25 de agosto de 2019

Advérbios

No primeiro artigo deste ano que se inicia, trago para você considerações interessantes sobre uma classe gramatica quase que deixada de lado pela maioria dos estudantes, a saber, advérbios. Embora renegadas a segundo plano, às vezes essas palavrinhas surpreendem e aparecem em alguns dos concursos mais disputados do país. Tudo pode cair sobre advérbio. As bancas de grande expressão como Cespe, Esaf, Cesgranrio, Vunesp, FCC, FGV e Consulplan, não tratam muito de advérbio e quando o fazem, é dentro de concordância nominal.
Advérbios
Referem-se a um verbo, um advérbio, a um adjetivo ou a toda a oração, acrescentando-lhes informações circunstanciais, acessórias (de tempo, modo, lugar, afirmação, negação, dúvida, intensidade, causa, finalidade, matéria, preço, assunto, meio, instrumento, companhia, concessão, condição, conformidade, frequência, interesse, quantidade, referência, ordem, medida, peso, proporção, reciprocidade, substituição, exclusão, consequência, conclusão etc.). Não sofrem flexão de número e gênero, apenas de grau por meio de derivação, em alguns, como os de intensidade, de tempo, de lugar e de modo, os demais são invariáveis.
Exemplos:
a) Ele chegou cedo. (refere-se à forma verbal “chegou” e indica quando a ação verbal se realizou)
b) Você agiu bastante mal. (refere-se ao advérbio “mal”, intensificando o modo indicado pelo advérbio)
c) Essa é a atitude menos correta. (refere-se ao adjetivo “correta”, adicionando-lhe valor semântico intensificador)
d) Diariamente, resolvemos questões. (refere-se à oração, adicionando-lhe opinião ou ponto de vista)
Em alguns casos, os advérbios podem se referir a uma oração inteira. Nesse caso, normalmente transmitem juízo de valor, ou seja, a avaliação de quem fala ou escreve sobre o conteúdo da oração.
Exemplos:
d) Infelizmente, os deputados aprovaram as emendas.
e) As providências foram infrutíferas, lamentavelmente.
Os advérbios bem e mal, quando juntos a adjetivos (ou a particípios), são empregados na forma analítica para indicar o grau comparativo de superioridade.
Exemplos:
f) O quarto está mais bem pintado (do) que a sala.(a preposição é facultativa nesse tipo de comparação)
g) Joaquim é mais mal educado (do) que Pedro.
Alguns advérbios podem assumir formas diminutivas (e passam a ter valor superlativo) para indicar linguagem afetiva e não necessariamente diminuição de tamanho físico.
Exemplos:
h) Chegaram agorinha.
i) Terminei a prova rapidinho.
Ocorrendo o emprego sequencial de advérbios finalizados em mente, a terminação pode ser usada apenas no último advérbio ou em todos eles, por motivos de ênfase.
Exemplos:
j) Calma e silenciosamente, a aluna repassava os ensinamentos.
k) Calmamente e silenciosamente, a aluna repassava os ensinamentos.
ATENÇÃO! É possível que alguns adjetivos sejam empregados como advérbios. Nesse caso, aqueles ficam invariáveis.
Exemplos:
l) Não falem alto!
m) As aulas de Língua Portuguesa não custam caro.

Assinale a frase em que as palavras destacadas em negrito correspondem, pela ordem, a substantivo, adjetivo & advérbio.

a) Feliz a nação que emprega bastantes recursos na educação.
b) As escolas organizadas fazem um extraordinário bem à educação.
c) O governo que acultura seu povo passa à história.
d) Educação e cultura fazem forte um país bem promissor.
e) A preparação da juventude forja o amanhã de um país.

Resposta: D

A = adjetivo, substantivo, pronome
B = substantivo, adjetivo, substantivo
C = substantivo, pronome, substantivo
E = substantivo, substantivo, substantivo

As funções do se

O último final de semana foi realmente espantoso. Todos assistimos, perplexos, à sucessão de despachos que se sobrepuseram no episódio da tentativa de libertar Lula. Em meio às falas de juízes, advogados, promotores, jornalistas etc., uma frase atribuída a Cristiano Zanin, advogado de defesa de Lula, e publicada em https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2018/07/09/moro-se-comportou-como-se-fosse-um-inimigo-diz-advogado-de-lula.htm(acesso em 10/07/2018) me chamou a atenção: “Moro ‘se comportou como se fosse um inimigo’, diz advogado de Lula”. Não que eu queira aqui emitir um juízo de valor sobre o teor dessa declaração ou mesmo sobre a atitude do juiz Sergio Moro. Minha intenção neste artigo é simplesmente aproveitar a tal frase de Zanin para analisar aspectos morfológicos e sintáticos do “se”, que foi duplamente empregado pelo defensor do ex-presidente.
Morfologicamente, o “se” é identificado como:
  1. parte integrante do verbo (acompanha os chamados verbos reflexivos essenciais, os seja, expressam uma ação que o sujeito não pode exercer efetivamente sobre outro ser)
Ex.: A turma queixou-se da prova.
  1. partícula expletiva ou de realce (usado simplesmente por uma questão de realce ou ênfase; sua retirada da frase não afeta a coesão nem a coerência)
Ex.: Todos já se foram.
Ela riu-se com a pergunta.
  1. substantivo (acompanhado de artigo, de numeral ou de pronome adjetivo (possessivo, demonstrativo, indefinido, interrogativo ou relativo) ou especificando outro substantivo)
Ex.: Nenhum se deixará de ser estudado.
O revisor retirou o se da frase.
A palavra se possui vários usos.
  1. conjunção (conecta orações subordinadas às suas orações principais)
Ex.: Não sei se ele virá. (integrante)
Se vier, traga uma garrafa de refrigerante. (condicional; equivale-se a caso)
Se não me amas, só me resta partir. (causal; equivale-se a já que)
Se o via derrubado, nem por isso o respeitava. (concessiva; equivale a embora)
Se o estilo reflete o homem, o idioma é o espelho da cultura de um povo. (comparativa; equivale a assim como)
  1. pronome apassivador (ocorre com verbos transitivos diretos ou transitivos diretos e indiretos em estrutura de voz passiva; indica que a ação verbal recai sobre o sujeito)
Ex.: Vendem-se casas.
Doaram-se alguns livros à escola.
  1. índice de indeterminação do sujeito
Ex.: Precisa-se de ajudantes. (VTI + SE)
Brinca-se muito neste lugar. (VI + SE)
É-se feliz aqui. (VL + SE)
Ama-se a Deus. (VTD + SE + PREPOSIÇÃO - objeto direto preposicionado)
  1. pronome reflexivo/recíproco (quando o sujeito praticar a ação sobre si mesmo/quando transmitir a ideia de que a ação reflete no próprio sujeito - reflexivo ou a ação é mútua entre os sujeitos - recíproco)
Ex.: O açougueiro se cortou com a faca.
Os parlamentares se insultaram em plena sessão pública.
Sintaticamente, o “se” (pronome reflexivo/recíproco) pode desempenhar as seguintes funções, retomando o sujeito da ação, substituindo-o:
  1. objeto direto (função corrente, indica que o agente e o paciente da ação verbal são os mesmos)
Ex.: A vítima medicou-se. (= a vítima)
  1. objeto indireto (função mais literária)
Ex.: Ele impôs-se severo regime. (…a ele…)
  1. sujeito (de um verbo no infinitivo; faz parte de um período composto cuja oração principal apresenta um verbo causativo – mandardeixar e fazer – ou sensitivo – verouvir, sentir e perceber)
Ex.: Deixou-se ficar na cadeira de balanço.
Na frase “Moro ‘se comportou como se fosse um inimigo’, diz advogado de Lula”, constata-se que, na primeira ocorrência, o se é parte integrante do verbo comportar-se e, na segunda, é parte de uma expressão expletiva ou de realce (“se fosse”). Experimente retirá-la e verá que não faz falta. Em ambos os casos, ele não exerce função sintática no período.

Intertextualidade, paráfrase & paródia

Vamos hoje abordar três conceitos importantes que irão ajudá-lo a compreender e interpretar melhor um texto. Ei-los abaixo. 
O prefixo inter significa posição intermediária ou relação recíproca, por exemplo: um transporte intermunicipal é um transporte entre municípios, um interlocutor é a relação de reciprocidade entre os que participam de uma conversa, um interfone é um sistema de comunicação interna que interliga unidades de um mesmo complexo, um telefonema interurbano é um telefonema entre cidades ou localidades, interdependência é a reciprocidade entre dois seres ou coisas ligados por dependência recíproca, um comércio internacional é um comércio entre nações, um campeonato interestadual é um campeonato entre estados, um intercâmbio é o relacionamento recíproco entre países, interativo é o que permite a interação com a fonte ou o emissor, uma interseção é o cruzamento entre duas linhas, uma intercessão é uma intervenção mútua. Uma das palavras mais usadas é internet, a rede mundial de computadores, que permite a comunicação virtual entre todos, com acesso a numerosas fontes de informação, envio de e-mails, serviços comerciais etc.
Intertextualidade acontece quando há uma referência explícita ou implícita de um texto em outro. Também pode ocorrer com outras formas além do texto: música, pintura, filme, novela* etc. Toda vez que uma obra fizer alusão à outra, ocorre a intertextualidade. Apresenta-se explicitamente quando o autor informa o objeto de sua citação. Num texto científico, por exemplo, o autor do texto citado é indicado; já na forma implícita, a indicação é oculta. Por isso é importante para o leitor o conhecimento de mundo, um saber prévio, para reconhecer e identificar quando há um diálogo entre os textos. A intertextualidade pode ocorrer afirmando ou contestando as ideias da obra citada. Há duas formas: a paráfrase e a paródia.
Novela é um gênero literário que consiste em uma narrativa breve, um gênero intermediário entre o conto e o romance. Quando é adaptada para a TV e dividida em episódios ou capítulos, passa a se chamar telenovela, podendo ser uma adaptação de romances ou novelas. 
Paráfrase
Na paráfrase, as palavras são mudadas, porém a ideia do texto é confirmada pelo novo texto. A alusão ocorre para atualizar, reafirmar os sentidos ou alguns sentidos do texto citado. É dizer com outras palavras o que já foi dito. Temos um exemplo citado por Affonso Romano Sant’Anna em seu livro “Paródia, paráfrase & Cia” (p. 23):
Texto Original
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá,
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
(Gonçalves Dias, “Canção do exílio”).
Paráfrase
Meus olhos brasileiros se fecham saudosos
Minha boca procura a ‘Canção do Exílio’.
Como era mesmo a ‘Canção do Exílio’?
Eu tão esquecido de minha terra…
Ai terra que tem palmeiras
Onde canta o sabiá!
(Carlos Drummond de Andrade, “Europa, França e Bahia”).
Esse texto de Gonçalves Dias, “Canção do Exílio”, é muito utilizado como exemplo de paráfrasee de paródia. O poeta Carlos Drummond de Andrade retoma o texto primitivo conservando suas ideias. Não há mudança do sentido principal do texto, que é a saudade da terra natal.
Paródia
A paródia é uma forma de contestar ou ridicularizar outros textos, há uma ruptura com as ideologias impostas e por isso é objeto de interesse para os estudiosos da língua e das artes. Ocorre, aqui, um choque de interpretação, a voz do texto original é retomada para transformar seu sentido, leva o leitor a uma reflexão crítica de suas verdades incontestadas anteriormente. Com esse processo, há uma indagação sobre os dogmas estabelecidos e uma busca pela verdade real, concebida através do raciocínio e da crítica. Os programas humorísticos fazem uso contínuo dessa arte, frequentemente os discursos de políticos são abordados de maneira cômica e contestadora, provocando risos e também reflexão a respeito da demagogia praticada pela classe dominante. Com o mesmo texto utilizado anteriormente, teremos, agora, uma paródia.
Texto Original
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá,
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
(Gonçalves Dias, “Canção do exílio”).
Paródia
Minha terra tem palmares
onde gorjeia o mar
os passarinhos daqui
não cantam como os de lá.
(Oswald de Andrade, “Canto de regresso à pátria”).
O nome Palmares, escrito com letra minúscula, substitui a palavra palmeiras. Há um contexto histórico, social e racial nesse texto, Palmares é o quilombo liderado por Zumbi, foi dizimado em 1695. Há uma inversão do sentido do texto primitivo, que foi substituído pela crítica à escravidão existente no Brasil.
Outro exemplo de paródia é a propaganda que faz referência à obra prima de Leonardo Da Vinci, Mona Lisa:

Hífen na prefixação

Você já deve ter sentido dificuldade de escrever certas palavras por causa da seguinte dúvida cruel: “É com hífen ou sem hífen?”. Se isso for verdade, não se preocupe. Você não foi o único!
Desde que o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrou em vigor (2009), o emprego do hífen sofreu alterações. Houve um período de adaptação a essas mudanças que, inicialmente, foi até 2012; porém foi estendido até 2015. A partir de então, estão valendo apenas as novas regras.
Neste artigo, eu quero apresentar a você – de forma resumida, prática, objetiva e simples – algumas dicas importantes sobre o uso desse sinal gráfico em palavras formadas por prefixação.
PrefixosUsa-se hífenNão se usa hífen
Agro, ante, anti, arqui, auto, contra, extra, infra, intra, macro, mega, micro, maxi, mini, semi, sobre, supra, tele, ultra…Quando a palavra seguinte começa com h ou com vogal igual à última do prefixo:autohipnose, autoobservação, anti-herói, antiimperialista, contraharmônico, contraargumento, microônibus, minihotel, eletroótica, anteestreia, antehipófise.a) Em todos os demais casos: autorretrato, autossustentável, autoanálise, autocontrole, antirracista, antissocial, antivírus, minidicionário, minissaia, minirreforma, ultrassom…(perceba que as letras R e S são duplicadas para manter a pronúncia forte).
b) Quando se usam os prefixos des- e in-, o some e o hífen não é empregado: desumano, inabitável, desonra, inábil.
c) Também com os prefixos co- e re-, some o h e o hífen não é empregado, mesmo com letras idênticas: coordenação, coordenador, coerdeiro, coabitar, reabilitar, reidratar, reeditar, reenviar, reeleição.
Cuidado! Restabelecer não tem duplo e, a forma reestabelecer surgiu pela generalização da forma ree- inicial de várias palavras
Hiper, inter, superQuando a palavra seguinte começa com h ou com rsuperhomem, interregional.Em todos os demais casos: hiperinflação, supersônico.
Sub, sob, ob, abQuando a palavra seguinte começa com b, h ou rsubbase, subreino, subhumano (ousubumano)Em todos os demais casos: subsecretário, subeditor.
Vice, ex, sem, além, aquém, recém, pós, pré, próSemprevice-rei, vice-presidente, além-mar,além-túmulo, aquém-mar, ex-aluno, ex-diretor,ex-hospedeiro, ex-prefeito, ex-presidente,pós-graduação, pré-história, pré-vestibular,pró-europeu, recém-casado, recém-nascido,sem-terra.
Pan, circum, malQuando a palavra seguinte começa com h, m, n ou vogaispan-americano, circum-hospitalar.Em todos os demais casos: pansexual, circuncisão.
Quero enfatizar o seguinte:
I – Com prefixos, usa-se o hífen diante de palavra iniciada por h.
Exemplos: anti-higiênico, anti-histórico, macro-história, mini-hotel,proto-história, sobre-humano, super-homem, ultra-humano.
II– Não se usa o hífen quando o prefixo termina em vogal diferente da vogal com que se inicia o segundo elemento.
Exemplos: aeroespacial, agroindustrial, anteontem, antiaéreo, antieducativo, autoaprendizagem, autoescola, autoestrada, autoinstrução, coautor, coedição, extraescolar, infraestrutura, plurianual, semiaberto, semianalfabeto, semiautomático, semiesférico, semiopaco, supraocular, ultraelevado.
III. – Quando o prefixo termina por consoante, usa-se o hífen se o segundo elemento começar pela mesma consoante.
Exemplos: hiperrequintado, interracial, interregional, subbibliotecário, superracista, superreacionário, superresistente, superromântico.
IV– Quando o prefixo termina por consoante, não se usa o hífen se o segundo elemento começar por vogal.
Exemplos: hiperacidez, hiperativo, interescolar, interestadual, interestelar, interestudantil, superamigo, superaquecimento, supereconômico, superexigente, superinteressante, superotimismo.

Crase e generalização ou individualização

Estava eu a ler o jornal O Globo quando me deparei com a seguinte manchete: “Proibição a condução coercitiva é ‘manifestação contra investigações’, diz Barroso” (https://oglobo.globo.com/. Acesso em 18/06/2018). Imediatamente me veio à cabeça a possibilidade de discorrer sobre o assunto também. Mas calma aí! Antes que você me compreenda mal, permita-me esclarecer melhor minha intenção. Não pretendo aqui julgar o mérito da questão envolvendo o STF, o MPU, a PF e tantos outros personagens que vêm protagonizando essa longa história de corrupção que assola nosso país. Quero simplesmente esclarecer a você, prezado leitor, o porquê da ausência do emprego do acento grave indicativo de crase na transcrição da fala do ministro Barroso – que, aliás, causou muita polêmica e deixou algumas suspeitas no ar. Epa! Continuo me referindo aos aspectos gramaticais tão somente. Peço vênia se isso ainda não ficou claro.
O foco da questão tem a ver com o nome “proibição” (termo regente) e seu complemento: “a condução coercitiva” (termo regido). Algum defensor da crase poderia sustentar veementemente o emprego do acento grave alegando que, na tal estrutura, a preposição “a” exigida pelo termo regente se articula com o artigo definido “a” que acompanha o substantivo feminino “condução” (a + a = à). Os concurseiros de plantão diriam, de forma mais direta e “maceteada”, que bastaria substituir a palavra “condução” por qualquer uma de gênero masculino para ficar evidente a existência tanto da preposição quanto do artigo: “Proibição ao professor…”. Possivelmente, eles diriam ainda: “Se usamos ao(s) diante do masculino, devemos usar à(s) diante do feminino”.
Acontece que é interessante conhecer a fundo os “autos do processo” antes de emitir um julgamento acerca da matéria. O eminente gramático Domingos Paschal Cegalla, por exemplo, nos ensina que, “Se não houver a presença da preposição ou do artigo, não haverá crase e, consequentemente, não se acentuará o a ou as” (Novíssima gramática da língua portuguesa, pág. 276). Um pouco mais adiante, o autor reforça essa lição e diz: “O acento indicador de crase só tem cabimento diante de palavras femininas determinadas pelo artigo definido aou as e subordinadas a termos que exigem a preposição a” (pág. 276; destaques nossos). E, dando o caso por transitado em julgado, Cegalla fornece-nos, nas páginas 277 e 278 da sua obra, exemplos de casos em que substantivos femininos foram usados em sentido geral e indeterminado, portanto repelindo o emprego do artigo definido a(s) e, consequentemente, afastando a possibilidade de ocorrência da crase. Aqui, eu transcrevo apenas um deles: “‘Depois comprara um cone de papel com pipocas recendentes a gordura vegetal.’ (Érico Veríssimo)”.
Voltando, então, para a manchete do jornal, nota-se que o ministro Barroso empregou o termo “condução coercitiva” em sentido geral, indeterminado. Ou seja, ele não se referiu a uma condução coercitiva específica ou determinada, mas sim a uma condução coercitiva qualquer. Portanto tem razão o jornalista ao transcrever a fala de Sua Excelência sem empregar o acento grave indicativo de crase.
Vejamos agora como esse assunto já foi cobrado em prova.
(CESPE/FUB/MÉDICO/2011)
[…]
16 Informação. “Tudo o que eu aprendo está sujeito à imediata erosão”, afirma. Isso provoca o que o autor chama de “liquidez
[…]
Mao Barros e Victor Guy. A Internet e a menteIn:
Época Negócios, abr./2010, p. 82 (com adaptações).
O uso do sinal indicativo de crase em ‘à imediata erosão’ (L.16-17) é obrigatório.
Comentário:
Apesar de algumas controvérsias por parte de alguns candidatos à época do concurso, o gabarito oficial foi mantido. É que o nome “sujeito” rege preposição “a”, mas o seu complemento pode ser usado sem o artigo definido “a”, ou seja, sem a outra condição para que ocorra a crase. Em outras palavras, a expressão “imediata erosão” pode ser usada em sentido genérico, como de fato o foi. Compare com os exemplos abaixo:
– Ele está sujeito a (apenas preposição) multa. (Que tipo de multa?)
– Ele está sujeito à (a + a = preposição + artigo) multa prevista no regulamento. (Está claro que se trata de uma multa específica)
Tudo está sujeito a rigorosa análise. (Que rigorosa análise? O que ela come? Onde vive? Hoje, no Globo Repórter)
Tudo está sujeito à rigorosa análise. (Trata-se de uma rigorosa análise específica)
Devo ser submetido a tomografia. (Que tipo de tomografia?)
Devo ser submetido à tomografia. (Trata-se de uma tomografia específica)
Sempre faço doação a associação. (Qual associação? Hoje, no Câmera Record)
Sempre faço doação à associação. (Trata-se de uma associação específica)
O advogado fez menção a lei municipal. (Qual lei municipal?)
O advogado fez menção à lei municipal. (Trata-se de uma lei municipal específica)
– O exército dos invasores, semelhante a serpe monstruosa… (Alexandre Herculano, citado por Cegalla, pág. 278, em seu livro já mencionado neste artigo)
Resposta – Item errado.

Regência verbal

No artigo de hoje, eu trago para você considerações importantes sobre regência verbal. Comecemos nossa conversa trazendo à memória conceitos de transitividade verbal. Você se lembra disso? Não é nenhum “bicho de sete cabeças”! Quer ver?
Verbos cujos complementos (objetos diretos ou objetos indiretos) lhes integram os sentidos são classificados como transitivos. Estão divididos em:
a) transitivos diretos: seus complementos (objetos diretos) não são introduzidos obrigatoriamente por preposição;
Em (2), a preposição “A” é empregada simplesmente por motivo de ênfase, e não pela exigência da transitividade do verbo, pois se exigisse, o verbo seria transitivo indireto, e o complemento seria objeto indireto. Nesse caso, o complemento vem preposicionado; contudo funciona como objeto direto, conhecido como objeto direto preposicionado.
b) transitivos indiretos: seus complementos (objetos indiretos) são necessariamente introduzidos por uma preposição, exceto quando empregado um pronome oblíquo átono (me, te, se, nos, vos, lhe);
Há também verbos considerados de sentidos completos, por não exigirem complementos que lhes integrem os significados. São conhecidos como intransitivos. Podem ser usados com adjuntos adverbiais de afirmação, dúvida, intensidade, lugar, modo, tempo, negação, etc.
Todos esses verbos são considerados nocionais (possuem valor semântico, denotam acontecimento, fenômeno natural, desejo, atividade mental).
Existe ainda uma categoria de verbos que precisa ser mencionada aqui. É a dos verbos de ligação, também considerados não nocionais ou copulativos. Esses verbos, de significados indefinidos (ou predicações incompletas), unem (ligam, servem de “ponte”) o sujeito da oração a seu predicativo (função esta desempenhada por adjetivos, substantivos ou pronomes).
Verbos de ligação denotam situação permanente, situação transitória, mudança de situação.
(8) João é estudioso. (situação permanente)
(9) João está cansado. (situação transitória)
(10) João ficou alegre. (mudança de situação)
Estaria tudo muito bom se as coisas fossem tão certinhas assim, não é mesmo? O fato é que a classificação de um verbo em transitivo direto, transitivo indireto, transitivo direto e indireto, intransitivo ou de ligação depende muitas vezes das relações semântico-sintáticas entre os termos da oração.
(11) João anda cansado.
(12) João anda depressa.
Em (11), o verbo (“anda”) denota o estado de “João” no momento da fala e liga o sujeito da oração (“João”) ao seu predicativo (“cansado”). É, pois, verbo de ligação (copulativo, não nocional). João não caminha cansado, e sim está cansado ultimamente.
Em (12), o mesmo verbo agora indica a ação exercida pelo sujeito. É, pois, verbo intransitivo (nocional). Note que o vocábulo “depressa” não integra o significado do verbo, mas indica a circunstância (de modo) em que a ação é desenvolvida. Ou seja, João caminha depressa, e não João está depressa ultimamente.

Uso dos pronomes pessoais

O assunto a ser tratado neste artigo é, especificamente, o emprego de pronomes pessoais do caso reto e do caso oblíquo. Quais os motivos que nos fazem escolher um em vez do outro em determinadas frases?
Antes de esclarecer o ponto conflitante, eis uma breve exposição sobre a conceituação e a classificação dessa rica classe gramatical.
PronomePalavra que substitui o nome (pronome substantivo) ou que o acompanha (pronome adjetivo) para tornar claro o seu significado. Existem seis classes distintas:
1)   pessoalIndica diretamente as pessoas do discurso (no singular ou no plural): 1ª pessoa: quem fala; 2ª pessoa: com quem se fala; 3ª pessoa: de quem se fala. Eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas(do caso reto). Me, te, se, lhe, o, a, nos, vos, se, lhes, os, as(do caso oblíquo átono). Mim, comigo, ti, contigo, si, consigo, conosco, convosco(do caso oblíquo tônico).

Também são pessoais os pronomes de tratamento (de uso familiar, cortês, cerimonioso ou oficial)você (intimidade), senhor, senhora (para demonstrar respeito e distância), senhorita (para moças solteiras), Vossa Senhoria (funcionários graduados), Vossa Excelência (altas autoridades), Vossa Majestade (reis e imperadores), Vossa Santidade (papa), Vossa Alteza (príncipes e duques), etc.

Também são pessoais os pronomes reflexivos: me, mim, te, ti, se, si, consigo, nos, vos, se, si, consigo e os pronomes recíprocos: nos, vos, se
2)   possessivoRefere-se às pessoas gramaticais, atribuindo-lhes a posse de algo: meu, minha, meus, minhas, nosso, nossa, nossos, nossas, teu, tua, teus, tuas, vosso, vossa, vossos, vossas, seu, sua, seus, suas. Dele, dela, deles, delas não são pronomes possessivos.
3)   demonstrativoIndica a posição dos seres em relação às pessoas do discurso, situando-os no tempo, no espaço e no próprio texto.
1ª pessoa: este, esta, estes, estas, isto.
2ª pessoa: esse, essa, esses, essas, isso.
3ª pessoa: aquele, aquela, aqueles, aquelas, aquilo.
4)   relativoÉ aquele que, em uma oração, se refere a um termo constante em oração anterior, chamado antecedente. Introduz sempre uma oração subordinada adjetiva, restritiva ou explicativa, Exemplo: O avião que chegou estava danificado. São pronomes relativos: que, quem, onde, como, quando, quanto(s), quanta(s), cujo(s), cuja(s), o qual, a qual, os quais, as quais.
5)   indefinidoRefere-se à terceira pessoa do discurso num sentido vago ou exprimindo quantidade indeterminada. Exemplos: Quem espera sempre alcança. Alguns podem flexionar-se em gênero e número. São pronomes indefinidos: algum, alguma, alguns, algumas, certo, certa, certos, certas, muito, muita, muitos, muitas, nenhum, nenhuma, nenhuns, nenhumas, outro, outra, outros, outras, todo, toda, todos, todas, pouco, pouca, pouco, poucas, bastante, bastantes, qualquer, quaisquer, tanto, tanta, tantos, tantas, quanto, quanta, quantos, quantas, vário, vária, vários, várias, algo, nada, tudo, alguém, ninguém, outrem, cada, mais, menos, demais, fulano, sicrano, beltrano.
6)   interrogativoÉ aquele usado para formular uma pergunta direta ou indireta: que, quem, qual, quanto.
Diferenças quanto ao emprego dos pronomes pessoais do caso reto e do caso oblíquo:
a) Ele virou ela. / Meu pai, apenas ele, é o melhor pai do mundo. – Na função de sujeito, de predicativo do sujeito e de aposto, o pronome pessoal utilizado será, via de regra, do caso reto.
b) Quero falar com ele.
Sou útil a ele.
Vi-o na rua.
Serão empregados os do caso oblíquo nas demais funções sintáticas (objeto direto, objeto indireto, complemento nominal, agente da passiva, adjunto adnominal, adjunto adverbial, sujeito de verbo no infinitivo, etc.).
Atente para o fato de que esses pronomes são frequentemente utilizados para promover a coesão e a coerência textual.
c) Eu contei a ti o que acontecera.
Você terá de viajar com nós dois.
Você terá de viajar conosco. (= com + nós)
Os pronomes oblíquos tônicos são precedidos de preposição. Usa-se com nós ou com vós quando tais expressões vêm acompanhadas de elementos de realcenumeralpronome, aposto explicativo ou oração adjetiva.
Cuidado! Não vá sem eu saber. / Todos saíram, exceto eu [saí].
As preposições essenciais (a, ante, até, após, com, contra, de, desde, em, entre, para, per, perante, por, sem, sob, sobre, trás) regem pronomes oblíquos tônicos.
As preposições acidentais (afora, como, conforme, consoante, durante, exceto, feito, fora, mediante, menos, não obstante, salvante, salvo, segundo, tirante, visto) regem pronomes retos.
Mesmo diante de preposição, o pronome pessoal do caso reto será empregado quando for sujeito de verboainda que este esteja elíptico.
d) Maria fez aniversário. Pedro deu-lhe um presente. (“deu” = VTDI; “um presente” = OD)
Maria fez aniversário. Pedro a presenteou. (“presenteou” = VTD)
Como complementos verbais, o(s) a(s) desempenham função de objeto diretolhe(s), de objeto indireto.
O pronome lhe pode equivaler a 'a ele(s), a ela(s)', caso em que completa o sentido de um nome, atuando como complemento nominal: A sentença foi-lhe favorável. / A sentença foi favorável a ele. / A sentença foi favorável a ela.
Atenção! O pronome oblíquo lhe pode equivaler-se a um possessivo, caso em que transmitirá noção de posse, caso em que atua como adjunto adnominal, e não objeto indiretoPediu-lhe os brinquedos emprestados. / Pediu os seus brinquedos emprestados / Pediu os brinquedos dele/dela emprestados.
e) Mandei-o sair da sala.
Ouvi-as bater na porta.
Em construções cujo verbo principal é causativo (mandardeixarfazer) ou sensitivos (verouvirsentir, perceber), o(s) e a(s) desempenham função de sujeito do verbo (infinitivo) da oração subordinada. É o único caso em que o pronome oblíquo átono funciona como sujeito, chamado de sujeito acusativo.