1 de dezembro de 2019

Literatura - Pré-Modernismo

Pré-Modernismo

O Pré-Modernismo teve seu início em 1902, estabelecendo como limite as obras Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Canaã, de Graça Aranha. Terminou em 1922, com a Semana de Arte Moderna.
O movimento representou o momento de transição e de preparação para a fase de emancipação da literatura brasileira, o Modernismo.
O Pré-Modernismo, que coexistiu com o Simbolismo e o Parnasianismo, apontou os problemas de nossa realidade cultural e social.

Os Sertões, de Euclides da Cunha (1902) e Canaã, de Graça Aranha, 1902

Avenida Central, Rio de Janeiro. A grande reforma urbana ocorrida no início do século revelou um Brasil moderno e com características europeias. No entanto, por trás dessa fachada, persistiam o atraso e a pobreza. Os escritores das primeiras décadas do século conseguiram explorar, em suas obras, as contradições do país.

Contexto histórico

O início do século XX foi marcado pelo confronto das rivalidades internacionais, que teve como resultado a Primeira Guerra Mundial (1914 – 18) e que teve como resultado o surgimento de uma nova potência: os Estados Unidos da América. Em 1917, com a Revolução Russa, o proletariado toma o poder. Começaram, então, a tomar forma dois regimes opostos: o comunismo e o capitalismo.
No Brasil, o Pré-Modernismo desenvolveu-se na época de transição da República da Espada (ditadura militar) para a República das Oligarquias ou República do café com leite, onde o Brasil foi governado ora por donos de fazendas cafeeiras de São Paulo, ora por fazendeiros de Minas, os dois estados mais ricos do país.
No entanto, nas cidades surgia uma classe média reformista e, nos quartéis, uma geração de militares, entusiasmados por ideias positivistas, que exigiam mudanças. Ao mesmo tempo, surgia pela primeira vez no país uma massa popular insatisfeita e propensa à revoltas sem sentido, como por exemplo a rebelião contra a vacina obrigatória (Revolta da Vacina), em 1904.

Imagem Revolta da Vacina – 1904

Pré-Modernismo (continuação)

Características

Assim como o Romantismo, o Pré-Modernismo caracterizava-se pela temática nacionalista; o primeiro, com textos de cunho ufanista e o segundo, com um nacionalismo crítico, questionador.
Os primeiros vinte anos do século XX foram marcados tanto pela presença de resíduos culturais do século XIX, como pelo desejo de uma redescoberta crítica do Brasil.
Oscilando entre uma produção conservadora, com características realistas/naturalistas na prosa e parnasiano-simbolistas na poesia e, uma produção inovadora com um profundo interesse e preocupação em registrar, na prosa, os desequilíbrios sociais da época. Na poesia, Augusto dos Anjos utiliza palavras antipoéticas que afrontam a sensibilidade parnasiana.
Para saber mais:
Ufanista: patriótico, nacionalista, orgulhoso, vaidoso, etc.

Denominação do período

A denominação do período surgiu em razão do ecletismo da época, onde várias correntes e estilos indefinidos chocavam-se entre o academicismo e a inovação. O responsável pela criação do termo pré-modernismo foi o crítico Alceu de Amoroso Lima, em 1950.

Alceu Amoroso Lima, também conhecido pelo pseudônimo Tristão de Athayde, presença importante no cenário intelectual brasileiro.
No entanto, é correto afirmar que se trata de um conceito equivocado, que não compreende a complexidade estética e ideológica das obras então produzidas, considerando-se apenas textos precursores da Semana de Arte Moderna. No entanto, exigências didáticas e a falta de outra classificação aceitável acabaram por difundir o referido termo. Portanto, pré-modernismo passou a indicar a maior parte das obras produzidas no período.
Para saber mais:
Ecletismo: combinação de diferentes estilos.

Manifestações artísticas no período

No Brasil, o ecletismo acadêmico deu fôlego à pintura em um período que se situa entre o esgotamento das propostas iniciadas com a instalação da Academia Imperial e o Modernismo.
Em 1915, Lasar Segall fez a primeira exposição de arte moderna, seguido por Anita Malfatti, que em 1917, expôs seus quadros para mostrar o que aprendera com os mestres expressionistas alemães e norte-americanos.

Reprodução da Obra de Lasar Segall – Menino e lagartixas

Reprodução da Obra de Anita Malfatti – A estudante russa
No artigo "Paranoia ou mistificação?", Monteiro Lobato criticou impetuosamente a mostra, fato que gerou grande polêmica e que seria a fermentação para a Semana de Arte Moderna.

Trecho do artigo de Monteiro Lobato, publicado no Estado de São Paulo.
Na música, compositores brasileiros com formação erudita, como Alberto Nepomuceno, utilizavam temas do folclore brasileiro. Na música popular, o choro, o maxixe, a modinha e o samba substituíram a polca, o tango e a valsa nos salões. Importantes compositores do período: Ernesto Nazaré e Chiquinha Gonzaga, autora da primeira marchinha de carnaval, Ô abre alas, em 1899.

Chiquinha Gonzaga aos 47 anos

Autores do Pré-Modernismo

Euclides da Cunha

Euclides da Cunha nasceu em Cantagalo, estado do Rio de Janeiro. Era filho de um guarda-livros que, através do casamento tornou-se um pequeno fazendeiro.
Sua mãe morreu quando ainda era criança, aos três anos de idade. A partir disso, iniciou uma vida errante por casa de parentes, sem um paradeiro fixo, o que justificaria seu caráter triste e arredio.
Em razão da falta de recursos de seu pai para poder pagar um curso universitário, ingressou na Escola Militar, de onde foi expulso, em 1888, por afrontar o ministro da Guerra do Império. Estudou Engenharia Civil. Após a Proclamação da República foi reintegrado às Forças Armadas. Manteve-se no Exército até os trinta anos, quando se reformou voluntariamente, com o posto de capitão.

Euclides da Cunha, Rio de Janeiro, 1866 - 1909
Em 1897, foi correspondente de Guerra (Guerra dos Canudos) e passados quatro anos do fim da guerra, após inúmeras reflexões sobre o que havia presenciado, escreve, em 1902, Os Sertões e torna-se celebridade do dia para a noite.
Em 21 de setembro de 1903, Euclides da Cunha foi eleito para a cadeira nº 7 da Academia Brasileira de Letras. Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha morreu no Rio de Janeiro, no dia 15 de agosto de 1909.

Obras de Euclides da Cunha

Os Sertões

Os Sertões - obra de Euclides da Cunha, 1902
Nesta obra, Euclides da Cunha descreveu a terra, o homem, a sociedade, a religião, enfim, todos os aspectos do sertão brasileiro. Sua intenção foi não só revelar à nação a vida humilde e desamparada do povo do sertão, esquecido pelos governantes; mas, também, denunciar o erro do governo com sua expedição punitiva, sem considerar os precedentes de natureza sociológica que deram motivo para o conflito. A obra divide-se em três partes:
  • a terra: descrição geográfica da região e das difíceis condições de sobrevivência de seu povo;

Exemplo de moradia em Canudos
  • o homem: caracterização dos vários tipos brasileiros. O autor detém-se no jagunço, a “sub-raça” com suas desgraças e torturas. Apresenta Antonio Conselheiro, o líder de Canudos;

Sertanejo (jagunço) prisioneiro, seu destino, a degola.
  • a luta: descrição da resistência heroica de Antonio Conselheiro e o massacre de 25.000 pessoas.

Antônio Conselheiro: foto tirada duas semanas após sua morte (morte natural), pelo fotógrafo Flávio de Barros, a serviço do Exército. O cadáver de Antônio Conselheiro foi exumado e sua cabeça foi decepada e enviada para a Faculdade de Medicina da Bahia, para ser objeto de estudos e análises frenológicas.
Para saber mais:
Frenologia: estudo da estrutura do crânio de modo a determinar o caráter das pessoas e a sua capacidade mental.
O trecho abaixo corresponde ao penúltimo capítulo de Os Sertões:
“Fechemos este livro.
Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.” (...)
Para saber mais:
Expugnado: conquistado/tomado à força das armas.
A importância de Os Sertões
A respeito de seu texto, disse Euclides da Cunha: “Escrevi este livro para o futuro.”. Certamente, nenhuma outra obra em nossa cultura teve tão ampla repercussão. O texto interliga duas camadas estruturais: a ensaística e a literária, que se tornaram fontes permanentes de debates.
ensaística botou em xequetodas as compreensões que a intelectualidade brasileira tinha sobre seu próprio país, passando a influenciar inevitavelmente a discussão política sobre os destinos da nação. Durante boa parte do século XX, os anseios modernizadores e integradores das elites civis e militares parecem ter provindo dessa obra, hoje considerada um clássico da nacionalidade.
literária, embora apresente caráter irreproduzível na sua linguagem, nutriu como motivo e visão de mundo numerosos relatos do chamado ciclo nordestino do Romance de 30, principalmente Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e Seara Vermelha, de Jorge Amado. Estudos recentes também apontam a forte influência de Os Sertões sobre a obra de João Guimaraes Rosa.
Outras obras de destaque: Contrastes e Confrontos (1907) e A Margem da História (1909).

Autores do Pré-Modernismo

Graça Aranha

Graça Aranha (José Pereira da Graça Aranha) nasceu em 21 de junho de 1868 em São Luís (MA), filho de uma família de posses. Cursou Direito no Recife, exercendo a magistratura por algum tempo no interior do Espírito Santo, fato que lhe iria fornecer material para um de seus mais notáveis trabalhos - o romance Canaã.
Logo em seguida, entrou para o Itamarati, onde atuou em importantes missões diplomáticas. Consagrado com o romance Canaã, publicado com grande sucesso editorial em 1902, ingressou ainda jovem na Academia Brasileira de Letras, com a qual romperia em 1924 por ter sido recusado o projeto de renovação que elaborara.

Graça Aranha, Maranhão, 1868 – 1931
No período da Semana de Arte Moderna, foi o único intelectual pré-modernista a participar ativamente através da conferência de abertura em 13 de fevereiro de 1922, intitulada: “A emoção estética na arte moderna”. Graça Aranha é considerado um dos líderes do movimento renovador de nossa literatura. Faleceu no Rio de Janeiro, já consagrado como escritor e pensador, em 26 de janeiro de 1931.

Publicação no Jornal do Brasil sobre a morte de Graça Aranha

Principais obras de Graça Aranha

  • Canaã (1902)
  • A estética da vida (1921)

Canaã


Folha de rosto de Canaã - obra de Graça Aranha, 1902
O romance Canaã, publicado em 1902, traz o resultado de observações de uma colônia de imigrantes alemães no Espírito Santo. A formulação da obra mesclava uma estrutura convencional de narrativa, apresentando enredo e personagens ficcionais e um eixo dominante centrado no debate de ideias.
Desta forma, Canaã estabelecia no Brasil um gênero desconhecido: o romance-ensaio, o romance de tese, ou seja, um romance onde as ideias são mais importantes do que o enredo da obra.
A narrativa gira em torno de dois imigrantes alemães, Mikau e Lentz, recém chegados da Europa e que trabalham como colonos no interior do Espírito Santo. Os personagens discutem sobre o futuro do país emitindo teorias sobre o atraso social do Brasil, assim como sobre o papel da imigração no futuro do país, por fim, acabam discutindo o sentido da existência humana.
O personagem Lentz possui ideias colonialistas, onde o Brasil seria um país condenado a não ter expressão mundial, devido à presença dominante de raças mestiças. A incumbência do imigrante consistiria então em demonstrar a superioridade da raça ariana. No âmbito pessoal, o personagem apresenta uma nostalgia prussiana: ele acredita em um universo dividido em guerreiros (seres fortes, repletos de vontade e etnicamente puros) e as grandes massas, considerado como um grupo amorfo e incapaz.
O personagem Mikau, por sua vez, defende a integração do imigrante à realidade do país, seja ela do ponto de vista social ou racial, idealizando uma democracia étnica. Acrescenta-se a isso uma filosofia individual fundamentada em um vago socialismo cristão, onde prevalecem ideais de solidariedade, amor e piedade. O sonho idealizado de um mundo de harmonia e paz a ser realizado futuramente no país, vendo Canaã como a terra prometida.
Ao final da obra, Lentz rende-se ao ambiente brasileiro e acaba por se mostrar generoso e humano, fato que representa uma adesão, ainda que involuntária, às ideias de seu compatriota. Mikau, de certa forma, torna-se o vencedor do debate.
Para saber mais:
Amorfo: indiferente, sem personalidade formada e sem princípios morais e éticos.

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