8 de outubro de 2018

Colocação pronominal - Próclise, mesóclise e ênclise

Antes de darmos início à nossa discussão, torna-se necessário e importante fazermos uma perguntinha a você: lembra-se dos pronomes oblíquos, os quais já estudamos? Caso tenha se esquecido, relembre-os por meio do texto “Os pronomes oblíquos e suas funções”. Agora sim, tudo se tornará mais fácil, pois o que aprenderemos aqui é exatamente a maneira como eles são colocados na oração, por isso o nome “colocação pronominal” – sempre lembrando que somente ocorre com os pronomes átonos (representados pelos pronomes me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, se, os, as, lhes). Existem três maneiras básicas de eles aparecerem: antes do verbo, no meio e depois dele, cujas posições recebem nomes específicos.
Dessa forma, começaremos pela primeira posição, aquela em que o pronome fica antes do verbo, também chamada de próclise. Assim, devemos usá-la nas seguintes circunstâncias:
A colocação pronominal se refere à posição em que o pronome oblíquo se encontra na oração

A colocação pronominal se refere à posição em que o pronome oblíquo se encontra na oração.
A próclise ocorre nos seguintes casos:
* Com verbos modificados por advérbios, sendo que esses advérbios sempre aparecem antes dos verbos:
Talvez os veja passeando por aqui. 
Temos que “talvez” representa um advérbio de dúvida.
Muito a considerei uma garota muito educada.
Percebemos que “muito” se classifica como advérbio de intensidade.

* Se houver vírgula depois do advérbio, ele deixa de atrair o pronome, ocorrendo a ênclise:
Ontem, vi-te na igreja. 
Percebemos que há uma pausa, na escrita representada por uma vírgula, fazendo com que ocorra a ênclise.

* Em orações iniciadas por pronomes indefinidos, pronomes relativos ou pronomes demonstrativos invariáveis:
Aquilo me incomodava bastante. 
Temos que “aquilo” representa um pronome demonstrativo.
Você aceitou a sugestão que te dei? 
Temos que a palavra “que” representa um pronome relativo.
Tudo nos deixava contente. 
“Tudo” se classifica como um pronome indefinido.

* Em orações iniciadas por conjunções subordinativas, conjunções coordenativas alternativas, palavra ''só'' no sentido de ''somente'' ou o numeral ambos:
Quando lhe ofereceram o cargo, você aceitou. 
Temos que “quando” representa uma conjunção subordinativa temporal.
Ou se diverte, ou fica em casa.
Temos que a palavra “ou” representa uma conjunção coordenativa alternativa.

Só nos deram uma novidade.
“Só” se classifica como palavra denotativa de exclusão.
Ambos se comoveram com a festa da igreja. 
“Ambos” se classifica como um numeral dual.
* Em orações interrogativas iniciadas por pronomes ou advérbios interrogativos:
Que me custa ajudar a querida professora?
Como você a trouxe de volta?
* Em orações exclamativas iniciadas por palavras exclamativas:
Quanto se falou sobre isso!
Quanto nos custa dizer a verdade!
* Nas orações optativas, ou seja, aquelas que expressam desejo por algo, uma vez que o sujeito se encontra antes do verbo. Se o sujeito estiver depois do verbo, ocorrerá a ênclise:
Deus te ilumine, meu amigo!
Valha-me Deus, esse problema não foi resolvido! (ênclise)
* Diante do verbo expresso no gerúndio (uma das formas nominais), acompanhado da preposição “em”:
Em se tratando de cinema, prefiro comédia.
* Com o verbo no infinitivo pessoal (flexionado ou não) acompanhado de alguma preposição:
Obrigada por me respeitar tanto assim.
Percebemos que “por” é uma preposição e “respeitar” se encontra no infinitivo (verbo na forma original).
Vejamos como se usa a ênclise (pronome depois do verbo):
* Com verbos no início da oração, do texto ou da redação, desde que não estejam no futuro do indicativo:
Custa-me ir ao cinema com vocês.
Lembro-me daquele passeio inesquecível.
* Com verbo no imperativo afirmativo:
Diga-me toda a verdade.
Concentre-se nos estudos.
Ofereça-lhe todos os presentes que chegaram.
* Em orações interrogativas iniciadas por palavras interrogativas, com o verbo no infinitivo pessoal (aquele que não é flexionado):
Por que acompanhar-me nesta caminhada?
Como usar a mesóclise (pronome no meio do verbo):
A mesóclise não é uma forma que usamos muito no nosso cotidiano e na fala espontânea, pois está mais presente na linguagem formal e culta e na modalidade literária, poética, musical, religiosa, científica, política, litúrgica, bíblica e jurídica, mas mesmo assim devemos conhecer suas características. Ela é usada somente em dois casos:
- Com verbos no futuro do presente:
Convidar-me-ão para o show de hoje. Temos que a terminação “-ão” faz referência ao futuro do presente.
- Com verbos no futuro do pretérito:
Convidar-me-iam para o show de hoje. Constatamos que a terminação “-iam” diz respeito ao futuro do pretérito.
- Se houver alguma palavra atrativa, ou seja, que exige o uso da próclise, desfaz-se a mesóclise.
Realmente me convidarão para o show. A próclise é de rigor, pois realmente é um advérbio de afirmação, e é atrativo.


- Nunca ocorrerá ênclise com verbos no futuro do subjuntivo, futuro do presente, futuro do pretérito do indicativo ou particípio (regra das locuções verbais ou tempos compostos, vista a seguir).

Quando ele convidar-te para o evento, ficarei alegre. A ênclise está incorreta, pois o verbo está no futuro do subjuntivo. A frase correta deveria ser ''Quando ele te convidar''.



Luís, realizarei-te um milagre. A ênclise está incorreta, pois o verbo está no futuro do presente do indicativo. A frase correta deveria ser ''realizar-te-ei um milagre''.

Luís, realizaria-te um milagre. A ênclise está incorreta, pois o verbo está no futuro do pretérito do indicativo. A frase correta deveria ser ''realizar-te-ia um milagre''.

Como é a colocação pronominal em locuções verbais e nos tempos compostos?

A colocação pronominal nas locuções verbais e nos tempos compostos dependerá do tempo do verbo auxiliar e do principal.

- Com verbo principal no infinitivo:
Quero-lhe fazer uma surpresa. (colocação tipicamente lusitana)
Quero lhe fazer uma surpresa. (colocação tipicamente brasileira)
Quero fazer-lhe uma surpresa.
Eu lhe quero fazer uma surpresa. 

Há quatro possibilidades: antes do verbo auxiliar (com sujeito antes do verbo), antes do verbo principal, depois do verbo auxiliar ou depois do verbo principal.

- Com palavra atrativa antes da locução:
Agora lhe quero fazer uma surpresa. (tipicamente lusitana)
Agora quero lhe fazer uma surpresa. (tipicamente brasileira)
Agora quero fazer-lhe uma surpresa. (tipicamente lusitana)

Idem à anterior, mas se elimina a ênclise ao verbo auxiliar, pois agora é um advérbio de tempo, e é atrativo.


- Com verbo principal no gerúndio:

Eles foram-se afastando. (colocação lusitana)
Eles foram se afastando. (colocação brasileira)
Eles foram afastando-se.
Eles se foram afastando. 

Há quatro possibilidades: antes do verbo auxiliar (com sujeito antes do verbo), antes do verbo principal, depois do verbo auxiliar ou depois do verbo principal.

- Com palavra atrativa antes da locução:
Eles longe se foram afastando. (colocação lusitana)
Eles longe foram se afastando. (colocação brasileira)
Eles longe foram afastando-se. (colocação lusitana) 

Idem à anterior, mas se elimina a ênclise ao verbo auxiliar, pois longe é um advérbio de lugar, e é atrativo.


- Com verbo principal no particípio:


O povo havia-se retirado quando chegamos.
O povo havia se retirado quando chegamos.
O povo se havia retirado quando chegamos. 

Há somente três opções, pois nesse caso não se admite a ênclise com o particípio.

- Com palavra atrativa antes da locução:
O povo assim se havia retirado quando chegamos. 

Elimina-se a ênclise ao verbo auxiliar, pois assim é um advérbio de modo, e é atrativo.

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