deseja que o Brasil seja totalmente independente, a começar pela língua. Observe o trecho abaixo:
“Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se vêem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo além, que dentro do nosso país os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se diariamente surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma – usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupi-guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro.” (...)
O romance se divide em três partes:
1) o major estuda a cultura brasileira e suas tradições;
2) Policarpo Quaresma enlouquece e vai para o sítio do “Sossego”;
3) a condenação de Quaresma à morte, ironicamente, por crime de traição à Pátria, devido às críticas que faz a seu antigo mito, Floriano Peixoto. Pela ação do marechal durante a Revolta da Armada, de 1893, Policarpo compreende que Floriano Peixoto é um tirano.

Capa do livro Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

Autores do Pré-Modernismo

Monteiro Lobato

José Bento Monteiro Lobato nasceu em 1882 na cidade de Taubaté, no interior de São Paulo. Era descendente de fazendeiros.
Formou-se na Academia de Direito de São Paulo em 1904 e, após três anos, foi nomeado promotor em Areias, cidade do interior do Estado.
Aos vinte e nove anos, herdou uma fazenda de seu avô e decidiu administrá-la. A experiência não foi bem sucedida. No entanto, seus artigos publicados no Estado de São Paulo lhe garantiram prestígio. É autor de extensa e variada obra composta de crônicas, contos, artigos, ensaios e literatura infantil.

Monteiro Lobato, São Paulo, 1882 - 1948
Era um nacionalista convicto, lutou pela independência cultural, econômica e tecnológica do Brasil. Monteiro Lobato morreu no ano de 1948, vítima de um espasmo vascular.

Trajetória

No ano de 1917, atacou de forma violenta a arte moderna, em razão da exposição de Anita Malfatti, através de um artigo célebre, "Paranoia ou mistificação", onde mostrava desconhecer a pintura de vanguarda.
Tal artigo causou polêmica e desconforto, ocasionando imediata reação nos círculos de jovens que desejavam a renovação estética em São Paulo, afastando-os de Monteiro Lobato.

Trecho do artigo de Monteiro Lobato publicado no Estado de São Paulo.
Fundou em 1917 a Companhia Editorial Monteiro Lobato, que revolucionou a área, vendendo livros em armazéns, bodegas e mercearias por todo o país. É considerado um dos editores pioneiros a ilustrar e colorir as capas dos livros.
Em sua obra "Urupês", publicada em 1918,  Monteiro Lobato retrata a região do Vale do Paraíba e suas decadentes fazendas de café, descreve e analisa o tipo humano da região.
A figura de Jeca Tatu, personagem do livro de contos, como um caipira indolente, foi utilizado como símbolo das questões sociais brasileiras por Rui Barbosa em sua campanha presidencial, transformando o livro de Monteiro Lobato em grande sucesso.

Ilustração/caricatura de Monteiro Lobato e seu personagem Jeca Tatu

Capa da obra Urupês (1918), 1ª edição.
No ano de 1921, Monteiro Lobato publicou suas primeiras obras infantis, que posteriormente seriam reelaboradas. Reinações de Narizinho – obra responsável por iniciar o ciclo infantil do Sítio do pica-pau amarelo – é de 1931.

Ilustração da obra Reinações de Narizinho

Uma das capas da obra Reinações de Narizinho
A seguir, veremos mais algumas informações sobre as obras de Monteiro Lobato.

Autores do Pré-Modernismo

Monteiro Lobato (continuação)

Literatura infantil

Em suas obras, Monteiro Lobato misturava realidade e fantasia, valorizando o universo brasileiro. Fazia uso de referenciais mais próximos de crianças brasileiras e de sua cultura do que de paisagens europeias e os personagens de sua mitologia.
No ambiente “sítio”, não destacava apenas aspectos do interior, como os costumes, os riachos, matos, e animais silvestres. Apresentava elementos do folclore brasileiro como sacis, caiporas e mulas-sem-cabeça, fazendo uso de linguagem coloquial e acessível.
É possível afirmar que Monteiro Lobato nacionalizou o imaginário infantil do país e que o autor exerceu a função de despertar o gosto pela literatura em milhares de crianças brasileiras.

As histórias do Sítio do pica-pau amarelo e seus habitantes: Dona Benta, Emília, Visconde de Sabugosa, tia Nastácia, Cuca, e tantos outros se mantém como modelos quase imbatíveis do gênero literário.

Literatura geral

A literatura geral, denominada pelo próprio escritor para seus textos “adultos”, abrange três obras de ficção: Urupês, Negrinha e Cidades mortas. São livros de contos que apresentam uma ambivalência característica das obras do Pré-modernismo:
  • temática nova
  • técnica narrativa e linguagem tradicionais
Em seus escritos, Lobato utiliza do imprevisto e do anedótico utilizados nas obras O colocador de pronomesNegrinha e também em O bugio moqueado e, por vezes apoia-se no melodramático, como na obra A colcha de retalhos. Seu estilo mantém-se preso aos padrões do século passado, revelando-se pesado e acadêmico. Eventualmente, o autor vale-se de alguns vocábulos regionais, mas estes não se adaptam ao estilo geral e acabam por parecer falsos.
No quesito inovador e pré-moderno de sua obra, surgem alguns registros do universo rural paulistano, descrevendo esse cenário, que conhece bem, com precisão meticulosa.

Principais obras de Monteiro Lobato

  • Literatura “geral”: Urupês (contos, 1918); Cidades mortas (contos, 1919); Negrinha (contos, 1920).

Capa da obra Negrinha
  • Literatura infanto-juvenilReinações de Narizinho (1931); Viagem ao céu (1932); As caçadas de Pedrinho (1933); Geografia de dona Benta (1935); Histórias de tia Nastácia (1937).

Literatura infanto-juvenil de Monteiro Lobato
  • Obras polêmicasFerro (1931); O escândalo do petróleo (1936).

O Escândalo do Petróleo - 1ª Edição
Veja também o artigo a seguir, que foi publicado no jornal O Estado de São Paulo em 20 de dezembro de 1917, com o título "A Propósito da Exposição Malfatti", gerando a polêmica que afastaria os modernistas de Monteiro Lobato.
PARANOIA OU MISTIFICAÇÃO?
"Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, guardando os eternos rirmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres. Quem trilha por esta senda, se tem gênio, é Praxíteles na Grécia, é Rafael na Itália, é Rembrandt na Holanda, é Rubens na Flandres, é Reynolds na Inglaterra, é Leubach na Alemanha, é Iorn na Suécia, é Rodin na França, é Zuloaga na Espanha. Se tem apenas talento vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno daqueles sóis imorredouros. A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos de cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz de escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento.
Embora eles se dêem como novos precursores duma arte a ir, nada é mais velho de que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranoia e com a mistificação. De há muitos já que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo mistificação pura. Todas as artes são regidas por princípios imutáveis, leis fundamentais que não dependem do tempo nem da latitude. As medidas de proporção e equilíbrio, na forma ou na cor, decorrem de que chamamos sentir.
Quando as sensações do mundo externo transformam-se em impressões cerebrais, nós "sentimos"; para que sintamos de maneiras diversas, cúbicas ou futuristas, é forçoso ou que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso cérebro esteja em "pane" por virtude de alguma grave lesão. Enquanto a percepção sensorial se fizer anormalmente no homem, através da porta comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá "sentir" senão um gato, e é falsa a "interpretação" que o bichano fizer um "totó", um escaravelho ou um amontoado de cubos transparentes. Estas considerações são provocadas pela exposição da Sra. Malfatti, onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia. Essa artista possui talento vigoroso, fora do comum.
Poucas vezes, através de uma obra torcida para a má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Percebe-se de qualquer daqueles quadrinhos como a sua autora é independente, como é original, como é inventiva, em que alto grau possui um semi-número de qualidades inatas e adquiridas das mais fecundas para construir uma sólida individualidade artística. Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna, penetrou nos domínios dum impressionismo discutibilíssimo, e põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura. Sejam sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de ouros tantos ramos da arte caricatural. É extensão da caricatura a regiões onde não havia até agora penetrado.
Caricatura da cor, caricatura da forma - caricatura que não visa, como a primitiva, ressaltar uma idéia cômica, mas sim desnortear, aparvalhar o espectador. A fisionomia de que sai de uma destas exposições é das mais sugestivas. Nenhuma impressão de prazer, ou de beleza denuncia as caras; em todas, porém, se lê o desapontamento de quem está incerto, duvidoso de si próprio e dos outros, incapaz de racionar, e muito desconfiado de que o mistificam habilmente. Outros, certos críticos sobretudo, aproveitam a vaza para épater les bourgeois. Teorizam aquilo com grande dispêndio de palavrório técnico, descobrem nas telas intenções e subintenções inacessíveis ao vulgo, justificam-nas com a independência de interpretação do artista e concluem que o público é uma cavalgadura e eles, os entendidos, um pugilo genial de iniciados da Estética Oculta. No fundo, riem-se uns dos outros, o artista do crítico, o crítico do pintor e o público de ambos. Arte moderna, eis o estudo, a suprema justificação. Na poesia também surgem, às vezes, furúnculos desta ordem, provenientes da cegueira sempre a mesma: arte moderna.
Como se não fossem moderníssimo esse Rodin que acaba de falecer deixando após si uma esteira luminosa de mármores divinos; esse André Zorn, maravilhoso "virtuose" do desenho e da pintura; esse Brangwyn, gênio rembrandtesco da babilônia industrial que é Londres; esse Paul Chabas, mimoso poeta das manhãs, das águas mansas, e dos corpos femininos em botão. Como se não fosse moderna, moderníssima, toda a legião atual de incomparáveis artistas do pincel, da pena, da água-forte, da dry point que fazem da nossa época uma das mais fecundas em obras-prima de quantas deixaram marcos de luz na história da humanidade. Na exposição Malfatti figura ainda como justificativa da sua escola o trabalho de um mestre americano, o cubista Bolynson. É um carvão representando (sabe-se disso porque uma nota explicativa o diz) uma figura em movimento.
Está ali entre os trabalhos da Sra. Malfatti em atitude de quem diz: eu sou o ideal, sou a obra-prima, julgue o público do resto tomando-me a mim como ponto de referência. Tenhamos coragem de não ser pedante: aqueles gatafunhos não são uma figura em movimento; foram, isto sim, um pedaço de carvão em movimento. O Sr. Bolynson tomou-o entre os dedos das mãos ou dos pés, fechou os olhos, e fê-lo passar na tela às pontas, da direita para a esquerda, de alto a baixo. E se não o fez assim, se perdeu uma hora da sua vida puxando riscos de um lado para o outro, revelou-se tolo e perdeu tempo, visto como o resultado foi absolutamente o mesmo. Já em Paris se fez uma curiosa experiência: ataram uma brocha na cauda de um burro e puseram-no traseiro voltado numa tela. Com os movimentos da cauda do animal a broxa ia borrando a tela. A coisa fantasmagórica resultante foi exposta como um supremo arrojo da escola cubista, e proclama pelos mistificadores como verdadeira obra-prima que só um ou outro raríssimo espírito de eleição poderia compreender.
Resultado: o público afluiu, embasbacou, os iniciados rejubilaram e já havia pretendentes à tela quando o truque foi desmascarado. A pintura da Sra. Malfatti não é cubista, de modo que estas palavras não se lhe endereçam em linha reta; mas como agregou a sua exposição uma cubice, leva-nos a crer que tende para ela como para um ideal supremo. Que nos perdoe a talentosa artista, mas deixamos cá um dilema: ou é um gênio o Sr. Bolynson e ficam riscados desta classificação, como insignes cavalgaduras, a coorte inteira dos mestres imortais, de Leonardo a Steves, de Velásques a Sorolla, de Rembrandt a Whistler, ou... vice-versa. Porque é de todo impossível dar o nome da obra de arte a duas coisas diametralmente opostas como, por exemplo, a Manhã de Setembro, de Chabas, e o carvão cubista do Sr. Bolynson. Não fosse a profunda simpatia que nos inspira o formoso talento da Sra. Malfatti, e não viríamos aqui com esta série de considerações desagradáveis.
Há de ter essa artista ouvido numerosos elogios à sua nova atitude estética. Há de irritar-lhe os ouvidos, como descortês impertinência, esta voz sincera que vem quebrar a harmonia de um coro de lisonjas. Entretanto, se refletir um bocado, verá que a lisonja mata e a sinceridade salva. O verdadeiro amigo de um artista não é aquele que o entontece de louvores, e sim o que lhe dá uma opinião sincera, embora dura, e lhe traduz chãmente, sem reservas, o que todos pensam dele por detrás. Os homens têm o vezo de não tomar a sério as mulheres. Essa é a razão de lhes derem sempre amabilidades quando elas pedem opinião. Tal cavalheirismo é falso, e sobre falso, nocivo. Quantos talentos de primeira água se não transviaram arrastados por maus caminhos pelo elogio incondicional e mentiroso? E tivéssemos na Sra. Malfatti apenas uma "moça que pinta", como há centenas por aí, sem denunciar centelhas de talento, calar-nos-íamos, ou talvez lhe déssemos meia dúzia desses adjetivos "bombons" que a crítica açucarada tem sempre à mão em se tratando de moças. Julgamo-la, porém, merecedora da alta homenagem que é tomar a sério o seu talento dando a respeito da sua arte uma opinião sinceríssima, e valiosa pelo fato de ser o reflexo da opinião do público sensato, dos críticos, dos amadores, dos artistas seus colegas e... dos seus apologistas. Dos seus apologistas sim, porque também eles pensam deste modo... por trás."