28 de agosto de 2019

Regência verbal e nominal - Prof. Albert Iglésia - Ponto dos Concursos

1- Chegar/ ir – deve ser introduzido pela preposição “a” e não pela preposição “em”.
Exemplos:

Vou ao dentista.
Cheguei a Belo Horizonte.

2- Morar/ residir – normalmente vêm introduzidos pela preposição “em”.
Exemplos:

Ele mora em São Paulo.
Maria reside em Santa Catarina.

Dicas:
A preposição a é aceita apenas na indicação de distância ou direção.

Ex.: Ele mora a 200 metros da praia. / Maria reside a 300 metros do cinema.

3- Namorar – não se usa com preposição.

Ex.: Joana namora Antônio.

Dicas:
Embora alguns gramáticos e dicionaristas aceitem o uso da preposição com no verbo namorar, por influência dos verbos casar e noivar, ainda é considerado um brasileirismo, ou seja, invenção do povo. Em norma culta, namorar também pode ser verbo intransitivo (no sentido de ser namorador) ou pronominal (no sentido de encantar-se).
Ex.: Beatriz namora muito. / Pedro namorou-se de Marcela.

4- Obedecer/desobedecer – exigem a preposição “a”.
Exemplos:

As crianças obedecem aos pais.
O aluno desobedeceu ao professor.

Dicas:
Segundo a linguagem formal, esse é o único verbo transitivo indireto que admite voz passiva.
Ex.: Obedecemos ao código. = O código é obedecido por nós.

5-Simpatizar/ antipatizar – exigem a preposição “com”.
Exemplos:

Simpatizo com Lúcio. 
Antipatizo com meu professor de História.

Dicas:
Estes verbos não são pronominais, portanto, determinadas construções são consideradas erradas quando tais verbos aparecem acompanhados de pronome oblíquo.
Exemplos:

Simpatizo-me com Lúcio.
Antipatizo-me com meu professor de História.

6- Preferir - este verbo exige dois complementos, sendo que um é usado sem preposição, e o outro com a preposição “a”.

Ex.: Prefiro dançar a fazer ginástica.

Dicas:
Segundo a linguagem formal, é errado usar este verbo como comparativo, com a locução conjuntiva do que ou reforçado pelos advérbios ou locuções adverbiais: antes, mais, muito mais, mil vezes mais, etc. Já o verbo gostar admite essas construções comparativas.

Ex.: Prefiro mil vezes dançar a fazer ginástica. (Inadequado)
       Gosto mais de dançar do que de fazer ginástica. (Adequado)

Verbos que apresentam mais de uma regência
1 - Aspirar
a - no sentido de cheirar, sorver: usa-se sem preposição. 
Ex.: Aspirou o ar puro da manhã.

b - no sentido de almejar, pretender: exige a preposição “a”. 
Ex.: Esta era a vida a que aspirava.

Dicas:
Segundo a linguagem formal, assim como os verbos assistir (= ver), visar (= ter em vista), aludir (= fazer alusão), anuir (= dar aprovação ou consentimento) e referir-se, como o objeto indireto não é pessoa, mas sim coisa, não se usam as formas pronominais átonas lhe e lhes como complemento, e sim as formas tônicas a ele(s), a ela(s).

Ex.: O funcionário aspira a uma vaga de emprego. (O funcionário aspira a ela, e não aspira-lhe)

2 - Assistir
a - no sentido de prestar assistência, ajudar, socorrer: usa-se sem preposição. 
Ex.: O técnico assistia os jogadores novatos.

b - no sentido de ver, presenciar: exige a preposição “a”.
Ex.: Hoje assistimos ao show.

Dicas:
Segundo a linguagem formal, assim como os verbos aspirar (= almejar), visar (= ter em vista), aludir (= fazer alusão), anuir (= dar aprovação ou consentimento) e referir-se, como o objeto indireto não é pessoa, mas sim coisa, não se usam as formas pronominais átonas lhe e lhes como complemento, e sim as formas tônicas a ele(s), a ela(s). Já no sentido de pertencer, como é pessoa, admite-se a forma oblíqua lhe.

Ex.: Ontem assisti a um documentário interessante. (Ontem assisti a ele, e não assisti-lhe)
       Votar é um direito que assiste ao povo. (É um direito que lhe assiste)

c - no sentido de caber, pertencer: exige a preposição “a”.
Ex.: Assiste ao homem tal direito.

d) no sentido de morar, residir: é intransitivo e exige a preposição “em”.
Ex.: Assistiu em Maceió por muito tempo.

3 - Esquecer/lembrar
a - Quando não forem pronominais: são usados sem preposição. 
Ex.: Esqueci o nome dela.

b - Quando forem pronominais: são regidos pela preposição “de”.
Ex.: Lembrei-me do nome de todos.

Os verbos recordar e admirar seguem a mesma regência.

4 - Visar
a - no sentido de mirar: usa-se sem preposição. 
Ex.: Disparou o tiro visando o alvo.

b - no sentido de dar visto: usa-se sem preposição. 
Ex.: Visaram os documentos.

c - no sentido de ter em vista, objetivar: é regido pela preposição “a”.
Ex.: Viso a uma situação melhor.

Dicas:
Segundo a linguagem formal, assim como os verbos aspirar (= almejar), assistir (= ver), aludir (= fazer alusão), anuir (= dar aprovação ou consentimento) e referir-se, como o objeto indireto não é pessoa, mas sim coisa, não se usam as formas pronominais átonas lhe e lhes como complemento, e sim as formas tônicas a ele(s), a ela(s).

Ex.: Visamos a um futuro importante. (Visamos a ele, e não visamos-lhe)

5 - Querer

a - no sentido de desejar: 
usa-se sem preposição. 
Ex.: Quero viajar hoje.

b - no sentido de estimar, ter afeto: usa-se com a preposição “a”. 
Ex.: Quero muito aos meus amigos.

6 - Proceder
a - no sentido de ter fundamento: usa-se sem preposição.
Ex.: Suas queixas não procedem.

b - no sentido de originar-se, vir de algum lugar: exige a preposição “de”.
Ex.: Muitos males da humanidade procedem da falta de respeito ao próximo.

c - no sentido de dar início, executar: usa-se a preposição “a”.
Ex.: Os detetives procederam a uma investigação criteriosa.

Dicas:
Segundo a linguagem formal, verbos transitivos indiretos não admitem voz passiva, com exceção dos verbos obedecer e desobedecer.

Ex.: Vossa Excelência procedeu ao julgamento. = O julgamento foi procedido por Vossa Excelência (?!)

7 - Pagar/ perdoar
a - se tem por complemento uma palavra que denote coisa: não exige preposição. 
Ex.: Ela pagou a conta do restaurante.

b - se tem por complemento uma palavra que denote pessoa: é regido pela preposição “a”. 
Ex.: Perdoou a todos.

c - se tem por complemento ambos os objetos: é regido pela preposição “a” no indireto. 
Ex.: Pagou o financiamento ao gerente. / Perdoou a ofensa ao devedor.

8 - Informar
a - no sentido de comunicar, avisar, dar informação: admite duas construções:

1 - objeto direto de pessoa e indireto de coisa (regido pelas preposições “de” ou “sobre”). Ex.: Informou todos do (ou sobre o) ocorrido.

2 - objeto indireto de pessoa (regido pela preposição “a”) e direto de coisa.Ex.: Informou a todos o ocorrido.

A mesma regência se aplica aos verbos: avisar, advertir, notificar, certificar, cientificar, prevenir, aconselhar, impedir, incumbir, proibir, encarregar, aconselhar, anunciar, alertar, comunicar, dizer, noticiar.

9 - Implicar
a - no sentido de causar, acarretar: usa-se sem preposição.
Ex.: Esta decisão implicará sérias consequências.

Dicas:
Segundo a linguagem formal, o uso da preposição em no verbo implicar no sentido de ocasionar, produzir como consequência é um brasileirismo, ou seja, invenção do povo, por influência de quatro verbos de regência indireta, com significação semelhante (resultar em, redundar em, reverter em, importar em). Muitos dicionários e gramáticas já admitem tal regência. 

Em norma culta, só se usa a preposição em quando o verbo é transitivo direto e indireto, no sentido de envolver em complicação ou embaraço.
Ex.: Medicina implica em sacrifício. (registro informal, coloquial)
       Medicina implica sacrifício. (registro formal, culto)
       Ele estava implicado em tráfico de influência. (construção jurídica e erudita, mas correta)

b - no sentido de envolver, comprometer, enredar: usa-se com dois complementos, um direto e um indireto com a preposição “em”.
Ex.: Implicou o negociante no crime.

c - no sentido de ter implicância, demonstrar antipatia: é regido pela preposição “com”.
Ex.: Implica com ela todo o tempo.

10 - Custar

a - no sentido de ser custoso, difícil: é regido pela preposição “a”. 
Ex.: Custou ao aluno entender o problema.

Dicas:
Segundo a linguagem formal, o uso da preposição a ou para no verbo custar é um brasileirismo, ou seja, invenção do povo. Em norma culta, o verbo custar tem como sujeito uma oração subordinada substantiva subjetiva reduzida de infinitivo.

Ex.: Custamos a perceber o sentido do texto / Ele custou para resolver a questão. (registro informal, coloquial)
       Custou-nos perceber o sentido do texto. / Custou-lhe resolver a questão. (registro formal, culto)

b - no sentido de acarretar, exigir, obter por meio de: usa-se sem preposição.
Ex.: O carro custou-me todas as economias.

c - no sentido de ter valor ou preço: 
usa-se sem preposição.
Ex.: Imóveis custam caro.


Você sabe o que é regência? Conceito abordado na sintaxe da língua portuguesa, a regência é responsável pelo processo sintático em que uma palavra determinante subordina uma palavra determinada. A regência pode ser de dois tipos: verbal e nominalNa regência verbal, o verbo é o termo regente, enquanto os objetos diretos ou indiretos cumprem a função de termos regidos. Na regência nominal, o termo regente é um nome, isto é, um substantivo, um adjetivo ou um advérbio, que sempre será acompanhado por uma preposição, cuja função é intermediar a relação entre o nome e seus complementos.
Ao contrário da regência verbal, que demanda análise sobre a transitividade dos verbos para que assim seja determinado o tipo de dependência de seus complementos (objetos diretos, indiretos ou diretos e indiretos), a regência nominal preestabelece as preposições que devem acompanhar os nomes. Conhecer a regência correta, isto é, a regência que segue os preceitos da gramática normativa, ajusta a modalidade escrita e a modalidade oral à norma-padrão, registro da língua utilizado em contextos nos quais a comunicação acontece de maneira formal.
O complemento nominal pode ser um substantivo, um pronome, um numeral, uma palavra substantivada ou, ainda, uma expressão substantivada. No caso da regência nominal, é desejável que você conheça/memorize a lista de nomes e as preposições que mais comumente eles exigem. Essas preposições são invariáveis, portanto, sempre que houver dúvidas, consulte-nos ou consulte um manual sobre regência nominal. Veja alguns exemplos mais usuais na fala e na escrita. Boa leitura e bons estudos!

O juiz agiu favoravelmente ao réu. = advérbio
Todos têm simpatia pela professora. = substantivo
Ela estava convicta de minha inocência. = adjetivo
Substantivos:
Admiração a/por
Devoção a/ para/ com/ por
Aversão a/para/por
Doutor em
Obediência a
Atentado a/contra
Bacharel em
Horror a
Proeminência sobre
Medo de
Respeito a/ com/ para com/ por
Capacidade de/ para
Impaciência com
Adjetivos:
Necessário a
Acostumado a/com
Nocivo a
Agradável a
Equivalente a
Acessível a
Entendido em
Escasso de
Paralelo a
Alheio a, de
Essencial a, para
Passível de
Análogo a
Fácil de
Preferível a
Ansioso de/ para/ por
Fanático por
Prejudicial a
Apto a, para
Favorável a
Prestes a
Ávido de
Generoso com
Propício a
Benéfico a
Grato a/ por
Próximo a
Capaz de/ para
Hábil em
Relacionado com
Compatível com
Habituado a
Relativo a
Contemporâneo a/ de
Idêntico a
Satisfeito com/ de/ em/ por
Contíguo a
Impróprio para
Semelhante a
Contrário a
Indeciso em
Sensível a
Descontente com
Insensível a
Desejoso de
Liberal com
Suspeito de
Diferente de
Natural de
Vazio de
Advérbios:
Longe de
Perto de
Obs.: Os advérbios terminados em -mente tendem a seguir o regime dos adjetivos de que são formados:

Paralela a; paralelamente a
Relativa a; relativamente a

26 de agosto de 2019

Colocação pronominal, crase e regência verbal

Colocação pronominal
É o modo como se dispõem os pronomes pessoais oblíquos átonos (me, te, se, lhe(s), o(s), a(s), nos e vos) em relação ao verbo. Trata-se de um dos assuntos popularmente "espinhosos" da língua portuguesa, os quais somos "forçados" a entender na escola. Mas basicamente, basta lembrar que as posições dos pronomes pessoais oblíquos átonos em relação ao verbo ao qual se ligam denominam-se:
  • Ênclise (depois do verbo)
É a posposição do pronome átono ao vocábulo tônico ao que se liga. Ex: Empreste-me o livro de matemática.
  • Próclise (antes do verbo)
É a colocação do pronome quando antes do verbo há palavras que exercem atração sobre ele, como:
- Não, nunca, jamais, ninguém, nada. Ex: Não o vi hoje.
- Advérbios, locuções adverbiais, pronomes interrogativos, demonstrativos ou indefinidos. Ex: Sempre te amarei.
- Pronomes relativos. Ex: Há filmes que nos fazem chorar.
- Orações optativas, aquelas que exprimem desejo. Ex: Deus te ouça!
- Com gerúndio precedido da preposição ‘em’. Ex: Em se tratando desse tema...
  • Mesóclise (no meio do verbo)
É a colocação do pronome quando o verbo se encontra no futuro do presente ou no futuro do pretérito desde que não haja palavras que exerçam atração. Ex: Entregar-lhe-ei as informações. Na linguagem falada brasileira, o uso é quase inexistente.
Crase
Crase é mais um assunto "espinhoso" do português, mas dito de forma simples é o nome que geralmente se dá à fusão da preposição 'a" com o artigo "a(s)" ou com os demonstrativos aquele(s), aquela(s), aquilo. É representada graficamente pelo acento grave (`).

Crase Obrigatória

  • Para nomes femininos com artigos: Fui à feira.
  • Aquele(s)/ a + aquela(s)/ aquilo: Entreguei o livro àquele menino.
  • Para locuções adverbiais femininas do tipo: Às cegas; À noite; Às pressas.
  • Com a palavra moda ou maneira subentendida: Camarão à baiana.
  • Antes de horas: Sairei às 2h.
  • Com pronomes possessivos: Irei à minha fazenda ou Irei a minha fazenda.
  • Com nomes próprios de mulher: Dê o livro à Maria ou Dê o livro a Maria.
  • Para nomes masculinos: Amor a Deus.
  • Antes de verbos: Saiu a passear.
  • Antes de pronomes pessoais: Dirigiu-se a ela.
  • Antes de pronomes de tratamento: Dei a Vossa Senhoria.
  • Entre palavras repetidas: Cara a cara.

Crase Optativa

  • Com pronomes possessivos femininos: Irei à minha fazenda ou Irei a minha fazenda.
  • Com nomes próprios femininos: Dê o livro à Maria ou Dê o livro a Maria.
  • Depois da preposição até: Vou até a igreja ou Vou até à igreja.

Crase Proibida

  • Para nomes masculinos, desde que não haja a palavra moda implícita: Amor a Deus.
  • Antes de verbos no infinitivo: Saiu a passear.
  • Antes de pronomes pessoais: Dirigiu-se a ela.
  • Antes de pronomes de tratamento: Enviei os ofícios a Vossa Senhoria.
  • Antes de pronomes demonstrativos: Dei nota dez a esta aluna.
  • Antes de pronomes indefinidos: Nunca devi dinheiro a ninguém.
  • Antes de pronomes interrogativos: A quem você se dedicará?
  • Antes de pronomes relativos: Ele é meu tio, a quem sempre obedeço.
  • Entre palavras repetidas: Cara a cara.
Regência Verbal
Há verbos, na língua portuguesa, que exigem a presença de outros termos na oração a que pertencem. Quando o verbo (termo regente) se relaciona com os seus complementos (termos regidos) acontece um "fenômeno" ao qual damos o nome de regência verbal. Selecionamos a seguir alguns verbos em que há diferença de contexto na hora de se "fazer" a regência:
  • Agradecer
Alguma coisa (sem preposição): O palestrante agradeceu suas intervenções.
A alguém (preposição A): O paciente agradeceu ao médico.
  • Assistir
Ajudar (sem preposição): O médico assistiu o doente.
Pertencer (preposição A): Exigir qualidade é um direito que assiste ao consumidor.
Ver (preposição A): Assisti a um bom filme.
Morar (preposição EM): Aquele homem assiste em São Paulo.
  • Obedecer (desobedecer)
Sujeitar-se (preposição A): Ele não obedeceu ao regulamento.
  • Preferir
Ter preferência por (preposição A, e não locução conjuntiva do que ou conjunção que nem o advérbio mais): Prefiro correr a nadar.
  • Visar
Visar (preposição A): O comerciante visa ao lucro.
Assinar (sem preposição): O gerente do banco visou o cheque.
Mirar (sem preposição): O atirador visou o alvo e errou.
Regência Nominal
Já a regência nominal é a relação de um nome (substantivo, adjetivo, advérbio) com outro termo. E a relação pode vir ou não acompanhada de preposições. Por exemplo:
  • Horror a
  • Impaciência com
  • Atentado contra, a
  • Medo de
  • Idêntico a
  • Prestes a
  • Longe de
  • Benéfico a
Podemos arriscar a dizer que - apesar de todas as "pegadinhas" da língua e apesar de que na fala praticamos uma coisa e na escrita outra - de certa forma, já estamos um pouquinho acostumados a utilizar a regência correta (ou pelo menos a mais aceita). É por essa razão que determinadas pessoas - principalmente aquelas que ao longo da vida escolar demonstraram um pouco mais de "afinidade" com língua portuguesa - chegam a perceber mais facilmente se uma construção está correta ou não.
Vale lembrar, por fim, que "correto" ou "incorreto" para nós não possui a conotação de "certo" ou "errado", mas apenas a de "ser mais aceito socialmente" ou "não ser bem aceito socialmente", do ponto de vista do chamado "padrão culto da língua portuguesa", utilizado no Brasil (aquela língua defendida pelos nossos melhores gramáticos).

25 de agosto de 2019

Existe a forma verbal houvera escolhido?

Hoje, ao responder a um aluno no fórum, pensei em compartilhar aqui esta resposta, pois é dúvida que alguns alunos apresentam.
O questionamento foi a respeito de uma questão da FCC que havia inserido a locução verbal “houvera escolhido”. Dentre as locuções verbais apresentadas nas gramáticas, esta não aparece e normalmente não comentamos em nossas aulas.
Mas e aí? Existe a locução verbal “houvera escolhido”?
É o seguinte: muitas vezes, por questões de estilo, alguns autores empregam o pretérito mais-que-perfeito do indicativo (houvera) no lugar do pretérito imperfeito do subjuntivo (houvesse). Por exemplo, cito um verso do clássico poeta português Luís Vaz de Camões: “E, se mais mundo houvera, lá chegara“.
Camões emprega “houvera” (pretérito mais-que-perfeito do indicativo) no lugar de “houvesse” (pretérito imperfeito do subjuntivo). Por extensão, “chegara” está sendo empregado no lugar do futuro do pretérito do indicativo “chegaria”.
Certamente, ao estilo clássico, não seria tão bem vista a forma já bem conhecida “E, se mais mundo houvesse, lá chegaria“. Essa é a combinação de modo e tempo verbal número 2, como tenho apresentado em minhas aulas de emprego de modo e tempo verbal.
Mas Camões ampliou! Estilisticamente, soa agradável, não é?!
Também vemos essa construção em passagens bíblicas, como em: “Se eu viera, nem lhes houvera falado, não teriam pecado, mas, agora, não têm desculpa do seu pecado.” (João 15: 22)
Neste caso,  foi realizada essa troca no verbo auxiliar (“houvera” no lugar de “houvesse”). Assim, também no tempo composto se admite tal troca estilística.
Por fim, voltando à pergunta do aluno, a locução verbal “houvera escolhido” estaria no lugar de “houvesse escolhido”. Estilisticamente e, se bem dosada, é estilo de linguagem!
Um grande abraço a todos e um final de semana de muito estudo!

Essa construção ''pretérito mais-que-perfeito do verbo ter ou haver + particípio'' chama-se ''pretérito mais-que-perfeito anterior''.

Idéia ou ideia

Vamos falar hoje sobre a nova ortografia oficial e como isso vem caindo nos concursos.

Ideia tem acento?

Não, ideia não tem acento. A grafia “idéia”, com acento, era a forma correta e obrigatória até o dia 31 de dezembro de 2008. Entre 1º de janeiro de 2009 e 31 de dezembro de 2015 estávamos num período de transição. A partir de 1º de janeiro deste ano de 2016, só se aceita a forma “ideia” como para todas paroxítonas terminadas em vogais “a” e “o”.
ideia ou idéia
A forma correta é “ideia“!
A grafia “idéia” (com acento) era a forma correta e obrigatória até o dia 31 de dezembro de 2008. Isso ocorria porque até então acentuávamos as palavras com ditongos abertos tônicos “éi”, “ói” e “éu”, como “jibóia”, “assembléia”, “heróico”, “bóia” etc.
Porém, a partir de 1º de janeiro de 2009, tais palavras, por serem paroxítonas terminadas em “a” ou “o”, perderam o acento, justamente para se fazer um ajuste e seguir o padrão das demais nações falantes da Língua Portuguesa.
Entre 1º de janeiro de 2009 e 31 de dezembro de 2015, estávamos num período de transição, em que se podia empregar a regra antiga e a nova.
Nesse período, os concursos evitavam cobrar a acentuação das palavras que tiveram a mudança!
dicas-estrategicas-2-06-1
A partir de 1º de janeiro deste ano de 2016, só se aceita a forma “ideia”, “boia”, “heroico”, “assembleia”, por serem paroxítonas terminadas em vogais “a” e “o”.

Quando usar o acento gráfico?

Vale lembrar que o acento gráfico permaneceu nas oxítonas e monossílabos tônicos com ditongos abertos tônicos “éi”, “ói” e “éu”, seguidos ou não de “s”, como as seguintes:
Oxítonas: herói, anéis, chapéu, troféus
Monossílabos tônicos: véu, mói, rói, méis, dói
Veja um detalhe interessante: a palavra “herói” é acentuada por ser oxítona, mas a palavra “heroico” perdeu o acento por ser paroxítona terminada em “o”.
Também é relevante observar que as palavras “Méier” e “destróier”, por exemplo, apesar de apresentarem os ditongos abertos tônicos “éi” e “ói” e serem paroxítonas, devem ser acentuadas, porque não terminam em vogal “a” ou “o”. Elas terminam em “r”. Assim, são acentuadas pela mesma regra básica de “mártir”, “câncer” (paroxítonas terminadas em “r”).

O café é espresso ou expresso?

E aí?
Parou um pouquinho seus estudos?
Então está na hora de tomar um cafezinho, espairecer um pouco! Você merece!
Vai um café expresso ou café espresso?!
café expresso ou café espresso

Caramba, a gente fica na dúvida, porque muitas vezes as duas grafias estão nas melhores casas e melhores marcas:
café expresso ou café espresso 
As duas grafias são possíveis, mas nós, que estamos focados em provas de concurso público, devemos dar preferência para a primeira, pois o VOLP (Vocabulário Oficial da Língua Portuguesa) não apresenta a palavra "espresso".
Dentre os vários sentidos do adjetivo "expresso", o que se relaciona com o café é o seguinte: realizado sem delongas, rapidamente.
Por isso, as empresas que têm relação com agilidade, rapidez, como as de viagem, de entregas, gostam muito de empregar esse adjetivo nas suas campanhas publicitárias.
O café expresso é aquele feito na máquina, por isso rapidamente fica pronto!

E o café espresso? De onde vem essa grafia?
Vem da Itália! Pedir um café expresso na Itália e em alguns países da Europa é pedir um "espresso".
E nós, brasileiros, admitimos a grafia simplesmente pelo bom acolhimento que damos em nossa língua a palavras estrangeiras, como o inglês "show" (quem diz espetáculo?), "shampoo" (quem compra um xampu?), "short" (calça curta), "views" (nos vídeos das redes sociais), "likes" (nas postagens das redes sociais), shopping (quem diz centro comercial?), delivery (quem faz entrega em domicílio?), drink (quem compra uma bebida?) e tantas outras que fazem a nossa língua ainda mais rica, ainda mais dinâmica, ainda mais bela!
Porém, numa prova de concurso, fatalmente as bancas determinariam a grafia "expresso", haja vista que o registro no VOLP é único: "expresso". Assim, numa prova, aconselho a verificar as alternativas com cautela, excluir as erradas até chegar à única correta. Assim, havendo a grafia "expresso" ou "espresso" nas alternativas, você escolhe "expresso". Combinado?
É isso aí!
Vai tomar um café? Pode ser expresso (norma culta) ou espresso (admissão de palavra estrangeira)!

Embora comumente encontrada em diversos textos e panfletos promocionais, a palavra "espresso" grafada com "s" não existe na língua portuguesa — ela nada mais é que o italiano para expresso. A palavra "expresso", por sua vez, é originária do latim expressus, particípio passado de exprimere, que significa entre outras coisas "apertar com força, comprimir, espremer, tirar de, arrancar". Em português, esse verbo latino originou exprimir, espremer e, por extensão de sua forma nominal, expressar.

Pedir um café na Itália (un caffè), assim como em vários países da Europa, é entendido como pedir um espresso.

Em Portugal, quando se pede um café é-se servido com um café espresso, termo que não é usado correntemente. Em Lisboa, o termo tradicional para designar o espresso é bica, um acrônimo que significa "Beber Isto Com Açúcar". O café espresso quando começou a ser comercializado em Lisboa, no café "A Brasileira", não agradou aos lisboetas, pelo que foi criado o slogan. O termo teve tanto sucesso que acabou por ficar até aos nosso dias. Por outro lado, no Porto é costume pedir um cimbalino, como referência a La Cimbali, uma popular marca de máquinas de fazer espresso.

Expresso

Veio do latim expressu, espremido, comprimido. Já o café expresso veio do italiano caffè espresso. Tem esse nome não por ser feito rapidamente, mas sim porque resulta da compressão de vapor ou água fervente através de minúsculos grãos de café. A palavra expresso aplicada a meios de transporte (trens, ônibus...), rápidos e diretos, que circulam de uma localidade a outra, sem parar em estações intermediárias, se originou do inglês express. Do mesmo étimo latino, a palavra expresso também se aplica àquilo que é taxativo, indiscutível, categórico, conclusivo, definitivo, imperativo, evidente, conhecido, formal, claro, ostensivo, positivo, explícito, patente, transparente, acelerado, célere, ligeiro, veloz, apresentado, declarado, enunciado, manifesto ou referido.

À parte ou aparte

Será que a frase a seguir está gramaticalmente correta?
O patrão chamou-o para uma conversa aparte.”
        Neste caso, a palavra “aparte” foi incorretamente utilizada.

        Primeiro, vejamos o emprego do substantivo masculino “aparte”.
        Ele designa um comentário, uma interrupção ou observação. Exemplo:
Os apartes dele são sempre muito inconvenientes.”
Ele fez um aparte sobre a política externa do Brasil.”
        Também pode referir-se, em teatro, a uma fala de um ator que diz em cena como se fosse unicamente para si, ou um comentário crítico ou esclarecedor, dirigido aos espectadores por uma ou mais personagens, no decorrer da ação da peça.
O narrador fez breve aparte situando os expectadores antes da cena final.”

Já a locução “à parte” é sinônima de “isoladamente”, “particularmente”, “separadamente” ou “particular”, “em particular”, “em separado”:
“Chamou-o à parte para explicar o negócio.” (em particular)
“O caso merece um tratamento à parte.” (particular)

        Também pode transmitir os sentidos de “sem contar com”, “além de”, “fora”, “afora”, “exceto”:
À parte os filhos, criava os sobrinhos órfãos.” (além dos filhos)
 “As férias foram muito boas, à parte um pequeno problema no aeroporto.” (exceto)

        Assim, devemos corrigir a primeira frase da seguinte forma:
O patrão chamou-o para uma conversa à parte.” (em particular)

Ter de ou ter que

Hoje vamos comentar sobre uma dúvida que pega todo mundo: eu tenho que ou eu tenho de?🤔
Certamente você já se pegou pensando nisso, não é mesmo?
Então vamos à explicação…
Primeiramente é importante falarmos um pouco sobre locuções verbais.
Segundo Bechara (1999), a locução verbal é a combinação de um verbo auxiliar com as formas nominais infinitivo, gerúndio ou particípio, os quais são chamados de verbo principal.
hei deestudarestouestudandotenhoestudado
verbo auxiliarverbo principalverbo auxiliarverbo principalverbo auxiliarverbo principal
(infinitivo)(gerúndio)(particípio)
locução verbal
locução verbal
locução verbal
Entre o auxiliar e o verbo principal no infinitivo, pode aparecer ou não uma preposição (de, em, por, a, para). Muitas vezes o verbo auxiliar traduz um valor semântico ao verbo principal dando origem aos chamados aspectos verbais.
Na locução verbal é somente o auxiliar que recebe as flexões de pessoa, número, tempo e modo:
haveremos de fazer                         estavam trabalhando                    tinhas visto.
Também pode ocorrer, em vários casos, a alternância da preposição (começar a/de fazer).
Mas onde entra o ter que de?
Bem, existem locuções verbais em que os verbos auxiliares são chamados de modais, isto é, o verbo auxiliar se combina com o infinitivo ou gerúndio do verbo principal para determinar com mais rigor o modo como se realiza ou se deixa de realizar a ação verbal. Observe os exemplos dos valores semânticos dos auxiliares modais abaixo:
Necessidade, obrigação, dever: haver de escrever, ter de(que)escrever, dever escrever, precisar (de) escrever, etc.
Você notou que apareceu a forma pela qual esperávamos? Pois bem, observe que, em vez de ter ou haver de + infinitivo, usa-se ainda, mais modernamente, ter ou haver que + infinitivo: tenho que estudar. Neste caso, que funciona como verdadeira preposição. Mas atenção! Não confunda este que preposição com o que pronome relativo em construções do tipo: nada tinha que dizertenho muito que fazer. (Bechara – 1999)
Portanto, as duas formas são aceitas! 😃
Veja agora os outros exemplos de auxiliares modais:
Possibilidade ou capacidade: poder escrever, etc.
Vontade ou desejo (volitivo): querer escrever, desejar escrever, odiar escrever, abominar escrever, etc.
Tentativa ou esforço: buscar escrever, pretender escrever,  tentar  escrever, ousar escrever, atrever-se a escrever, etc.
Consecução: conseguir escrever, lograr escrever, etc.
Aparência, dúvida: parecer escrever, etc.
Intento futuro: ir escrever (vou escrever), etc.
Resultado: vir a escrever, chegar a escrever, etc.

Usa-se vírgula em orações adjetivas restritivas?

Começo meu artigo com a seguinte pergunta trivial:
Usa-se vírgula em orações adjetivas restritivas?🤔
Bom, primeiramente, vamos observar a diferença entre oração adjetiva restritiva e explicativa.
A oração restritiva tem o papel de delimitar o sentido do vocábulo anterior, normalmente um substantivo.
Veja como exemplo um candidato à presidência do Brasil, afirmando o seguinte:
O país que não cuida da educação como prioridade não consegue desenvolver-se.
É natural percebermos neste contexto que não estamos falando ainda de um país específico, mas daquele que possa se enquadrar na característica de não cuidar da educação como prioridade.
Assim, dentre vários países, somente o que não cuida da educação como prioridade não consegue desenvolver-se e naturalmente o candidato poderia afirmar que o Brasil não pode estar no rol desses que não cuidam da educação como prioridade, concorda?
Dessa forma, há um valor restritivo e  a oração subordinada adjetiva “que não cuida da educação como prioridade” não é separada por vírgulas.
Agora, vamos falar das orações subordinadas adjetivas explicativas. Elas apresentam uma característica básica do ser e por isso são separadas por vírgulas.
Veja o mesmo exemplo, agora com dupla vírgula:
O país, que não cuida da educação como prioridade, não consegue desenvolver-se.
Neste novo contexto, não há mais uma delimitação do sentido. Há uma característica básica, imanente do ser.
O candidato está literalmente criticando nosso país (o Brasil), por ser conhecido como aquele que não cuida da educação como prioridade.
Assim, não estamos falando mais de qualquer país, mas de um que já é conhecido num contexto.
Percebeu a diferença?
Bom, é fácil notar que as orações adjetivas restritivas não apresentam vírgulas, e as explicativas apresentam.
Vamos a mais alguns exemplos:
O homem cujos princípios não são sólidos pode se corromper.
Neste caso, há uma delimitação de sentido, pois a oração adjetiva “cujos princípios não são sólidos” não apresenta vírgula. Assim, é restritiva. Por isso, entendemos que alguns homens têm princípios sólidos, outros não.
Agora, vamos inserir a vírgula?
O homem, cujos princípios não são sólidos, pode se corromper.
Neste caso, entendemos que o autor da afirmação tem uma postura pessimista da conduta dos homens. Para ele é característica básica dos homens não ter princípios sólidos, por isso todos podem se corromper, cada um tem seu preço. Todos são corrompíveis.
Notou novamente a diferença?
Assim, temos como princípio que as orações subordinadas adjetivas restritivas não são separadas por vírgulas e as explicativas são.

Reformulando a explicação: Alguns gramáticos mais renomados admitem a vírgula nas orações restritivas no fim da oração, de grande extensão e com verbos próximos às orações do período: O mundo que pessoas mais sensatas sempre desejaram, começa finalmente a surgir. Quem abona essas construções são Evanildo Bechara e Luiz Antônio Sacconi.

Se feiura e feiume perderam o acento, por que Guaíba e Guaíra são acentuadas?

Alguns alunos têm me perguntado por que as palavras “Guaíba” e “Guaíra” são acentuadas, se há hiato formado de ditongo mais vogal “i” ou “u”, algo que ocorre com “feiume”, “feiura”, “baiuca”, palavras que perderam o acento com a Nova Reforma Ortográfica.
Bom, para isso, vamos começar falando um pouco sobre o que é hiato e ditongo.
Hiato = É o agrupamento de duas vogaiscada uma em uma sílaba diferente. lu-a-na, a-fi-a-do, pi-a-da
Ditongo = É o agrupamento de uma vogal e uma semivogal, em uma mesma sílaba.
Quando a vogal estiver antes da semivogal, chamaremos de Ditongo Decrescente (ex.: vai-dade, lei-te, caixa); quando a vogal estiver depois da semivogal, de Ditongo Crescente. (ex.:  gló-ria, má-goa).
Agora, vamos falar da regra de acentuação do hiato
Vamos recordá-la…
Os linguistas criaram a regra de acentuação do hiato, porque, em palavras como “ai”, por exemplo, não se sabia se o emissor da mensagem se referia a um advérbio de lugar ou da expressão de dor. Hoje fica mais fácil diferenciar por conta do acento:
ai: grito de dor
: advérbio de lugar
Veja mais:
sai: presente do indicativo do verbo sair (ele sai todos os dias)
saí: pretérito perfeito do indicativo (ontem eu saí).
cai: presente do indicativo do verbo cair (ele cai todos os dias)
caí: pretérito perfeito do indicativo (ontem eu caí).
Lembre-se de que, antes da Nova Reforma Ortográfica, havia acento em hiatos com vogais dobradas (lêem, vêem, vôo, magôo). Hoje, não há mais acento, simplesmente porque vogais dobradas só podem ser hiato, por isso não havia motivo do acento. Hoje, essas palavras são grafadas assim: leemveemvoomagoo.
Isso reforça o motivo de o acento do hiato ocorrer somente na diferenciação: o “i” ou “u” podem ser vogais ou semivogais.
Assim, há a regra de hiato , da seguinte forma:
As vogais “i” ou “u” recebem acento, quando nas seguintes condições:
– sejam a segunda vogal do hiato;
– sejam tônicas;
– estejam sozinhas ou com s na mesma sílaba;
– não sofram nasalização;
– não sejam dobradas (ii, uu).
ex.: saída: sa-í-da; faísca: fa-ís-ca; balaústre: ba-la-ús-tre;  possuímos: pos-su-í-mos; possuía: pos-su-í-a.
Esta é a regra do hiato, mas há uma extensão dela, que é o hiato formado de ditongo e vogal.
É por isso que acentuamos as palavras “Piauí“, “teiú“, “tuiuiú“.
Note que esse hiato é formado de ditongos “au”, “ei”, “ui” e vogais “i” e “u”.
Assim, para evitar confusão entre “u” e “i” serem vogais ou não, há o acento na segunda vogal do hiato formado de ditongo e vogal.
Com base nesta regra, as palavras “feiura”, “feiume”, “baiuca” tinham acento antes da Reforma (: “fera”, “feme”, “baca”), porque os linguistas à época entendiam que esta seria uma forma prática de diferenciar o que era semivogal “i” e vogal “u”. Portanto, com acento, era vogal; sem acento, era semivogal.
Porém, com a Nova Reforma Ortográfica, os linguistas entenderam que neste caso não haveria mais confusão entre o “i” e “u” ser vogal ou semivogal. Isso porque, em “feiura”, por exemplo, ocorre seguramente a vogal “e” e a semivogal “i”. Assim, é prático perceber que o próximo som vocálico é de uma vogal (e não de uma semivogal): fEiUra (Destaquei a vogal em maiúscula para facilitar seu entendimento).
Como as oxítonas “Piauí“, “teiú“, “tuiuiú” têm uma vogal final mais forte, entenderam os linguistas, após a Nova Reforma Ortográfica, que se deve acentuar as oxítonas com hiato constituído de ditongo mais vogal, em que a segunda vogal do hiato é tônica. Porém, as paroxítonas deixaram de ser acentuadas, como “feiura”, “feiume”, “baiuca”.
Depois de tudo isso que aqui falamos, certamente você pode estar com a seguinte dúvida:
Se “feiura”, “baiuca”, “feiume” perderam o acento por serem paroxítonas com hiato constituído de ditongo mais vogal, por que as palavras “Guaíba” e “Guaíra”, que também são paroxítonas e apresentam  hiato constituído de ditongo mais vogal, recebem acento?
Bom, embora o acordo não diga que somente as tônicas precedidas de ditongo decrescente terão o acento gráfico eliminado, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) manteve o acento no “i” após o ditongo crescente. Isso ocorreu por um ajuste interno (no Brasil), em que aparecerem palavras, cuja falta de acento modificaria a tonicidade das mesmas. Note que “Guaíba”, sem acento, passaria a ser tônica no “a” /GuAiba/.
Assim, para evitar tal mudança de tonicidade, arbitrariamente, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa manteve o acento em palavras com hiato formado de ditongo crescente seguido de vogal tônica “i”.
Note que nas palavras do novo acordo em que foi retirado o acento (feiura, feiume, baiuca), a tonicidade da palavras continua recaindo sobre o “u” da sílaba tônica. Isso porque o “i” é semivogal, logo a vogal tônica “u” se encontra após ditongo decrescente.
Já em “Guaíba”, “Guaíra”, há ditongo crescente, e o “a” é vogal. Assim, sem acento, esta vogal “a”, junto ao “i”, teria força para ser a tônica e passar o “i” para semivogal: guAira, guAiba.
Portanto, para evitar mudança de sílaba tônica, alterou-se a regra do novo acordo, criando outra, mesmo sem estar prevista lá, que é a seguinte: “Acentua-se o “i” tônico formado do hiato com ditongo crescente: Guaíba, Guaíra.”
Entenderam? É mais simples do que parece: se a palavra for paroxítona e o hiato vier depois de ditongo decrescente, NÃO há acento (feiura, baiuca, feiume); se o hiato vier depois de ditongo crescente, há acento (Guaíra).