Simbolismo
Precedentes
A partir de 1880, na França, ocorreu uma reação contra os pontos de vista cientificistas da elite intelectual da época, representadas na literatura pelo fatalismo naturalista e pelo rigor parnasiano.
Nesse sentido, o Simbolismo surgiu como uma recusa a todos os valores ideológicos e existenciais da burguesia, e não apenas como uma estética oposta à literatura, objetiva, descritiva e plástica, mais especificamente a poesia lírica.
Nasce então uma nova arte europeia por meio da marginalidade de Verlaine, do amoralismo de Rimbaud e da destruição de linguagem por Mallarmé, em oposição a Belle Époque, do capitalismo financeiro e industrial que se apoderava até então de boa parte do mundo.
Para saber mais
A expressão francesa Belle Époque significa “bela época”, e representa um período de cultura cosmopolita na história da Europa. Essa fase foi marcada por transformações culturais intensas que demonstravam novas formas de pensar e viver. Considerada uma época de ouro, beleza, inovação e paz entre os países.
A expressão francesa Belle Époque significa “bela época”, e representa um período de cultura cosmopolita na história da Europa. Essa fase foi marcada por transformações culturais intensas que demonstravam novas formas de pensar e viver. Considerada uma época de ouro, beleza, inovação e paz entre os países.
Neste momento, o artista passa a experimentar, à maneira dos românticos, um intenso incômodo na realidade e na cultura, partindo do mundo escolhido pelo racionalismo burguês e desvendando um universo estranho de associações de ideias, imagens oníricas e lembranças sem significado definido. Essa realidade era formada por um universo etéreo, de sensações evanescentes e o poeta teria que reproduzir tais sensações na escrita.
Deste modo, o Simbolismo tem por definição o anti-intelectualismo, propondo como ideal a lírica pura, não racional, que usa imagens, e não conceitos. As poesias simbolistas são consideradas difíceis, misteriosas e herméticas. Cada poema se apresenta como uma forma de enigma, com inúmeros significados. Por esta razão, muitos críticos enxergam nas obras simbolistas os fundamentos da arte moderna, principalmente os da arte surrealista.
Surgimento
Os primeiros indicativos do movimento apontam para Baudelaire, através da publicação de As Flores do Mal (1857), apontando certas perspectivas simbolistas.

Obra do escritor francês Charles Baudelaire - As Flores do Mal (1857)
No ano de 1884, Verlaine publicou sua obra intitulada de Arte poética, onde os princípios da escola simbolista eram evidentes. Em 1886, Jean Moréas usou um manifesto para formar teoricamente o Simbolismo. Veja o que diz um trecho desse manifesto:
Como todas as artes, a literatura evolui: evolução cíclica com todas as voltas estritamente determinadas que se compilam com as diversas modificações trazidas pela marcha dos tempos e pelas revoluções dos meios. Seria supérfluo observar que cada nova fase evolutiva da arte corresponde exatamente à decrepitude senil, […] da escola imediatamente anterior.
Assim o Romantismo, após soar todos os tumultuosos alarmas da revolta, após haver tido seus dias de glória e de batalha, abdicou de suas audácias heroicas […]; na honrosa e mesquinha tentativa dos parnasianos, ele esperou falaciosos renovadores; depois finalmente, tal como um monarca deposto na infância, deixou-se depor pelo Naturalismo, ao qual não se pode conceder seriamente senão um valor de protesto legítimo, mas imprudente. Uma nova manifestação de arte era, portanto, esperada, necessária, inevitável. […] Já propusemos a denominação de Simbolismo como a única capaz de designar razoavelmente a tendência atual do espírito criador em arte. (TELLES, 2002, p. 62).”
Simbolismo (continuação)
Contexto histórico
Ao final de 1880, o mundo ocidental passava por transformações culturais, sociais e políticas. A França, como centro transmissor de cultura, é derrotada na guerra contra a Alemanha. A derrota compromete um universo de ideias e concepções. As proposições científicas e o predomínio da razão sobre os sentimentos passam por uma revisão.
Como resultado, a arte tende ao abandono da objetividade e retoma as posições de ordem subjetiva do Romantismo. Os anseios, as aspirações individuais e coletivas, difundidas através de várias gerações.
Na Europa, o Simbolismo representou a oposição à valorização do material, ao imperialismo econômico, que até então triunfava, voltando-se ao mundo interior. No Brasil, a mudança ocorreu entre os anos de 1893 e 1895, quando o país passava por guerras civis (Revolta Armada 1893 e Revolta Federalista 1893-95) e enfrentava um ambiente de mudanças econômicas e sociais com o processo de República instaurado no país.
Contexto cultural no Brasil
O Simbolismo no Brasil é um movimento que acontece à margem do sistema cultural dominante. Seu desenvolvimento ocorre no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná.
Os poetas brasileiros que a princípio adotaram as ideias de Baudelaire, Verlaine e Mallarmé tornaram-se alvos de zombarias e de desprezo, passando a ser chamados de decadentes ou nefelibatas, pois a maioria dos críticos não os compreendia e o leitor mostrava-se indiferente e hostil diante daquela linguagem poética complicada e pretensiosa. Após o manifesto de Jean Moréas, em 1886, o termo Simbolismo foi consagrado para designar a nova escola.

Publicação no jornal francês Le Figaro do manifesto de Jean Moréas
Os primeiros registros foram feitos por Medeiros e Albuquerque a partir de 1890. No entanto, os textos que realmente dão início ao Simbolismo no Brasil pertencem a Cruz e Sousa, com as publicações de Missal (poemas em prosa) e Broquéis (poemas em versos) no ano de 1893.

Missal e Broquéis
Características do Simbolismo
Subjetivismo, individualismo e imaginação
Valorizava o mundo interior do indivíduo. Apresentava poesia “difícil”, que versava sobre o “eu” profundo e as “emoções”, manifestando os desejos íntimos e a visão pessoal e sombria do mundo.
Usava expressões como: “toda alma num cárcere anda presa”, “os miseráveis, os rotos são as flores dos esgotos” ou ainda “esta profunda e intérmina esperança”.
Conteúdo irracional: poemas vagos e complexos, imprecisos e, alguns, indecifráveis. Em razão disso, os poetas da época foram chamados de “nefelibatas”, ou seja, sonhadores quanto aos seus ideais, nebulosos quanto ao conteúdo e inatingíveis quanto à linguagem. Veja:
“Nos Santos óleos do luar floria
teu corpo ideal, com resplendor da Helade...
E em toda a etérea, branda claridade
como que erravam fluidos de harmonia.”
(Cruz e Sousa - Em Sonhos...)
teu corpo ideal, com resplendor da Helade...
E em toda a etérea, branda claridade
como que erravam fluidos de harmonia.”
(Cruz e Sousa - Em Sonhos...)
“Desta torre desfraldam-se altaneiras,
por sóis de céus imensos broqueladas,
bandeiras reais, do azul das madrugadas
e do íris flamejante das poncheiras.”
(Cruz e Sousa - Torre de Ouro)
por sóis de céus imensos broqueladas,
bandeiras reais, do azul das madrugadas
e do íris flamejante das poncheiras.”
(Cruz e Sousa - Torre de Ouro)
Diante dos registros simbolistas, é fundamental que o leitor sinta a musicalidade e a sugestão, ao invés de preocupar-se em compreender a mensagem, algo que nem sempre é possível.
Musicalidade e figuras de linguagem
O objetivo da musicalidade nos versos era o de criar uma atmosfera de mistério e sugestão. Para os poetas, as palavras deveriam sugerir, evocar e não descrever e definir.
As palavras eram escolhidas pela sonoridade, valendo-se do uso repetido de um mesmo fonema para sugerir um som que aproximasse a linguagem do conteúdo (aliterações), assonâncias (repetindo as mesmas vogais tônicas em palavras diferentes) e, também, fazendo uso de rimas e ecos. Observe:
“Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.
Vozes veladas, veludosas vozes
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.”
(Cruz e Sousa - Violões que Choram)
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.”
(Cruz e Sousa - Violões que Choram)
Misticismo e espiritualismo
Denotava a fuga da realidade, conduzindo o poeta simbolista ao mundo espiritual. Realizava uma viagem ao mundo invisível e imaterial do ser humano e utilizava-se de vocabulários litúrgicos, tais como: antífona, missal, ladainha, hinos, breviários, turíbulos, aras, incensos. Observe:
“O ventre em pinchos, empinava todo
como réptil objeto o lodo
espolinhando e retorcido em fúria.
como réptil objeto o lodo
espolinhando e retorcido em fúria.
Era a dança macabra e multiforma de um
verme estranho, colossal enorme
do demônio sangrento em luxúria.”
(Cruz e Sousa - Dança do Ventre)
verme estranho, colossal enorme
do demônio sangrento em luxúria.”
(Cruz e Sousa - Dança do Ventre)
Sinestesia
Na poesia simbolista os poetas iam além dos significados usuais das palavras, atribuindo qualidade às sensações, ou seja, utilizavam a sinestesia, que possibilitava a expressão de estados do inconsciente, onde as imagens se associavam em planos nem sempre lógicos; a partir de uma ideia era possível despertar várias sensações.
São algumas construções sinestésicas: som vermelho, dor amarela, doçura quente, silêncio côncavo. Veja:
“Tarde de olhos azuis e de seios morenos.
Ó tarde linda, ó tarde doce que se admira,
Como uma torre de pérolas e safira.
Ó tarde como quem tocasse um violino.
Tarde como Endimion, quando ele era menino
Tarde em que a terra está mole de tanto beijo,
Porém querendo mais, nervosa de desejo...”
(Emiliano Perneta)
Ó tarde linda, ó tarde doce que se admira,
Como uma torre de pérolas e safira.
Ó tarde como quem tocasse um violino.
Tarde como Endimion, quando ele era menino
Tarde em que a terra está mole de tanto beijo,
Porém querendo mais, nervosa de desejo...”
(Emiliano Perneta)
Referências:
GONZAGA, Sergius. Curso de literatura brasileira.1.ed.Porto Alegre: Leitura XXI, 2004.
OLIVEIRA, Ana Tereza Pinto de. Literatura Brasileira: teoria e prática.1.ed.São Paulo: Rideel, 2006.
TELLES, G.M. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 17.ed. Petrópolis: Vozes, 1997.
OLIVEIRA, Ana Tereza Pinto de. Literatura Brasileira: teoria e prática.1.ed.São Paulo: Rideel, 2006.
TELLES, G.M. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. 17.ed. Petrópolis: Vozes, 1997.
Autores do Simbolismo
João da Cruz e Sousa (Dante Negro ou Cisne Negro)
Nasceu em 24 de novembro de 1861 na cidade de Desterro, atual Florianópolis (SC).
Era filho de escravos que foram alforriados por seu senhor, o coronel (depois marechal) Guilherme Xavier de Sousa, de quem João da Cruz recebeu o último sobrenome e a proteção.
Ao ser vítima de racismo mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil, contribuindo também com o jornal Folha Popular.

Cruz e Sousa (Florianópolis, 1861-1898)
Em fevereiro de 1893 publicou Missal (prosa poética) e, em agosto, Broquéis (poesia), dando início ao Simbolismo no Brasil - que se estendeu até 1922. Em novembro desse mesmo ano casou-se com Gavita Gonçalves, também negra, com quem teve quatro filhos, todos mortos prematuramente por tuberculose.
Sua poesia, inicialmente, foi influenciada pelo Romantismo de origem contestadora de Castro Alves e pela ideia realista baseada na crítica social, carregada de impulsos pessoais e dos sofrimentos causados pela miséria, desprezo e condição social. No entanto, essas influências foram dando lugar à visão simbolista mais voltada à poetização de verdades existenciais subjetivas.
Suas obras são marcadas pela musicalidade (uso de aliterações), pelo individualismo, pelo sensualismo, ora pelo desespero, ora pelo apaziguamento, além de uma obsessão pela cor branca - manifestada por sua condição racial e a tentativa de superá-la.
Há três fases na poesia de Cruz e Sousa - o “Cisne Negro" ou "Dante Negro”:
- A primeira fase corresponde aos livros Missal e Broquéis (1893), onde o poeta demonstra a dor e o sofrimento de ser negro, e os conflitos entre o transcendental e os apelos sensuais.
Percebe-se a utilização de recursos simbolistas pelo autor, tais como repetições, aliterações e sinestesias, buscando obter um efeito melodioso. Empregava também letras maiúsculas para expressar o absoluto (Mistério, Luz, Morte, Dor) e o vocabulário litúrgico para criar uma aura mística, misteriosa.

Publicações: Missal e Broquéis
Observe este fragmento do poema Antífona:
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...
Formas do Amor, constelarmente puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas...
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas...
Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...
Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes...
Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.
(...)
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.
(...)
- A segunda fase do poeta corresponde à publicação de Faróis (1900), onde é revelada a angústia e a melancolia. Seus poemas trazem como tema principal a morte, o tédio, a revolta e o desespero interior.

Primeira edição de Faróis
Podemos observar esses elementos no trecho de Violões que Choram:
Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.
Rasgando as almas que nas sombras tremem.
Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...
Dedos nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram
Gemidos, prantos, que no espaço morrem...
E sons soturnos, suspiradas mágoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.
Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
(...)
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
(...)
- A terceira fase de Cruz e Sousa é revelada nos versos de Últimos Sonetos, publicados em 1905. É considerado o período que reflete a resignação e a fé conquistadas pelo poeta.

Últimos Sonetos
Podemos comprovar a mudança de fase pelos poemas:
Crê!
Vê como a Dor te transcendentaliza!
Mas no fundo da Dor crê nobremente,
Transfigura o teu ser na força crente
Que tudo torna belo e diviniza.
(...)
Vê como a Dor te transcendentaliza!
Mas no fundo da Dor crê nobremente,
Transfigura o teu ser na força crente
Que tudo torna belo e diviniza.
(...)
Caminho da Glória
Este caminho é cor de rosa e é de ouro,
Estranhos roseirais nele florescem,
Folhas augustas, nobres reverdecem
De acanto, mirto e sempiterno louro.
Este caminho é cor de rosa e é de ouro,
Estranhos roseirais nele florescem,
Folhas augustas, nobres reverdecem
De acanto, mirto e sempiterno louro.
Neste caminho encontra-se o tesouro
Pelo qual tantas almas estremecem;
É por aqui que tantas almas descem
Ao divino e fremente sorvedouro.
Pelo qual tantas almas estremecem;
É por aqui que tantas almas descem
Ao divino e fremente sorvedouro.
É por aqui que passam meditando,
Que cruzam, descem, trêmulos, sonhando,
Neste celeste, límpido caminho.
Que cruzam, descem, trêmulos, sonhando,
Neste celeste, límpido caminho.
Os seres virginais que vêm da Terra
Ensanguentados da tremenda guerra,
Embebedados do sinistro vinho.
Ensanguentados da tremenda guerra,
Embebedados do sinistro vinho.
Sorriso Interior
O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranquila.
O ser que é ser e que jamais vacila
Nas guerras imortais entra sem susto,
Leva consigo esse brasão augusto
Do grande amor, da nobre fé tranquila.
Os abismos carnais da triste argila
Ele os vence sem ânsias e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ele os vence sem ânsias e sem custo...
Fica sereno, num sorriso justo,
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser transforma tudo em flores...
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!
E para ironizar as próprias dores
Canta por entre as águas do Dilúvio!
Principais obras de Cruz e Sousa
- Broquéis (1893)
- Missal (1893)
- Evocações (1899)
- Faróis (1900)
- Últimos Sonetos (1905)
Cruz e Sousa morreu em 19 de março de 1898 em Minas Gerais, na localidade de Curral Novo, vítima de tuberculose.
Autores do Simbolismo
Alphonsus de Guimaraens
Nasceu na cidade de Ouro Preto (MG) no dia 24 de julho de 1870, filho de comerciante português e de uma sobrinha do escritor romântico Bernardo Guimaraens.
Estudou na cidade natal e depois cursou Direito em São Paulo. Alimentou uma paixão platônica pela filha do autor de A Escrava Isaura, Constança, que morreria de tuberculose antes de completar dezoito anos e, para quem escreveu muitos de seus versos. Ao retornar para Minas Gerais, desempenhou a função de juiz em Conceição do Serro e, posteriormente, em Mariana.

Alphonsus de Guimaraens
Casou-se com Zenaide, uma jovem de dezessete anos com quem teve quatorze filhos. Exceto pelo abalo sentimental que sofreu com a morte de sua amada, teve uma vida tranquila, que reflete em sua obra. Seus poemas são suaves, apesar de expressarem melancolia. Suas obras caracterizam-se pela musicalidade e vocabulário expressivo. Denotam uma busca constante pela espiritualização e giram em torno dos seguintes temas:
- A morte da mulher amada
- A religiosidade litúrgica, com poemas dedicados à Virgem Maria
A Morte da Mulher Amada
A morte da mulher amada representa um tema dominante em sua obra. Seus poemas demonstram a impossibilidade de esquecê-la e apresentam ideias fúnebres, destacando-se a melancolia e a musicalidade. Podemos observar essa forte carga de emoção no soneto Hão de chorar por ela os cinamomos:
Hão de chorar por ela os cinamomos
Murchando as flores ao tombar do dia
Dos laranjais hão de cair os pomos
Lembrando-se daquela que os colhia.
Murchando as flores ao tombar do dia
Dos laranjais hão de cair os pomos
Lembrando-se daquela que os colhia.
As estrelas dirão: - "Ai, nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria..."
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.
Pois ela se morreu silente e fria..."
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.
A lua que lhe foi mãe carinhosa
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.
Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: - "Por que não vieram juntos?"
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: - "Por que não vieram juntos?"
Vocabulário
Silente: silencioso, secreto
Silente: silencioso, secreto
Também podemos observar o sofrimento do poeta na obra Ismália, onde a solidão, a loucura e a morte se fundem.
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar.
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar.
A Religiosidade Litúrgica
A morte precoce de sua amada associada ao clima místico das cidades barrocas mineiras serviram de inspiração para Alphonsus de Guimaraens. Ao contrário de Cruz e Sousa, que apresenta uma espiritualização filosófica e repleta de angústias, a de Alphonsus traz elementos mais voltados ao emotivo, baseando-se em preces e crenças simples. Demonstra que a divinização de Nossa Senhora corresponde à sublimação do amor pela mulher amada morta, sugerindo a troca de uma paixão concreta por uma devoção católica.
Tal tendência pode ser observada em seu poema A catedral:
Tal tendência pode ser observada em seu poema A catedral:
Entre brumas ao longe surge a aurora.
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu risonho
Toda branca de sol.
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu risonho
Toda branca de sol.
E o sino canta em lúgubres responsos:
Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus! (...)
Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus! (...)
Por entre lírios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Põe-se a lua a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu tristonho
Toda branca de luar.
A tarde esquiva: amargurada prece
Põe-se a lua a rezar.
A catedral ebúrnea do meu sonho
Aparece na paz do céu tristonho
Toda branca de luar.
E o sino dobra em lúgubres responsos:
Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!
Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!
O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o rosto meu.
E a catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem açoitar o rosto meu.
E a catedral ebúrnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.
E o sino geme em lúgubres responsos:
Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!
Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!
Vocabulário
Hialino: transparente
Arrebol: vermelhidão do nascer ou do pôr do sol.
Ebúrnea: de marfim
Responsos: versículos rezados ou cantados
Hialino: transparente
Arrebol: vermelhidão do nascer ou do pôr do sol.
Ebúrnea: de marfim
Responsos: versículos rezados ou cantados
Principais Obras de Alphonsus de Guimaraens

Manuscrito de um soneto de Alphonsus de Guimaraens
- Setenário das Dores de Nossa Senhora (1899)
- Dona Mística (1889)
- Câmara Ardente (1899)
- Kyriale (1902)
Afonso Henrique da Costa Guimarães (seu nome civil) morreu na cidade de Mariana (MG) no dia 15 de julho de 1921, praticamente na obscuridade, às vésperas da Semana de Arte Moderna de 1922.
Outros Simbolistas
Pedro Kilkerry
Pedro Kilkerry foi um poeta ignorado em seu tempo e redescoberto pelos críticos de vanguarda. É considerado o líder do movimento simbolista baiano. Era filho de um irlandês com uma mestiça baiana e formou-se em Direito pela Faculdade da Bahia.
Seus poemas foram impressos em jornais e revistas da época, especialmente nas publicações simbolistas Os Anais e Nova Cruzada.
O poeta não deixou obra editada. Sua poesia foi editada em livro pela primeira vez no ano de 1970. Pedro Kilkerry foi o criador de uma linguagem poética fragmentária, concreta, condensada e com fortes rupturas sintáticas e semânticas, formada por aliterações, onomatopeias e neologismos.

Pedro Kilkerry
No poema É o silêncio, o poeta relata o processo de criação. Observe um fragmento desse poema:
É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.
Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
(...)
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
(...)
Outros Simbolistas
Emiliano Perneta
Emiliano Perneta é considerado o responsável por introduzir o Simbolismo no Brasil por suas atividades na Folha Popular, jornal em que foram publicados os primeiros manifestos simbolistas.
É considerado o principal representante do Simbolismo paranaense e figura nacional entre os simbolistas.
Formou-se em Direito e desempenhou na sua terra natal a advocacia, o jornalismo e o magistério. Sua poesia pode ser considerada expressionista, às vezes contendo um clima satânico por influência da poesia francesa e do próprio Romantismo, que está submetido ao Simbolismo.

Emiliano Perneta
Como homem das letras, Emiliano Perneta escreveu: Músicas (1888), Inimigo, Ilusão e Setembro.

Poesias Completas de Emiliano Perneta (1945)
Suas obras remetem a um homem movido pelo desejo intenso de conhecer o próprio fim. Observe a linguagem nos poemas:
Corre Mais que uma Vela
Corre mais que uma vela, mais depressa,
Ainda mais depressa do que o vento,
Corre como se fosse a treva espessa
Do tenebroso véu do esquecimento.
Eu não sei de corrida igual a essa:
São anos e parece que é um momento;
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais do que a luz e o pensamento...
É uma corrida doida essa corrida,
Mais furiosa do que a própria vida,
Mais veloz que as notícias infernais...
Corre mais fatalmente do que a sorte,
Corre para a desgraça e para a morte...
Mas que queria que corresse mais!”
Corre mais que uma vela, mais depressa,
Ainda mais depressa do que o vento,
Corre como se fosse a treva espessa
Do tenebroso véu do esquecimento.
Eu não sei de corrida igual a essa:
São anos e parece que é um momento;
Corre, não cessa de correr, não cessa,
Corre mais do que a luz e o pensamento...
É uma corrida doida essa corrida,
Mais furiosa do que a própria vida,
Mais veloz que as notícias infernais...
Corre mais fatalmente do que a sorte,
Corre para a desgraça e para a morte...
Mas que queria que corresse mais!”
Damas
Ânsia de te querer que já não tem mais fim,
Meu espírito vai, meu coração caminha,
Como uma estrela, como um sol, como um clarim,
Mas tudo em vão, sei eu! Tu és uma rainha! ...
Ânsia de te querer que já não tem mais fim,
Meu espírito vai, meu coração caminha,
Como uma estrela, como um sol, como um clarim,
Mas tudo em vão, sei eu! Tu és uma rainha! ...
És a constelação maravilhosa, a minha
Aspiração, de luz magnífica, ai de mim!
A nudez, o clarão, a formosura, a linha,
O espelho ideal! Ó Torre de Marfim!
Aspiração, de luz magnífica, ai de mim!
A nudez, o clarão, a formosura, a linha,
O espelho ideal! Ó Torre de Marfim!
Nunca me hás de querer, batendo-me por ti,
Pomo duma discórdia infrutífera, beijo
Todo em fogo, e a arder, assim como um rubi...
Pomo duma discórdia infrutífera, beijo
Todo em fogo, e a arder, assim como um rubi...
Mas é por isso que eu, ó desesperação,
Amo-te com furor, com ódio te desejo,
E mordo-te, Ideal, e adoro-te, Ilusão!
Amo-te com furor, com ódio te desejo,
E mordo-te, Ideal, e adoro-te, Ilusão!
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