Produções contemporâneas
Poesia

Poesia concretista
A partir do final da década de 1950 aos dias atuais, a poesia caracteriza-se por propostas inovadoras da linguagem poética, que se estendem à música e à cultura popular.
Concretismo
O movimento concretista brasileiro surgiu oficialmente no ano de 1956 em São Paulo, a partir da Exposição Nacional de Arte Concreta e teve como proposta o poema-objeto. O concretismo é considerado o movimento mais controverso de poesia vanguardista brasileira.
O grupo Noigrandes, liderado por Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo Campos, foi o representante das propostas concretistas, que tinham como objetivo confrontar a produção poética de 1945, que era apontada pelo grupo como poesia subjetiva e incapaz de expressar a nova realidade gerada pela industrialização.

Grupo Noigrandes: à esquerda Augusto Campos, Décio Pignatari ao centro e Aroldo Campos à direita da imagem.
- Eliminação do verso tradicional, principalmente mediante a eliminação dos laços sintáticos (preposições, conjunções, pronomes, etc.). O objetivo era a produção de uma poesia objetica, concreta, produzida basicamente por substantivos e verbos.
- Uso de linguagem necessariamente sintética, dinâmica e equivalentes à sociedade industrial (que utilizava uma comunicação mais rápida).
- Utilização de paronomásias (com sonoridade semelhante), neologismos, estrangeirismos; separação de prefixos e sufixos; repetições de determinados morfemas; valorização da palavra solta (som, forma visual, carga semântica), que se fragmenta e se recompõe na página.
- Transformação do poema em objeto visual, valendo-se do espaço gráfico como agente estrutural: usando espaços em branco, recursos tipográficos, entre outros; em função disso, o poema além de lido é visto.
Observe um exemplo dessas características no poema Terra; de Décio Pignatari:

Augusto de Campos utiliza recursos visuais no poema em que um ovo desenha a si mesmo e seu significado, observe:

O concretismo uniu vários artistas em torno de suas propostas, mas ocorreram também divergências. Mário Chamie, no ano de 1962, com o livro Lavra-lavra, lançou a Poesia Práxis, que valorizava a palavra no seu contexto linguístico. Posicionando-se contra a palavra-objeto dos poetas concretistas, propôs a palavra energia.
As principais características da poesia práxis eram:- Produção de múltiplas interpretações;
- Rejeição ao formalismo e academicismo concretista;
- Maior valorização do conteúdo em detrimento da forma;
- Poesia Visual e Social.
Observe estas característicasno poema Agiotagem de Mário Chamie:
Agiotagem
Um
Dois
Três
o juro: o prazo
o pôr / o cento / o mês / o ágio
p o r c e n t a g i o.
dez
cem
mil
o lucro: o dízimo
o ágio / a mora / a monta em péssimo
e m p r é s t i m o.
muito
nada
tudo
a quebra: a sobra
a monta / o pé / o cento / a quota
h a j a n o t a
agiota.
Um
Dois
Três
o juro: o prazo
o pôr / o cento / o mês / o ágio
p o r c e n t a g i o.
dez
cem
mil
o lucro: o dízimo
o ágio / a mora / a monta em péssimo
e m p r é s t i m o.
muito
nada
tudo
a quebra: a sobra
a monta / o pé / o cento / a quota
h a j a n o t a
agiota.
Os principais representantes do movimento Poesia Práxis foram:
- Mário Chamie (1933 – 2011)
- Cassiano Ricardo (1895 -1974).
No ano de 1968, Wlademir Dias-Pino criou o movimento carioca que recebeu o nome de Poema/processo, que vigorou até o ano 1972. Neste movimento, a palavra deu lugar ao símbolo gráfico.

Poema visual de Wlademir Dias-Pino
Poetas que se destacaram com o poema/processo: José Cláudio, Ronaldo Werneck, Aquiles Branco, Álvaro de Sá, Dailor Varela, Neide Dias de Sá, Nei Leandro de Castro, Moacy Cirne, Celso Dias, dentre outros.
Poesia social
Os anos de ditadura no Brasil fizeram surgir uma poesia de resistência, onde se destacou Ferreira Gullar, que havia sido concretista, aderiu ao poema/processo e foi um dos fundadores do movimento Neoconcretismo no Rio de Janeiro.
Ferreira Gullar passa então a direcionar sua poesia para a temática social. Seu engajamento político cresce a partir do golpe de 64.
Observe estas características no poema Agosto 1964, do livro Dentro da noite veloz:
Agosto 1964
Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo
num ônibus Estrada de Ferro-Leblon.
Volto do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.
Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo
num ônibus Estrada de Ferro-Leblon.
Volto do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.
O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
relógio de lilases, concretismo,
neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
que a vida
eu compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito policial-militar.
relógio de lilases, concretismo,
neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
que a vida
eu compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito policial-militar.
Digo adeus à ilusão
mas não ao mundo. Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do horror,
retiramos algo e com ele construímos um artefato
mas não ao mundo. Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do horror,
retiramos algo e com ele construímos um artefato
um poema
uma bandeira
uma bandeira
Ferreira Gullar também escreveu Cabra marcado para morrer (1962), Poema sujo (1976), peças teatrais e ensaios.

Ferreira Gullar

Poema sujo - Ferreira Gullar
Poesia marginal
Essa poesia surgiu na década de 1970 e recebeu esse nome em razão de sua produção, edição e distribuição serem alternativas: em off-set ou mimeografadas, as tiragens eram pequenas e a distribuição ocorria pelos próprios poetas, de mão em mão, nas portas dos teatros, escolas, restaurantes, etc.
A linguagem utilizada era próxima da oral e mantinha pontos de contato com o Concretismo e o Poema/processo.
Basicamente formada por pequenos textos, alguns com apelo visual (fotos, quadrinhos, etc.) com temática cotidiana e erótica, permeadas de sarcasmo, humor, ironia, palavrões e gírias da periferia.

Representação da poesia marginal
Poetas que mais se destacaram na nesse movimento:
- Chacal (1951);
- Cacaso (1944-1987);
- Paulo Leminki (1944-1989);
- Torquato Neto (1944-1972).

Chacal – Um dos representantes da poesia marginal
Observe alguns exemplos desse movimento:
“Marginal é quem escreve à margem,
deixando branca a página
para que a paisagem passe
e deixe tudo claro à sua passagem.
Marginal, escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
quem veio primeiro,
o ovo ou a galinha”.
Paulo Leminki
deixando branca a página
para que a paisagem passe
e deixe tudo claro à sua passagem.
Marginal, escrever na entrelinha,
sem nunca saber direito
quem veio primeiro,
o ovo ou a galinha”.
Paulo Leminki
Papo de Índio
Veiu uns ômi di saia preta
cheiu di caixinha e pó branco
qui eles disserum qui chamava açucri
aí eles falarum e nós fechamu a cara
depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo
aí eles insistirum e nós comemu eles.
Chacal
Veiu uns ômi di saia preta
cheiu di caixinha e pó branco
qui eles disserum qui chamava açucri
aí eles falarum e nós fechamu a cara
depois eles arrepitirum e nós fechamu o corpo
aí eles insistirum e nós comemu eles.
Chacal
Prosa
Ainda que as produções deste período apresentem diversas tendências, de modo geral a prosa seguiu as linhas tradicionais, inovando quando adotou novas técnicas ou abordou outros temas, como a violência urbana e os grupos marginalizados.
Em paralelo ao romance, a narrativa curta – conto ou crônica – foi extremamente explorada. As tendências da prosa podem ser assim agrupadas:
- Prosa regionalista: representada por Mário Palmério (Vila dos confins, Chapadão do bugre), Bernardo Élis (O tronco), José Cândido de Carvalho (O coronel e o lobisomem), entre outros;

Prosa regionalista - O coronel e o lobisomem
- Prosa política: como reflexo do período da ditadura, que se caracteriza por:
- denúncia direta – romance reportagem: José Louzeiro (Lúcio Flávio, passageiro da agonia), Ignácio de Loyola Brandão (Zero), Márcio Souza (Galvez, o imperador do Acre), Antonio Callado (Reflexos do baile);

Prosa política – denúncia direta - Lúcio Flávio, passageiro da agonia
- denúncia indireta – realismo fantástico: Murilo Rubião (O pirotécnico Zacarias), José J. Veiga (A hora dos ruminantes, Sombras de reis barbudos), Moacyr Scliar (Carnaval dos animais);

Prosa política – denúncia indireta - Carnaval dos animais
- Prosa urbana: Rubem Fonseca (A coleira do cão, Feliz ano novo), João Antônio (Malagueta, Perus e Bacanaço), Dalton Trevisan (vampiro de Curitiba);

Prosa urbana - Feliz ano novo
- Prosa intimista: Lygia Fagundes Teles (Ciranda de pedra, Antes do baile verde), Autran Dourado (Ópera dos mortos), Osman Lins (O fiel e a pedra, Avalovara);

Prosa intimista - Ópera dos mortos
- Prosa memorialista: Pedro Nova (Baú de ossos), Érico Veríssimo (Solo de clarineta).

Prosa memorialista - Baú de ossos
Nenhum comentário:
Postar um comentário