1 de dezembro de 2019

Literatura - Pré-Modernismo

Pré-Modernismo

O Pré-Modernismo teve seu início em 1902, estabelecendo como limite as obras Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Canaã, de Graça Aranha. Terminou em 1922, com a Semana de Arte Moderna.
O movimento representou o momento de transição e de preparação para a fase de emancipação da literatura brasileira, o Modernismo.
O Pré-Modernismo, que coexistiu com o Simbolismo e o Parnasianismo, apontou os problemas de nossa realidade cultural e social.

Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902) e Canaã, de Graça Aranha, 1902

Avenida Central, Rio de Janeiro. A grande reforma urbana ocorrida no início do século revelou um Brasil moderno e com características europeias. No entanto, por trás dessa fachada, persistiam o atraso e a pobreza. Os escritores das primeiras décadas do século conseguiram explorar, em suas obras, as contradições do país.

Contexto histórico

O início do século XX foi marcado pelo confronto das rivalidades internacionais, que teve como resultado a Primeira Guerra Mundial (1914 – 18) e que teve como resultado o surgimento de uma nova potência: os Estados Unidos da América. Em 1917, com a Revolução Russa, o proletariado toma o poder. Começaram, então, a tomar forma dois regimes opostos: o comunismo e o capitalismo.
No Brasil, o Pré-Modernismo desenvolveu-se na época de transição da República da Espada (ditadura militar) para a República das Oligarquias ou República do café com leite, onde o Brasil foi governado ora por donos de fazendas cafeeiras de São Paulo, ora por fazendeiros de Minas, os dois estados mais ricos do país.
No entanto, nas cidades surgia uma classe média reformista e, nos quartéis, uma geração de militares, entusiasmados por ideias positivistas, que exigiam mudanças. Ao mesmo tempo, surgia pela primeira vez no país uma massa popular insatisfeita e propensa à revoltas sem sentido, como por exemplo a rebelião contra a vacina obrigatória (Revolta da Vacina), em 1904.

Imagem Revolta da Vacina – 1904

Pré-Modernismo (continuação)

Características

Assim como o Romantismo, o Pré-Modernismo caracterizava-se pela temática nacionalista; o primeiro, com textos de cunho ufanista e o segundo, com um nacionalismo crítico, questionador.
Os primeiros vinte anos do século XX foram marcados tanto pela presença de resíduos culturais do século XIX, como pelo desejo de uma redescoberta crítica do Brasil.
Oscilando entre uma produção conservadora, com características realistas/naturalistas na prosa e parnasiano-simbolistas na poesia e, uma produção inovadora com um profundo interesse e preocupação em registrar, na prosa, os desequilíbrios sociais da época. Na poesia, Augusto dos Anjos utiliza palavras antipoéticas que afrontam a sensibilidade parnasiana.
Para saber mais:
Ufanista: patriótico, nacionalista, orgulhoso, vaidoso, etc.

Denominação do período

A denominação do período surgiu em razão do ecletismo da época, onde várias correntes e estilos indefinidos chocavam-se entre o academicismo e a inovação. O responsável pela criação do termo pré-modernismo foi o crítico Alceu de Amoroso Lima, em 1950.

Alceu Amoroso Lima, também conhecido pelo pseudônimo Tristão de Athayde, presença importante no cenário intelectual brasileiro.
No entanto, é correto afirmar que se trata de um conceito equivocado, que não compreende a complexidade estética e ideológica das obras então produzidas, considerando-se apenas textos precursores da Semana de Arte Moderna. No entanto, exigências didáticas e a falta de outra classificação aceitável acabaram por difundir o referido termo. Portanto, pré-modernismo passou a indicar a maior parte das obras produzidas no período.
Para saber mais:
Ecletismo: combinação de diferentes estilos.

Manifestações artísticas no período

No Brasil, o ecletismo acadêmico deu fôlego à pintura em um período que se situa entre o esgotamento das propostas iniciadas com a instalação da Academia Imperial e o Modernismo.
Em 1915, Lasar Segall fez a primeira exposição de arte moderna, seguido por Anita Malfatti, que em 1917, expôs seus quadros para mostrar o que aprendera com os mestres expressionistas alemães e norte-americanos.

Reprodução da Obra de Lasar Segall – Menino e lagartixas

Reprodução da Obra de Anita Malfatti – A estudante russa
No artigo "Paranoia ou mistificação?", Monteiro Lobato criticou impetuosamente a mostra, fato que gerou grande polêmica e que seria a fermentação para a Semana de Arte Moderna.

Trecho do artigo de Monteiro Lobato, publicado no Estado de São Paulo.
Na música, compositores brasileiros com formação erudita, como Alberto Nepomuceno, utilizavam temas do folclore brasileiro. Na música popular, o choro, o maxixe, a modinha e o samba substituíram a polca, o tango e a valsa nos salões. Importantes compositores do período: Ernesto Nazaré e Chiquinha Gonzaga, autora da primeira marchinha de carnaval, Ô abre alas, em 1899.

Chiquinha Gonzaga aos 47 anos

Autores do Pré-Modernismo

Euclides da Cunha

Euclides da Cunha nasceu em Cantagalo, estado do Rio de Janeiro. Era filho de um guarda-livros que, através do casamento tornou-se um pequeno fazendeiro.
Sua mãe morreu quando ainda era criança, aos três anos de idade. A partir disso, iniciou uma vida errante por casa de parentes, sem um paradeiro fixo, o que justificaria seu caráter triste e arredio.
Em razão da falta de recursos de seu pai para poder pagar um curso universitário, ingressou na Escola Militar, de onde foi expulso, em 1888, por afrontar o ministro da Guerra do Império. Estudou Engenharia Civil. Após a Proclamação da República foi reintegrado às Forças Armadas. Manteve-se no Exército até os trinta anos, quando se reformou voluntariamente, com o posto de capitão.

Euclides da Cunha, Rio de Janeiro, 1866 - 1909
Em 1897, foi correspondente de Guerra (Guerra dos Canudos) e passados quatro anos do fim da guerra, após inúmeras reflexões sobre o que havia presenciado, escreve, em 1902, Os Sertões e torna-se celebridade do dia para a noite.
Em 21 de setembro de 1903, Euclides da Cunha foi eleito para a cadeira nº 7 da Academia Brasileira de Letras. Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha morreu no Rio de Janeiro, no dia 15 de agosto de 1909.

Obras de Euclides da Cunha

Os Sertões

Os Sertões - obra de Euclides da Cunha, 1902
Nesta obra, Euclides da Cunha descreveu a terra, o homem, a sociedade, a religião, enfim, todos os aspectos do sertão brasileiro. Sua intenção foi não só revelar à nação a vida humilde e desamparada do povo do sertão, esquecido pelos governantes; mas, também, denunciar o erro do governo com sua expedição punitiva, sem considerar os precedentes de natureza sociológica que deram motivo para o conflito. A obra divide-se em três partes:
  • a terra: descrição geográfica da região e das difíceis condições de sobrevivência de seu povo;

Exemplo de moradia em Canudos
  • o homem: caracterização dos vários tipos brasileiros. O autor detém-se no jagunço, a “sub-raça” com suas desgraças e torturas. Apresenta Antonio Conselheiro, o líder de Canudos;

Sertanejo (jagunço) prisioneiro, seu destino, a degola.
  • a luta: descrição da resistência heroica de Antonio Conselheiro e o massacre de 25.000 pessoas.

Antônio Conselheiro: foto tirada duas semanas após sua morte (morte natural), pelo fotógrafo Flávio de Barros, a serviço do Exército. O cadáver de Antônio Conselheiro foi exumado e sua cabeça foi decepada e enviada para a Faculdade de Medicina da Bahia, para ser objeto de estudos e análises frenológicas.
Para saber mais:
Frenologia: estudo da estrutura do crânio de modo a determinar o caráter das pessoas e a sua capacidade mental.
O trecho abaixo corresponde ao penúltimo capítulo de Os Sertões:
“Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.” (...)
Para saber mais:
Expugnado: conquistado/tomado à força das armas.
A importância de Os Sertões
A respeito de seu texto, disse Euclides da Cunha: “Escrevi este livro para o futuro.”. Certamente, nenhuma outra obra em nossa cultura teve tão ampla repercussão. O texto interliga duas camadas estruturais: a ensaística e a literária, que se tornaram fontes permanentes de debates.
ensaística botou em xequetodas as compreensões que a intelectualidade brasileira tinha sobre seu próprio país, passando a influenciar inevitavelmente a discussão política sobre os destinos da nação. Durante boa parte do século XX, os anseios modernizadores e integradores das elites civis e militares parecem ter provindo dessa obra, hoje considerada um clássico da nacionalidade.
literária, embora apresente caráter irreproduzível na sua linguagem, nutriu como motivo e visão de mundo numerosos relatos do chamado ciclo nordestino do Romance de 30, principalmente Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e Seara Vermelha, de Jorge Amado. Estudos recentes também apontam a forte influência de Os Sertões sobre a obra de João Guimaraes Rosa.
Outras obras de destaque: Contrastes e Confrontos (1907) e A Margem da História (1909).

Autores do Pré-Modernismo

Graça Aranha

Graça Aranha (José Pereira da Graça Aranha) nasceu em 21 de junho de 1868 em São Luís (MA), filho de uma família de posses. Cursou Direito no Recife, exercendo a magistratura por algum tempo no interior do Espírito Santo, fato que lhe iria fornecer material para um de seus mais notáveis trabalhos - o romance Canaã.
Logo em seguida, entrou para o Itamarati, onde atuou em importantes missões diplomáticas. Consagrado com o romance Canaã, publicado com grande sucesso editorial em 1902, ingressou ainda jovem na Academia Brasileira de Letras, com a qual romperia em 1924 por ter sido recusado o projeto de renovação que elaborara.

Graça Aranha, Maranhão, 1868 – 1931
No período da Semana de Arte Moderna, foi o único intelectual pré-modernista a participar ativamente através da conferência de abertura em 13 de fevereiro de 1922, intitulada: “A emoção estética na arte moderna”. Graça Aranha é considerado um dos líderes do movimento renovador de nossa literatura. Faleceu no Rio de Janeiro, já consagrado como escritor e pensador, em 26 de janeiro de 1931.

Publicação no Jornal do Brasil sobre a morte de Graça Aranha

Principais obras de Graça Aranha

  • Canaã (1902)
  • A estética da vida (1921)

Canaã


Folha de rosto de Canaã - obra de Graça Aranha, 1902
O romance Canaã, publicado em 1902, traz o resultado de observações de uma colônia de imigrantes alemães no Espírito Santo. A formulação da obra mesclava uma estrutura convencional de narrativa, apresentando enredo e personagens ficcionais e um eixo dominante centrado no debate de ideias.
Desta forma, Canaã estabelecia no Brasil um gênero desconhecido: o romance-ensaio, o romance de tese, ou seja, um romance onde as ideias são mais importantes do que o enredo da obra.
A narrativa gira em torno de dois imigrantes alemães, Mikau e Lentz, recém chegados da Europa e que trabalham como colonos no interior do Espírito Santo. Os personagens discutem sobre o futuro do país emitindo teorias sobre o atraso social do Brasil, assim como sobre o papel da imigração no futuro do país, por fim, acabam discutindo o sentido da existência humana.
O personagem Lentz possui ideias colonialistas, onde o Brasil seria um país condenado a não ter expressão mundial, devido à presença dominante de raças mestiças. A incumbência do imigrante consistiria então em demonstrar a superioridade da raça ariana. No âmbito pessoal, o personagem apresenta uma nostalgia prussiana: ele acredita em um universo dividido em guerreiros (seres fortes, repletos de vontade e etnicamente puros) e as grandes massas, considerado como um grupo amorfo e incapaz.
O personagem Mikau, por sua vez, defende a integração do imigrante à realidade do país, seja ela do ponto de vista social ou racial, idealizando uma democracia étnica. Acrescenta-se a isso uma filosofia individual fundamentada em um vago socialismo cristão, onde prevalecem ideais de solidariedade, amor e piedade. O sonho idealizado de um mundo de harmonia e paz a ser realizado futuramente no país, vendo Canaã como a terra prometida.
Ao final da obra, Lentz rende-se ao ambiente brasileiro e acaba por se mostrar generoso e humano, fato que representa uma adesão, ainda que involuntária, às ideias de seu compatriota. Mikau, de certa forma, torna-se o vencedor do debate.
Para saber mais:
Amorfo: indiferente, sem personalidade formada e sem princípios morais e éticos.

Literatura - Simbolismo

Simbolismo

Precedentes

A partir de 1880, na França, ocorreu uma reação contra os pontos de vista cientificistas da elite intelectual da época, representadas na literatura pelo fatalismo naturalista e pelo rigor parnasiano.
Nesse sentido, o Simbolismo surgiu como uma recusa a todos os valores ideológicos e existenciais da burguesia, e não apenas como uma estética oposta à literatura, objetiva, descritiva e plástica, mais especificamente a poesia lírica.
Nasce então uma nova arte europeia por meio da marginalidade de Verlaine, do amoralismo de Rimbaud e da destruição de linguagem por Mallarmé, em oposição a Belle Époque, do capitalismo financeiro e industrial que se apoderava até então de boa parte do mundo.
Para saber mais
A expressão francesa Belle Époque significa “bela época”, e representa um período de cultura cosmopolita na história da Europa. Essa fase foi marcada por transformações culturais intensas que demonstravam novas formas de pensar e viver. Considerada uma época de ouro, beleza, inovação e paz entre os países.
Neste momento, o artista passa a experimentar, à maneira dos românticos, um intenso incômodo na realidade e na cultura, partindo do mundo escolhido pelo racionalismo burguês e desvendando um universo estranho de associações de ideias, imagens oníricas e lembranças sem significado definido. Essa realidade era formada por um universo etéreo, de sensações evanescentes e o poeta teria que reproduzir tais sensações na escrita.
Deste modo, o Simbolismo tem por definição o anti-intelectualismo, propondo como ideal a lírica pura, não racional, que usa imagens, e não conceitos. As poesias simbolistas são consideradas difíceis, misteriosas e herméticas. Cada poema se apresenta como uma forma de enigma, com inúmeros significados. Por esta razão, muitos críticos enxergam nas obras simbolistas os fundamentos da arte moderna, principalmente os da arte surrealista.

Surgimento

Os primeiros indicativos do movimento apontam para Baudelaire, através da publicação de As Flores do Mal (1857), apontando certas perspectivas simbolistas.

Obra do escritor francês Charles Baudelaire - As Flores do Mal (1857)
No ano de 1884, Verlaine publicou sua obra intitulada de Arte poética, onde os princípios da escola simbolista eram evidentes. Em 1886, Jean Moréas usou um manifesto para formar teoricamente o Simbolismo. Veja o que diz um trecho desse manifesto:
Como todas as artes, a literatura evolui: evolução cíclica com todas as voltas estritamente determinadas que se compilam com as diversas modificações trazidas  pela  marcha dos  tempos e pelas revoluções dos meios. Seria supérfluo observar que cada nova fase evolutiva da arte corresponde exatamente à decrepitude senil, […] da escola imediatamente anterior.
Assim o Romantismo, após soar todos os tumultuosos alarmas da revolta, após haver tido seus dias de glória e de batalha, abdicou de suas audácias heroicas […]; na honrosa e mesquinha tentativa dos parnasianos, ele esperou falaciosos renovadores; depois finalmente, tal como  um monarca deposto na infância, deixou-se  depor pelo  Naturalismo, ao qual  não  se pode conceder seriamente senão um valor de protesto legítimo, mas imprudente. Uma nova manifestação de arte era, portanto, esperada, necessária, inevitável. […] Já propusemos a denominação de Simbolismo como a única capaz de designar razoavelmente a tendência atual do espírito criador em arte. (TELLES, 2002, p. 62).”

Simbolismo (continuação)

Contexto histórico

Ao final de 1880, o mundo ocidental passava por transformações culturais, sociais e políticas. A França, como centro transmissor de cultura, é derrotada na guerra contra a Alemanha. A derrota compromete um universo de ideias e concepções. As proposições científicas e o predomínio da razão sobre os sentimentos passam por uma revisão.
Como resultado, a arte tende ao abandono da objetividade e retoma as posições de ordem subjetiva do Romantismo. Os anseios, as aspirações individuais e coletivas, difundidas através de várias gerações.
Na Europa, o Simbolismo representou a oposição à valorização do material, ao  imperialismo econômico, que até então triunfava, voltando-se ao mundo interior. No Brasil, a mudança ocorreu  entre os anos de 1893 e 1895, quando o país passava por guerras civis (Revolta Armada 1893 e Revolta Federalista 1893-95) e enfrentava um ambiente de mudanças econômicas e sociais com o processo de República instaurado no país.        

Contexto cultural no Brasil

O Simbolismo no Brasil é um movimento que acontece à margem do sistema cultural dominante. Seu desenvolvimento ocorre no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná.
Os poetas brasileiros que a princípio adotaram as ideias de Baudelaire, Verlaine e Mallarmé tornaram-se alvos de zombarias e de desprezo, passando a ser chamados de decadentes ou nefelibatas, pois a maioria dos críticos não os compreendia e o leitor mostrava-se indiferente e hostil diante daquela linguagem poética complicada e pretensiosa. Após o manifesto de Jean Moréas, em 1886, o termo Simbolismo foi consagrado para designar a nova escola.

Publicação no jornal francês Le Figaro do manifesto de Jean Moréas
Os primeiros registros foram feitos por Medeiros e Albuquerque a partir de 1890. No entanto,  os textos que realmente dão início ao Simbolismo no Brasil pertencem a Cruz e Sousa, com as  publicações de Missal (poemas em prosa) e Broquéis (poemas em versos) no ano de 1893.
  
Missal e Broquéis

Características do Simbolismo

Subjetivismo, individualismo e imaginação

Valorizava o mundo interior do indivíduo. Apresentava poesia “difícil”, que versava sobre o “eu” profundo e as “emoções”, manifestando os desejos íntimos e a visão pessoal e sombria do mundo.
Usava expressões como: “toda alma num cárcere anda presa”, “os miseráveis, os rotos são as flores dos esgotos” ou ainda “esta profunda e intérmina esperança”.
Conteúdo irracional: poemas vagos e complexos, imprecisos e, alguns, indecifráveis. Em razão disso, os poetas da época foram chamados de “nefelibatas”, ou seja, sonhadores quanto aos seus ideais, nebulosos quanto ao conteúdo e inatingíveis quanto à linguagem. Veja:
“Nos Santos óleos do luar floria
teu corpo ideal, com resplendor da Helade...
E em toda a etérea, branda claridade
como que erravam fluidos de harmonia.”

(Cruz e Sousa - Em Sonhos...)
“Desta torre desfraldam-se altaneiras,
por sóis de céus imensos broqueladas,
bandeiras reais, do azul das madrugadas
e do íris flamejante das poncheiras.”

(Cruz e Sousa - Torre de Ouro)
Diante dos registros simbolistas, é fundamental que o leitor sinta a musicalidade e a sugestão, ao invés de preocupar-se em compreender a mensagem, algo que nem sempre é possível.

Musicalidade e figuras de linguagem

O objetivo da musicalidade nos versos era o de criar uma atmosfera de mistério e sugestão. Para os poetas, as palavras deveriam sugerir, evocar e não descrever e definir.
As palavras eram escolhidas pela sonoridade, valendo-se do uso repetido de um mesmo fonema para sugerir um som que aproximasse a linguagem do conteúdo (aliterações), assonâncias (repetindo as mesmas vogais tônicas em palavras diferentes) e, também, fazendo uso de rimas e ecos. Observe:
“Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.
Vozes veladas, veludosas vozes
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.”

(Cruz e Sousa  - Violões que Choram)

Misticismo e espiritualismo

Denotava a  fuga da realidade, conduzindo o poeta simbolista ao mundo espiritual. Realizava uma viagem ao mundo invisível e imaterial do ser humano e utilizava-se de vocabulários litúrgicos, tais como: antífona, missal, ladainha, hinos, breviários, turíbulos, aras, incensos. Observe:
“O ventre em pinchos, empinava todo
como réptil objeto o lodo
espolinhando e retorcido em fúria.
Era a dança macabra e multiforma de um
verme estranho, colossal enorme
do demônio sangrento em luxúria.”

(Cruz e Sousa - Dança do Ventre)

Sinestesia

Na poesia simbolista os poetas iam além dos significados usuais das palavras, atribuindo qualidade às sensações, ou seja, utilizavam a sinestesia, que possibilitava a expressão de estados do inconsciente, onde as imagens se associavam em planos nem sempre lógicos; a partir de uma ideia era possível despertar várias sensações.
São algumas construções sinestésicas: som vermelho, dor amarela, doçura quente, silêncio côncavo. Veja: 
“Tarde de olhos azuis e de seios morenos.
Ó tarde linda, ó tarde doce que se admira,
Como uma torre de pérolas e safira.
Ó tarde como quem tocasse um violino.
Tarde como Endimion, quando ele era menino
Tarde em que a terra está mole de tanto beijo,
Porém querendo mais, nervosa de desejo...”

(Emiliano Perneta)
Referências:
GONZAGA, Sergius. Curso de literatura brasileira.1.ed.Porto Alegre: Leitura XXI, 2004.
OLIVEIRA, Ana Tereza Pinto de. Literatura Brasileira: teoria e prática.1.ed.São Paulo: Rideel, 2006.
TELLES, G.M. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 17.ed. Petrópolis:  Vozes, 1997.

Autores do Simbolismo

João da Cruz e Sousa (Dante Negro ou Cisne Negro)

Nasceu em 24 de novembro de 1861 na cidade de Desterro, atual Florianópolis (SC).
Era filho de escravos que foram alforriados por seu senhor, o coronel (depois marechal) Guilherme Xavier de Sousa, de quem João da Cruz recebeu o último sobrenome e a proteção.
Ao ser vítima de racismo mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil, contribuindo também com o jornal Folha Popular.

Cruz e Sousa (Florianópolis, 1861-1898)
Em fevereiro de 1893 publicou Missal (prosa poética) e, em agosto, Broquéis (poesia), dando início ao Simbolismo no Brasil - que se estendeu até 1922. Em novembro desse mesmo ano casou-se com Gavita Gonçalves, também negra, com quem teve quatro filhos, todos mortos prematuramente por tuberculose.
Sua poesia, inicialmente, foi influenciada pelo Romantismo de origem contestadora de Castro Alves e pela ideia realista baseada na crítica social, carregada de impulsos pessoais e dos sofrimentos causados pela miséria, desprezo e condição social. No entanto, essas influências foram dando lugar à visão simbolista mais voltada à poetização de verdades existenciais subjetivas.
Suas obras são marcadas pela musicalidade (uso de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, ora pelo desespero, ora pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca - manifestada por sua condição racial e a tentativa de superá-la.
Há três fases na poesia de Cruz e Sousa - o “Cisne Negro" ou "Dante Negro”:
  • A primeira fase corresponde aos livros Missal e Broquéis (1893), onde o poeta demonstra a dor e o sofrimento de ser negro, e os conflitos entre o transcendental e os apelos sensuais. 
Percebe-se a utilização de recursos simbolistas pelo autor, tais como repetições, aliterações e sinestesias, buscando obter um efeito melodioso. Empregava também letras maiúsculas para expressar o absoluto (Mistério, Luz, Morte, Dor) e o vocabulário litúrgico para criar uma aura mística, misteriosa.
   
Publicações: Missal e Broquéis
Observe este fragmento do poema Antífona:
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...
Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas...
Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...
Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...
Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.
(...)
  • A segunda fase do poeta corresponde à publicação de Faróis (1900), onde é revelada a angústia e a melancolia. Seus poemas trazem como tema principal a morte, o tédio, a revolta e o desespero interior.

Primeira edição de Faróis
Podemos observar esses elementos no trecho de Violões que Choram:
Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.
Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...
E sons soturnos, suspiradas mágoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.
Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

(...)
  • A terceira fase de Cruz e Sousa é revelada nos versos de Últimos Sonetos, publicados em 1905. É considerado o período que reflete a resignação e a fé conquistadas pelo poeta.

Últimos Sonetos
Podemos comprovar a mudança de fase pelos poemas:
Crê!
Vê como a Dor te transcendentaliza!
Mas no fundo da Dor crê nobremente,
Transfigura o teu ser na força crente
Que tudo torna belo e diviniza.

(...)
Caminho da Glória
Este caminho é cor de rosa e é de ouro,
Estranhos roseirais nele florescem,
Folhas augustas, nobres reverdecem
De acanto, mirto e sempiterno louro.
Neste caminho encontra-se o tesouro
Pelo qual tantas almas estremecem;
É por aqui que tantas almas descem
Ao divino e fremente sorvedouro.
É por aqui que passam meditando,
Que cruzam, descem, trêmulos, sonhando,
Neste celeste, límpido caminho.
Os seres virginais que vêm da Terra
Ensanguentados da tremenda guerra,
Embebedados do sinistro vinho.
Sorriso Interior
O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranquila.
Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!

Principais obras de Cruz e Sousa

  • Broquéis (1893)
  • Missal (1893)
  • Evocações (1899)
  • Faróis (1900)
  • Últimos Sonetos (1905)
Cruz e Sousa morreu em 19 de março de 1898 em Minas Gerais, na localidade de Curral Novo, vítima de tuberculose.

Autores do Simbolismo

Alphonsus de Guimaraens

Nasceu na cidade de Ouro Preto (MG) no dia 24 de julho de 1870, filho de comerciante português e de uma sobrinha do escritor romântico Bernardo Guimaraens.
Estudou na cidade natal e depois cursou Direito em São Paulo. Alimentou uma paixão platônica pela filha do autor de A Escrava Isaura, Constança, que morreria de tuberculose antes de completar dezoito anos e, para quem escreveu muitos de seus versos. Ao retornar para Minas Gerais, desempenhou a função de juiz em Conceição do Serro e, posteriormente, em Mariana.

Alphonsus de Guimaraens
Casou-se com Zenaide, uma jovem de dezessete anos com quem teve quatorze filhos. Exceto pelo abalo sentimental que sofreu com a morte de sua amada, teve uma vida tranquila, que reflete em sua obra. Seus poemas são suaves, apesar de expressarem melancolia. Suas obras caracterizam-se pela musicalidade e vocabulário expressivo. Denotam uma busca constante pela espiritualização e giram em torno dos seguintes temas:
  • A morte da mulher amada
  • A religiosidade litúrgica, com poemas dedicados à Virgem Maria

A Morte da Mulher Amada

A morte da mulher amada representa um tema dominante em sua obra. Seus poemas demonstram a impossibilidade de esquecê-la e apresentam ideias fúnebres, destacando-se a melancolia e a musicalidade. Podemos observar essa forte carga de emoção no soneto Hão de chorar por ela os cinamomos:
Hão de chorar por ela os cinamomos
Murchando as flores ao tombar do dia
Dos laranjais hão de cair os pomos
Lembrando-se daquela que os colhia.
As estrelas dirão: - "Ai, nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria..."
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.
A lua que lhe foi mãe carinhosa
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.
Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: - "Por que não vieram juntos?"
Vocabulário
Silente: silencioso, secreto
Também podemos observar o sofrimento do poeta na obra Ismália, onde a solidão, a loucura e a morte se fundem.
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar.

A Religiosidade Litúrgica

A morte precoce de sua amada associada ao clima místico das cidades barrocas mineiras serviram de inspiração para Alphonsus de Guimaraens. Ao contrário de Cruz e Sousa, que apresenta uma espiritualização filosófica e repleta de angústias, a de Alphonsus traz  elementos mais voltados ao emotivo, baseando-se em preces e crenças simples. Demonstra que a divinização de Nossa Senhora corresponde à sublimação do amor pela mulher amada morta, sugerindo a troca de uma paixão concreta por uma devoção católica.
Tal tendência pode ser observada em seu poema A catedral:
Entre brumas ao longe surge a aurora.
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu risonho
Toda branca de sol.
E o sino canta em lúgubres responsos:
Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus! (...)
Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Põe-se a lua a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu tristonho
Toda branca de luar.
E o sino dobra em lúgubres responsos:
Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!
O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o rosto meu.
E a catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.
E o sino geme em lúgubres responsos:
Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!
Vocabulário
Hialino: transparente
Arrebol: vermelhidão do nascer ou do pôr do sol.
Ebúrnea: de marfim
Responsos: versículos rezados ou cantados

Principais Obras de Alphonsus de Guimaraens


Manuscrito de um soneto de Alphonsus de Guimaraens
  • Setenário das Dores de Nossa Senhora (1899)
  • Dona Mística (1889)
  • Câmara Ardente (1899)
  • Kyriale (1902)
Afonso Henrique da Costa Guimarães (seu nome civil) morreu na cidade de Mariana (MG) no dia 15 de julho de 1921, praticamente na obscuridade, às vésperas da Semana de Arte Moderna de 1922.

Outros Simbolistas

Pedro Kilkerry

Pedro Kilkerry foi um poeta ignorado em seu tempo e redescoberto pelos críticos de vanguarda. É considerado o líder do movimento simbolista baiano. Era filho de um irlandês com uma mestiça baiana e formou-se em Direito pela Faculdade da Bahia.
Seus poemas foram impressos em jornais e revistas da época, especialmente nas publicações simbolistas Os Anais e Nova Cruzada.
O poeta não deixou obra editada. Sua poesia foi editada em livro pela primeira vez no ano de 1970. Pedro Kilkerry foi o criador de uma linguagem poética fragmentária, concreta, condensada e com fortes rupturas sintáticas e semânticas, formada por aliterações, onomatopeias e neologismos.

Pedro Kilkerry
No poema É o silêncio, o poeta relata o processo de criação. Observe um fragmento desse poema:
É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa. 
Olha-me a estante em cada livro que olha. 
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.
Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa. 
Penso um presente, num passado.  E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...

(...)

Outros Simbolistas

Emiliano Perneta

Emiliano Perneta é considerado o responsável por introduzir o Simbolismo no Brasil por suas atividades na Folha Popular, jornal em que foram publicados os primeiros manifestos simbolistas.
É considerado o principal representante do Simbolismo paranaense e figura nacional entre os simbolistas.
Formou-se em Direito e desempenhou na sua terra natal a advocacia, o jornalismo e o magistério. Sua poesia pode ser considerada expressionista, às vezes contendo um clima satânico por influência da poesia francesa e do próprio Romantismo, que está submetido ao Simbolismo.

Emiliano Perneta
Como homem das letras, Emiliano Perneta escreveu: Músicas (1888), InimigoIlusão e Setembro

Poesias Completas de Emiliano Perneta (1945)
Suas obras remetem a um homem movido pelo desejo intenso de conhecer o próprio fim. Observe a linguagem nos poemas:
Corre Mais que uma Vela
Corre mais que uma vela, mais depressa,
Ainda mais depressa do que o vento,
Corre como se fosse a treva espessa
Do tenebroso véu do esquecimento.

Eu não sei de corrida igual a essa:
São anos e parece que é um momento;
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais do que a luz e o pensamento...

É uma corrida doida essa corrida,
Mais furiosa do que a própria vida,
Mais veloz que as notícias infernais...

Corre mais fatalmente do que a sorte,
Corre para a desgraça e para a morte...
Mas que queria que corresse mais!”
Damas
Ânsia de te querer que já não tem mais fim,
Meu espírito vai, meu coração caminha,
Como uma estrela, como um sol, como um clarim,
Mas tudo em vão, sei eu! Tu és uma rainha! ...
És a constelação maravilhosa, a minha
Aspiração, de luz magnífica, ai de mim!
A nudez, o clarão, a formosura, a linha,
O espelho ideal! Ó Torre de Marfim!
Nunca me hás de querer, batendo-me por ti,
Pomo duma discórdia infrutífera, beijo
Todo em fogo, e a arder, assim como um rubi...
Mas é por isso que eu, ó desesperação,
Amo-te com furor, com ódio te desejo,
E mordo-te, Ideal, e adoro-te, Ilusão!


Literatura - Parnasianismo (3)

Autores do Parnasianismo

Olavo Bilac

Olavo Bilac nasceu no Rio de Janeiro em 1865 e faleceu na mesma cidade em 1918.
Ao contrário dos poetas anteriores, que iniciaram sua vida literária ainda com produções românticas, Olavo Bilac já iniciou sua carreira seguindo os preceitos do Parnasianismo.
Influenciado por seu pai, militar que esteve na Guerra do Paraguai, desde cedo Bilac se interessou pelos ideais da República, sendo um dos autores do Hino à Bandeira.
olavo-bilac
Sua poesia é marcada pelo rigor com que trabalhou a linguagem e a forma de seus poemas. Assim como os demais parnasianos, mesmo sendo republicano, ignorou os acontecimentos sociais importantes de sua época, como a abolição da escravatura e a Primeira Guerra Mundial.

Apesar de figurar entre os poetas impassíveis do Parnasianismo, Bilac declarou certa vez:
Aos chamados poetas parnasianos também se deu outro nome: “impassíveis”. Quem pode conceber um poeta que não seja suscetível de padecimento? Ninguém e nada é impassível: nem sei se as pedras podem viver sem alma. Uma estátua, quando é verdadeiramente bela, tem sangue e nervos.
Assim, Bilac justifica sua poesia rigorosa, porém, com ares sentimentalistas pertencentes ao livro “Via Láctea”. O Soneto XIII é um dos poemas mais famosos da literatura brasileira. Quem poderia pensar que um verdadeiro escultor e ourives da palavra seria o autor de um soneto tão sensível? Ou será que o que encontramos no soneto é um sentimentalismo artificial, fabricado e não genuíno?

Soneto XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Literatura - Parnasianismo (2)

Autores do Parnasianismo

Raimundo Correia

Nasceu em 1859, em São Luís (MA) e faceleu em 1911, em Paris.
Sinfonias, seu primeiro livro parnasiano, recebeu prefácio de Machado de Assis e segue, como os demais parnasianos, a moda da época.
Sua temática gira em torno da natureza, de elementos da cultura clássica e da descrição de objetos. A diferença é que sua poesia recebe um forte traço pessimista e de desilusão, por vezes, impressionista.
raimundo-correia
Há uma polêmica em torno de Correia, pois muitos escritores e críticos levantaram a hipótese de seu poema mais conhecido “As Pombas”, ser uma tradução, ou um plágio de um poema de Théophile Gautier. Confira abaixo o poema na íntegra.

As Pombas

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
Das pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

Literatura - Parnasianismo

Parnasianismo

Este movimento se originou juntamente com o Realismo e o Naturalismo a partir da segunda metade do século XIX. Na realidade, o Parnasianismo é considerado o "Realismo em poesia".
No entanto, didaticamente, as produções poéticas do Realismo estão organizadas como um movimento à parte.
Diferentemente do Realismo, que usava a ficção como teses científicas para a sociedade, mostrando o pior dela, o Parnasianismo pouco se interessou por tais questões. 
A influência do cientificismo e do positivismo esteve atrelada à estética da poesia. A busca pela formalidade da linguagem e a rigidez das formas foram as principais características do período. Assim, o movimento ficou conhecido por buscar a “arte pela arte”, com inspiração nos ideais poéticos clássicos, sem sofrer influência de aspectos das teorias sociais, tão em voga no momento.

Capa da revista modernista Klaxon número 7, satirizando a poesia parnasiana brasileira.
Esta imagem acima é uma brincadeira feita pela revista Klaxon, uma das mais importantes divulgadoras das ideias e da literatura modernista no início do século XX. A imagem foi escolhida para introduzir o movimento parnasiano, no sentido de ilustrar como os autores e as poesias do período eram vistos: "forjadores" de poemas e artificiais, respectivamente. 
Iniciado na França, o movimento teve como principais autores Téophille Gautier, Leconte de Lisle e Théodore de Banville. No Brasil, os maiores expoentes da poesia parnasiana são Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac. Lembrando que Machado de Assis, na chamada “segunda fase” de sua obra, dedicou-se à poesia, sendo esta considerada parnasiana.
O modelo de poesia parnasiana foi duramente combatido pelos ideais modernistas do início do século XX. Alegava-se que ela era artificial, vazia (de conteúdo) e que se encontrava “presa” dentro de uma forma rígida. A seguir, estudaremos as principais características do Parnasianismo.

Parnasianismo (continuação)

Principais características

Da mesma forma como o Arcadismo (Neoclassicismo), o nome “Parnasianismo” vem de um local da mitologia clássica: o Monte Parnaso, reservado ao deus Apolo e às suas musas.
Contrários ao sentimentalismo, ao subjetivismo e à falta de rigor da poesia romântica, os parnasianos dedicaram-se a uma poesia empenhada na objetividade, na impessoalidade, no racionalismo e na rigidez da forma, cuja temática principal girava, basicamente, em torno de alguns fatos históricos e de objetos, como vasos e estátuas, remetendo a elementos da cultura clássica. Um dos poemas mais famosos do período é “Vaso Grego”, de Alberto de Oliveira, que se tornou um símbolo da poesia parnasiana.
Nesse movimento, os poemas (em geral, sonetos) possuem formas fixas, compostas de versos alexandrinos (12 sílabas poéticas) ou decassílabos (10 sílabas poéticas), sempre com a chamada rima rica. Impera também a intensa descrição visual e o preciosismo sobre o elemento-tema do poema. Os poetas do Parnasianismo são frequentemente comparados aos ourives, pois trabalham minuciosamente em materiais nobres como o ouro.
st-eligius
Santo Elói (588-660) foi um ourives conhecido pela sua habilidade em trabalhar com o ouro, um material nobre.
Saiba mais
Rima rica: considera-se rica aquela rima que atende a dois critérios: conter variação da classe gramatical das duas palavras que rimam e apresentar a rima ainda antes da sílaba tônica.

Autores

Os três principais escritores do Parnasianismo são Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac. Suas obras priorizavam a estrutura formal, a linguagem erudita e a temática clássica, uma espécie de retorno à poesia neoclássica, na contramão das questões sociais, abordadas pelos principais escritores que se dedicaram à prosa.  
triade-parnasiana
Autores da chamada "tríade parnasiana": Alberto Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac.

Autores do Parnasianismo

Alberto de Oliveira

Nasceu em Palmital de Saquarema (RJ) em 1857 e faleceu em 1937, na cidade de Niterói. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
Era farmacêutico, mas se dedicou à poesia, juntamente com os amigos Raimundo Correia e Olavo Bilac, inspirados no movimento parnasiano francês.
Por causa da importância que deram à forma e ao trabalho minucioso da linguagem, os três ficaram conhecidos como “os príncipes poetas”. 
alberto-oliveira
Alberto de Oliveira é considerado o maior poeta parnasiano, e sua obra segue os rígidos preceitos do movimento. Sua poesia gira em torno da natureza e da descrição de objetos, sempre exaltando suas formas por meio de uma métrica rígida e de uma linguagem trabalhada e rebuscada. Leia, a seguir, Vaso Grego um de seus poemas mais conhecidos e estudados.

Vaso Grego

Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada,
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.
Era o poeta de Teos que a suspendia
Então e, ora repleta ora, esvazada,
A taça amiga aos dedos seus tinia
Toda de roxas pétalas colmada.
Depois... Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e, do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás de lhe ouvir, canora e doce,
Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.