Autores do Romantismo (prosa)
José de Alencar
José de Alencar (1829 - 1877) nasceu em Messejana, no Ceará, e faleceu no Rio de Janeiro.
Advogado, jornalista e romancista, teve papel fundamental para o desenvolvimento do romance e do pensamento intelectual no Brasil do século XIX. É patrono número vinte e três da Academia Brasileira de Letras por escolha de Machado de Assis.
Primeiro escritor romântico a desenvolver o romance com temas mais variados e abrangentes do que seus sucessores. Alencar empenhou-se em retratar diversas esferas e incluir o maior número de tipos de personagens até então vistos na literatura brasileira.

José de Alencar
Alencar não se contentou somente com a sociedade burguesa carioca de seu tempo mas, também, empenhou-se nos tipos brasileiros como o gaúcho e o sertanejo. Sua intenção era de retratar um painel geral do país, de norte a sul, além de tentar estabelecer uma linguagem brasileira.
Segundo o crítico José de Nicola em seu Literatura Brasileira: das origens aos nossos dias (ed. Scipione, 2001), a obra de José de Alencar é um retrato de suas condições políticas e sociais: grande proprietário de terras, político e conservador, monarquista, nacionalista exagerado e escravocrata. O romancista transparece essas posições em sua obra, como se pode perceber na maneira como retrata os índios e a sexualidade feminina em seus romances.
A seguir, veremos quais são suas principais obras e como elas são divididas.
José de Alencar (continuação)
Obras
Os críticos costumam dividir em quatro as fases principais da produção de José de Alencar:
a) urbana ou social: Cinco Minutos (1856), A viuvinha (1860), Lucíola (1862), Diva (1864), A pata da gazela (1870), Sonhos d'ouro (1872), Senhora (1875), Encarnação (1893);
b) indianista: O Guarani (1857), Iracema (1865), Ubirajara (1874);
c) histórico: As Minas de Prata (1865), Guerra dos Mascates (1873);
d) regionalista: O gaúcho (1870), O Tronco do Ipê (1871), Til (1872), O Sertanejo (1875);
Curiosidade: no ano de 1856 Alencar publica uma série de cartas em resposta ao poema A Confederação dos Tamoios (1857), de Gonçalves de Magalhães.
A coletânea de oito cartas, pubilcada sob o título de Cartas sobre a confederação dos tamoios pretendia criticar o poema de Magalhães que, na época, era protegido do imperador Dom Pedro II. A crítica recai principalmente no modelo escolhido por Magalhães para seu poema, o épico, um gênero clássico que não seria adequado para cantar o índio brasileiro.
Além disso, critica a fraca musicalidade do poema, a falta de "arte" na descrição da natureza brasileira e dos costumes indígenas. No ano seguinte (1857), Alencar publica seu primeiro romance indianista, O Guarani como resposta ao poema de Magalhães.
a) romances urbanos ou sociais:
As características principais dos romances urbanos ou sociais são:
- final feliz ou ideal;
- prevalência do amor verdadeiro;
- protagonistas femininas (que refletem um "ideal de feminilidade");
- retrato das relações familiares;
- ambiente doméstico;
- casamentos;
- questões financeiras (heranças, dotes, títulos, falências...);
- prevalência do amor verdadeiro;
- protagonistas femininas (que refletem um "ideal de feminilidade");
- retrato das relações familiares;
- ambiente doméstico;
- casamentos;
- questões financeiras (heranças, dotes, títulos, falências...);
Os três romances mais conhecidos dessa fase são: Lucíola (1862), Diva (1864) e Senhora (1875) que fazem parte da chamada trilogia "perfis de mulheres". Eles retratam uma sociedade elegante marcada pela ascenção da burguesia carioca empenhada em seguir a moda das cidades europeias, mais notadamente de Paris, no que diz respeito tanto às vestimentas quanto à vida cultural no período do Segundo Reinado.
Os enredos, dramáticos, seguem uma estrutura tradicional das histórias de amor: situação inicial - conflito/quebra - reparação/solução. O drama quase sempre gira em torno de um jovem casal que precisa enfrentar obstáculos sociais, geralmente envolvendo questões financeiras, se quiserem ficar juntos.

Arrufos (1887), pintura de Belmiro de Almeida
Enredos
Lucíola (1862) - o romance conta a história de amor entre um jovem rapaz que chega ao Rio de Janeiro e a cortesã de luxo Lúcia. Narrado em primeira pessoa pelo personagem Paulo Silva, o romance é escrito sob a forma de cartas, enviadas por Paulo para uma senhora, G. M., que mais tarde as publica sob a forma de um romance.

Ao chegar na cidade, Paulo sai com um amigo para conhecer a cidade quando, na Rua das Mangueiras, avista uma bela moça dentro de um carro por quem se encanta. Dias depois, revê a moça na festa religiosa de Nossa Senhora da Glória e fica sabendo, no entanto, que a bela moça é a prostituta mais luxuosa e cobiçada da cidade. Paulo então a procura com desejo de possuí-la e os dois acabam se encantando um pelo outro, como amigos e amantes. Os amigos de Paulo tentam persuadí-lo acerca da índole da moça, além de sugerir que a moça é caprichosa, excêntrica e avarenta, o que faz com que o moço se questione acerca das intenções de Lúcia.
Um dos amigos de Paulo, o Sá, organiza uma festa na qual convida, entre outros, a Lúcia. A festa, na realidade, era apenas um pretexto para mostrar a Paulo que tipo de mulher era Lúcia. No meio da janta, ela se levanta e começa, nua, a imitar as poses lascivas dos quadros expostos na sala mediante pagamento dos convidados. Momentos mais tarde, os dois amantes se encontram no jardim e Lúcia se justifica, dizendo que fez o que fez em um momento de desespero, pois Paulo havia zombado dela anteriormente. Em seguida, os dois se entregam ao amor.
Paulo passa a viver com Lúcia, que se redime de sua condição de prostituta e deseja viver única e exclusivamente para seu amor. Para isso, deixa de frequentar a sociedade e volta-se para seu amor com Paulo. Cometida por um sentimento de amor puro, Lúcia transforma-se consideravelmente, passando a, inclusive, a não querer mais se entregar fisicamente para Paulo, que não compreende essa mudança de atitude. Esse novo estilo de vida levanta uma série de reprovações por parte dos amigos de Paulo, que reprovam sua atitute. Lúcia, querendo salvar-lhe a reputação, dispõe-se a voltar a aparecer em sociedade, acarretando mais reprovações por parte de Paulo. Os dois não se entendem mais e Lúcia adoece.
A partir de então, Paulo passa a respeitá-la, pois compreende que a moça, na verdade, o ama em espírito e confia nele a ponto de contar-lhe seus segredos e a história de sua vida. Ela, na verdade, chama-se Maria da Glória e era uma criança feliz e inocente até que, aos 14 anos, a febre amarela levou consigo toda sua família. Para sobreviver, precisou pedir ajuda a um rico vizinho, em troca de sua inocência. O pai, que sobrevivera graças a ajuda conseguida pela filha, expulsou a moça de casa ao saber da procedência do dinheiro. Maria da Glória, então, foi acolhida por uma caftina que a conduz à prostituição.
Na nova profissão, Maria da Glória fez amizade com outra moça que passara pelos mesmos infortúnios. Lúcia era seu nome, e a moça veio a falecer pouco tempo depois. Maria da Glória, então, colocou seu próprio nome no atestado de óbito e passou a assumir a identidade da amiga morta. Com a morte dos pais, a nova Lúcia passou a guardar todo o dinheiro possível para garantir a educação da irmã Ana, que passou a viver em um colégio. Lúcia, então, falece e pede a Paulo que cuide de sua irmã Ana como se fosse sua própria filha, para que nada falte à menina.
O final do romance é considerado "ideal", pois não rompe as barreiras sociais que recaíram sobre o casal. A união dos dois personagens não é apropriada, e não era vista com bons olhos pela sociedade conservadora da época. Por isso, Alencar precisou dar um fim trágico a sua personagem, porém, redimindo-a de sua vida de pecadora com a morte e com o amor verdadeiro.
É dito que o título do romance é uma alusão a Lúcifer, o diabo, dando a entender o caráter dúbio e incompreensível do amor e da sexualidade feminina.
Obras de José de Alencar (continuação)
Diva (1864) - dando continuidade às cartas para a senhora G. M., agora Paulo conta a história de amor entre seu amigo, o Dr. Augusto Amaral, e a jovem Emília. Paulo e Augusto se conheceram a bordo de um navio rumo ao Recife: enquanto Paulo permanecera em sua cidade natal, o outro, jovem médico, partira para Paris e lhe enviara um manuscrito, confessando ao amigo o amor pela moça, cujo conteúdo é o romance que se segue.
Emília é uma menina feia que cresce em meio ao luxo das grandes famílias ricas do Rio de Janeiro. Porém, quando muito jovem, contrai uma doença mas é salva pelo dr. Amaral. Dois anos mais tarde, depois de sua viagem, o jovem médico retorna à casa a convite de seu pai mas a mnina, agora uma bela moça, o ignora e mostra desdém.
Por "diva", compreende-se uma mulher que é muito bonita e altiva, com ares de divindade e superioridade e que é assim vista por seus admiradores. O título do romance é explicado a partir da descrição que o narrador (Augusto) faz de Emília:
Era alta e esbelta. Tinha um desses talhes flexíveis e lançados, que são hastes de lírio para o rosto gentil; porém na mesma delicadez do porte esculpiam-se os contornos mais graciosos com firme nitidez das linhas e uma deliciosa suavidade nos relevos.
Não era alva, também não era morena. Tinha sua tez a cor das pétalas da magnólia, quando vão desfalecendo ao beijo do sol. Mimosa cor de mulher, se a aveluda a pubescência juvenil, e a luz coa pelo fino tecido, e um sangue puro a escumilha de róseo matiz. A dela era assim.
Uma altivez de rainha cingia-lhe a fronte, como diadema cintilado na cabeça de um anjo. Hava em toda a sua pessoa um quer que fosse de sublime e excelso que a abstraía da terra. Contemplando-a naquele instante de enlevo, dir-se-ia que ela se preparava para sua celeste ascenção.
Mais adiante:
Por esse tempo Emília fez a sua entrada no Cassimo.
- Já viu a rainha do baile? disseram-me logo que cheguei.
- Ainda não. Quem é?
- A Duartezinha.
- Ah!
Realmente, a soberania da formosura e elegância, ela a tinha conquistado. Parecia que essa menina se guardara até aquele instante, para de improviso e no mais fidalgo salão da corte fazer sua brilhante metamorfose. Nessa noite ela quis ostentar-se deusa; e vestiu os fulgores da beleza, que desde então arrastavam após si a admiração geral.
- Já viu a rainha do baile? disseram-me logo que cheguei.
- Ainda não. Quem é?
- A Duartezinha.
- Ah!
Realmente, a soberania da formosura e elegância, ela a tinha conquistado. Parecia que essa menina se guardara até aquele instante, para de improviso e no mais fidalgo salão da corte fazer sua brilhante metamorfose. Nessa noite ela quis ostentar-se deusa; e vestiu os fulgores da beleza, que desde então arrastavam após si a admiração geral.
O romance passa a maior parte do tempo mostrando os "jogos" e conflitos entre os dois personagens e o esforço da parte de Augusto em compreender os motivos da atitude ríspida de Emília e meios para se aproximar da moça, por quem está muito interessado. Ao final do romance, Augusto declara seu amor por Emília, que diz não o amar. Porém, a moça se arrepende do que havia dito e assume que, na verdade, a paixão que ele sente por ela é recíproca. Ela então se rende ao amor que sente por ele e os dois ficam juntos.
O enredo denota as principais caracteristicas dos romancs urbanos de Alencar: um enredo simples, porém, com personagens psicologicamente mais elabordos do que os vistos até então na literatura brasileira. A descrição dos costumes da alta sociedade e da corte, do que se passava dentro dos salões e da intimidade das alcovas das senhoras munido de um vocabulário rebuscado fez de Alencar um escritor singular em seu tempo.
Curiosidade: No prólogo do romance, José de Alencar discursa sobre a produção de suas obras de acordo com o estilo utilizado. Ele havia recebido críticas acerca da composição por esta ser excessivamente composta por "galicismos". O autor discorda e afirma que, como defensor de uma língua em constante evolução, em oposição a um exagerado clacissismo, que em nada contribuiria para o desenvolvimento da língua na literatura. Com relação à "influência" do idioma estrangeiro, Alencar diz:
Sem o arremedo vil da locução alheia e a limitação torpe dos idioma estrangeiros,, devem as línguas aceitar algumas novas maneiras de dizer, graciosas e elegantes, que não repugnem ao seu gênio e organismo.
Logo, Alencar estava começando a defender um novo idioma falado e escrito no país que naturalmente se diferenciaria daquele falado no outro continente.
Saiba mais:
galicismo: utilização de palavras e/ou expressões de origem francesa.
clacissismo: utilização do estilo clássico nas artes, música, arquitetura e escultura.

Jardim com flores (1891), pintura de Belmiro de Almeida
Senhora (1875) - um dos romances mais conhecidos de Alencar, agora o narrador conta uma história aos leitores, não sendo mais Paulo (o narrador dos dois livros anteriores) quem assume a voz narrativa. Já no prólogo, há uma nota informando seus leitores de que os fatos contidos no romance tratam de uma história verídica a ele narrada.
Senhora conta a história de amor entre Aurélia Camargo, uma moça pobre e orfã que se apaixona pelo belo Fernando Seixas. Os dois noivam, porém, o moço se desilude por ela ser pobre e por ter esperanças de encontrar uma moça mais rica e, assim, faturar um dote significativo.
Inesperadamente, o avô de Aurélia falece, deixando para a moça uma vultosa herança transformando a moça antes pobre em uma das mais ricas mulheres da corte. A partir daí, Aurélia maquina um plano para se vingar de Fernando: por meio de seu tutor, o Sr. Lemos, ela manda uma proposta de casamento "anônima" a Fernando, oferecendo cem contos de réis (soma grandiosa para a aquela época). O moço, ambicioso e em péssimas condições financeiras, aceita a proposta, sem saber a identidade da noiva misteriosa.
No dia do casamento, quando o mistério é então resolvido, e os noivos se encontram, Aurélia anuncia que os dois viverão em aposentos separados e que aparecerão juntos apenas em público, para a sociedade. Fernando se arrepende da sua decisão e da sua leviandade e junta, com muito esforço, a soma anteriormente paga pelo dote e propõe a separação.
Apesar de conflituoso, o breve casamento uniu os dois personagens que, através da experiência, puderam amadurecer suas ideias sobre o amor e os sentimentos que nutriam um pelo outro. Por fim, os dois se reconciliam e conseguem resolver as diferenças. Novamente, temos um final feliz para um romance de Alencar.
Dividido em quatro partes: O Preço, Quitação, Posse e Resgate, a narrativa não segue uma ordem cronológica.
A primeira parte retrata os eventos em um tempo presente à narrativa, isto é, a apresentação de Aurélia na sociedade, a proposta de casamento à Fernando e a noite de núpcias, ao passo que Quitação trata do passado dos dois personagens.
Em Poss, temos novamente o tempo presente da narrativa e os principais conflitos entre os personagens. O amadurecimento de ambos e o gradual arrependimento de Fernando são as principais características dessa parte. Por fim, em Resgate, um ano após o casamento, Fernando entrega a Aurélia a soma correspondente ao valor do dote e propõe a separação. No entanto, Aurélia confessa que deixou toda sua fortuna como herança para Fernando.
A narrativa é em terceira pessoa e acompanha o enredo do ponto de vista do que acontece com Aurélia. Isto é, há um desenvolvimento psicológico da personagem ao mesmo tempo em que ela é idealizada pelo narrador.
O romance reflete as intenções de uma elite carioca, na figura de Fernando Seixas, que via o casamento como moeda de troca para a ascenção social. Enquanto a moça chora o amor perdido, o rapaz vai em busca de dinheiro fácil e que valoriza apenas as aparências. Alguns críticos consideram o romance como um dos precursores do realismo, que viria a ser desenvolvido em nossa literatura por Machado de Assis, ao questionar os valores da sociedade da época e dos casamentos motivados por interesse.
Segundo o crítico José de Nicola, o romance revela um confronto entre a velha sociedade de Alencar, aristocrática e rural, e a emergente sociedade burguesa, de comerciantes e capitalistas, que firmava raízes no Rio de Janeiro.
Saiba mais:
dote: é uma soma em dinheiro ou bens que a família da noiva dava ao noivo na ocasião do casamento. Era um meio de assegurar que a nova família possuísse meios para se sustentar até que o marido conseguisse uma fonte de renda ou que a família recebesse suas partes na herança.
conto de réis: moeda corrente no Brasil no século XIX.

A atriz Antônia Marzullo em peça baseada no romance Senhora (1942)
Os clichês do romantismo aparecem em peso nesse romance: o pesar com a perda do amor, a fortuna inesperada, o mistério, a redenção, o arrependimento e o final feliz com o casamento dos personagens principais.
Por fim, o romance é considerado um dos mais interessantes da literatura brasileira pela estrutura narrativa, pela crítica que faz à sociedade burguesa e pelo próprio enredo, que se destaca das demais obras até então produzidas no Brasil.
Obras de José de Alencar (continuação)
b) romances indianistas
Características principais:
- nacionalistas;
- exaltação da natureza;
- idealização do índio;
- temas históricos;
- resgate de lendas;
- índio como um herói, europeizado, quase medieval;
- contato do índio com o europeu colonizador;
- exaltação da natureza;
- idealização do índio;
- temas históricos;
- resgate de lendas;
- índio como um herói, europeizado, quase medieval;
- contato do índio com o europeu colonizador;
Os romances mais conhecidos da fase são O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874).
O Brasil, agora uma nação indepentende, precisava definir seus heróis nacionais e os autores indianistas viam o índio como o personagem ideal por este ser quem primeiro expressou amor às terras brasileiras, defendendo seu território e seu povo contra os colonizadores europeus.
Outros autores, como o Padre Anchieta, Basílio da Gama e Gonçalves Dias já haviam versado sobre a singularidade do índio brasileiro, porém, com o desenvolvimento da prosa e a popularização dos romances de folhetins, Alencar pôde não apenas criar histórias mas também desenvolver e difundir junto aos seus leitores um sentimento de nacionalidade mais abrangente e que tocasse em todos os seus leitores baseando-se nos heróis medievais europeus, símbolos de honra e bravura.
Enredos
O Guarani (1857) - publicado em formato de folhetim para o Diário do Rio de Janeiro durante o ano de 1857, O Guarani é provavelmente o romance de Alencar mais conhecido e aclamado, sendo considerado um clássico da literatura brasileira. O romance possui todos os elementos do romance romantico e indianista, principalmente por se tratar do contato entre os indígenas que aqui estavam com os europeus.
O romance é uma história de amor entre um índio e a filha de um fidalgo português D. Antônio de Mariz que viera às terras brasileiras recebidas por Mem de Sá, um dos primeiros administradores de terra da colônia.
Logo no Prólogo, Alencar avisa seus leitores de que a história que irá contar está presente em um manuscrito encontrado em um velho armário na ocasião da compra de sua casa, de maneira a se eximir caso o trabalho seja considerado ruim.
Dividido em quatro partes: Os Aventureiros, Peri, Os Aimorés e Catástrofe, o romance retorna ao ano de 1604, época em que os reinos de Portugal e Espanha ainda disputavam terras no novo continente. A trama inicia às margens do rio Paquequer, um afluente do rio Paraíba, onde está localizado a residência fortificada do fidalgo D. Antônio de Mariz, que vive com sua esposa, Dona Lauriana, seu filho Diogo, sua filha Cacília, sua sobrinha Isabel e o índio Peri. Na propriedade viviam também aventureiros que participavam de expedições, entre eles, Loredano, o ambicioso italiano que, mais adiante, torna-se o vilão do romance. Outro personagem importante para a trama é Álvaro de Sá, um jovem nobre de confiança do fidalgo português.
O romance, além do fundo histórico, é uma história de amor entre o índio Peri e Cecília, moça loira e de olhos azuis, descrita como dona de uma alma generosa e inocente. Peri é o índio imaginado dentro do ideal do "bom selvagem", do filósofo francês Russeau, isto é, o índio bom e incorruptível por estar cada vez mais distante da civilização.
O enredo de O Guarani se mostra mais complexo do que os demais romances de José de Alencar. Nele, há dois principais conflitos: entre os índios e os portugueses que se estabeleceram nas terras e entre os admiradores de Cecília (Peri, Álvaro e Loredano), que estavam interessados na mão da moça.
Resumo da obra:
Parte 1 -- Os Aventureiros
O romance inicia com o aventureiro Álvaro de Sá e seus companheiros que, ao retornarem do Rio de Janeiro, encontram um selvagem, Peri, que se encontrava frente a frente com uma onça com o intuito de agradar a sua senhora Cecília. O jovem índio havia abandonado sua tribo, os Goitacás, por causa da linda jovem.
Álvaro também se apaixona por Cecília e tenta se aproximar deixando um presente em sua janela. Loredano, enciumado, derruba o presente da janela aos olhos de Peri.
No dia seguinte, Ceci e Isabel vão tomar banho de rio, quando são surpreeendidas por dois índios da tribo dos Aimorés. Peri aparece para defendê-las e é vítima de uma flechada. O motivo do ataque é a vingança: uma vez, Diogo matara sem querer uma índia aimoré e agora sua família viera prestar contas. Peri suspeita que haja um ataque à fazenda de D. Antônio.
Enquanto se reabilitava da flechada com o uso de ervas medicinais, Peri ouve uma conspiração vinda de Loredano, que pretende matar D. Antônio e sequestrar Cecília e Isabel para depois partir em busca de um tesouro cujo mapa Loredano conseguiu de maneira escusa.
D. Antônio acha que o evento às margens do rio que quase pôs fim às vidas de Ceci e Isabel era uma brincadeira de Peri e resolve mandá-lo embora de sua propriedade.
Parte II -- Peri
A narrativa retrocede em um ano e conta a história de Loredano, um frade carmelita que se apoderou de um mapa das minas de Prata de Robério Dias. Abandona a vida religiosa e o nome de Frei Angelo di Luca para se alojar na propriedade de D. Antônio. A partir daí, nutre planos para se apoderar de Cecília.
Há também a narrativa do pimeiro encontro dos personagens principais: o índio salva Cecília de ser esmagada por uma rocha e associa a imagem de Ceci com a da Nossa Senhora, nutrindo total adoração e fidelidade para com a moça.
De volta ao presente, D. Antônio encarrega Diego de levar adiante a honra da família e a Álvaro, para que cuide de Cecília com a morte do patriarca. Descobre que Peri não estivera brincando no dia do ataque às margens do rio e resolve perdoá-lo. O índio então adverte D. Antônio sobre a ameaça de ataque dos aimorés. Enquanto isso, Cecília procura aproximar Álvaro e Isabel, que nutem admiração um pelo outro.
Parte III --Os Aimorés
D. Antônio manda Diogo para o Rio de Janeiro em busca de ajuda contra o iminente ataque dos aimorés. Loredano entra no quarto de Cecília com o intuito de raptar a moça. Porém, tem sua mão transpassada por uma flecha de Peri. Enquanto D. Antônio e Loredano lutam corajosamente, a fazenda é atacada pelos índios e, por um momento, todos se unem para lutar contra o inimigo comum.
Porém, Peri planeja se infiltrar junto aos aimorés, se envenena e se deixa levar como prisioneiro.
Parte IV -- A Catástrofe
Enquanto Loredano prossegue com seu plano diabólico de sequestrar Cecília, seus companheiros, cientes dos verdadeiros interesses do ex-religioso, decidem matá-lo. Peri é resgatado por Álvaro e revela seu plano ao amigo: havia se envenenado com curare e se fez de vencido para que os inimigos, ao comerem sua carne (prática comum entre as tribos indígenas), ingerissem também o veneno. Com o resgate, ingere um antídoto e se livra do efeito do veneno.
Álvaro, desfalecido, é entregue a Isabel. A moça, ao imaginar que seu amado estivesse morto, ingere veneno para acabar com a própria vida. Com esse último beijo, os dois acabam com suas vidas. D. Antônio batiza Peri e o incumbe de uma missão: levar Ceci até a casa de uma tia, no Rio de Janeiro, para que ela seja criada longe dos conflitos com os indígenas. Enquanto os dois fogem em uma canoa, Peri assiste a destruição da fazenda pelos índios e a morte de seus habitantes (inclusive Loredano e D. Antônio). Quando Ceci acorda, fica sabendo do acontecimento trágico e se sente cada vez mais próxima e encantada por Peri.
Uma enchente na Paraíba faz com que os dois se abriguem no topo de uma palmeira. Quando a água os alcança, Peri evoca a lenda de Tamandaré. Arranca, então, a palmeira em um esforço praticamente inverossímil. A narrativa encerra com os dois deslizando pela superfície do rio.
Saiba mais
(1) A ópera O Guarani (Il Guarany), do compositor brasileiro Antônio Carlos Gomes (1836 - 1896), foi composta inspirada no romance de Alencar. A ópera estreou no Teatro Scala, Milão, em 1870. Logo, a ópera foi composta no idioma italiano, pois essa era a língua em que as óperas eram produzidas. O compositor finalizou seus estudos na Europa, onde recebeu o título de Maestro Compositor, quando obteve conhecimento do romance de José de Alencar, o que o motivou a compor a ópera, que conta com o libreto do poeta Antonio Scalvino.

Ilustração da Ópera O Guarani de Carlos Gomes feita por Bordallo Pinheiro para revista O Besouro em 1878
(2) curare -- é um composto venenoso extraído de plantas cujo efeito é paralisante.
(3) final em aberto -- técnica utilizada para permitir que os leitores interpretem o final de um romance de acordo com sua inclinação. No caso de O Guarani, temos que Peri e Ceci deslizam pelo rio em uma palmeira sem que o autor desenvolva uma saída para a situação. Não saberemos se os dois chegaram ao Rio de Janeiro, se ficaram juntos ou, é claro, se morreram nessa longa viagem pelo rio.
(4) Goiatacás e Aimorés -- nomes de duas tribos indígenas que ocupavam parte do território brasileiro antes da chegada dos europeus. Os aimorés eram inimigos dos brancos e eram antropófagos, isto é, se alimentavam do corpo dos guerreiros mais valentes da tribo inimiga porque acreditavam que assim absorveriam a valentia do guerreiro capturado.
Obras de José de Alencar (continuação)
Iracema (1865) - o romance segue os mesmos moldes de O Guarani, isto é, apresenta uma história de amor cujo pano de fundo é o conflito entre as tribos indígenas que habitavam o litoral e o interior do território brasileiro e os conflitos entre os indígenas e os colonizadores europeus.
Porém, em Iracema, o que Alencar pretende é apresentar uma história baseada na lenda que deu origem ao primeiro habitante nascido no Brasil: Moacir, nome que significa "filho da dor" e seria o filho entre a bela índia dos lábios de mel e o guerreiro português Martim.
O romance pode ser considerado uma obra em "prosa poética" pois apresenta uma narrativa épica, um lirismo amoroso e todo um trabalho com o vocabulário, porém, em formato de romance. Alencar não o fez em forma de verso por julgar que os nativos brasileiros não combinavam com o estilo classicista, tão distante em tempo e espaço dos gregos e romanos, e que a literatura brasileira deveria manifestar seu ideal de nacionalidade por meio da língua, desenvolvendo uma escrita e um estilo prórpios, desvinculados do clássico.
Segundo o próprio Alencar, em carta endereçada ao Dr. Jaguaribe e anexada ao final do romance:
Sem dúvida que o poeta brasileiro tem de traduzir em sua língua as ideias, embora rudes e grosseiras, dos índios; mas nessa tradução está a grande dificuldade; é preciso que a língua civilizada se molde quanto possa a singeleza primitiva da língua bárbara; e não represente as imagens e pensamentos indígenas senão por termos e frases que ao leitor pareçam naturais na boca do selvagem. (...) A elasticidade da frase permitiria então que se empregassem com mais claresa as imagens indígenas, de modo a não passarem despercebidas. Por outro lado, conhecer-se-ia o efeito que havia de ter o verso pelo efeito que tivesse a prosa.
É, geralmente, considerado um romance de difícil leitura em função de seu vocabulário rebuscado e das inúmeras descrições que o autor faz da natureza e as comparações com seus personagens.

Iracema (1881), tela do pintor José Maria de Medeiros inspirada na personagem de José de Alencar
Enredo
A narrativa da lenda de Iracema inicia com uma cena em que o guerreiro português Martim Soares Moreno, aliado da tribo dos Pitiguaras, tribo habitante das terras litorâneas, se perde nas matas do território próximo à tribo dos Tabajaras, inimigos, habitantes das terras do interior. Lá, é surpreendido pela bela índia Iracema, que ameaça matá-lo com uma flecha.
Iracema é filha de Araquém, pajé dos tabajaras, e sacerdotisa vestal que guarda o segredo/mistério/sonhoss da Jurema, uma espécie de licor com propriedades alucinógenas. Ela e sua tribo acolhem Martim como hóspede e, na noite em que ocorrem as celebrações para Irapuã, o maior chefe da nação tabajara, o guerreiro branco decide fugir. Iracema o impede, alertando sobre os perigos da mata e pede para que ele espere pelo retorno de Caubi, seu irmão, para que possa guiá-lo em segurança no dia seguinte.
Martim e Iracema se apaixonam, o que desperta a ira de Irapuã, zeloso do papel que a jovem índia deve cumprir para com a sua tribo. Como guardiã do segredo da jurema, Iracema deve permanecer virgem, porém, entrega-se a Martim em uma noite em que o guerreiro, sob efeito do líquido alucinógeno entregue por Iracema, sonhou possuir a índia (quando, na verdade, estava possuindo mesmo). O guerreiro decide partir da tribo dos tabajaras para se ver livre de Irapuã quando Iracema revela o que acontecera enquanto Martim sonhava e se dispõe a acompanhá-lo.
Os dois partem ao encontro de Poti, chefe da tribo dos pitiguaras e considerado por Martim como um irmão. Irapuã os segue, o que acaba por causar um conflito entre as duas tribos inimigas. Iracema passa a viver com Martim, que adora o nome indígena de Coatiabo, e passa a gradativamente se desinteressar pela índia. Grávida, Iracema sofre com o desdém e com as ausências de seu amado.
Ao regressar de uma batalha, Martim encontra Iracema e seu filho, porém, a índia se encontra muito debilitada. Já sem forças, a índia entrega o filho Moacir, palavra indígena que significa "o nascido do sofrimento", e pede que Martim a enterre aos pés de um coqueiro de que ela tanto gostava. Este lugar onde Iracema supostamente estaria enterrada, segundo a lenda, passou a se chamar Ceará, que significa "canto da jandaia", ave favorita de Iracema.
Martim decide retornar para a Europa, levando consigo o filho Moacir. Quatro anos mais tarde, retorna ao Brasil com o filho para auxiliar na implantação da fé cristã. Poti, o chefe dos pitiguaras, recebe o nome português de Felipe Camarão e os dois ajudam o comandante Jerônimo de Albuquerque na luta contra os holandeses.
A narrativa de Iracema, no entanto, é fragmentada e o capítulo I inicia com a cena em que a embarcação em que Martim e Moacir se encontram no regresso ao Brasil. Do capítulo II ao XXXII ocorre a narrativa da lenda da Iracema, para, no capítulo XXXIII, retornar à cena da chegada de Martim e Moacir às terras americanas.

Iracema (1909), pintura de Antônio Parreiras
Saiba mais:
vestal - significa uma sacerdotisa que deveria se manter casta, isto é, virgem, preservando-se para a vida e para os rituais sagrados de sua tribo.
Veja abaixo um trecho do cpítulo II, em que há a descrição de Iracema:
Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.
Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo da grande nação tabajara, o pé grácil e nu, mal roçando alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.
Um dia, ao pino do sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto
Iracema saiu do banho; o aljôfar d'água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste
A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela As vezes sobe aos ramos da árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru te palha matizada, onde traz a selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá , as agulhas da juçara com que tece a renda, e as tintas de que matiza o algodão.
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se.
Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.
Curiosidade:
Iracema pode ser considerado um anagrama de "América", assim, Alencar estaria demonstrando como se deu a conquista das terras e a formação social do continente: pela exploração da natureza e da subjugação dos índios aos hábitos e ao trabalho dos colonizadores.
Obras de José de Alencar (continuação)
Ubirajara (1874) - o terceiro romance de temática indianista do autor, importante por dar sequência aos romances anteriores, Ubirajara também é uma lenda transformada em romance por Alencar.
Logo no início, o autor faz uma advertência a seus leitores de que as informações que temos até hoje sobre os indígenas provinham ou dos jesuítas ou dos aventureiros que chegavam no novo continente e que, nem sempre, a linguagem utilizada para descrevê-los estava de acordo com os costumes dos indígenas.
Por isso, Alencar critica a visão destes primeiros viajantes e religiosos, pois davam ao indígena um caráter meramente bárbaro, sem levar em consideração o aspecto sentimental e cultural da vida dos nativos. Escreve Alencar:
As coisas mais poéticas, os traços mais generosos e cavaleirescos do caráter dos selvagens, os sentimentos mais nobres desses filhos da natureza são deturpados por uma linguagem imprópria, quando não acontece lançarem à conta dos indígenas as extravagâncias de uma imaginação desbragada.

Ubirajara também é considerado um texto "irmão" de Iracema, embora narre eventos acontecidos antes da vinda dos europeus para o Brasil. Logo, os conflitos acontecem entre os povos indígenas, sem a intervenção dos colonizadores.
Jaguarê, um jovem caçador, precisa combater um inimigo para conseguir o título de guerreiro. Porém, encontra Araci, índia tocantim e filha do chefe da tribo inimiga, que o convence a lutar contra índios de sua tribo para disputar seu amor.
O jovem índio luta contra o tocantim Pojucã e aprisiona-o com sua lança e deixa como esposa a jovem Jandira, que era sua noiva. A índia foge para a floresta. A partir de então, Jaguarê torna-se Ubirajara, o senhor da lança, e procura Araci para desposá-la. Compete novamente com demais pretendentes e ganha o direito de se unir com Araci.
Descobre-se que Pojucã e Araci são irmãos e o jovem índio o liberta de seu cativeiro para que lute ao lado de sua tribo em uma guerra imintente entre as duas tribos. Porém, Ubirajara consegue não apenas reconciliar as duas tribos mas, também, as une, em uma nova e grande tribo nomeada Ubirajara, em seu nome e, como prêmio, desposa as duas índias, Araci e Jandira.
Obras de José de Alencar (continuação)
c) romances históricos
São os romances de fundo histórico, voltados para o período colonial brasileiro propondo uma nova interpretação para fatos marcantes do período colonial do século XVII, como a busca por ouro e as lutas pela expansão territorial.
Seus enredos denotam, em vários momentos, nacionalismo exaltado e a importância da construção histórica da pátria através da literatura.
Os principais romances desta fase são: As Minas de Prata (1865) e Guerra dos Mascates (1873). O romance As Minas de Prata retrata o início pelas minas de prata e a corrida por metais preciosos e A guerra dos Mascates trata dos conflitos entre as cidades históricas de Olinda e Recife.

d) romances regionalistas
Nesses romances, Alencar procurou dar conta da diversidade brasileira e das regiões que se encontravam distantes da corte e das principais cidades que receberam forte influência europeia. O autor desejava cobrir os territórios de maneira a mostrar como a vida de seus habitantes estava intimamente ligada ao meio físico no qual travavam contato.
Nesses romances, os homens recebem os papéis de destaque, em detrimento das personagens femininas, diversamente retratadas nos romances urbanos e sociais.
Porém, há controvérsias sobre o retrato feito por Alencar de seus homens: quando trata do nordestino e do sertanejo, Alencar consegue ser fiel à realidade por conhecer mais profundamente a região e seus habitantes. Porém, quando retrata o gaúcho o autor incorre em uma série de falhas, provenientes da falta de familiaridade com o tipo retratado e com a distância que separava Alencar do sul do país.
Os romances mais conhecidos desta fase são: O gaúcho (1870), O Tronco do Ipê (1871), Til (1872) e O Sertanejo (1875).
Demais autores do Romantismo
Embora menos expressivos quando se trata do cânone literário brasileiro, os autores a seguir são importantes pois também contribuíram para a produção literária do período. São eles:
Bernardo Guimarães
Seu livro mais conhecido é A escrava Isaura (1875), romance com pretensões abolicionistas que conta a história de Isaura, uma escrava branca, nobre e educada que é perseguida por Leôncio, seu senhor, um homem marcado pelos vícios sociais. A moça é salva pelo herói Álvaro, que a retira das garras do vilão.

Bernardo Guimarães (1827 - 1884)
Embora aborde a temática escravista, o romance mostra uma ideologia patriarcal, ao retratar uma escrava branca e que segue a educação dos moldes da elite. A questão dos escravos aparece de maneira superficial, não revelando a verdadeira condição dos negros que eram submetidos ao sistema social escravista.
Escreveu também outros romances, como O Seminarista (1872) e O Garimpeiro (1872).
Demais autores do Romantismo (continuação)
Maria Firmina dos Reis
Com relação à temática escravista, há outros romances na literatura brasileira que abordam a questão com uma visão mais acurada da realidade vivida pelos escravos, como é o caso do romance Úrsula (1859) de Maria Firmina dos Reis, considerado o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira.
Além disso, o romance é considerado o primeiro de autoria de uma afrodescendente e o primeiro romance de autoria feminina de nossa literatura.
No entanto, como as mulheres que se dedicavam à escrita eram vistas com preconceito pelos olhos dos escritores (pois as Letras no Brasil sempre foram um território predominantemente masculino), a autora se absteve de publicar Úrsula com seu nome verdadeiro e optou por usar o pseudônimo "Uma Maranhense".
Seu romance pode ser considerado inovador pois pela primeria vez utiliza a prosa para as denúncias de uma sociedade patriarcal sob o aspecto de suas principais vítimas: a mulher e o negro.

Maria Firmina dos Reis (1825 - 1917)
Diferentemente dos escritores do romantismo, que denunciavam a mesquinhez das relações pessoais em uma sociedade burguesa (como é o caso de José de Alencar), Maria Firmina dos Reis denuncia o que estava por trás dessas relações, isto é, a dominação e a exploração das mulheres e dos negros pelo marido e pelo senhor.
Educadora preocupada com a literatura e com a educação, a autora também foi professora e, depois de aposentada, fundou a primeira escola mista do estado. É responsável por uma série de poemas e contos no periódico literário Semanário Maranhense e em outros jornais, além do livro de poesias Cantos à beira-mar (1871) e um diário, publicado somente em 1975 pelo historiador José Nascimento Moraes Filho.
Saiba mais:
pseudônimo - nome fictício utilizado por um autor ou uma autora para velar sua verdadeira identidade. A prática era muito utilizada pelas mulheres que resolviam "se aventurar" no terreno das Letras, porém, sem expor o nome de seu marido e sua família pois a atividade da escrita pelas mulheres era vista com preconceito pelos homens.
pseudônimo - nome fictício utilizado por um autor ou uma autora para velar sua verdadeira identidade. A prática era muito utilizada pelas mulheres que resolviam "se aventurar" no terreno das Letras, porém, sem expor o nome de seu marido e sua família pois a atividade da escrita pelas mulheres era vista com preconceito pelos homens.
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