Modernismo
Contexto histórico
As inquietações da primeira década do século XX se tornaram mais visíveis nos anos 1920, quando a República do café com leite apresentava sinais de decadência.
O contexto da crise da República no Brasil se deu no período bastante rico do ponto de vista cultural. No contexto mundial, era o período pós-guerra, e o continente europeu celebrava o fim do conflito e experimentava a efervescência intelectual.

Primeira Guerra Mundial
A arte moderna nasceu dessas várias tendências e se espalhou pelo mundo inteiro com a influência das vanguardas europeias: Futurismo, Expressionismo, Dadaísmo e Cubismo.

Vanguardas europeias – artes plásticas
Neste panorama de inquietações, foi organizada a Semana da Arte Moderna, movimento de caráter artístico, social e político, que ocorreu em fevereiro de 1922.

Cartazes Semana de Arte Moderna
Podemos afirmar que a Semana de Arte Moderna causou uma revolução na cultura brasileira, onde jovens artistas, cansados da literatura inspirada nas escolas europeias e de caráter burguês, puderam mostrar o que estavam produzindo de novo no país.

Publicação - Semana de Arte Moderna

Os modernistas que concretizaram a Semana de Arte Moderna em 1922
O Modernismo no Brasil
No começo do século XX, as correntes artísticas desenvolvidas na Europa (Dadaísmo, Surrealismo, Expressionismo, Futurismo) constituíram a arte moderna europeia. Os artistas brasileiros, em suas viagens ao exterior, voltavam sob estas novas influências que, aliadas ao desejo de mudança, permitiram o início do Modernismo no Brasil.

Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e Mário de Andrade: representantes do Modernismo.
Modernismo (continuação)
Fases do Modernismo no Brasil
O marco inicial do Modernismo no Brasil foi a Semana de Arte Moderna, que ocorreu em fevereiro de 1922. O Modernismo no Brasil teve três fases:
- Primeira fase - início em 1922
- Segunda fase - início em 1930
- Terceira fase - início em 1945
Primeira Fase do Modernismo (1922 – 1930)
A primeira fase do Modernismo no Brasil, também chamada de "fase heroica", foi marcada pelo combate à tradição. Foi um período de grande produção de arte moderna, de materiais que divulgavam esta arte e de poesias. Em meio a essa "grande produção", quatro correntes de pensamento ganharam força e foram ganhando teor ideológico ao longo da década de 20. São elas: Pau Brasil, Verde Amarelismo, Escola da Anta e Antropofagia.
- Pau Brasil: Fundado por Oswald de Andrade, o movimento Pau Brasil fazia críticas ao passado cultural brasileiro, que copiava os modelos europeus, propondo um olhar para o Brasil com o olhar do brasileiro, apesar das influências europeias.

Publicação de Manifesto da Poesia Pau Brasil, Oswald de Andrade, 1924.
- Verde Amarelismo: Formado por Plínio Salgado, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida e Cassiano Ricardo em 1926, surgiu em resposta ao movimento Pau Brasil. O Verde Amarelismo tinha como proposta a defesa de um nacionalismo exagerado, valorizando os elementos nacionais sem qualquer influência europeia. Esta corrente deu origem à Escola da Anta.

- Escola da Anta: Em 1927, o Movimento Verde-Amarelo transformou-se na Escola da Anta ou Grupo Anta que, partindo para a idolatria do tupi, defendia o patriotismo em excesso e apresentava inclinações nazistas. Elege a anta como símbolo nacional.

Anta, animal símbolo.
- Antropofagia: Fundada por Oswald de Andrade em parceria com Tarsila do Amaral e Raul Bopp, este manifesto surgiu em 1928 como uma nova resposta às duas correntes (Verde Amarelismo e Escola da Anta), pregando a aceitação da cultura estrangeira, mas sem copiar e imitar. Esta cultura deveria ser absorvida pela brasileira, que colocaria na arte a representação da realidade do Brasil e do elemento popular, valorizando as riquezas nacionais.


Publicação Manifesto Antropófago
Características
- Utilização do verso livre
- Linguagem coloquial
- Linguagem condensada
- Ausência de pontuação
- Valorização do cotidiano
- Utilização de paródias
- Utilização do humor (poema-piada)
- Criação de neologismos
- Aproximação da linguagem da prosa
Observe algumas dessas características no texto:
Pronominais
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação brasileira
Dizem todos os dias
Me dá um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação brasileira
Dizem todos os dias
Me dá um cigarro
(Oswald de Andrade)
Principais autores modernistas da primeira fase
Mário de Andrade
Mário de Andrade nasceu em São Paulo, cidade onde estudou e se formou no Conservatório Musical, tornando-se mais tarde professor de História da Música.
Foi um dos líderes da Semana de Arte Moderna e ativo divulgador das ideias modernistas durante toda a década de 1920.
Participou da célebre viagem de alguns escritores e artistas do Modernismo pelo grande sertão brasileiro, que culminou com a subida pelo rio Amazonas, até suas nascentes.

Mário de Andrade, São Paulo (SP), 1893 – 1945
Foi diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo e o principal elaborador da lei que criou o Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em 1938, foi nomeado diretor do Instituto de Artes da Universidade do Rio de Janeiro.
Dedicou-se a um grande número de atividades culturais (poeta, contista, critico literário, professor, incentivador de novos talentos, pesquisador de manifestações musicais, folclorista e incansável missivista). Mário de Andrade foi o principal representante da primeira fase do Modernismo. Morreu de forma precoce aos 52 anos em São Paulo, devido a um enfarte, em 25 de fevereiro de 1945.
Principais obras
Poesia: Há uma gota de sangue em cada poema (1917); Paulicéia desvairada (1922); Losango cáqui (1926); Clã do jabuti (1927); Remate dos males (1930); Lira paulistana (1946).

Capa obra Paulicéia desvairada
Ficção: Amar, verbo intransitivo (1917); Macunaíma (1928); Os contos de Belazarte (1934); Contos novos (1946).

Capa obra Macunaíma
Ensaios: A escrava que não é Isaura (1925); Aspectos da literatura brasileira (1943); O empalhador de passarinho (1944).

Capa obra A escrava que não é Isaura.
Vale a pena saber mais:
Poesia
Na obra Há uma gota de sangue em cada poema (1917), seu primeiro livro de poemas, ainda apresenta características parnasianas, resultado do impacto que a guerra causou no poeta. Nesta obra, Mário de Andrade usou o pseudônimo de Mário Sobral. Em Paulicéia desvairada (1922), o autor rompe com a tradição e, usando recursos como a poesia telegráfica, neologismos, italianismo, constrói um documentário poético da Cidade de São Paulo:
Na obra Há uma gota de sangue em cada poema (1917), seu primeiro livro de poemas, ainda apresenta características parnasianas, resultado do impacto que a guerra causou no poeta. Nesta obra, Mário de Andrade usou o pseudônimo de Mário Sobral. Em Paulicéia desvairada (1922), o autor rompe com a tradição e, usando recursos como a poesia telegráfica, neologismos, italianismo, constrói um documentário poético da Cidade de São Paulo:
Observe:
“Laranja da China, laranja da China, laranja da China!
Abacate, cambucá e tangerina!
Guardate ! Aos aplausos do esfuziante clown,
heroico sucessor da raça heril dos bandeirantes,
passa galhardo um filho de imigrante,
loiramente domando um automóvel!”
“Laranja da China, laranja da China, laranja da China!
Abacate, cambucá e tangerina!
Guardate ! Aos aplausos do esfuziante clown,
heroico sucessor da raça heril dos bandeirantes,
passa galhardo um filho de imigrante,
loiramente domando um automóvel!”
ou
São Paulo, comoção da minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!...Traje de losangos...Cinza e ouro...
Luz e bruma...Forno e inverno morno...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!...Traje de losangos...Cinza e ouro...
Luz e bruma...Forno e inverno morno...
Nas obras Losango cáqui (1926), Clã do jabuti (1929), o autor aproveita costumes, folclore e linguagem de diferentes regiões do país. Em Remate de males (1930) e Lira paulistana (1946), retomo o tema de Paulicéia desvairada.

Capa da obra Losango cáqui
Prosa
Em seu primeiro romance, Amar, verbo intransitivo (1927), Mário de Andrade critica e desmascara a moral da burguesia paulistana. Sua obra mais importante, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928) é uma rapsódia, devido à variedade de gêneros presentes na obra:
1. Epopeia: fala da criação do herói;
2. Crônica: palavras bem despojadas;
3. Paródia: imitação dos estilos.
O autor apresenta o Brasil através de seu folclore, lendas, provérbios, frases feitas, tudo num tom oral, valorizando a língua falada.
Em seu primeiro romance, Amar, verbo intransitivo (1927), Mário de Andrade critica e desmascara a moral da burguesia paulistana. Sua obra mais importante, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter (1928) é uma rapsódia, devido à variedade de gêneros presentes na obra:
1. Epopeia: fala da criação do herói;
2. Crônica: palavras bem despojadas;
3. Paródia: imitação dos estilos.
O autor apresenta o Brasil através de seu folclore, lendas, provérbios, frases feitas, tudo num tom oral, valorizando a língua falada.
Para saber mais:
Rapsódia: Na música, rapsódia significa composição instrumental que utiliza fragmentos de melodias tiradas de cantos tradicionais ou populares. Importante lembrar que Mário de Andrade, além de folclorista, foi um dedicado musicólogo.
Rapsódia: Na música, rapsódia significa composição instrumental que utiliza fragmentos de melodias tiradas de cantos tradicionais ou populares. Importante lembrar que Mário de Andrade, além de folclorista, foi um dedicado musicólogo.
Observe as características neste trecho da obra Macunaíma:
Capítulo 1
“ No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite .Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Urariocoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia . Essa criança que chamaram de Macunaíma .
Já que na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mas de seis anos não falando . Si o incitavam a falar exclamava!...
-Ai! Que preguiça!...
E não dizia mas nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente dos dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado, mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaimuns diz que habitando a água-doce por lá .No mucambo si alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém respeitava os velhos e frequentava com aplicação a murua a poracê o tore o bacoroco a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo.”
[...]
“ No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite .Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Urariocoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia . Essa criança que chamaram de Macunaíma .
Já que na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mas de seis anos não falando . Si o incitavam a falar exclamava!...
-Ai! Que preguiça!...
E não dizia mas nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente dos dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva. Vivia deitado, mas si punha os olhos em dinheiro, Macunaíma dandava pra ganhar vintém. E também espertava quando a família ia tomar banho no rio, todos juntos e nus. Passava o tempo do banho dando mergulho, e as mulheres soltavam gritos gozados por causa dos guaimuns diz que habitando a água-doce por lá .No mucambo si alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha, Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava. Nos machos guspia na cara. Porém respeitava os velhos e frequentava com aplicação a murua a poracê o tore o bacoroco a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo.”
[...]
Autores modernistas da primeira fase (continuação)
Oswald de Andrade
José Oswald de Andrade (1890 - 1954) nasceu em São Paulo, filho de tradicional família da oligarquia local. Teve excelente educação escolar, embora descontinuada, em razão de inúmeras viagens realizadas à Europa, onde entrou em contato com as vanguardas artísticas.
Por esta razão, tornou-se o principal divulgador da renovação artística no Brasil e o mais cosmopolita dos modernistas. Teve papel fundamental e decisivo tanto na Semana de Arte Moderna quanto nos anos de afirmação dessa nova estética.

Oswald de Andrade, de Tarsila do Amaral
Devido ao seu espírito anarquista e iconoclasta, fez muitos inimigos, inclusive entre os modernistas. Foi o responsável também por dar início à discussão sobre a identidade brasileira, na década de 1920, através dos movimentos Pau-Brasil e Antropofagia. A partir de 1930, sua criatividade e importância histórica decaíram ante as profundas alterações históricas vividas pelo país e o retorno das formulações realistas e neo-realistas na arte.
No ano de 1945, obteve a livre docência em Literatura Brasileira pela USP. Faleceu em São Paulo, no ano de 1954, aos 64 anos. Ao fim da década de 1960 e início de 1970, no entanto, seus textos poéticos de ficção e teóricos foram reabilitados pelos tropicalistas e pelos concretistas, sendo aclamados clássicos da cultura brasileira.

Revista de Antropofagia – capa da primeira edição

Manifesto Antropófago”, de Oswald de Andrade (1928).
Para saber mais:
Iconoclasta: é aquele que não respeita tradições e crenças estabelecidas ou se opõe a qualquer tipo de culto ou veneração, seja de imagens ou outros elementos. O termo abrange ainda aqueles que destroem monumentos, obras de arte e símbolos.
Iconoclasta: é aquele que não respeita tradições e crenças estabelecidas ou se opõe a qualquer tipo de culto ou veneração, seja de imagens ou outros elementos. O termo abrange ainda aqueles que destroem monumentos, obras de arte e símbolos.
Principais obras
Ficção: Os condenados (1922); Memórias sentimentais de João Miramar (1924); A estrela de absinto (1927); Serafim Ponte Grande (1937); Marco Zero (1943, dividido em A revolução melancólica e Chão).

Folha de rosto da obra Marco Zero, A revolução melancólica
Poesia: Pau-Brasil (1925); Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade (1927); Poesias reunidas (1945).

Capa da obra Pau-Brasil
Teatro: O rei da vela (1937); A morta (1937).

Registro fotográfico da obra/peça teatral O rei da vela
Vale a pena saber mais:
Poesia
Na obra Pau-Brasil (1925), o autor traz uma análise crítica da realidade brasileira, “redescobre” o Brasil, parodiando os textos produzidos pelos primeiros cronistas brasileiros, recontando a história colonial do Brasil.
Na obra Pau-Brasil (1925), o autor traz uma análise crítica da realidade brasileira, “redescobre” o Brasil, parodiando os textos produzidos pelos primeiros cronistas brasileiros, recontando a história colonial do Brasil.
Observe o Trecho da Carta de Caminha parodiado por Oswald de Andrade:
As meninas da gare*
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha
*estação de trem
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha
*estação de trem
O trecho/texto de Pero Vaz de Caminha parodiado é:
“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças bem gentis,
com cabelos mui pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas,
tão saradinhas e tão limpas de cabeleiras que, de as muito bem olharmos,
não tínhamos nenhuma vergonha.”
“Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças bem gentis,
com cabelos mui pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas,
tão saradinhas e tão limpas de cabeleiras que, de as muito bem olharmos,
não tínhamos nenhuma vergonha.”

Reprodução da carta de Pero Vaz de Caminha - o primeiro escrito pós-descobrimento
Prosa
Os romances Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1930) admiram pelo trabalho com a linguagem (simultaneidade, quase ausência de pontuação, neologismos, condensação, palavras em liberdade) e pela montagem, apresentando capítulos extremamente curtos, que se aproximam da poesia.
Os romances Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e Serafim Ponte Grande (1930) admiram pelo trabalho com a linguagem (simultaneidade, quase ausência de pontuação, neologismos, condensação, palavras em liberdade) e pela montagem, apresentando capítulos extremamente curtos, que se aproximam da poesia.
Observe o capítulo 66 da obra Memórias sentimentais de João Miramar:
“Beiramarávamos em auto pelo espelho de aluguel arborizado das avenidas marinhas sem sol.
Losangos tênues de ouro bandeiranacionalizavam os verdes montes interiores.
No outro lado azul da baía a Serra dos Órgãos serrava.
Barcos. E o passado voltava na brisa de baforadas gostosas. Rolah ia vinha derrapava em túneis.
Copacabana era um veludo arrepiado na luminosa noite varada pelas frestas da cidade.”
Losangos tênues de ouro bandeiranacionalizavam os verdes montes interiores.
No outro lado azul da baía a Serra dos Órgãos serrava.
Barcos. E o passado voltava na brisa de baforadas gostosas. Rolah ia vinha derrapava em túneis.
Copacabana era um veludo arrepiado na luminosa noite varada pelas frestas da cidade.”

Capa da primeira edição de Memórias sentimentais de João Miramar
A importância de Oswald de Andrade
Para os dias atuais, os textos/obras Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, são quase ilegíveis. No entanto, apresentam grande importância histórica.
- Os textos desarticulam as convenções da prosa de ficção brasileira, destruindo principalmente a linguagem retórica, tão acentuada nos primeiros anos do século XX.
- Incorporam à ficção nacional os novos experimentos técnicos da moderna narrativa europeia.
Os “antirromances” de Oswald de Andrade cumprem, desta forma, a função saneadora das vanguardas, que tem como objetivo confrontar o passado e abrir caminho para os que vêm depois.

Montagem com fotos/imagens de Oswald de Andrade
Autores modernistas da primeira fase (continuação)
Manuel Bandeira
Manuel de Souza Bandeira Filho nasceu em Recife, filho de um engenheiro. Sua família mudou-se para o Rio de Janeiro em 1890. Retornou a Recife em 1892 e voltou novamente ao Rio de Janeiro, em 1896.
Aos 17 anos, Manuel Bandeira ingressou no curso preparatório da Escola politécnica de São Paulo, com a intenção de seguir a carreira de arquiteto.
No entanto, a tuberculose o impossibilitou de seguir os estudos. Passou então a morar em locais secos e frios, conforme orientavam os médicos da época. No ano de 1913, buscando melhorar sua saúde, internou-se em um sanatório em Clavandel, na Suíça.

Manuel Bandeira, Recife (PE), 1886 - 1968
A doença progrediu e o abateu de maneira que foi necessário ter uma vida regrada e praticamente reclusa. Nos anos seguintes, perdeu o pai e a irmã, o que o tornou ainda mais melancólico e triste. Iniciou sua carreira no ano de 1917 com A cinza das horas, obra influenciada pelas estéticas parnasiana e simbolista.
Em 1922, enviou a São Paulo o poema Os Sapos, que foi lido sob vaias, durante a Semana de Arte Moderna. Para sobreviver, passou a escrever crônicas para diversos jornais.
No ano de 1930, com a publicação de Libertinagem, consolidou-se como a maior voz poética do Modernismo. No final da mesma década, tornou-se professor de Literatura no Colégio D. Pedro II. No ano de 1943, foi nomeado professor de Literatura Hispano-Americana da Faculdade Nacional de Filosofia.
Pouco a pouco, Manuel Bandeira foi transformando-se em unanimidade nacional. Em 1966, foi homenageado em todo o país, pela passagem de seus oitenta anos. Manuel Bandeira faleceu no Rio de Janeiro, em 1968.

Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes, Tom Jobim e Chico Buarque de Holanda, Rio de Janeiro (RJ) – 1967.
Manuel Bandeira caracterizava sua obra com versos simples e uma linguagem simples e coloquial, por vezes utilizando sátira. Observe este fragmento do poema Os sapos, do livro Carnaval, de 1919, onde o autor satiriza os poetas parnasianos.
Os sapos
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."
[...]
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."
[...]
Principais obras
Poesia: A Cinza das Horas (1917); Carnaval (1919); O Ritmo Dissoluto (1924); Libertinagem (1930); Estrela da Manhã (1936); Poesias Escolhidas (1937); Poesias Completas (1940); Mafuá do Malungo (1948), Opus 10 (1952); 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (1955); Estrela da Tarde (1963); Estrela da Vida Inteira: Poesias Reunidas – (1966).

Publicação A cinza das horas

Poema assinado por Manuel Bandeira
Crônica: Crônicas da Província do Brasil (1936); Guia de Ouro Preto (1938); Os Reis Vagabundos e mais 50 Crônicas (1966); A Flauta de Papel (1957); Andorinha, Andorinha (1966); Colóquio Unilateralmente Sentimental (1968); Crônicas Inéditas* ( 2008) . * Publicação póstuma

Capa publicação Guia de Ouro Preto
Ensaios: Autoria das "Cartas Chilenas" (1940); Apresentação da Poesia Brasileira (1946); Noções de Histórias das Literaturas (1946); Oração de Paraninfo (1946); Literatura Hispano-Americana (1949); Gonçalves Dias, Biografia (1952); De Poetas e de Poesia (1954); Poesia e Vida de Gonçalves Dias (1962); Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire, Castro Alves – Biografias(1963).

Publicação de De Poetas e de Poesia autografado por Manuel Bandeira
Memória: Itinerário de Pasárgada (1954).

Obra Itinerário de Pasárgada
Transição da primeira para a segunda fase modernista
A transição da primeira para a segunda fase do Modernismo ocorreu em meio a revoltas e conflitos contra a política brasileira e a crise econômica de 1929.
Seu marco inicial é a Revolução de 30 e o término a deposição de Getúlio Vargas pelas Forças Armadas, em 1945.
A Segunda Guerra Mundial também compõe o cenário histórico da época.

Getúlio Vargas durante passagem pela cidade de São Paulo, após vitória na Revolução de 1930.
O período compreendido entre 1930 e 1940 foi determinante para o romance, que denunciou as mazelas sociais, voltando-se para o homem humilde e injustiçado. Nesta época desenvolveu-se o romance regional, urbano e psicológico. A poesia amadureceu as conquistas da Semana de 22 e também se voltou para temas sociais. A segunda fase modernista surge como uma reflexão sobre a época de crise e pobreza.
Manifestações artísticas da segunda fase modernista
O panorama político da época é refletindo na arte que buscou no regionalismo nossas raízes culturais e étnicas e o povo passa a ser retratado na pintura.

Reprodução da obra de Candido Portinari - "Mestiço"

Reprodução da obra de Tarsila do Amaral – “Operários”
No ano de 1936, Oscar Niemeyer e Lucio Costa planejaram o prédio do Ministério da Educação e Saúde, no Rio de Janeiro, considerado marco da arquitetura moderna brasileira.

Edifício Gustavo Capanema (RJ) – marco da arquitetura moderna brasileira
Na busca por encontrar uma linguagem nacional, Heitor Villa-Lobos incorpora melodias populares e indígenas e canto de pássaros brasileiros às suas composições. Para o divertimento das massas, o rádio produz programas de auditório e, o cinema, as chanchadas da Atlântida, e as gravadoras editoras multiplicam-se.

As chanchadas da Atlântida
Neste período as ciências também se desenvolveram. No ano de 1931, surgiu a Universidade do Brasil; em 1933, a Escola Livre de Sociologia e Política e, em 1934, a Universidade de São Paulo.

Prédio da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP)
Segunda fase do Modernismo (1930 - 1945)
A segunda fase do modernismo foi um momento rico na produção poética e também na prosa. O universo temático ampliou-se e os artistas passaram a se preocupar mais com o destino dos homens e sua presença no mundo.
A poesia na segunda fase do modernismo voltava-se para o sentimento humano, levantando o questionamento sobre a existência humana e a compreensão do local do mundo e do local que o ser humano tem neste mundo repleto de conflitos.
A prosa neste período volta-se para a crítica social, levando em consideração os retratos de várias regiões do país (regionalismo) como forma de denúncia dos problemas sociais de cada região e com uma reflexão sobre a solução do problema.
A literatura de 30 é mais madura. Não traz a descontração e a irreverência da fase anterior. No entanto, apresenta reflexões sobre a realidade do povo brasileiro, trazendo à tona o nacional através desta reflexão, com textos de linguagem mais próxima do popular.
A segunda fase do modernismo amadureceu as propostas de 22 eliminando exageros, ao mesmo tempo em que deu continuidade às pesquisas estéticas, onde a primeira geração reabilitou as formas tradicionais, como soneto e verso com rima. Na segunda fase, a temática foi mais politizada, no entanto não deixou de lado a introspecção e o espiritualismo.
Principais autores modernistas da segunda fase
A partir de agora, estudaremos os principais nomes desta fase, como:
- Carlos Drummond de Andrade
- Cecília Meireles
- Vinicius de Moraes
- Murilo Mendes
- Jorge de Lima
- Rachel de Queiroz
- Graciliano Ramos
- José Lins do Rego
- Jorge Amado
- Erico Verissimo
- Cecília Meireles
- Vinicius de Moraes
- Murilo Mendes
- Jorge de Lima
- Rachel de Queiroz
- Graciliano Ramos
- José Lins do Rego
- Jorge Amado
- Erico Verissimo

Alguns destaques da segunda fase modernista
Principais autores modernistas da segunda fase
Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade foi poeta, cronista, contista, ensaísta e tradutor. No ano de 1910, iniciou seus estudos em Belo Horizonte, onde se tornou amigo de Gustavo Capanema, mais tarde ministro da Educação.
Em 1925 fundou, com o poeta Emílio Moura (1902 - 1971), o periódico modernista A Revista, que durou apenas três números.
No ano de 1928, Drummond publicou na Revista de Antropofagia o polêmico poema No meio do caminho.

Carlos Drummond de Andrade, Itabira (MG) 1902 – Rio de Janeiro (RJ) 1987

Poema No meio do caminho
No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Sua estreia na literatura ocorreu no ano de 1930, com a publicação de Alguma Poesia, com tiragem de 500 exemplares paga pelo autor.

Alguma poesia, Carlos Drummond de Andrade
No mesmo ano, assumiu o cargo de oficial de gabinete de Capanema, então secretário do Interior de Minas Gerais, acompanhando-o em 1934 ao Rio de Janeiro, como chefe de gabinete, quando o amigo assume o Ministério da Educação e Saúde Pública. Em 1942, ocorre a publicação de Poesias, pela Livraria Editora José Olympio, que o torna nacionalmente reconhecido, inclusive pela crítica especializada.
Em 1945, deixa a chefia de gabinete de Gustavo Capanema para trabalhar na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - DPHAN, pela qual se aposenta em 1962. Confissões de Minas, 1944, é sua primeira publicação no gênero crônica, trabalho que exerce desde 1954, e para o qual se dedica regularmente, entre 1969 e 1984, através de sua coluna semanal no Jornal do Brasil.
Em 1951 faz a sua primeira incursão na prosa de ficção, com Contos do Aprendiz. Após doze dias da morte de sua filha, Maria Julieta, em 1987, morre também o poeta Carlos Drummond de Andrade.

Carlos Drummond de Andrade e sua filha, Maria Julieta
Principais obras
Poesia: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); A Rosa do Povo (1945); Claro enigma (1951); Fazendeiro do ar (1954); Lição de coisas (1962); Boitempo (1968); As impurezas do branco (1973); Discurso de primavera e algumas sombras (1977); Corpo (1984); Amar se aprende amando (1985); O amor natural (1992); Farewell (1996).
Contos: Contos de aprendiz(1951).
Crônicas: Fala, amendoeira (1957); Cadeira de balanço (1963).
Contos: Contos de aprendiz(1951).
Crônicas: Fala, amendoeira (1957); Cadeira de balanço (1963).

Capa da obra Amar se aprende amando.
Vale a pena saber mais:
Nas obras Alguma poesia e Brejo das almas, de 1934, Drummond registra em tom irônico e bem humorado o acontecimento banal, os fatos corriqueiros e cotidianos. Observe o poema de Alguma poesia:
Cidadezinha qualquer
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Êta vida besta, meu Deus!

Publicação de Brejo das almas
As obras Sentimento do mundo, de 1940, e A rosa do povo, de 1945, mostram um poeta angustiado com a expansão do nazi-fascismo e com a destruição causada pela guerra. Sua poesia deixa de lado o bom humor e a ironia para servir como veículo de denuncia social.

Publicação de Sentimento do mundo
Em José e Poesias, de 1942, despontam o anonimato, a solidão e a falta de perspectiva a que estão reduzidos os homens. Observe o poema:
José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?
[...]
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?
Por fim, a partir de Claro enigma, de 1951, e em seus livros subsequentes, as preocupações anteriores somam-se às reflexões sobre a construção poética e o passado ressurge como contraponto à falta de esperança presente.

Obra Fala, amendoeira, de 1957
Autores modernistas da segunda fase (continuação)
Cecília Meireles
Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu no Rio de Janeiro (RJ), no ano de 1901. Foi poeta, cronista, educadora, ensaísta, tradutora e dramaturga. Seus três irmãos mais velhos morreram antes dela nascer; seu pai, três meses antes de seu nascimento; e a mãe, antes dela completar 3 anos.
Foi criada pela avó materna, Jacinta Garcia Benevides, natural dos Açores, Portugal. Cecília Meireles conclui o curso primário em 1910.
Formou-se professora em 1917. O magistério foi uma de suas paixões, levando-a a escrever para o público infantil, em livros didáticos, como Criança, Meu Amor, de 1924, ou em poemas, como Ou Isto ou Aquilo, de 1964.

Cecília Meireles, Rio de Janeiro (RJ), 1901 - 1964

Publicação da obra Criança, Meu Amor
No ano de 1922, casou-se com o artista plástico português Correia Dias (1893-1935), com quem teve três filhas. No período de 1930 a 1933, manteve no Diário de Notícias uma página diária sobre problemas de educação, que resultou um livro póstumo de cinco volumes, Crônicas da Educação. Em 1934, organizou a primeira biblioteca infantil do Brasil, no Rio de Janeiro.
Em 1932, com os educadores Fernando de Azevedo (1894-1974), Anísio Teixeira (1900-1971), Afrânio Peixoto (1876-1947), entre outros, assinou o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, considerado marco da renovação educacional do país.

Publicação onde constou o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova
Aposentou-se como diretora de escola no ano de 1951, porém se manteve como produtora e redatora de programas culturais da Rádio MEC, que foram reunidos postumamente no livro Ilusões da Vida, de 1976. Ainda que tenha estreado aos 18 anos, com o livro de sonetos Espectros, em 1919, somente com Viagem, de 1939, vencedor do Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras (ABL), Cecília encontrou seu estilo definitivo.

Publicação da obra Viagem
Principais obras
Poesia: Espectros (1919); Nunca Mais e Poemas dos Poemas (1923); Baladas para El-Rey (1925); Viagem (1939); Vaga Música (1942); Mar Absoluto (1945); Retrato Natural (1949); Amor em Leonoreta (1952); Doze Noturnos da Holanda (1952); Aeronauta (1952); Romanceiro da Inconfidência (1953); Pequeno Oratório de Santa Clara (1955); Pistóia (1955); Canções (1956); Romance de Santa Cecília (1957); Metal Rosicler (1960); Poemas Escritos na Índia (1961); Antologia Poética (1963); Solombra (1963); Ou Isto ou Aquilo (1965); Crônica Trovada da Cidade de San Sebastian (1965).

Publicação da obra Solombra
Prosa poética: Giroflê, Giroflá (1956).

Publicação da obra Giroflê, Giroflá
Prosa: Notícia da Poesia Brasileira (1935); O Espírito Vitorioso (1959); Rui (1949); Problemas de Literatura Infantil (1951); Panorama Folclórico dos Açores especialmente da Ilha de S. Miguel (1958); Escolha o seu Sonho (1966); A Bíblia na Poesia Brasileira (s/d).

Publicação da obra Problemas de Literatura Infantil
Vale a pena saber mais:
Mesmo considerada uma poeta ligada ao modernismo, seus caminhos estéticos estão mais ligados à evolução pessoal que a movimentos literários. Sua obra aborda a introspecção, religiosidade e desespero pelo sentimento de transitoriedade da vida. Na poesia inicial Espectros e Baladas para El-Rey, há traços dos poetas simbolistas, fase esta que foi renunciada pela autora, ao não as incluir em sua Obra Poética.

Espectros, primeiro livro de poesias de Cecília Meireles
Em Viagem, pela habilidade lírica inovadora, Cecília Meireles retrata uma permanente viagem interior; intimista e introspectiva, sugerindo num tom leve e delicado, temas de solidão, melancolia, fuga pelo sonho, o vazio do existir, saudades e sofrimento. Essas características farão parte de toda sua obra lírica. Algumas estão presentes em Canção quase Melancólica, Fio, Cantiguinha e Assovio.
Outro aspecto presente em sua poesia é a linguagem sensorial, intuitiva e feminina, utilizada em versos plenos num jogo hábil de sons e musicalidade. Recordação muda a realidade através dos elementos sensoriais. Um dos traços mais marcantes de sua poesia é a consciência da transitoriedade das coisas, manifestada na delicadeza com que aborda a rapidez do tempo, dos objetos e da vida, sempre espreitada pela sombra da morte.
Observe o poema:
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
Sua obra considerada mais importante é o poema épico-lírico Romanceiro da Inconfidência, de 1953, uma composição escrita de episódios narrativos rimados. Nesta obra, Cecília Meireles revela sua preocupação social. A partir de fatos históricos, lendas e tradições, narra a época dourada de Minas Gerais e a fatalidade que recaiu sobre os poetas conjurados e familiares. Em um conjunto de 85 romances, é um dos mais admiráveis poemas longos da língua portuguesa.

Publicação da obra Romanceiro da Inconfidência
Observe:
Romance XXVIII ou da Denúncia de Joaquim Silvério
No Palácio da Cachoeira,
com pena bem aparada,
começa Joaquim Silvério
a redigir sua carta.
De boca já disse tudo
quanto soube e imaginava.
No Palácio da Cachoeira,
com pena bem aparada,
começa Joaquim Silvério
a redigir sua carta.
De boca já disse tudo
quanto soube e imaginava.
Ai, que o traiçoeiro invejoso
junta às ambições a astúcia.
Vede a pena como enrola
arabescos de volúpia,
entre as palavras sinistras
desta carta de denúncia!
junta às ambições a astúcia.
Vede a pena como enrola
arabescos de volúpia,
entre as palavras sinistras
desta carta de denúncia!
Que letras extravagantes,
com falsos intuitos de arte!
Tortos ganchos de malícia,
grandes borrões de vaidade.
Quando a aranha estende a teia,
não se encontra asa que escape.
com falsos intuitos de arte!
Tortos ganchos de malícia,
grandes borrões de vaidade.
Quando a aranha estende a teia,
não se encontra asa que escape.
Vede como está contente,
pelos horrores escritos,
esse impostor caloteiro
pelos horrores escritos,
esse impostor caloteiro
que em tremendos labirintos
prende os homens indefesos
e beija os pés aos ministros!
prende os homens indefesos
e beija os pés aos ministros!
As terras de que era dono,
valiam mais que um ducado.
Com presentes e lisonjas,
arrematava contratos.
E delatar um levante
pode dar lucro bem alto!
valiam mais que um ducado.
Com presentes e lisonjas,
arrematava contratos.
E delatar um levante
pode dar lucro bem alto!
Como pavões presunçosos,
suas letras se perfilam.
Cada recurvo penacho
é um erro de ortografia.
Pena que assim se retorce
deixa a verdade torcida.
(No grande espelho do tempo,
cada vida se retrata:
os heróis, em seus degredos
ou mortos em plena praça;
– os delatores, cobrando
o preço das suas cartas...)
suas letras se perfilam.
Cada recurvo penacho
é um erro de ortografia.
Pena que assim se retorce
deixa a verdade torcida.
(No grande espelho do tempo,
cada vida se retrata:
os heróis, em seus degredos
ou mortos em plena praça;
– os delatores, cobrando
o preço das suas cartas...)
Autores modernistas da segunda fase (continuação)
Vinicius de Moraes
Marcos Vinícius de Melo Moraes nasceu no Rio de Janeiro, em 1913. Foi poeta, compositor de música popular, cronista e crítico de cinema.
Nasceu em uma família de intelectuais, com formação católica. Cursou o secundário com os jesuítas do Colégio Santo Inácio.
Formou-se advogado em 1933, ano em que lança o primeiro livro, Forma e Exegese.

Vinicius de Moraes, Rio de Janeiro (RJ), 1913 – 1980

Obra Forma e Exegese
Assumidamente boêmio, iniciou cedo nas rodas literárias e musicais, formando um conjunto musical com Paulo e Haroldo Tapajós. Entre os anos 30 e 40, atuou como censor e crítico cinematográfico. Estudou literatura inglesa em Oxford, Inglaterra, até a eclosão da Segunda Guerra Mundial, quando, de volta ao Brasil, passa a escrever regularmente críticas de cinema para jornais e revistas. Em 1943, ingressa na carreira diplomática e presta serviços consulares em diversos países, até o ano de 1968.

O diplomata Vinícius de Moraes
Com a "bossa nova" em alta, Vinícius de Moraes passa a se dedicar, desde o final dos anos 50, à composição de letras para canções populares.

Vinicius de Moraes compondo
A década de 1950 marca o início da sua trajetória na música popular, da composição de seus primeiros sambas e de sua participação na criação da bossa nova, ao lado de Tom Jobim (1927 - 1994), com o lançamento do disco Canção do Amor Demais, em 1958, interpretado por Elizeth Cardoso.

Vinicius de Moraes e Tom Jobim
Em 1959, a obra de Vinicius se tornou conhecida mundialmente. Sua peça Orfeu da Conceição é adaptada para o cinema sob o nome de Orfeu Negro, adaptação realizada pelo diretor francês Marcel Camus, que é premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes e recebe o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Divulgação Orfeu Negro

“Garota de Ipanema" é uma das mais conhecidas canções de Bossa Nova e MPB. Foi composta em 1962 por Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim.
Os últimos anos de vida de Vinícius de Moraes são dedicados especialmente à música, período vivido entre turnês nacionais e internacionais, acompanhado de seu amigo e músico Toquinho (1946).

Vinicius de Moraes e Toquinho
Vinicius de Moraes morreu em julho de 1980, no Rio de Janeiro.

Vinicius de Moraes – registro fotográfico de 1980
Principais obras
Poesia: O Caminho para a Distância (1933); Forma e Exegese (1935); Ariana, a Mulher; (1936); Novos Poemas I (1938); Cinco Elegias (1943); Poemas, Sonetos e Baladas (1946); Pátria Minha (1949); Livro de Sonetos (1957), Novos Poemas II (1959); O Mergulhador (1965); A Arca de Noé (1970).

Obra Ariana, a Mulher com dedicatória
Teatro: Orfeu da Conceição (1954); Cordélia e o Peregrino (1965); Pobre Menina Rica, (1962).

Cartaz: divulgação peça teatral Orfeu da Conceição
Crônicas: O Amor dos Homens (1960); Para Viver um Grande Amor (1962); Para uma Menina, com uma Flor (1966).

Capa da obra Para Viver um Grande Amor
Vale a pena saber mais:
Vinicius de Moraes tornou-se extremamente conhecido em razão da sua atuação na música popular. Entretanto, antes de tornar-se músico, foi poeta lírico. No início de sua carreira, sua poesia tem como tônica a religiosidade impregnada do misticismo dos neossimbolistas. A partir da publicação de Cinco elegias (1943), nasce um lirismo amoroso de fundo erótico, onde se sobressai a figura feminina. Embora não abandone o erotismo, sua poesia ganha conotação social e reflete o momento presente. A bomba atômica, por exemplo, serviu de inspiração.
Observe:
A rosa de Hiroxima
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
O melhor de sua produção lírica está nos sonetos. Vinicius de Moraes foi o responsável por revitalizar essa forma de composição, desprezada pelos modernistas da primeira fase, produzindo alguns dos mais admiráveis sonetos de nossa língua. Observe:
Soneto de Fidelidade
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Autores modernistas da segunda fase (continuação)
Murilo Mendes
Murilo Monteiro Mendes nasceu na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, no ano de 1901. Foi poeta, prosador e crítico de artes plásticas. Aos 16 anos, fugiu do colégio onde estudava para assistir, no Rio de Janeiro, à apresentação do bailarino e coreógrafo russo Vaslav Nijinski (1890 - 1950).
Em 1920, recusa-se a dar continuidade aos estudos e, após inúmeras tentativas da família de arrumar-lhe um emprego, vai com o irmão mais velho para o Rio de Janeiro. Entre os anos de 1924 e 1929, escreveu para as primeiras publicações modernistas, como a Revista de Antropofagia, de São Paulo, e a Verde, de Cataguases, Minas Gerais.

Murilo Mendes, Juiz de Fora (MG) 1901 – 1975

Revista de Antropofagia
Com o auxílio financeiro do pai, publicou seu primeiro livro, Poemas, em 1930, pelo qual recebeu o Prêmio Graça Aranha. Murilo Mendes converteu-se ao catolicismo após a morte do amigo pintor, filósofo e poeta Ismael Nery (1900 - 1934).

Obra Poemas
No ano de 1940, casou-se com a poeta Maria da Saudade Cortesão, filha do poeta e historiador português Jaime Cortesão (1884 - 1960), exilado no Brasil por não concordar com a ditadura de Antonio Oliveira Salazar (1889 - 1970).

Murilo Mendes e a esposa Maria da Saudade Cortesão Mendes
Ao final de sua estadia na Europa, entre os anos de 1952 e 1956, em missão cultural, fixou residência na Itália e passou a lecionar cultura brasileira na Universidade de Roma.

Murilo Mendes em missão cultural pela Europa
Seu apartamento, situado no centro da capital italiana, tornou-se ponto de referência para escritores e artistas plásticos europeus, que o ajudam a compor um respeitável acervo de arte contemporânea, que atualmente pertence ao Museu Murilo Mendes, em Juiz de Fora, Minas Gerais.

Murilo Mendes com as obras que formam o acervo de artes visuais do museu que leva o seu nome (MAMM)
No ano de 1972, recebeu o prêmio internacional de poesia Etna-Taormina, na Itália. Morreu em Lisboa, Portugal, no ano de 1975.
Principais obras
Poesia: Poemas (1930); História da Brasil (1932); Tempo e Eternidade (1935) [em contribuição com Jorge de Lima]; A Poesia em Pânico (1938); O Visionário (1941); As Metamorfoses (1944); Mundo Enigma (1945); Poesia Liberdade (1947); Janela do Caos (1949); Contemplação de Ouro Preto (1954); Poesias (1925-1955); Siciliana (1959); Tempo Espanhol (1959); Antologia Poética (1964); Convergência (1970).

Obra Mundo Enigma
Prosa: O Discípulo de Emaús (1944); Na Idade do Serrote (1968) - memórias.

Obra O Discípulo de Emaús
Vale a pena saber mais:
Na trajetória poética de Murilo Mendes, é possível perceber inicialmente uma visão irônica e satírica, ao estilo da primeira fase do Modernismo, em História do Brasil, obra de 1932. Seus textos utilizam o humor e ironia como instrumento crítico.
Observe a definição irreverente do que chamou o Homo brasiliensis:
"O homem
É o único animal que joga no bicho".
É o único animal que joga no bicho".

Obra História do Brasil
Nos posteriores, evolui para a tendência espiritualista de Tempo e eternidade, de 1935, composto em parceria com Jorge de Lima, onde revela um homem angustiado diante do bem e do mal.

Obra Tempo e eternidade
Observe:
A anunciação
O anjo pousa de leve
No quarto onde a moça pura
Remenda a roupa dos pobres.
Nasceu uma claridade
Naquele quarto modesto:
A máquina de costurar
Costura raios de luz;
Não se sabe mais se o anjo
É ele mesmo, ou Maria.
[...]
O anjo pousa de leve
No quarto onde a moça pura
Remenda a roupa dos pobres.
Nasceu uma claridade
Naquele quarto modesto:
A máquina de costurar
Costura raios de luz;
Não se sabe mais se o anjo
É ele mesmo, ou Maria.
[...]
Na obra O visionário, de 1941, Murilo Mendes escreve poemas que utilizam técnicas surrealistas.

Obra O visionário
Obrserve:
Pré-história
Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.
Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.
Nas obras Mundo enigma, de 1945, e Poesia liberdade, de 1947, destacam-se os poemas sociopolíticos que refletem a realidade da Segunda Guerra Mundial. Obrserve:
Perturbação
Desta varanda se descortina o mar noturno
Poderoso.
Entretanto existe alguém mais forte ainda
carregando conchas de mortos.
O fantasma mecânico da guerra
Que passa
Com seu penacho de fumaça e sangue.
Desta varanda se descortina o mar noturno
Poderoso.
Entretanto existe alguém mais forte ainda
carregando conchas de mortos.
O fantasma mecânico da guerra
Que passa
Com seu penacho de fumaça e sangue.
Em outras obras do poeta, é possível encontrar a obsessão pelo caos, a presença do eterno-feminino, em conflito entre o profano e o sagrado. Outras características de Murilo Mendes são a exatidão métrica, o respeito à semântica, o emprego de séries compactas de nomes e verbos, encontrados em Contemplação de Outro Preto (1954). Observe:
Montanhas de Ouro Preto
Desdobram-se as montanhas de Ouro Preto
Na perfurada luz, em plano austero.
Montes contempladores, circunscritos,
Entre cinza e castanho, o olhar domado
Recolhe vosso espectro permanente.
Por igual pascentais a luz difusa
Que se reajusta ao corpo das igrejas,
E volve o pensamento à descoberta
Desdobram-se as montanhas de Ouro Preto
Na perfurada luz, em plano austero.
Montes contempladores, circunscritos,
Entre cinza e castanho, o olhar domado
Recolhe vosso espectro permanente.
Por igual pascentais a luz difusa
Que se reajusta ao corpo das igrejas,
E volve o pensamento à descoberta
De uma luta antiqüíssima com o caos,
De uma reinvenção dos elementos
Pela força de um culto ora perdido,
De uma reinvenção dos elementos
Pela força de um culto ora perdido,
Relíquias de dureza e de doutrina,
Rude apetite dessa cousa eterna
Retida na estrutura de Ouro Preto.
Rude apetite dessa cousa eterna
Retida na estrutura de Ouro Preto.

Retrato de Murilo Mendes, por Guignard
Autores modernistas da segunda fase (continuação)
Jorge de Lima
Jorge Mateus de Lima nasceu na cidade de União dos Palmares, zona da mata alagoana, no ano de 1893.
Foi pintor, desenhista, ilustrador, escultor, poeta, romancista e professor. Formou-se em medicina no Rio de Janeiro, em 1914. Neste mesmo ano, publicou seu primeiro livro, XIV Alexandrinos.

Jorge de Lima, União dos Palmares (Alagoas), 1893 – 1953

Obra XIV Alexandrinos.
No ano de 1921, foi eleito Príncipe dos Poetas Alagoanos. Quando retornou para Alagoas, lecionou história natural e literatura brasileira em colégios de Maceió, envolveu-se com a política e ocupou os cargos de deputado e vereador. Iniciou sua trajetória nas artes plásticas ilustrando o livro O Mundo do Menino Impossível, em 1927.

Ilustrações na obra O Mundo do Menino Impossível
No ano de 1931, mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro, onde exerceu a medicina em consultório próprio, que também funcionava como ateliê e local de encontro de artistas e intelectuais.

Jorge de Lima, médico, em seu consultório
Em 1939, pintou a sua primeira tela Quadro com Mulher ou Mulher Sonhando. Em 1940 é homenageado com o Grande Prêmio de Poesia, concedido pela Academia Brasileira de Letras - ABL. Jorge de Lima faleceu, no Rio de Janeiro, em 1953.
Principais obras
Poesia: XIV Alexandrinos (1914); O Mundo do Menino Impossível (1925); Poemas (1927); Essa Negra Fulô (1928); Novos Poemas (1929); Poemas Escolhidos (1932); Tempo e Eternidade (1935) - em colaboração com Murilo Mendes; A Túnica Inconsútil (1938); Poemas Negros (1947); Livro de Sonetos (1949); Obra Poética (1950) - inclui produção anterior, juntamente com Anunciação e Encontro de Mira-Celi; Invenção de Orfeu(1952); Castro Alves - Vidinha (1952).

Obra Poemas
Romances: Salomão e as Mulheres (1927); O Anjo (1934); Calunga (1935); A Mulher Obscura (1939); Guerra dentro do Beco (1950).

Obra A mulher obscura
Ensaio, história, biografia: A Comédia dos Erros (1923); Dois Ensaios (1929) [Proust e Todos Cantam sua Terra]; Anchieta (1934); Rassenbildung und Rassenpolitik in Brasilien (1934); História da Terra e da Humanidade (1944); Vida de São Francisco de Assis (1944); D. Vital (1945); A vida extraordinária de Santo Antonio (1947).

Obra A vida extraordinária de Santo Antonio.
Textos inéditos para teatro: A Filha da Mãe D'Água; As Mãos e Ulisses.
Argumento para filme: Os Retirantes.
Argumento para filme: Os Retirantes.
Vale a pena saber mais:
Em suas obras iniciais, Jorge de Lima demonstra influência neoparnasiana e simbolista, passando ao nativismo e, finalmente, ao misticismo. Da primeira fase, destaca-se o soneto O Acendedor de Lampiões.
Observe:
O acendedor de lampiões
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!
Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.
Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.
Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua!
Ao entrar em contato com Modernismo, sua poesia adquire cunho social. O personagem principal dessa fase é o negro escravizado, presente em Novos Poemas (1929) e Poemas escolhidos (1932). A esta fase pertencem dois importantes poemas: Essa negra fulô e Pai João.
Observe:
Essa negra Fulô
Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha
chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama,
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!
Essa negra Fulô!
[...]
Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha
chamada negra Fulô.
Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!
Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama,
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!
Essa negra Fulô!
[...]
No ano de 1935, escreveu com Murilo Mendes Tempo e eternidade, onde deseja “restaurar a poesia em Cristo” para resolver as injustiças de um mundo materialista.

Obra Tempo e Eternidade
Na obra Invenção de Orfeu, de 1952, último livro que Jorge de Lima publicou em vida, o autor combina o catolicismo, o elemento onírico e o surrealismo.
Seus textos são extremamente complexos e eruditos, apresentando diversas técnicas: poesias metrificadas e rimadas, outras em metro livre e verso branco, sonetos, canções, baladas, poemas épicos, líricos, poesias de carne e de sangue, poesias de infância, episódios surrealistas, esboços de dramas e de farsas. A obra é um poema épico e subjetivo, onde o autor constrói uma epopeia moderna e brasileira ao criar uma viagem na qual se depara com o Inferno, o Paraíso e algumas musas.

Obra Invenção de Orfeu
Observe:
CANTO PRIMEIRO (fragmento)
FUNDAÇÃO DA ILHA
II
CANTO PRIMEIRO (fragmento)
FUNDAÇÃO DA ILHA
II
A ilha ninguém achou
porque todos a sabíamos.
Mesmo nos olhos havia
uma clara geografia.
Mesmo nesse fim de mar
qualquer ilha se encontrava,
mesmo sem mar e sem fim
mesmo sem terra e sem mim
porque todos a sabíamos.
Mesmo nos olhos havia
uma clara geografia.
Mesmo nesse fim de mar
qualquer ilha se encontrava,
mesmo sem mar e sem fim
mesmo sem terra e sem mim
Mesmo sem naus e sem rumos,
mesmo sem vagas e areias,
para um homem navegar.......
mesmo sem vagas e areias,
para um homem navegar.......
[...]
Autores modernistas da segunda fase (continuação)
Rachel de Queiroz
Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza, Ceará, em novembro de 1910. Foi romancista, cronista, contista e dramaturga.
Filha de uma família de grandes latifundiários, passou sua infância e adolescência entre Ceará, Rio de Janeiro e Belém do Pará.
Foi favorecida pelo ambiente intelectual familiar, pois descende de José de Alencar (autor de O Guarani, 1829 - 1877) por parte materna e adquiriu uma cultura superior à das mulheres de sua época.

Rachel de Queiroz, Fortaleza (Ceará) – 1910-2003

Obra O Guarani.
Em 1930, com apenas 20 anos, publicou o romance O Quinze, seu mais célebre romance e considerado pela crítica como um divisor de águas na literatura regionalista.

Obra O Quinze
Convertida ao marxismo, como quase toda a sua geração, aderiu ao PCB e nele permaneceu por dois anos, até que dirigentes do partido teceram fortes críticas ao seu segundo romance, João Miguel, na tentativa de proibir a publicação.

Obra João Miguel
Rachel de Queiroz abandonou então o partido e se filiou a uma nova tendência trotskista, onde permaneceu até meados de 1940. A partir daí, dedicou-se a traduções e ao jornalismo, tornando-se cronista de O Cruzeiro, importante revista brasileira na década de 1950.

Revista O Cruzeiro
Nos anos 60, suas posições políticas tornam-se mais conservadoras, a ponto de ter sido uma das poucas personalidades intelectuais a apoiar incondicionalmente o regime militar. Em 04 de agosto de 1977, rompendo com um velho preconceito, foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, onde foi a ocupante da Cadeira 5.

Rachel de Queiroz na ABL
Entre os inúmeros prêmios recebidos está o Prêmio Camões, conferido pelos governos de Portugal e do Brasil, no ano de 1993, por sua contribuição à literatura. Cronista muito experiente, publicou mais de duas mil crônicas, cuja coletânea propiciou a edição e publicação dos inúmeros livros.
Dentre as suas atividades, destaca-se também a de tradutora, com cerca de quarenta volumes traduzidos para o português. Rachel de Queiroz faleceu no Rio de Janeiro (RJ) em 4 de novembro de 2003.

Estátua da escritora Rachel de Queiroz em Fortaleza, na Praça General Tibúrcio.
Principais obras
Romance: O Quinze (1930); João Miguel (1932); Caminho das Pedras (1937); As Três Marias (1939); Dôra, Doralina (1975); O Galo de Ouro (1985); Memorial de Maria Moura (1992).

Obra Memorial de Maria Moura
Infantil e juvenil: O Menino Mágico (1969); Cafute & Pena de Prata (1986); Andira (1992).

Obra Cafute & Pena de Prata
Teatro: Lampião (1953); A Beata Maria do Egito (1958); Teatro (1995).

Publicação de A Beata Maria do Egito
Crônica: A Donzela e a Moura Torta (1948); Cem Crônicas Escolhidas (1958); O Brasileiro Perplexo (1964); O Caçador de Tatu (1967); O Jogador de Sinuca e Mais Historinhas (1980); Mapinguari (1964); As Terras Ásperas (1993); O Nosso Ceará (1994)- com Maria Luiza de Queiroz Salek; Um Alpendre, uma Rede, um Açude (1994); Falso Mar, Falso Mundo (2002).

Obra As Terras Ásperas
Memórias: Tantos Anos (1994) - com Maria Luiza de Queiroz Salek; O Não Me Deixes: Suas Histórias e Sua Cozinha (2000) - com Maria Luiza de Queiroz Salek.

Obra Tantos Anos
Vale a pena saber mais:
Assim como seus contemporâneos nordestinos, a obra de Rachel de Queiroz tem forte caráter regionalista, abordando mais precisamente sobre o Ceará. Além do interesse social, o flagelo da seca e o coronelismo demonstrado em seus dois primeiros romances - O Quinze e João Miguel – suas obras evidenciam a apreensão com os traços psicológicos do homem daquela região, que aceita seu destino sem questionar.
Observe um fragmento de O Quinze:
Debaixo de um juazeiro grande, todo um bando de retirantes se arranchara: uma velha, dois homens, uma mulher nova, algumas crianças.
O sol, no céu, marcava onze horas. Quando Chico Bento, com seu grupo, apontou na estrada, os homens esfolavam uma rês e as mulheres faziam ferver uma lata de querosene cheia de água, abanando o fogo com um chapéu de palha muito sujo e remendado.
O sol, no céu, marcava onze horas. Quando Chico Bento, com seu grupo, apontou na estrada, os homens esfolavam uma rês e as mulheres faziam ferver uma lata de querosene cheia de água, abanando o fogo com um chapéu de palha muito sujo e remendado.
Em toda a extensão da vista, nenhuma outra árvore surgia. Só aquele juazeiro, devastado e espinhento, verdejava a copa hospitaleira na desolação cor de cinza da paisagem.
Cordulina ofegava de cansaço. A Limpa-Trilho gania e parava, lambendo os pés queimados.
Os meninos choramingavam, pedindo de comer.
[...]
Cordulina ofegava de cansaço. A Limpa-Trilho gania e parava, lambendo os pés queimados.
Os meninos choramingavam, pedindo de comer.
[...]
Nas obras Caminho de pedras, de 1927, e As três Marias, de 1939, seus textos são comprometidos, harmonizando ainda mais o social e o psicológico, trazendo uma reflexão político-social consciente.

Capa atualizada da obra As três Marias.
Após cerca de quarenta anos sem escrever, Rachel de Queiroz lança, no ano de 1992, Memorial de Maria Moura, obra que retrata a história de uma cangaceira nordestina, uma "donzela guerreira", que parte em busca de vingança contra criminosos que assassinam seus familiares. O texto, posteriormente, foi adaptado para a televisão.

Atores brasileiros em Memorial de Maria Moura, obra adaptada para a televisão
Autores modernistas da segunda fase (continuação)
Graciliano Ramos
Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em nasceu em Quebrângulo (AL) no ano de 1892. Foi romancista, contista e cronista.
Estudou em Maceió. Após breve período trabalhando como jornalista no Rio de Janeiro, fixou residência em Palmeira dos Índios (AL), onde se casou e abriu um pequeno comércio.

Graciliano Ramos, Quebrângulo (Alagoas) – 1892-1953

Graciliano Ramos com a esposa Heloísa e filhos em Palmeira dos Índios, 1931.
No período de 1928 a 1930, foi prefeito da cidade. Posteriormente mudou-se para Maceió (AL), onde exerceu importantes cargos burocráticos e publicou suas primeiras obras Caetés e São Bernardo.
Primeira capa da obra Caetés
No ano de 1936, foi preso sob a acusação de era comunista. Sem julgamento, ficou detido por 10 meses, passando por inúmeras humilhações dentro dos vários presídios, experiência que foi contada em Memórias do cárcere.

Capa obra Memórias do cárcere
Quando em liberdade, mudou-se definitivamente para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como revisor, inspetor de ensino e como colaborador do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda). O DIP era o órgão de propaganda cultural e política do Estado Novo e também servia para cooptar intelectuais.
Neste mesmo período, os romances de Graciliano Ramos passaram a ter excelente aceitação entre um público mais sofisticado e nos círculos intelectuais. No ano de 1945, Graciliano filiou-se ao PCB.
Morreu vitima de câncer na capital do Rio de Janeiro no ano de 1953, reconhecido como importante romancista.

Graciliano Ramos na União de Escritores Soviéticos, em Moscou, maio de 1952

Últimos dias de vida de Graciliano Ramos
Suas obras foram traduzidas em dezenas de idiomas, e alguns relatos receberam versão cinematográfica.

Personagens da obra Vidas Secas na versão cinematográfica
Principais obras:
Romance: Caetés (1933); São Bernardo (1934); Angústia (1936); Vidas Secas (1938); Brandão Entre o Mar e o Amor – em colaboração com Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Aníbal Machado(1942); Histórias de Alexandre (1944); Infância (1945); Dois Dedos (1945); Histórias Incompletas (1946); Insônia (1947); 7 Histórias Verdadeiras (1951); Memórias do Cárcere (1953); Viagem (1953); Pequena História da República (1960); Histórias Agrestes (1960); Viventes de Alagoas (1962); Alexandre e Outros Heróis (1962); Linhas Tortas (1962).

Obra Histórias Incompletas
Vale a pena saber mais:
Graciliano Ramos destaca-se como o principal romancista da segunda fase do Modernismo. Suas obras conciliam o regionalismo e a psicologia, trazendo como tônica a relação problemática e repleta de conflitos do homem com o meio natural e a sociedade.
Seu estilo surpreende pela quase inexistência de adjetivos, traz um estilo seco, conciso e sintético, onde deixa de lado o sentimentalismo a favor de uma objetividade e clareza em textos com mensagens diretas e sem rodeios. Nas obras São Bernardo, Angústia e Vidas Secas, Graciliano Ramos mostra um perfil psicológico e sociopolítico que nos instiga a uma visão crítica dos rumos que a sociedade moderna toma. Observe este trecho de Vidas Secas:
Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia. A pé, não se agüentava bem. Pendia para um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes, utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admira as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.
[...]
[...]
Na obra autobiográfica, que contém certos elementos ficcionais, Memórias do Cárcere, Graciliano Ramos descreve toda a violência e humilhações que viveu enquanto esteve preso, denunciando o autoritarismo provocado por um regime ditatorial chamado de Estado Novo.
Observe este fragmento da obra Memórias do Cárcere:
“O mundo se tornava fascista. Num mundo assim, que futuro nos reservariam? Provavelmente não havia lugar para nós, éramos fantasmas, rolaríamos de cárcere em cárcere, findaríamos num campo de concentração. Nenhuma utilidade representávamos na ordem nova. Se nos largassem, vagaríamos tristes, inofensivos e desocupados, farrapos vivos, fantasmas prematuros; desejaríamos enlouquecer, recolhermo-nos ao hospício ou ter coragem de amarrar uma corda ao pescoço e dar o mergulho decisivo. Essas idéias, repetidas, vexavam-me; tanto me embrenhara nelas que me sentia inteiramente perdido.”
[...]
[...]
Autores modernistas da segunda fase (continuação)
José Lins do Rego
José Lins do Rego nasceu no município de Pilar, estado da Paraíba, no ano de 1901. Foi romancista, cronista e ensaísta.
Foi criado por avós maternos no engenho Corredor. Estudou em Itabaiana e na Paraíba (atual João Pessoa), e se formou em Direito no Recife no ano de 1918.
Ocupou o cargo de promotor público em Manhaçu (MG). Desde a sua juventude publicava artigos em suplementos literários, passando após algum tempo a escrever romances.

José Lins do Rego, Pilar (Paraíba) – 1901-1957
No ano de 1932, publicou com recursos prórpios seu primeiro livro, Menino de Engenho, que atingiu grande repercussão e abriu caminho para uma série de obras de grande importância na literatura brasileira.

Obra Menino de Engenho.
No ano de 1935, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde viveu até o fim da sua vida. Em 15 de setembro de 1955, foi eleito como membro da Academia Brasileira de Letras, como o quarto ocupante da Cadeira 25.

José Lins do Rego (à direita) e Manuel Bandeira
José Lins do Rego faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 12 de setembro de 1957.
Principais obras
Romance: Menino de Engenho (1932); Doidinho (1933); Bangüê (1934); O Moleque Ricardo (1935); Usina (1936); Pureza (1937); Pedra Bonita (1938); Riacho Doce (1939); Água-mãe (1941); Fogo Morto (1943); Eurídice (1947); Cangaceiros (1953).

Obra Doidinho
Memórias: Meus Verdes Anos (1953).

Obra Meus Verdes Anos
Literatura Infantil: Histórias da Velha Totonha (1936).

Obra Histórias da Velha Totonha
Crônicas: Gordos e Magros (1942); Poesia e Vida (1945); Homens, Seres e Coisas (1952); A Casa e o Homem (1954); Presença do Nordeste na Literatura Brasileira (1957); O Vulcão e a Fonte (1958); Dias Idos e Vividos (1981).

Obra Gordos e Magros.
Vale a pena saber mais:
As obras de José Lins do Rego são consideradas um dos destaques do romance regional nordestino, fixando tipos e costumes da região. O autor não se aprofunda na análise psicológica de seus personagens, no entanto são incomuns, fortes e reais. Seus textos exaltam os sentimentos pessoais, fazendo uso de uma linguagem cheia de vocábulos regionais. Suas narrativas apresentam forte inspiração na literatura de cordel, dando ênfase à oralidade.
Nas obras Menino do engenho (1932), Doidinho (1933), Banguê (1934), Moleque Ricardo (1935), Usina (1936), e Fogo morto (1943), o autor retrata a decadência dos engenhos de açúcar, sufocados pelas poderosas usinas. Em Pureza (1937), Pedra bonita (1938), Riacho doce (1939) e Cangaceiros (1953), José Lins do Rego traz elementos do ciclo do cangaço, misticismo e seca.
Dentre as obras, Fogo morto é considerada a mais significativa. Observe este fragmento:
- Coronel, eu me retiro. Aqui eu não vim com o intento de roubar ninguém. Vim pedir. O velho negou o corpo.
- Pois eu lhe agradeço, capitão.
A noite já ia alta. Os cangaceiros se alinhavam na porta. Vitorino, quase que se arrastando, chegou-se para o chefe e lhe disse:
- capitão Antônio Silvino, o senhor sempre foi da estima do povo, mas deste jeito se desgraça, atacar um engenho como este do coronel Lula, é o mesmo que dar surra em cego.
- Cala a boca, velho.
[...]
- Pois eu lhe agradeço, capitão.
A noite já ia alta. Os cangaceiros se alinhavam na porta. Vitorino, quase que se arrastando, chegou-se para o chefe e lhe disse:
- capitão Antônio Silvino, o senhor sempre foi da estima do povo, mas deste jeito se desgraça, atacar um engenho como este do coronel Lula, é o mesmo que dar surra em cego.
- Cala a boca, velho.
[...]
José Lins do Rego é reconhecido como grande escritor regionalista e seus romances foram traduzidos na Alemanha, Argentina, Espanha, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, Portugal e Coréia.

José Lins do Rego
Autores modernistas da segunda fase (continuação)
Jorge Amado
Jorge Amado de Faria nasceu em 1912, em Ferradas, hoje município de Itabuna, na Bahia. Foi jornalista, romancista e memorialista.
Era filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado. Estudou em Ilhéus, Salvador e Rio.
Ainda jovem começou a trabalhar em jornais e a participar da vida literária, sendo um dos fundadores da "Academia dos Rebeldes", uma das primeiras manifestações de oposição ao Modernismo, no nordeste.

Jorge Amado, Itabuna (Bahia) – 1912-2001
No ano de 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar a faculdade de Direito. Neste período, colaborou em jornais, fez parte de grupos literários e publicou, em 1931, O País do Carnaval, obra que o tornou conhecido. No entanto, a notoriedade ocorreu com os dois romances seguintes: Cacau (1933) e Suor (1934).

Obra O País do Carnaval
No ano de 1932, Jorge Amado é apresentado por Rachel de Queiroz aos grupos políticos de esquerda e, ao participar do movimento de frente popular da Aliança Nacional Libertadora, nos anos de 1936 e 1937 conheceu as angústias e sofrimentos da prisão. Perseguido, buscou exílio em Buenos Aires, Argentina, de 1941 a 1943, período em que publicou a biografia de Carlos Prestes e escreveu Terras do Sem Fim.

A partir da esquerda: Waldemar Cavalcanti, José Auto, Jorge Amado, Rachel de Queiroz e Alberto Passos Guimarães (1933)
No ano de 1945, candidatou-se e foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro. Neste mesmo ano conheceu Zélia Gattai, com quem teve dois filhos.

Jorge Amado e sua esposa, Zélia Gattai
A partir de 1947, deixou o país por alguns anos para residir na França e em vários países socialistas da Europa. Como escritor profissional, viveu exclusivamente dos direitos autorais de seus livros.

Jorge Amado - escritor profissional
Em 6 de abril de 1961, foi eleito como quinto ocupante da Cadeira 23 na Academia Brasileira de Letras.

Jorge Amado na Academia Brasileira de Letras
Jorge Amado recebeu inúmeros prêmios e títulos literários, nacionais e internacionais. Entre eles destaca-se o Prêmio Camões (1995), pelo conjunto da obra e, em sua última viagem a Paris, em 1998, recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade de Sorbonne.

Jorge Amado recebendo prêmio, em 1976
Principais obras

Coletânea de capas das obras de Jorge Amado
Romance
Primeira fase: O País do Carnaval (1930); Cacau (1933); Suor (1934); Jubiabá (1935); Mar morto (1936); Capitães da areia (1937); Terras do Sem-Fim (1943); São Jorge dos Ilhéus (1944); Seara vermelha (1946); Os subterrâneos da liberdade (1954);
Segunda fase: Gabriela, cravo e canela (1958); A morte e a morte de Quincas Berro d'Água (1961); Os velhos marinheiros ou o capitão de longo curso (1961); Os pastores da noite (1964); O Compadre de Ogum (1964); Dona Flor e Seus Dois Maridos (1966); Tenda dos milagres (1969); Teresa Batista cansada de guerra (1972); Tieta do Agreste (1977); Farda, fardão, camisola de dormir (1979); Tocaia grande (1984); O sumiço da santa (1988); A descoberta da América pelos turcos (1994).

Obra Gabriela Cravo e Canela

Obra Gabriela Cravo e Canela adaptada para cinema
Poesia: A estrada do mar (1938).
Biografia: ABC de Castro Alves (1941); O cavaleiro da esperança (1942).

Obra O cavaleiro da esperança
Guia: Bahia de Todos os Santos (1945).

Publicação de Bahia de Todos os Santos
Teatro: O amor do soldado (1947).

Publicação de O amor do soldado
Viagens: O mundo da paz (1951).

Publicação de O mundo da paz
Memórias: O menino grapiúna (1982); Navegação de cabotagem (1992).

Obra O menino grapiúna
Infantil-Juvenil: O gato Malhado e a andorinha Sinhá (1976); A bola e o goleiro (1984).

Obra O gato Malhado e a andorinha Sinhá
Fábula: O milagre dos pássaros (1997).

Obra O milagre dos pássaros.
Crônica: Hora da Guerra (2008).
Vale a pena saber mais:
As obras de Jorge Amado, ambientadas na Bahia, são fartas e possuem sintonia com o gosto popular, apresentando um estilo próprio com linguagem lírica e simples.
Seus romances mostram os problemas e a vida das classes menos favorecidas de Salvador. Seus personagens típicos são os homens do cais do porto, menores abandonados, pais de santo, prostitutas, mascates, capoeiristas e malandros. Jorge Amado também retratou costumes populares e as festas populares.
Suas produções são divididas em duas fases.
A primeira fase apresenta como características:
- A imaginação criativa, onde personagens e acontecimentos surgem e desaparecem freneticamente;
- A generosidade humana, onde o autor põe-se ao lado dos menos favorecidos (pobres, marginais e especialmente os negros, que no período de 1930 e 1940 eram repudiados pelas elites brasileiras);
- Conhecimento, aparentemente inesgotável, das formas de vida das camadas populares (costumes, ofícios, modo de ser e agir, religiosidade e estratégias de sobrevivência do povo baiano);
- Valor documental de seus registros (sociedade cacaueira e cultura afro-brasileira);
- Capacidade de criar tipos humanos primitivos (seres psicologicamente rústicos, que viviam de acordo com suas emoções e instintos);
- Obscenidade na linguagem e nos atos de seus personagens (por muitos confundido com pornografia), carregado de palavrões e com função erótica, como protesto literário contra os falsos pudores e moralismos das classes mais privilegiadas.
- Personagens originários do povo.
Observe este fragmento de Terras do Sem Fim (1943), onde o autor descreve a cidade de Ilhéus, cenário e tipos humanos onde se desenrola a ação do livro.
Terras do Sem Fim
A exploração do cacau trouxe para a região de Ilhéus, no sul da Bahia, o desenvolvimento e com este os mais diversos tipos humanos que ali aportavam, atraídos pelas histórias de terras férteis e dinheiro em abundância. Para todos, que chegavam, Ilhéus era a primeira ou a última esperança.
Dentre as pessoas vindas de longe, iludidas por essa febre, encontravam-se, no mesmo navio, o lavrador Antônio Vítor que sonhava com uma roça de cacau só sua, o aventureiro João Magalhães, jogador de cartas trapaceiro e falso engenheiro militar, que se via ganhando muito dinheiro no carteado, graças ao "azar" dos velhos coronéis milionários, e a prostituta Margot que deixara Salvador para encontrar o amante, o advogado Dr.Virgílio que, na esperança de riqueza fácil, já se encontrava em Ilhéus, esperando colocar seu conhecimento de leis a serviço da ambição dos coronéis.
Após o desembarque, encontraram em Ilhéus e vilarejos adjacentes: Ferradas e Taboca, sociedades em formação, conturbadas pela ganância dos poderosos, onde a lei era a dos mais fortes e corajosos, tornando-se por isso selvagens e violentas. Depararam-se com o conflito entre dois grandes latifundiários: o Coronel Horácio e a família Badaró que, em busca de expansão do patrimônio e força política, lutavam pela posse das matas do Sequeiro Grande, que ficavam entre as duas propriedades.
[...]
A exploração do cacau trouxe para a região de Ilhéus, no sul da Bahia, o desenvolvimento e com este os mais diversos tipos humanos que ali aportavam, atraídos pelas histórias de terras férteis e dinheiro em abundância. Para todos, que chegavam, Ilhéus era a primeira ou a última esperança.
Dentre as pessoas vindas de longe, iludidas por essa febre, encontravam-se, no mesmo navio, o lavrador Antônio Vítor que sonhava com uma roça de cacau só sua, o aventureiro João Magalhães, jogador de cartas trapaceiro e falso engenheiro militar, que se via ganhando muito dinheiro no carteado, graças ao "azar" dos velhos coronéis milionários, e a prostituta Margot que deixara Salvador para encontrar o amante, o advogado Dr.Virgílio que, na esperança de riqueza fácil, já se encontrava em Ilhéus, esperando colocar seu conhecimento de leis a serviço da ambição dos coronéis.
Após o desembarque, encontraram em Ilhéus e vilarejos adjacentes: Ferradas e Taboca, sociedades em formação, conturbadas pela ganância dos poderosos, onde a lei era a dos mais fortes e corajosos, tornando-se por isso selvagens e violentas. Depararam-se com o conflito entre dois grandes latifundiários: o Coronel Horácio e a família Badaró que, em busca de expansão do patrimônio e força política, lutavam pela posse das matas do Sequeiro Grande, que ficavam entre as duas propriedades.
[...]
A segunda fase apresenta como características:
- Personagens de origem popular. No entanto, nesta fase são os representantes da classe que enfrentam as agruras da vida com fibra, determinação, alegria, autenticidade e solidariedade.
- A luta dos personagens é contra valores morais, preconceitos raciais e sociais, hipocrisia sexual, fanatismo e presunção, sobretudo da pequena burguesia.
- Esforço pela liberação dos instintos e detrimento do amor livre e espontâneo.
- Visão humorística da realidade, onde o riso é mostrado como forma de resistência popular.
- Utilização de elementos do folclore e da tradição religiosa negra, elementos da mitologia do candomblé, que é valorizada.
- Uso de pornografia leve e ironia.
Observe estes fragmentos da obra Gabriela, cravo e canela, de 1958:
Naquela manhã, muitas coisas ocorreram em Ilhéus, fazendo a cidade fervilhar. Quando estava para atracar no porto, o Ita encalhou na areia, ficando ali horas. Dizia-se, com veemência que a falta de um porto decente era um despropósito para uma cidade daquele porte. Além da costumeira leva de comerciantes e aventureiros, o navio trazia de volta o exportador de cacau, Mundinho Falcão que tinha ido ao Rio para ver a família e fazer contatos políticos. Era solteiro e, como a maioria das pessoas, viera para Ilhéus em busca de fortuna. Além disso, queria tentar esquecer um grande amor.
A notícia do assassinato de um casal de jovens correu rápido como um relâmpago pela preconceituosa cidade. Naquela manhã, o coronel Jesuíno flagrou sua esposa, Sinhazinha, na cama com o dentista, Dr. Osmundo, matando-os em seguida. Comentava-se e discutia-se calorosamente a tragédia dos dois apaixonados; divulgavam-se versões da sociedade, opunham-se detalhes, mas com uma coisa todos concordavam: o gesto macho do coronel era constantemente louvado. Para a provinciana Ilhéus, honra de homem enganado, só o sangue poderia limpar. Na busca de razões, os mais conservadores diziam que o vilão de tudo isso era o clube Progresso com seus bailes. [...]
[...] Entre os retirantes notou uma mulher em trapos miseráveis, pés imundos descalços e cabelos desgrenhados. Estava tão suja que não se podia ver-lhe as feições ou dar-lhe a idade; respondeu que se chamava Gabriela e que sabia fazer de tudo. Mesmo achando que não era verdade, Nacib levou-a consigo, para experimentar o seu serviço. Quando chegaram em casa, mostrou-lhe os aposentos e o quarto onde ela ficaria. Antes de sair, mandou que tomasse um bom banho; iria ao bar e depois acabaria a noite no Bataclan, onde estava de xodó com Risoleta. [...]
A notícia do assassinato de um casal de jovens correu rápido como um relâmpago pela preconceituosa cidade. Naquela manhã, o coronel Jesuíno flagrou sua esposa, Sinhazinha, na cama com o dentista, Dr. Osmundo, matando-os em seguida. Comentava-se e discutia-se calorosamente a tragédia dos dois apaixonados; divulgavam-se versões da sociedade, opunham-se detalhes, mas com uma coisa todos concordavam: o gesto macho do coronel era constantemente louvado. Para a provinciana Ilhéus, honra de homem enganado, só o sangue poderia limpar. Na busca de razões, os mais conservadores diziam que o vilão de tudo isso era o clube Progresso com seus bailes. [...]
[...] Entre os retirantes notou uma mulher em trapos miseráveis, pés imundos descalços e cabelos desgrenhados. Estava tão suja que não se podia ver-lhe as feições ou dar-lhe a idade; respondeu que se chamava Gabriela e que sabia fazer de tudo. Mesmo achando que não era verdade, Nacib levou-a consigo, para experimentar o seu serviço. Quando chegaram em casa, mostrou-lhe os aposentos e o quarto onde ela ficaria. Antes de sair, mandou que tomasse um bom banho; iria ao bar e depois acabaria a noite no Bataclan, onde estava de xodó com Risoleta. [...]
Jorge Amado teve suas obras adaptadas para o cinema, o teatro, o rádio, a televisão e em histórias em quadrinhos, não só no Brasil, mas também foram traduzidos para 49 idiomas, além de exemplares em braile e em formato de audiolivro. Sua vida e obra também serviram de inspiração para tema de escolas de samba em várias partes do Brasil.

Jorge Amado
Jorge Amado faleceu em 6 de agosto de 2001, na cidade de Salvador, Bahia. Foi cremado, de acordo com sua vontade, e suas cinzas foram enterradas no jardim de sua residência, no dia em que completaria 89 anos.
Autores modernistas da segunda fase (continuação)
Érico Veríssimo
Érico Verissimo nasceu na cidade de Cruz Alta, Rio Grande do Sul, no ano de 1905. Foi romancista, contista, memorialista, autor de literatura infantil e tradutor.Era filho de família tradicional de estancieiros, que foi arruinada no início do século XX devido à crise que atingiu a pecuária sul-rio-grandense.
Pretendia estudar medicina, porém a crise financeira não permitiu e Érico se viu forçado a exercer várias funções: ajudante de comércio, bancário e proprietário de farmácia.
No ano de 1930, mudou-se para Porto Alegre, acompanhado de sua esposa e, no ano seguinte começou a trabalhar como revisor e tradutor na Editora Globo, publicando grande parte da literatura inglesa lida no Brasil a partir dos anos 30.

Érico Veríssimo, Cruz Alta (Rio Grande do Sul) – 1905 - 1975
O início de sua trajetória literária ocorreu no ano de 1932, com o livro de contos Fantoches. Entretanto, foram os romances escritos posteriormente que lhe deram a fama.

Capa edição comemorativa de 40 anos da obra Fantoches
No ano de 1943, viaja aos Estados Unidos para lecionar Literatura Brasileira na Universidade da Califórnia, onde o registro das visitas aos Estados Unidos se encontra nas obras O Gato Preto em Campo de Neve (1941) e a Volta do Gato Preto (1946).

Obra O Gato Preto em Campo de Neve, registro de sua primeira viagem aos Estados Unidos

Érico Veríssimo, sua esposa D. Mafalda, com Clarice Lispector e os filhos Paulo e Pedro em uma de suas viagens a Washington
Suas viagens a outros países também resultaram em livros como México (1952) e Israel em Abril (1969).

Obra Israelem Abril
Entre 1947 e 1948 escreveu O continente, dando início à trilogia O tempo e o vento, considerada sua obra prima e concluída apenas no início dos anos 60.

Folha de rosto, terceira edição da obra O continente

Publicação O tempo e o vento
Érico Veríssimo recebeu inúmeros prêmios e títulos, entre eles: Prêmio Machado de Assis, da Cia. Editora Nacional, em 1934, por Música ao longe; Prêmio Fundação Graça Aranha, por Caminhos cruzados; Título Doutor Honoris Causa, em 1944, pelo Mills College, de Oakland, Califórnia, onde dava aulas de Literatura e História do Brasil; Prêmio Machado de Assis, em 1954, concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra; Título de Cidadão de Porto Alegre, em 1964, conferido pela Câmara de Vereadores daquela cidade; Prêmio Jabuti – Categoria Romance, da Câmara Brasileira de Livros, em 1965, pelo livro O senhor embaixador; Prêmio Intelectual do Ano (Troféu Juca Pato), em 1968, concedido pela Folha de São Paulo e pela União Brasileira de Escritores.
Juntamente como Jorge Amado, Érico Veríssimo é considerado o romancista brasileiro mais estimado pelo público no Brasil e no exterior. Suas obras foram traduzidas para as principais línguas modernas e seus romances são continuamente reeditados.

Érico Veríssimo relendo seus manuscritos
A seguir, veremos quais são as principais obras de Érico Veríssimo.
Autores modernistas da segunda fase (continuação)
Obras de Érico Veríssimo
Romances e novelas: Clarissa (1933); Caminhos Cruzados (1935); Música ao Longe (1935); Um Lugar ao Sol (1936); Olhai os Lírios do Campo (1938); Saga (1940); O Resto é Silêncio (1942); Noite (1954); O Tempo e o Vento: O Continente (1949), O Retrato (1951), O Arquipélago (1961/2); O Senhor Embaixador (1965); O Prisioneiro (1967); Incidente em Antares (1971).

Obra Clarissa – primeiro romance de Érico Veríssimo
Contos: Fantoches (1932); As Mãos de Meu Filho (1942); O Ataque (1959); Galeria Fosca (1987).

Obra As Mãos de Meu Filho
Livros de Viagem: Gato Preto em Campo de Neve (1941); A Volta do Gato Preto (1947); México (1957); Israel em Abril (1969).

Obra México
Literatura Infantil e Juvenil: A Vida de Joana D'Arc (1935); As Aventuras do Avião Vermelho (1935); Os Três Porquinhos Pobres (1936); Rosa Maria no Castelo Encantado (1936); As Aventuras de Tibicuera (1937); O Urso com Música na Barriga (1938); A Vida do Elefante Basílio (1939); Outra Vez Os Três Porquinhos (1939); Viagem à Aurora do Mundo (1939); Aventuras no Mundo da Higiene (1939).

Obra As aventuras do avião vermelho – capa atualizada
Biografias e Memórias: O Escritor Diante do Espelho (incluída na edição da Ficção Completa, v.3, Rio de Janeiro: ed. Aguilar, 1967); Um Certo Henrique Bertaso(1972); Solo de Clarineta -I e II, 1973/76.

Obra Um Certo Henrique Bertaso
Ensaio: Brazilian Literature: an Outline(1945), (traduzida para o português como: Breve História da Literatura Brasileira (1996))

Publicações de Brazilian Literature: an Outline e Breve História da Literatura Brasileira, respectivamente.
Vale a pena saber mais:
As obras de Érico Veríssimo são caracterizadas pela linguagem sóbria e pela realização de obra legítima e de caráter inovador, tendo como objetivo facilitar o entendimento para o leitor médio, sem perder de vista a busca de "autenticidade". O autor faz uso de justaposições de sintaxe, palavras comuns e, forçosamente, lugares comuns da psicologia do cotidiano. Entretanto, não deixa de acrescentar novidades como: monólogos internos, trama não-linear, exposição das personagens por focalização interna (mutuamente cruzada) e ordem temporal estilhaçada por flash-backs.

Érico Veríssimo
Sua obra se divide em:
- Romance urbano, onde que retrata os conflitos morais e espirituais de uma sociedade em crise. As obras Clarissa, Música ao longe, Olhai os lírios do campo, entre outros, são exemplos desse tipo de romance.

Obra Música ao longe
- Romance histórico, onde Érico Veríssimo recupera a história do Rio Grande do Sul, desde os tempos coloniais, passando pela Revolta da Armada, ocorrida em 1893, até o início do governo de Getúlio Vargas. A obra O tempo e o vento, composta por três romances – O continente, O retrato e O arquipélago, representam esse tipo de romance.

A obra O tempo e o vento.
- Romance político internacional: As obras O prisioneiro, O senhor embaixador e Incidente em Antares, são exemplos desse tipo de romance.

Obra Incidente em Antares
Érico Veríssimo foi o responsável pela inclusão do Rio Grande do Sul na vanguarda intelectual do país. Tornou-se conhecido no exterior, especialmente nos Estados Unidos da América e Portugal.

Érico Veríssimo
Érico Veríssimo faleceu subitamente, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 28 de novembro de 1975, deixando inacabada a segunda parte do segundo volume de suas memórias, além de esboços de um romance que se chamaria A hora do sétimo anjo.

Desenho do manuscrito A Hora do Sétimo Anjo - obra inacabada de Érico Veríssimo.
Terceira fase do Modernismo
A terceira fase do Modernismo é marcada pela deposição de Getúlio Vargas e o fim da Segunda Guerra Mundial.
Porém os tempos são de Guerra Fria (entre Estados Unidos e a extinta União Soviética) e Governo Juscelino Kubitschek, no Brasil.

Juscelino Kubitschek
Neste período, a literatura brasileira entra na fase que muitos críticos denominam de Pós-Modernismo, onde a poesia e ideias propostas pela geração de 22 passam a ser rejeitadas, surgindo a poesia voltada para as relações sociais e as reflexões políticas, econômicas e morais. É na terceira fase, também, que a crônica, o conto, a prosa autobiográfica e o teatro se destacam.
Na literatura, três escritores destacaram-se pela pesquisa de linguagem: Guimarães Rosa e Clarice Lispector na prosa, e João Cabral de Melo Neto na poesia.
Já a "geração de 45", representada por Péricles Eugênio da Silva Ramos, Ledo Ivo, Geir Campos e Mário Quintana, apresenta características neoparnasianas, onde esses poetas revalorizaram a rima, a métrica e usaram vocabulário erudito, tomando distância do vocabulário coloquial.
Características da terceira fase modernista
Na literatura, a terceira fase é marcada pelo fim do verso livre, da paródia, da ironia, do poema-piada, entre outros.
A poesia desta fase segue um modelo mais formal, com características neoparnasianas ou neossimbolistas, com versos mais regrados, maior erudição com relação às palavras e uso de temas mais universais.
Autores modernistas da terceira fase
Guimarães Rosa
João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG), em 27 de junho de 1908, filho de comerciantes do centro-norte de Minas. Foi contista, romancista, poeta, médico e diplomata.
Cursou Medicina pela Universidade de Minas Gerais, formando-se em 1930. Pelo período de dois anos, exerceu a profissão de médico na cidade de Itaguara, no interior mineiro, o que lhe possibilitou conhecer o cotidiano dos sertanejos, que retratou mais tarde em seus contos, novelas e no romance Grande Sertão: Veredas. Foi diplomata e embaixador, representando o Brasil em diversos países.

Guimarães Rosa, Cordisburgo (MG), 1908 - 1967

Guimarães Rosa e esposa em Hamburgo (Alemanha)
No ano de 1937, recebeu prêmio da Academia Brasileira de Letras (ABL) por seu único volume de poesia, Magma, que o autor manteve inédito, a primeira edição, póstuma, foi publicada em 1997.
Ainda no ano de 1937, participou de outro concurso com a sua coletânea de contos Sagarana, onde obteve a segunda colocação. Após revisão pelo autor e publicado em 1946, recebeu várias premiações, sendo considerado atualmente uma das obras mais importantes da ficção brasileira do século XX.
A obra A Hora e a Vez de Augusto Matraga, pertencente a esse volume, foi adaptada para o cinema no ano de 1965. Em 1961, Guimarães Rosa recebeu o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra literária. Recebeu também o Prêmio Filipe d'Oliveira pelo livro Sagarana (1946); o Prêmio Carmen Dolores Barbosa (1956) e o Prêmio Paula Brito (1957); Primeiras estórias recebeu o Prêmio do PEN Clube do Brasil (1963).

Obra Sagarana
No ano de 1963, foi eleito para a ABL por unanimidade. Porém, supersticioso, receando a morte no momento da cerimônia, adiou o ritual de posse por quatro anos, vestindo o fardão apenas em 16 de novembro de 1967. Guimarães Rosa morreu três dias depois, em 19 de novembro, vítima de um enfarte, no Rio de Janeiro, aos 59 anos.

Guimarães Rosa em seu discurso de posse
Guimarães Rosa é considerado um dos maiores escritores da literatura brasileira e ocidental.
Principais obras
Romances: Grande Sertão: Veredas (1956).

Obra Grande Sertão: Veredas
Contos: Sagarana (1946); Corpo de Baile (1956); Primeiras Estórias (1962); Tutaméia – Terceiras Estórias (1967); Estas Estórias (1969); Ave, Palavra (1970).

Obra Primeiras estórias
Poesia: Magma (1997).

Obra Magma
Vale a pena saber mais:
As obras de Guimarães Rosa são caracterizadas pela preocupação com a linguagem, onde o autor utiliza a oralidade da linguagem regional, termos coloquiais típicos do sertão e, a partir do uso de neologismos, arcaísmos (palavras que já estão praticamente em desuso), uso de outras línguas e exploração de novas estruturas sintáticas, recria a linguagem com palavras como "refrio", "retrovão", "levantante", "desfalar", entre outras, ou utilizando frases como: "os passarinhos que bem-me-viam", "e aí se deu o que se deu – o isto é".
Observe um fragmento do conto O burrinho Pedrês, onde Guimarães Rosa narra, salientando a poesia, o ritmo e as mudanças de sua linguagem, onde o autor intercala quadrinhas populares cantadas pelos vaqueiros. Este conto pertence ao livro Sagarana, de 1946.
"As ancas balançam, e as vagas de dorsos, das vacas e touros, batendo com as caudas, mugindo no meio, na massa embolada, com atritos de couros, estralos de guampas, estrondos e baques, e o berro queixoso do gado junqueira, de chifres imensos, com muita tristeza, saudade dos campos, querência dos pastos de lá do sertão...
'Um boi preto, um boi pintado,
cada um tem sua cor.
Cada coração um jeito
De mostrar o seu amor.'
cada um tem sua cor.
Cada coração um jeito
De mostrar o seu amor.'
Boi bem brabo, bate baixo, bota baba, boi berrando... Dança doido, dá de duro, dá de dentro, dá direito... Vai, vem, volta, vem na vara, vai não volta, vai varando...
'Todo passarinh' do mato
tem seu pio diferente.
Cantiga de amor doído
Não carece ter rompante...'"
tem seu pio diferente.
Cantiga de amor doído
Não carece ter rompante...'"
Na obra Sagarana, o sertão surge não mais dentro da tradição regionalista, mas universalizado, repleto de mitos e questionamentos sobre a luta entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo, morte, destino e amor. A essa obra, seguiu-se o ciclo de novelas de Corpo de baile, de 1956 que, a partir da terceira edição, originou três volumes independentes: Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do sertão.

Obra Manuelzão e Miguilim
Sua obra de maior destaque é o romance Grande sertão: veredas. A obra demonstra extremo cuidado com a linguagem e uma excepcional beleza dramática.
Observe o fragmento:
[...]
Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair. Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse...
Diadorim – nu de tudo. E ela disse:
– "A Deus dada. Pobrezinha..."
E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor – e mercê peço: – mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube... Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d'arma, de coronha...
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.
Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável; abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
– "Meu amor!..."
Foi assim. eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.
[...]
Eu dizendo que a Mulher ia lavar o corpo dele. Ela rezava rezas da Bahia. Mandou todo o mundo sair. Eu fiquei. E a Mulher abanou brandamente a cabeça, consoante deu um suspiro simples. Ela me mal-entendia. Não me mostrou de propósito o corpo. E disse...
Diadorim – nu de tudo. E ela disse:
– "A Deus dada. Pobrezinha..."
E disse. Eu conheci! Como em todo o tempo antes eu não contei ao senhor – e mercê peço: – mas para o senhor divulgar comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que eu também só soube... Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita... Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d'arma, de coronha...
Ela era. Tal que assim se desencantava, num encanto tão terrível; e levantei mão para me benzer – mas com ela tapei foi um soluçar, e enxuguei as lágrimas maiores. Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher. Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucúia, como eu solucei meu desespero.
O senhor não repare. Demore, que eu conto. A vida da gente nunca tem termo real.
Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável; abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
– "Meu amor!..."
Foi assim. eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.
[...]
Autores modernistas da terceira fase (continuação)
Clarice Lispector
Clarice Lispector nasceu em Chechelnyk, pequena cidade na Ucrânia, em 10 de dezembro de 1920. Ainda criança, imigrou com a família para o Brasil, instalando-se em Maceió.
Foi romancista, contista, cronista, tradutora e jornalista. Estudou Direito. Casou-se com o embaixador Maury Gurgel Valente, como quem viveu por quinze anos em países como Itália, Suíça, Inglaterra, Estados Unidos, onde escreveu os seus primeiros livros.
Seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, foi publicado em 1944, quando a autora tinha apenas 19 anos de idade. Por esta obra, conquistou o prêmio Graça Aranha.

Clarice Lispector, Chechelnyk (Ucrânia), 1920 – 1967

Obra Perto do Coração Selvagem
No ano de 1959, voltou a morar no Brasil e publicou alguns de seus livros principais, como Laços de Família (1960), A Paixão Segundo G.H. (1961), Água Viva (1973) e A Hora da Estrela (1977).

Obra Laços de Família
No Rio de Janeiro, atuou como jornalista no Jornal do Brasil, Correio da Manhã e Diário da Noite, escrevendo crônicas e artigos para o público feminino sobre comportamento, moda e beleza. No ano de 1967, a pedido de seu filho mais novo, escreveu um livro para crianças, O Mistério do Coelho Pensante.

Clarice Lispector com um de seus filhos
Clarice também adaptou para a língua portuguesa obras da literatura infanto-juvenil, como A Ilha Misteriosa, de Júlio Verne, e As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. No ano de 1976, recebeu o primeiro prêmio do 10º Concurso Literário Nacional, de Brasília, pelo conjunto de sua obra. Recebeu ainda o prêmio Carmem Dolores pelo romance A Maçã no Escuro e o prêmio Calunga (da Companhia Nacional da Criança) pela obra infantil O Mistério do Coelho Pensante.
No ano de 1977, publicou seu último livro, A Hora da Estrela. Clarice Lispector faleceu no dia 9 de dezembro desse mesmo ano, devido a um câncer.

Obra A Hora da Estrela
Principais obras
Romances: Perto do Coração Selvagem (1943); O Lustre (1946); A Cidade Sitiada (1949); A Mação no Escuro (1961); A Paixão Segundo GH (1964); Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973); A Hora da Estrela (1977).

Clarice Lispector em sessão de autógrafos do livro A maçã no Escuro
Contos: Alguns Contos (1952); Laços de Família (1960); A Legião Estrangeira (1964), contos e crônicas; Felicidade Clandestina (1971); A Imitação da Rosa (1973); A Via Crucis do Corpo (1974); Onde Estivestes de Noite? (1974); A Bela e a Fera (1979).

Obra A Legião Estrangeira
Crônicas e entrevistas: De Corpo Inteiro (1975), entrevista; Visão do Esplendor (1975) crônicas; A Descoberta do Mundo (1984) crônicas.

Obra A Descoberta do Mundo
Infantil: O Mistério do Coelho Pensante (1967); A Mulher que Matou os Peixes (1969); A Vida Íntima de Laura (1973); Quase de Verdade (1978).

Obra O Mistério do Coelho Pensante
Vale a pena saber mais:
As obras de Clarice Lispector são marcadas pelo intenso emprego da metáfora, fluxo da consciência (mergulho no seu interior) e o rompimento com o enredo. No conjunto, essa técnica colabora para a visitação do mundo interior das personagens, sempre manifestado pela subjetividade em crise.
A memória serve de fio condutor entre o subjetivo e o real, favorecendo a autoanálise. São as situações banais e cotidianas que desencadeiam em seus personagens esse "mergulho interior", que as conduz a ver de outra forma sua relação com o mundo. Tais características estão presentes em toda a sua obra.
Observe este trecho do romance A paixão segundo G.H., de 1964:
[...]
Na minha clausura entre a porta do armário e o pé da cama, eu ainda não tentara de novo mover os pés para sair, mas recuara o dorso para trás como, se mesmo na sua extrema lentidão, a barata pudesse dar um bote - eu já havia visto as baratas que de súbito voam, a fauna alada. Fiquei imóvel, calculando desordenadamente. Estava atenta, eu estava toda atenta. Em mim um sentimento de grande espera havia crescido, e uma resignação surpreendida: é que nesta espera atenta eu reconhecia todas as minhas esperas anteriores, eu reconhecia a atenção de que também antes vivera, a atenção que nunca me abandona e que em última análise talvez seja a coisa mais colada à minha vida - quem sabe aquela atenção era a minha própria vida. Também a barata: qual é o único sentimento de uma barata? a atenção de viver, inextricável de seu corpo. Em mim, tudo o que eu superpusera ao inextricável de mim, provavelmente jamais chegara a abafar a atenção que, mais que atenção à vida, era o próprio processo de vida em mim. Foi então que a barata começou a emergir do fundo.Antes o tremor anunciante das antenas. Depois, atrás dos fios secos, o corpo relutante foi aparecendo. Até chegar quase toda à tona da abertura do armário. Era parda, era hesitante como se fosse enorme de peso. Estava agora quase toda visível. Abaixei rapidamente os olhos. Ao esconder os olhos, eu escondia da barata a astúcia que me tomara - o coração me batia quase como numa alegria. É que inesperadamente eu sentira que tinha recursos, nunca antes havia usado meus recursos - e agora toda uma potência latente enfim me latejava, e uma grandeza me tomava: a da coragem, como se o medo mesmo fosse o que me tivesse enfim investido de minha coragem. Momentos antes eu superficialmente julgara que meus sentimentos eram apenas de indignação e de nojo, mas agora eu reconhecia - embora nunca tivesse conhecido antes - que o que sucedia é que enfim eu assumira um medo grande, muito maior do que eu.
[...]
Na minha clausura entre a porta do armário e o pé da cama, eu ainda não tentara de novo mover os pés para sair, mas recuara o dorso para trás como, se mesmo na sua extrema lentidão, a barata pudesse dar um bote - eu já havia visto as baratas que de súbito voam, a fauna alada. Fiquei imóvel, calculando desordenadamente. Estava atenta, eu estava toda atenta. Em mim um sentimento de grande espera havia crescido, e uma resignação surpreendida: é que nesta espera atenta eu reconhecia todas as minhas esperas anteriores, eu reconhecia a atenção de que também antes vivera, a atenção que nunca me abandona e que em última análise talvez seja a coisa mais colada à minha vida - quem sabe aquela atenção era a minha própria vida. Também a barata: qual é o único sentimento de uma barata? a atenção de viver, inextricável de seu corpo. Em mim, tudo o que eu superpusera ao inextricável de mim, provavelmente jamais chegara a abafar a atenção que, mais que atenção à vida, era o próprio processo de vida em mim. Foi então que a barata começou a emergir do fundo.Antes o tremor anunciante das antenas. Depois, atrás dos fios secos, o corpo relutante foi aparecendo. Até chegar quase toda à tona da abertura do armário. Era parda, era hesitante como se fosse enorme de peso. Estava agora quase toda visível. Abaixei rapidamente os olhos. Ao esconder os olhos, eu escondia da barata a astúcia que me tomara - o coração me batia quase como numa alegria. É que inesperadamente eu sentira que tinha recursos, nunca antes havia usado meus recursos - e agora toda uma potência latente enfim me latejava, e uma grandeza me tomava: a da coragem, como se o medo mesmo fosse o que me tivesse enfim investido de minha coragem. Momentos antes eu superficialmente julgara que meus sentimentos eram apenas de indignação e de nojo, mas agora eu reconhecia - embora nunca tivesse conhecido antes - que o que sucedia é que enfim eu assumira um medo grande, muito maior do que eu.
[...]
Seus textos trazem como temas mais comuns: a relação entre o bem e o mal, a culpa, o crime, o castigo e o pecado. Em seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, a autora despertou estranheza e admiração em alguns críticos, justamente porque sua obra não se encaixava em qualquer programa dos modernistas, muito menos dos regionalistas do período anterior.
Autores modernistas da terceira fase (continuação)
João Cabral de Melo Neto
João Cabral de Melo Neto nasceu em Recife, Pernambuco, no ano de 1920. Foi poeta, autor, tradutor e diplomata.
Até os dez anos de idade viveu em engenhos de açúcar em São Lourenço da Mata e Moreno, na Zona da Mata pernambucana. Ao voltar para Recife, estudou no colégio dos irmãos maristas até 1935.
Quando completou 22 anos de idade, mudou-se para o Rio de Janeiro e publicou seu primeiro livro de poemas, Pedra do Sono.

João Cabral de Melo Neto, Recife (Pernambuco), 1920 - 1999

Obra Pedra do Sono
No ano de 1945, ingressou no Itamaraty. Em 1947, vai à Espanha, sendo o responsável pela divulgação da cultura brasileira. Foi cônsul na Inglaterra, França, Espanha, Suíça, África e países da América Latina. Voltou a residir no Rio de Janeiro em 1987 e aposentou-se do Itamaraty no ano de 1990.

João Cabral de Melo Neto
No ano de 1968, João Cabral de Melo Neto foi eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL), tomando posse em 6 de maio de 1969.

João Cabral de Melo Neto na Academia Brasileira de Letras
Paralelamente a sua trajetória como diplomata, ocorreu sua produção literária e por ela foi agraciado com numerosos prêmios, entre eles: Prêmio José de Anchieta, de poesia, do IV Centenário de São Paulo (1954); Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras (1955); Prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro; Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro; Prêmio Bienal Nestlé, pelo conjunto da Obra e Prêmio da União Brasileira de Escritores, pelo livro "Crime na Calle Relator" (1988).
João Cabral de Melo Neto foi o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Camões, em 1990. Dois anos após, é premiado com o Neustadt International Prize for Literature, da Universidade de Oklahoma, Estados Unidos. João Cabral de Melo Neto faleceu no dia 9 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro, aos 79 anos.

No Recife, estátua em homenagem a João Cabral de Melo Neto
Principais obras
Poesia: Pedra do Sono (1942); O Engenheiro (1945); Psicologia da Composição, Fábula de Angion e Antiode (1947); O Cão sem Plumas (1945); O Rio (1954); Duas Águas, Morte e Vida Severina, Paisagens com Figuras e Uma Faca só Lâmina (1956); Quaderna (1960); Dois Parlamentos (1961); Terceira Feira (1961); A Educação pela Pedra (1966); Poesias Completas (1940-1965), (1968); Museu de Tudo (1976); Escola das Facas (1981); Serial e Antes e A Educação Pela Pedra e Depois (1997).

Capa primeira edição de Morte e Vida Severina

Obra A Educação pela Pedra
Prosa: Considerações sobre o Poeta Dormindo (1950); Joan Miró (1950).

Obra Joan Miró
Vale a pena saber mais:
Suas poesias não seguiram a tendência neoparnasiana de sua época. Seus textos são caracterizados por rigor formal, construindo uma expressão poética mais disciplinada, apresentando precisão das palavras, produzindo uma poesia de caráter objetivo com uma linguagem sem sentimentalismo e rompendo com a definição de "poesia profunda" utilizada até então.
Todo seu trabalho é marcado pela preocupação formal. Em alguns poemas se observam imagens surrealistas que exigem certo conhecimento para seu pleno entendimento. Observe as características no poema que faz parte da obra Pedra do sono:
Noturno
O mar soprava sinos
os sinos secavam as flores
as flores eram cabeças de santos
Minha memória cheia de palavras
meus pensamentos procurando fantasmas
”meus pesadelos atrasados de muitas noites
O mar soprava sinos
os sinos secavam as flores
as flores eram cabeças de santos
Minha memória cheia de palavras
meus pensamentos procurando fantasmas
”meus pesadelos atrasados de muitas noites
De madrugada,meus pensamentos soltos
”voaram como telegramas
e nas janelas acesas toda a noite
o retrato da morta
fez esforços desesperados para fugir.
”voaram como telegramas
e nas janelas acesas toda a noite
o retrato da morta
fez esforços desesperados para fugir.
Tal rigor literário o manteve afastado do gosto do público médio até a publicação de Morte e vida Severina (1956), um Auto de natal pernambucano encenado pelo teatro da PUC de São Paulo, no ano de 1966, com música de Chico Buarque.

Divulgação Auto de natal baseado na obra Morte e vida Severina
Observe o trecho da obra Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto/música de Chico Buarque:
"Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."
"Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga;
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."
As poesias de João Cabral de Melo Neto falam sobre o Nordeste e Espanha, onde morou e cuja paisagem por vezes aproxima a nordestina, e sobre a própria poesia. No trecho do poema Antiode (contra a poesia dita profunda), extraída da obra Psicologia da Composição, de 1947, é possível observar a metalinguagem e todas as características do estilo de João Cabral.
Observe:
A
Poesia te escrevia:
flor! conhecendo
que és fezes. Fezes
como qualquer.
gerando cogumelos
(raros, fragéis, cogu-
melos) no úmido
calor de nossa boca.
Delicado, escrevia:
flor! (Cogumelos
serão flor? Espécie
estranha, espécie
extinta de flor, flor
ão de todo flor,
mas flor, bolha
aberta no maduro)
Delicado, evitava
o estrume do poema,
seu caule, seu ovário,
suas intestinações.
Esperava as puras,
transparentes florações,
nascidas do ar, no ar,
como as brisas.
A
Poesia te escrevia:
flor! conhecendo
que és fezes. Fezes
como qualquer.
gerando cogumelos
(raros, fragéis, cogu-
melos) no úmido
calor de nossa boca.
Delicado, escrevia:
flor! (Cogumelos
serão flor? Espécie
estranha, espécie
extinta de flor, flor
ão de todo flor,
mas flor, bolha
aberta no maduro)
Delicado, evitava
o estrume do poema,
seu caule, seu ovário,
suas intestinações.
Esperava as puras,
transparentes florações,
nascidas do ar, no ar,
como as brisas.
João Cabral de Melo Neto é considerado pelos críticos como o melhor poeta brasileiro dessa fase do Modernismo.

João Cabral de Melo Neto - um dos poetas mais consagrados do Brasil por seus versos simples e despojados
Nenhum comentário:
Postar um comentário