2 de janeiro de 2020

Verbo comunicar

Leia as frases seguintes e assinale qual (ou quais) não está de acordo com a regência verbal, segundo a língua padrão:
1- A vitória do corredor foi comunicada aos presentes.
2- Os meios de comunicação foram comunicados da chegada do presidente.
3- Não fui comunicada da mudança de horário.
4- Não lhe comunicaram o lançamento do livro.

Temos aí quatro frases com o verbo comunicar. Duas estão inadequadas à norma culta. Você já identificou quais são?
A frase 2 e a 3 são as vilãs.
O verbo comunicar tem regência igual à do verbo dizer. Vamos, então, substituir as frases pelo verbo dizer:
1- A vitória do corredor foi dita aos presentes.
2- Os meios de comunicação foram ditos da chegada do presidente.
3- Não fui dita da mudança de horário.
4- Não lhe disseram o lançamento do livro.

Conforme você pôde perceber, 2 e 3 não aceitam essa substituição.
Então, o correto (ou adequado) seria:
2- Fui avisada (ou informada) da chegada do presidente.
3- Não me avisaram (ou informaram) a mudança de horário.

Mesóclise (tmese)

Você se lembra do que é mesóclise?
Mesóclise é a colocação do pronome pessoal do caso oblíquo átono no meio do verbo. Isso vale para o futuro do presente e para o futuro do pretérito. Em Portugal, a mesóclise é chamada de tmese.
Futuro do presente, simplificando, é o tempo que indica um futuro em relação ao presente. Ex.: cantarei, farei, direi, esperarei, quererei, crerei.
Futuro do pretérito, também simplificando, é o tempo que indica uma ocorrência hipotética; era chamado, até 28 de janeiro de 1959, de condicional, denominação mantida nos demais países lusófonos. Ex.: acharia, compraria, veria, atribuiria.
Quais são os pronomes pessoais do caso oblíquo átonos? São: me/nos; te/vos; se/lhe (s); o (s), a (s).
E como se dá a mesóclise?
Com exceção de o, a, os, as, o pronome se mantém íntegro.
O verbo é separado no R: registrar-ME-ás; dir-NOS-á; dir-TE-ei; entregar-VOS-íamos; Obedecer-LHE-ei; comentar-SE-á/ contar-ME-iam; trar-NOS-iam; far-TE-ia; comunicar-VOS-íamos; avisar-lhe-ia; vender-se-iam.

Com o pronome o e flexões, dá-se o seguinte:
O r é desprezado, e o pronome o se torna LO (la, los, lãs):
Farei o acordo: farei+o+ far-O-ei = fá-lo-ei.
Comprarei esses produtos: comprar-OS-ei = comprá-los-ei.
Estudaria a proposta: estudaria+A = estudá-la-ia.
Amaria as flores = amaria+AS = amá-las-ia.

Caso haja palavra atrativa (palavra ou expressão negativa, advérbio, palavra denotativa ou locução adverbial, pronome relativo, pronome indefinido, pronome demonstrativo ou conjunção subordinativa integrante ou adverbial), a mesóclise deixa de existir.
Abordaremos esse assunto no próximo boletim.

Curiosidades:

O VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), 5ª edição, traz viagra como substantivo comum.
Não faz referência a brama nem a bombril.
De quem terá sido a ideia?

É interessante, também, que ele registra água-da-colônia, mas não água-de-colônia.

Verbo avir

Verbo avir
Você já teve uma desavença com alguém querido? E o que é desavença? Desavença é o mesmo que dissensão, inimizade, indisposição, desarmonia, desajuste, desacordo, desentendimento, conflito, discórdia, discussão, divergência, dissídio, contenda, disputa, litígio, querela, indisposição, mal-entendido, cizânia, pendência, questiúncula, bate-boca.
O verbo correspondente a desavença é desavir, que se conjuga como o verbo vir. Ex.: O funcionário se desaveio com o colega. Eles se desavieram por uma questão à toa. Nós nos desaviemos em tempos passados. Se você se desaviesse com sua amiga, ficaria em casa, por falta de companhia. Nunca me desavim com ninguém daquele departamento. Se nós nos desaviermos com a equipe, não conseguiremos realizar o trabalho. O correspondente se desavém com todos do departamento. Vocês se desavêm com colegas de trabalho? Essa teoria – prosseguiu ela – fez carreira e exerceu uma função muito curiosa na América: congregar todas as fêmeas que por uma circunstância ou outra se desavinham com os machos – esposos, noivos ou namorados -, e foi com esses elementos que se constituiu o partido elvinista. (Monteiro Lobato – O presidente negro)
E qual o antônimo de desavença? É avença, que quer dizer harmonia, acordo, ajuste, convenção, acordo, união.
O verbo correspondente ao substantivo avença é avir.
O funcionário se aveio com o colega. Eles se avieram para felicidade de todos. Nós nos aviemos em tempos passados. Se você se aviesse com sua amiga, ficaria mais calma. Nunca me avim com ninguém daquele departamento. Se nós nos aviermos com a equipe, o trabalho sairá ótimo. Todos os dias aquele senhor bondoso se avinha com uma pessoa. O correspondente se avém com todos do departamento. Vocês se avêm com seus desafetos?
Estou-me avindo com alguns colegas de trabalho.
Tinha-me avindo com seus conhecidos.
Aquele tolo há de se avir comigo. É megarraro alguém usar esse verbo, no Brasil é usado somente literariamente, em Portugal é supercomum.
O que ouvimos normalmente? Aquele tolo há de se haver comigo. Essa forma está dicionarizada. Pode usá-la sem medo.
O povo, porém, diz: Aquele tolo há de se ver (há de se vê) comigo.
Você percebeu o salto?

Colocação do pronome oblíquo átono com infinitivo impessoal seguido de palavra atrativa

As palavras atrativas (palavras ou expressões negativas, advérbios, palavras denotativas ou locuções adverbiais, pronomes relativos, pronomes indefinidos, pronomes demonstrativos e conjunções subordinativas integrantes ou adverbiais) neutralizam-se quando seguidas de infinitivo; assim, a colocação do pronome pessoal do caso oblíquo átono (me/nos; te/vos; se; lhe, lhes; o, a, os, as) é facultativa. O uso da próclise e da ênclise é indiferente, mas se o verbo principal estiver no futuro do presente ou no futuro do pretérito, a ênclise ao verbo auxiliar é substituída pela mesóclise;
O produto é muito bom; não comprá-lo vai ser motivo de frustração.

O produto é muito bom; não o comprar vai ser motivo de frustração.

Você está condenada a nunca vê-lo.

Você está condenada a nunca o ver.

Tudo resolver-se agora é nosso principal objetivo.

Tudo se resolver agora é nosso principal objetivo.

Nada achar-se ali foi alvo de comentários maldosos.

Nada se achar ali foi alvo de comentários maldosos.

Alguém encontrar-se perdido aqui é comum.

Alguém se encontrar perdido aqui é comum.

Hoje enviar-lhe o bilhete dá admoestação.

Hoje lhe enviar o bilhete dá admoestação.

A quem mostrá-lo?

A quem o mostrar?

Pronome pessoal oblíquo usado como possessivo

Os pronomes pessoais do caso oblíquo átono me, nos, te, vos, lhe, lhes podem funcionar como possessivos. Fica elegante usá-los dessa forma. Que tal se você começar a tentar? Experimente escrever suas próprias frases.
Ex.:

Sua atitude covarde não me saiu da cabeça. Sua atitude covarde não saiu (de ou da minha) cabeça.

A crise aguçou-nos o espírito de busca. A crise aguçou (nosso ou o nosso) espírito de busca.

Tirei-te o sono com minhas histórias? Tirei (teu ou o teu) sono com minhas histórias?

Retiveram-vos a comprovação de pagamento? Retiveram (vossa ou a vossa) comprovação de pagamento?

A emoção lhe embargou a voz. A emoção embargou (sua ou a sua) voz.

Memorizaram-lhes as palavras de reconforto. Memorizaram (suas ou as suas) palavras de reconforto.

Esses pronomes não exercem função de objeto direto ou indireto, mas sim de adjunto adnominal.

Em ''Devolveram-lhe os documentos'', o lhe não tem valor possessivo, é complemento do verbo: devolveram os documentos a ele, e não os documentos dele.

Verbo delinquir

O verbo delinquir era defectivo. Chamamos defectivo ao verbo a que faltam pessoas, modos, tempos, como os verbos adequar, falir, reaver, precaver, ressarcir, abolir, colorir, demolir, explodir, extorquir, imergir. Em suma, é um verbo de conjugação incompleta, defeituoso, que vem com defeito de fábrica, não é um verbo que defeca, mas que tem defeito.
Observe que ele perdeu o trema.

Delinquir significa cometer crime ou falta grave, praticar delito, agir de forma delituosa.

Não havia a primeira pessoa do singular do presente do indicativo nem o presente do subjuntivo, e o imperativo não tinha as pessoas derivadas do presente do subjuntivo.

Hoje, esse verbo passa a admitir duas formas, além de ter a primeira pessoa do singular do presente do indicativo, o presente do subjuntivo e o imperativo completo.

Presente do indicativo: eu delinquo (ú), tu delinquis (ú), ele delinqui (ú), eles delinquem (ú) OU:

delínquo, delínques, delínque, delínquem. Nós e vós permanecem: nós delinquimos, vós delinquis.

A terceira pessoa do plural- que não tinha acento- passa a ser acentuada, quando o U for átono ( sílaba tônica lin).

Encontrava-se, nas gramáticas, delinquem sem acento como exceção das regras que norteiam o acento gráfico. Era: delinqüem; (com trema e sem acento); agora é delínquem, sem trema e com acento (ou delinquem, com acento tônico no U).

Presente do subjuntivo: que eu eu delinqua (ú), que tu delinquas (ú), que ele delinqua (ú), que eles delinquam (ú) OU:

que eu delínqua, que tu delínquas, que ele delínqua, que eles delínquam.

Que nós delinquamos, que vós delinquais.

Imperativo afirmativo: delinqui (cúi) tu, delinqua você, delinquamos nós, delinqui vós, delinquam vocês.

OU: delínque tu, delínqua você, delinquamos nós, delinqui vós, delínquam vocês

Imperativo negativo: não delinquas tu (ú), delinqua você (ú), não delinquamos nós, não delinquais vós, não delinquam vocês (ú) OU:

não delínquas tu, não delínqua você, não delinquamos nós, não delinquais vós, não delínquam vocês.

Com acentuação gráfica, o acento tônico recai na vogal i, marcado com acento agudo, forma usada no português falado no Brasil.
Sem acentuação gráfica, o acento tônico recai na vogal u, forma usada no português falado em Portugal.

Os demais tempos e modos são regulares, como qualquer verbo terminado em ir, como partir.

Pretérito perfeito do indicativo: eu delinqui, tu delinquiste, ele delinquiu, nós delinquimos, vós delinquistes, eles delinquiram.
Pretérito imperfeito do indicativo: eu delinquia, tu delinquias, ele delinquia, nós delinquíamos, vós delinquíeis, eles delinquiam.
Pretérito mais-que-perfeito do indicativo: eu delinquira, tu delinquiras, ele delinquira, nós delinquíramos, vós delinquíreis, eles delinquiram.
Futuro do presente do indicativo: eu delinquirei, tu delinquirás, ele delinquirá, nós delinquiremos, vós delinquireis, eles delinquirão.
Futuro do pretérito do indicativo: eu delinquiria, tu delinquirias, ele delinquiria, nós delinquiríamos, vós delinquiríeis, eles delinquiriam.
Pretérito imperfeito do subjuntivo: se eu delinquisse, se tu delinquisses, se ele delinquisse, se nós delinquíssemos, se vós delinquísseis, se eles delinquissem.
Futuro do subjuntivo: quando eu delinquir, quando tu delinquires, quando ele delinquir, quando nós delinquirmos, quando vós delinquirdes, quando eles delinquirem.


Mega-sena ou megassena?

Já pensou no que vai fazer com seus milhões de fim de ano?

Pois é, a megassena está aí – isso mesmo: com dois esses e sem hífen. O Houaiss não registra a palavra. O VOLP também não.

Com essa megassoma, problemas financeiros deixarão de existir. Outros virão, certamente.

É importante frisar que, antes da vigência do Novo Acordo Ortográfico, já era assim.

Agora, mega só terá hífen quando a palavra seguinte começar com h ou a: mega-apartamento, mega-habilidade, mega-aplicação, mega-hidrante, mega-homenagem, mega-abraço, mega-administração.
Fora isso, não há hífen: megacidade, megacurioso, megaestrutura, megagalpão, megaimportante, megaevento, megainvestidor, megaoperação, megaempresário, megaloja, megafone, megaprodução, megaempreendimento, megashow, megashopping.
Se o segundo elemento começar por r ou s, duplicam-se as consoantes: megarregião, megarreforma, megarromântico, megarreação, megassalário, megassistema, megassismo, megassabedoria, megarrabugice, megassom.

O mesmo ocorre com telessena. Mega-Sena, é uma marca, use essa forma em se tratando da loteria.

Por que será que há tanta resistência na grafia correta dessas palavras?

Feliz Ano Novo para todos.

A semana passada ou na semana passada? / O prefixo ex- / Ampliação de vocabulário com palavras / Palíndromo

A semana passada ou na semana passada?
É indiferente usar a preposição em ou não.

Assim, você poderá dizer:

O presidente do banco deu várias entrevistas o ano passado.
O presidente do banco deu várias entrevistas no ano passado.

Esta semana pretendemos dar um grande impulso ao movimento.
Nesta semana pretendemos dar um grande impulso ao movimento.

Receberemos a mercadoria quinta-feira próxima.
Receberemos a mercadoria na quinta-feira próxima.

Vou pensar nisso outro dia.
Vou pensar nisso em outro dia.

“Um dia, às oito horas da manhã, saiu de casa, que era na Rua do Cano (Sete de Setembro), entrou no Largo de S. Francisco de Paula;” Machado de Assis – Quincas Borba

“No ano anterior, ali pelo mês de agosto, tendo eu quarenta e dois anos, fiz-me teólogo. – quero dizer, copiava os estudos de teologia de um padre de Niterói, antigo companheiro de colégio, que assim me dava. delicadamente, casa, cama e mesa. Naquele mês de agosto de 1859, recebeu ele uma carta de um vigário de certa vila do interior, perguntando se conhecia pessoa entendida, discreta e paciente, que quisesse ir servir de enfermeiro ao Coronel Felisberto, mediante um bom ordenado.” Idem – O enfermeiro

“Certa noite, de repente, meu marido sentiu-se mal” Rachel de Queiroz – O padrasto

“Um dia chegou ao hospital um pai vestindo botas de couro, roupa rasgada, chapelão na cabeça, com uma criança de uns dois anos no braço, ambos muito sujos.” Alois Bianchi – Diretor do Depto. de Pediatria do HC, em SP (em 2000)

“A noite passada, você veio me ver / A noite passada, eu sonhei com você” Herbert Viana

“Quase todos os meses o compadre pobre mandava um caixote de ovos para o coronel. (…) Um dia perguntei ao coronel se não era melhor avisar ao compadre Zeferino para não mandar mais ovos;” Rubem Braga – O compadre pobre

“No dia em que o homem chegou, Betsy teve o derrame e ficou sem comer.” Rubem Fonseca – Betsy

“Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar.” Chico Buarque de Holanda – Valsinha

“(…) Uma noite, correu a notícia de que o bazar se incendiara.” Cecília Meireles – Brinquedos incendiados

“Um dia desses, indagado sobre qual das modernas comodidades tecnológicas eu não dispensaria, respondi de pronto: a energia elétrica.” Gilberto Gil

O prefixo ex, com significado do que já foi, é ligado à palavra que o segue por hífen. Ex.: ex-amante, ex-
-amigo, ex-comandante, ex-gerente, ex-marido, ex-mulher, ex-namorado,ex-prefeito, ex-presidente.

Veja a notícia que foi divulgada por alguns meios de comunicação:
Ex-marido mata mulher.
Marido mata ex-mulher.
Ex-marido é aquele que foi o marido, não é mais; pergunta-se: mulher de quem? marido de quem?
Ex-mulher é aquela que foi a mulher; não é mais.

Como dizer, então?

Homem mata ex-mulher.

Feliz ano novo * é, portanto, um voto de emulação espiritual. (…) Frei Betto
Se o novo se faz advento em nossa vida espiritual, então, com certeza, teremos, sem milagres ou mágicas, um feliz ano novo, ainda que o mundo prossiga conflitivo; a crueldade, travestida de doces princípios; o ódio, disfarçado de discurso amoroso. Frei Betto

Eticamente falidos, anões morais, arremedos de estadistas, simulacros de homens públicos, essa gente já garantiu para si e perante a História o epíteto de “os 46 infames”. E que nossos filhos e netos jamais se esqueçam deste nefasto 12 de setembro de 2007 – o dia em que o Senado, por opção majoritária de seus membros, não hesitou em mergulhar na pocilga e nela chafurdar na desonra.

Vergonha! João Mellão Neto

* Ano-novo só terá hífen se a referência for ao dia 1º de janeiro.

Advento = chegado, ocorrido, sucedido
Arremedo = cópia, imitação, simulacro
Chafurdar = emporcalhar-se; enlamear-se; espojar-se ou revolver-se em lama, lamaçal; envolver-se em torpezas, em baixezas, em vícios; corromper
Conflitivo = em briga, em choque, em luta
Emulação = competição, estímulo
Epíteto = alcunha, apelido, cognome
Infame = abjeto, ignóbil, ignominioso, indigno, torpe, vil
Nefasto = agourento, deplorável, funesto, infausto, lutuoso, pernicioso, sinistro, trágico,
Pocilga = chiqueiro, pardieiro
Simulacro = arremedo, cópia, fantasma, imitação
Travestido = alterado, falsificado, modificado

Você sabe o que é palíndromo?
É a leitura da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda sem modificação.

Exemplos com palavras: anilina, merecerem, omissíssimo.

Exemplos com frases:

A base do teto desaba.
A droga do dote é todo da gorda.
Laço bacana para panaca boçal.
O teu drama é amar dueto.
O terrível é ele vir reto.
É até o Papa poeta é.
Tucano na CUT.
Reter e rever para prever e reter.
Oto come doce seco de mocotó.
A cara rajada da jararaca.
A mala nada na lama (Millôr)
Ataca paca pacata.
O míssil é belíssimo.
O teu drama é amar dueto.
Assim a aia ia à missa.
Roma me tem amor.
Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos.

Repetição inútil do sujeito / Sentido literal - Literalmente, mas nem tanto

De uns tempos para cá, esqueceu-se o execrável “a nível de”, mas outro cacoete surgiu: a retomada do sujeito pelo pronome ele (a, es, as). Se você gosta de rádio e de televisão, já deve ter percebido essa novidade malvinda.
Ex.: As transações imobiliárias elas têm-se mostrado num momento especialíssimo.
Esta reportagem ela vai abordar o menor abandonado.
As dez garrafas elas se transformaram em frascos originais.
O amor, a gente sabe, ele não é eterno.
O oratório, feito de jacarandá, ele recebe visita de gente de todo o país.
Ninguém contesta que a liberdade ela é o bem maior que se tem.
O tráfico de drogas no varejo ele é altamente lucrativo.
Este grande segmento da população brasileira ele vive esperando que milagres aconteçam.
O fechamento das casas de bingos ele gera muita polêmica.
A lei Maria da Penha ela foi recebida com grande entusiasmo por vários segmentos da sociedade.
Os arrozeiros eles expandiram o cultivo, não se importando com os habitantes locais.
As pessoas elas estão ficando cada vez menos preocupadas com o semelhante.
A liberdade de imprensa ela corre risco no Brasil.
Às vezes, as pessoas elas não querem viajar para praia.
A senadora Marina Silva ela vai passar pelo Rio de Janeiro.

Sentido literal (ao pé da letra) é aquele em que a palavra está no sentido real; dizemos que a linguagem é denotativa.
Quando a palavra não está sendo usada em seu sentido comum, dizemos que a linguagem é conotativa. Ex.: Aquela serpente ainda vai dizer o que não deve (serpente = pessoa ruim, venenosa).
Assim, não podemos dizer, por exemplo:

O caminhão de leite tombou, o povo o saqueou e fez, literalmente, a feira.
O preço dos combustíveis subiu de modo considerável; está nas nuvens, literalmente.
Quando o namorado de Cibele partiu, ela, literalmente, rastejou nos e-mails; suplicou sua volta.

Nos exemplos vistos, houve apenas ênfase; nas três situações o advérbio literalmente está inadequadamente empregado.

Literalmente vem do latim littera, que significa letra, que deu origem às palavras literatura, literário e literal. Significa em sentido real, na acepção exata da palavra. É sinônimo de expressamente e exatamente.

Inadmissível é usar esse advérbio como advérbio de intensidade, equivalendo a completamente ou totalmente, ou em frases metafóricas. O dicionário Houaiss consigna como uso informal, literalmente como sinônimo de absolutamente, como metáfora, por influência do inglês literally e do francês littéralement.

Uso do pretérito mais-que-perfeito

Pretérito significa passado. Perfeito significa totalmente feito. Assim, o pretérito perfeito é aquele que começou e terminou no passado. Ex.: Vim, vi, venci.
O pretérito mais-que-perfeito (amara, soubera, quisera) é o passado anterior a outro passado. O pretérito mais-que-perfeito composto (tinha ou havia amado, sabido, querido)é mais usado. Veja exemplos:
“Justamente no último dia de aula, o das despedidas, após a festinha de formatura, voltei (pretérito perfeito) para a classe a fim de reunir meus cadernos e objetos escolares, antes do adeus. Mas onde estava O Coração? Onde? Desaparecera (mais-que-perfeito). (…) Algum colega na certa o furtara (mais-que-perfeito). (…), reconheci (pretérito perfeito) o retrato de Plínio num jornal. (…) Magistrado de futuro o tal que furtara
(mais-que-perfeito) meu presente de fim de ano! Que toldara
(mais-que-perfeito) muito cedo minha crença na humanidade!” O coração roubado – Marcos Rey

“Vim (pretérito perfeito) para não deixar de vir”, dissera
(mais-que-perfeito) ela a Zilda, e em seguida sentara-se
(mais-que-perfeito) ofendida.

Zilda, a dona da casa, arrumara (mais-que-perfeito) a mesa cedo, enchera-a (mais-que-perfeito) de guardanapos de papel colorido e copos de papelão alusivos à data, espalhara (mais-que-perfeito) balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito “Happy Birthday!”, em outros “Feliz Aniversário!” No centro havia disposto (mais-que-perfeito composto) o enorme bolo açucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara (mais-que-perfeito) a mesa logo depois do almoço, encostara (mais-que-perfeito) as cadeiras à parede, mandara (mais-que-perfeito) os meninos brincar no vizinho para não desarrumar a mesa.

E, para adiantar o expediente, vestira (mais-que-perfeito) a aniversariante logo depois do almoço. Pusera-lhe (mais-que-perfeito) desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifara-lhe (mais-que-perfeito) um pouco de água-de-colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado – sentara-a (mais-que-perfeito) à mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa. Feliz Aniversário – Clarice Lispector

“Um dia chegou ao hospital um pai vestindo botas de couro, roupa rasgada, chapelão na cabeça, com uma criança de uns dois anos no braço, ambos muito sujos. Chamava-se José e viajara
(mais-que-perfeito) a pé e de carona por quatro meses, desde o seu sítio Três Bandeiras, na divisa do Maranhão com Piauí e Goiás. Ele tinha ouvido (mais-que-perfeito composto) pelo seu radinho de pilha que havia em São Paulo um hospital que tratava de crianças com câncer e suspeitava que essa era a doença do filho.” Histórias de pediatras – Alois Bianchi – Revista Crescer

“Betsy esperou a volta do homem para morrer.

Antes da viagem, ele notara (mais-que-perfeito) que Betsy mostrava um apetite incomum. … O homem pensou que Betsy havia morrido
(mais-que-perfeito composto). (…) A noite inteira o homem passou acordado ao lado de Betsy, afagando-a de leve, em silêncio, sem saber o que dizer. Eles haviam vivido (mais-que-perfeito composto) juntos dezoito anos.

De manhã, ele a deixou na cama e foi até a cozinha e preparou um café puro. Foi tomar o café na sala. A casa nunca estivera
(mais-que-perfeito) tão vazia e triste.” Betsy – Rubem Fonseca

“As paredes nem sequer eram rebocadas: faltara (mais-que-perfeito) dinheiro para isso.” Puxadinhos – Moacyr Scliar

“Uma noite, correu a notícia de que o bazar se incendiara
(mais-que-perfeito). / (…) O incêndio, porém, levou tudo. Felizmente, ninguém tinha morrido (mais-que-perfeito composto) – diziam em redor.” Brinquedos incendiados – Cecília Meireles

“Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera (mais-que-perfeito) aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera (mais-que-perfeito) bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro, perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera (mais-que-perfeito) dizer para dentro: ‘não é ninguém não, senhora, é o padeiro’. Assim ficara (mais-que-perfeito) sabendo que não era ninguém…” O padeiro – Rubem Braga

“PROFESSOR UNIVERSITÁRIO, no gozo da liberdade que a aposentadoria traz, tinha agora tempo para ler os livros que não lera (mais-que-perfeito), fazer as viagens que não fizera (mais-que-perfeito composto), (…)” Rubem Alves

A forma simples é restrita à linguagem literária, religiosa, jurídica e científica, a exclamações e expressões consagradas.

Verbo pedir - Regência

O verbo pedir rege objeto direto e objeto indireto. Assim, pede-se alguma coisa a alguém. Às vezes, omite-se o objeto indireto (a quem).
Quando houver a palavra licença, permissão ou autorização, expressa ou implícita, a preposição para estará presente. Trata-se de uma oração subordinada adverbial final reduzida de infinitivo.
Ex.: O secretário pediu para ler o comunicado (pediu licença).
O réu pediu para levantar-se. (pediu permissão)
Pedimos para entregar-lhe o resultado dos exames. (pedimos autorização)
Os participantes pediram para sair mais cedo.
Pedi para fazer a oferta.
Pedimos para passar.
“Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro.” Machado de Assis

“E, como muitos adolescentes, fez o que podia fazer: pediu licença ao pai para usar a garagem da casa como estúdio.” Moacyr Scliar

Se não houver a palavra licença, permissão ou autorização, – mesmo que subentendida -, não se poderá usar a preposição para.

Ele me pediu que lhe dissesse que tem tanto, tanto para conversar com você que nem pode pegar da pena, pela impossibilidade de falar tudo em poucas linhas. E não: Ele me pediu para lhe dizer.

“Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga se você me quer ou não, diga que você me adora, que você lamenta e chora a nossa separação.” Lupicínio Rodrigues

“É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.” Vinicius de Morais

“O gerente sorriu:
-Vou pedir que eles corrijam. O próximo já vem certo.” Walcyr Carrasco

“José Lins ia pedir a Herman Lima que pedisse a Getúlio a libertação de Graciliano.” Antonio Carlos Villaça

“Uma professora de Capanema, a 160 quilômetros de Belém do Pará, está sendo processada por pais de alunos porque pediu às crianças que fizessem uma pesquisa sobre palavrões” – Estadão – 2-9-2007

“Fausto de Sanctis – ‘Pediram que eu voltasse atrás” – Época – 26-9-08

” PT divulga carta pedindo que Marina continue no partido.” Estadão – 11-8-09

“Se fosse um congressista seguramente pediriam que fosse julgado por quebra de decoro parlamentar.” Álvaro Dias – 6-11-09

“Bombeiros pedem que novos hidrantes sejam instalados no centro da Capital. – Zero hora – 11-1-10”

“Ele tomou a liberdade de escrever e enviar uma carta pedindo ao Imperador que não exagere nos festejos carnavalescos durante sua folga.”– Globo Esporte

“Comerciante fixa cartaz pedindo que ladrões suspendam assaltos.” Terra – 8-2-10

“Bispos britânicos pedem que fiéis não usem iPods na Quaresma.” Folha online – 16-2-10

“Obama pede que americanos encontrem ‘pontos em comum’ para saúde.” – Valor – 26-2-10

“Papa pede que todos ajudem as vítimas do terremoto no Chile.” – Click PB – 28-2-10

“Cinco países da Otan pedirão que EUA retirem armas nucleares da Europa.” – Correio Braziliense – 28-2-10

“ Já o Etapa orientou um aluno aprovado no ITA a procurar o Poliedro e pedir que este cursinho retirasse o nome dele da sua relação.” – Folha – 1º-3-10

Infinitivo e futuro do subjuntivo

O futuro do subjuntivo dos verbos regulares é igual ao infinitivo: quando (se) eu cantar, cantar eu; quando eu beber, beber eu; quando eu partir, partir eu.
Nos verbos irregulares, quase sempre ele é também irregular.
Para que não haja confusão, experimente substituir o verbo por um irregular bem conhecido; se a substituição for: souber, quiser, será o futuro do subjuntivo. Se a substituição for saber, querer, teremos o infinitivo. Ex.: Para sair, é necessário assinar o ponto (para querer, é necessário saber) = infinitivo. Se sair, feche a porta (se puder) = futuro do subjuntivo.
Veja exemplos de futuro do subjuntivo com verbos irregulares:

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me derVontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA – Manuel Bandeira

Se puderes guardar o sangue frio diante de quem fora de si te acusar, e, no instante
em que duvidem de teu ânimo e firmeza, tu puderes ter fé na própria fortaleza, sem desprezar contudo a desconfiança alheia… SE- Rudyard Kipling

Há um brilho de faca onde o amor vier, e ninguém tem o mapa da alma da mulher,mas no peito dormente espero um bem-querer e sei que não será surpresa
se o futuro me trouxer o passado de volta no semblante de mulher Entre A Serpente E A Estrel a – Zé Ramalho

Até amanhã se Deus quiser, se não chover, eu volto pra te ver, ó mulher – Noel Rosa
Mas, enquanto houver força em meu peito eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar ela há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar – VINGANÇA – Lupicínio Rodrigues

Dessa forma, não poderíamos dizer, de acordo com a linguagem culta:

Você se importa se eu fazê-lo (se eu o fizer)
Se ele comprar os ingredientes, lavá-los corretamente, transportá-los como se recomenda e dá-los (e os der) aos carentes, terá feito uma boa ação.
Comete crime quem vender, ter (tiver) em depósito para vender ou expor à venda (…)
Quem oferecer o maior lance, ou seja, propor (propuser) o maior preço, levará a mercadoria.

É preciso tomar muito cuidado com o futuro do subjuntivo dos verbos derivados de pôr, ter, e vir.
Se o futuro do subjuntivo do verbo pôr é puser, os derivados terão apenas o acréscimo do prefixo. Exemplos de verbos derivados de pôr: antepor, apor, opor, compor, decompor, recompor, depor, dispor, expor, impor, interpor, justapor, propor, repor, supor, transpor. Então o futuro do subjuntivo é: Se ou Quando eu apuser, opuser, compuser, decompuser, recompuser, depuser, dispuser, interpuser, justapuser, propuser, repuser, supuser.
Observe que os derivados de pôr não têm acento. Pôr leva acento para distingui-lo de por – preposição. Ex.: Pôr sal na comida requer atenção. Vamos por aqui.
“Todo aquele que apuser a sua assinatura numa letra, como representante duma pessoa, para representar a qual não tinha, de facto, poderes, fica obrigado em virtude da letra.” Acórdão de Supremo Tribunal Administrativo nº 0049741, de 11 Dezembro 2001 “GM amplia oferta para credor que não se opuser à reestruturação.” Gazeta Mercantil – 29-5-2009

O mesmo ocorre com os derivados de ter. O futuro do subjuntivo de ter é tiver. Basta acrescentar-lhe o prefixo. Exemplos de verbos derivados de ter: abster, ater, conter, deter, entreter, manter, obter, reter, suster.
Então: Se ou Quando eu abstiver, ativer, contiver, detiver, entretiver, mantiver, obtiver, retiver, sustiver.
“A licitante que se abstiver de apresentar lance verbal, quando convocada pelo Pregoeiro, ficará excluída dessa etapa e terá mantido o seu último preço apresentado para efeito de ordenação das propostas.” Universidade Federal do Piauí – Comissão Permanente de Licitação

“Multa e cadeia para quem mantiver focos de dengue em casa.” Leonardo Fontanelle

Os derivados de vir são conjugados como ele; apenas se lhe acresce o prefixo. Exemplos de verbos derivados de vir: avir, convir, desavir, intervir, provir, sobrevir.

“Escute o que diz seu coração e ignore-o quando convier.” Sexta-Feira – Biquíni Cavadão

Lei nº 11.340/06, art. 20, parágrafo único: “O juiz poderá revogar a prisão preventiva se, no curso do processo, verificar a falta de motivo para que subsista, bem como de novo decretá–la, se sobrevierem razões que a justifiquem.” Código de Processo Penal – artigo 16

Nacionalidade / estado civil

Quando um homem vai preencher um formulário, questionário, ficha de inscrição ou documento de inscrição, o que deve colocar em nacionalidade?
Se ele for brasileiro, a lacuna será preenchida com – brasileirO (eu sou brasileiro). Não é a nacionalidade que é brasileira; é ele.

Outras lacunas – Nacionalidade: abissínio, afegão, alasquenho, albanês, alemão, argentino, australiano, austríaco, boliviano, chileno, chinês, dinamarquês, espanhol, europeu, francês, grego, holandês, indiano, inglês, irlandês, italiano, mexicano, norueguês, paraguaio, português, russo, uruguaio.

Evidentemente, uma mulher porá o adjetivo no feminino.

E quanto a estado civil? Uma mulher colocará: solteira, casada, divorciada, viúva. Não é o estado civil que é casado; é ela. 

Combinação de pronomes

Se você disser: Entreguei o envelope, o complemento do verbo poderia ser substituído por O = Entreguei-o.
Se você disser: Entreguei ao presidente, o complemento poderia ser substituído por lhe: Entreguei-lhe.
Se você disser: Entreguei o envelope ao presidente, os complementos poderiam juntar-se: Entreguei-lho. Lho é a junção de lhe + o.
Assim, se juntarmos me+a, teremos ma.
É claro que, na linguagem moderna, essas formas são desusadas e raramente usadas, mas você pode encontrá-las e não entendê-las. No Brasil, não são usadas desde o século XIX, restritas a textos literários mais antigos, textos bíblicos e textos jurídicos e científicos muito formais. Em Portugal, são muito usadas.

Exemplos de combinação do pronome oblíquo:
“Este inferno de amar – como eu amo!
Quem MO pôs aqui n’alma… quem foi?” (Almeida Garrett)
O poeta está perguntando: Quem o (este inferno de amar) pôs no meu (me) peito.

“Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota para ele e dele para a compota, como a pedir-lhe que MA servisse; mas fazia-o em vão.” (Machado de Assis – Memórias Póstumas de Brás Cubas)
“Tinha achado a minha Marcela dos primeiros dias, e disse-LHO; ela sorriu, e foi guardar a joia, enquanto eu descia a escada.” (id. ib.)
“Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis, – a menos limpa, – e dei-LHA.”(id. ib.)

Para encerrar, veja esta trovinha:

Entreguei-te o coração,
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por ‘star estragado
Que ainda não MO devolveste … Quadra popular
E se o pronome fosse nós?
Veremos como fica em outra ocasião.

Me = mo, ma, mos, mas
Te = to, ta, tos, tas
Lhe = lho, lha, lhos, lhas
Nos = no-lo, no-la, no-los, no-las
Vos = vo-lo, vo-la, vo-los, vo-las

Vírgula - valor semântico / restrição e explicação / sentido amplo e restrito

Quando digo: “Meu vizinho que tem um cachorro muito bravo gosta de animais”, estou afirmando que tenho mais de um vizinho.
Se eu tivesse apenas um vizinho, haveria vírgulas: Meu vizinho, que tem um cachorro muito bravo, gosta de animais.
Imagine que as vírgulas são guindastes – o que está no meio foi levantado: que tem um cachorro muito bravo. Daí: Meu vizinho gosta de animais.
Assim:
A excelente peça teatral que perdi saiu de cartaz. Há mais de uma excelente peça teatral.
A excelente peça teatral, que perdi, saiu de cartaz. Só há um excelente peça.

Veja como a imprensa publicou as frases seguintes:

Marina Silva diz que espera ser a primeira mulher negra de origem pobre a governar o País.
Como está escrito, afirma-se que já tivemos mulher (es) no comando do País. Ela seria a primeira negra, de origem pobre.
Se não tivemos presidenta (ou presidente), faltaram vírgulas: Marina Silva diz que espera ser a primeira mulher, negra, de origem pobre, a governar o País.
Seria: Marina Silva diz que espera ser a primeira mulher a governar o País (mulher negra e de origem pobre).
E a frase de Carlos Eugênio Simon – árbitro:

Escolheram um gaúcho macho para apitar. Somente o gaúcho escolhido para apitar é macho? E os outros?
Deveria estar escrito:
Escolheram um gaúcho, macho, para apitar.

Os micros, que são modernos, custam caro.
Oração subordinada adjetiva explicativa - Generalização

Os micros que são modernos custam caro.
Oração subordinada adjetiva restritiva - Restrição

Os reis, que foram tiranos, maltrataram o povo.
Oração subordinada adjetiva explicativa - Sentido amplo

Os reis que foram tiranos maltrataram o povo.
Oração subordinada adjetiva restritiva - Sentido restrito

Regência de apologia

O substantivo apologia exige a preposição de, e não a, por influência do substantivo elogio, que exige a preposição a. Cuidado, pois, ao usá-la.
Apologia, segundo Houaiss, é o discurso ou texto em que se defende, justifica ou elogia (esp. alguma doutrina, ação, obra etc.).
Ex.: fez a apologia. do catolicismo.
Ou defesa apaixonada de (alguém ou algo) [geralmente pessoa singular, incomum]; elogio, enaltecimento
Exs.: religiosa, fez a apologia. do santo do qual era devota
apologia do socialismo
apologia da comida baiana
Outros exemplos:

Sergio Vega era conhecido por canções que faziam apologia do narcotráfico.
Aquele atleta fez apologia do uso de anabolizantes numa roda de amigos.
A frase na camiseta e as supostas drogas que aparecem na página podem ser consideradas apologia do crime – disse o delegado.
Há quem diga que Bob Marley foi apenas um cantor que fazia apologia da maconha.
Parece que estavam fazendo apologia da prostituição naquele jantar de ex-alunos da instituição.
Comunidades fazem apologia da automutilação.
Criminosos picham frases com suposta apologia do PCC em ônibus.
Apologia do uso de blogs por evangélicos está se expandindo.
As imagens não podem conter: apologia das drogas; apologia da pirataria; apologia do nazismo nem de regimes ditatoriais em geral.
Esse blog não faz apologia da anorexia nem da bulimia.
Jovem rejeita apologia do cigarro.

Verbo suicidar-se

Dizemos que quem mata o pai é parricida e comete um parricídio. Quem mata a mãe é matricida e comete um matricídio. Quem mata o irmão é fratricida e comete um fratricídio. Quem mata o filho é filicida. O infanticida é o que mata criança, especialmente recém-nascida.Juridicamente falando, é a morte do filho provocada pela mãe por ocasião do parto ou durante o estado puerperal (segundo Houaiss). Quem mata a esposa é uxoricida. Quem mata o marido é mariticida. Quem mata o cônjuge é conjugicida (o VOLP registra). O que mata rato é raticida. O que mata formiga é formicida. O que mata inseto é inseticida.
E o que mata a si próprio? É o suicida.O verbo correspondente é suicidar-se. Então, reforçando, o suicida mataa alguém (a si próprio).
Veja, portanto, se você concorda com a notícia seguinte:
Britânico mata 12 nas ruas

A polícia britânica está investigando a tese de que um taxista que atirou e matou 12 pessoas na região de Cumbria, no norte da Inglaterra, na quarta-feira tenha agido motivado por uma disputa familiar.
Derrick Bird, 52, saiu de sua casa no vilarejo de Rowrah e percorreu as cidades de Whitehaven, Seascale e Egremont em seu Citroen Picasso, escolhendo suas vítimas aparentemente aleatoriamente, até tirar sua própria vida com um tiro.

Matematicamente falando, são 13, não são?

O verbo "suicidar-se" vem do latim sui ("a si" = pronome reflexivo) + cida (= que mata). Isso significa que "suicidar" já é "matar a si mesmo". Dispensaria, dessa forma, a repetição causada pelo uso do pronome reflexivo "se".
É importante lembrar que as palavras terminadas pelo elemento latino "cida" apresentam essa idéia de "matar": formicida - que mata formigas; inseticida - que mata insetos; homicida - que mata homens.
Voltando ao verbo "suicidar-se", se observarmos o uso contemporâneo deste verbo, não restará dúvida: ninguém diz "ele suicida" ou "eles suicidaram". O uso do pronome reflexivo "se" junto ao verbo está mais que consagrado em nosso idioma. É, na verdade, um pleonasmo irreversível.
Etimologicamente, seria um pleonasmo vicioso dizer ''ele suicidou'', porque seria o mesmo que ''ele se se matou'', o correto seria ''ele cometeu suicídio''.
O verbo "suicidar-se" hoje é tão pronominal quanto os verbos abster-se, ater-se, apiedar-se, atrever-se, compadecer-se, condoer-se, dignar-se, indignar-se, esvair-se, jactar-se, queixar-se, zangar-se, vangloriar-se, apropriar-se.
Diferente é o caso do verbo "autocontrolar-se". O prefixo auto vem do grego e significa "a si mesmo". Existe o substantivo "autocontrole" (= controle de si mesmo"), mas não há registro do verbo "autocontrolar-se". Se você quer "controlar a si mesmo", basta "controlar-se". O pronome se, reflexivo, dispensa o prefixo auto no verbo controlar.
É interessante, porém, saber que os nossos dicionários registram "autocriticar-se", "autodefender-se", "autodefinir-se", "autodenominar-se", "autodestruir-se", "autodisciplinar-se", "autoenganar-se", "autogovernar-se"...

Vão e em vão

Vão é adjetivo e flexiona em gênero e em número: vã, vãos, vãs. Significa inútil, vazio.
É comum substituirmos esse adjetivo por em vão. Cuidado!
Veja alguns exemplos:

Todas as tentativas para conseguir o visto foram vãs (inúteis).

Os esforços foram vãos (inúteis): nada se resolveu.

Lutar com palavras é a luta mais vã (inútil). Carlos Drummond de Andrade

Melhor que mil palavras vãs (inúteis).é uma palavra que dá paz a quem ouve Siddartha Gautama Buda

Enganosa é a graça, e vã (inútil) é a formosura; mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada”. (Pv.30:10,29 e 30).

Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs (inúteis)! Castro Alves – O navio negreiro

Exemplos de Camões em Os Lusíadas apud Wikcionário

E por trabalhos vãos nunca repousas, – V-41-4
Em vão (inutilmente) aos Deuses vãos, surdos e imotos. – X-15-8 –
E, por mais segurar-se os Deuses vãos (inúteis), – V-58-3 –
Não menos gritos vãos (inúteis) ao ar derrama – VI-75-5 –
Inventará traições e vãos (inúteis) venenos, – X-17-7 –
Farão dos Céus ao mundo vãos (inúteis) queixumes – X-68-5 –

Em vão tem função de advérbio, portanto não flexiona, e quer dizer inutilmente.
Em vão (inutilmente) aos Deuses vãos, surdos e imotos. – X-15-8 – Wikcionário

É em vão (inutilmente) que as forças cansa, e à luta
Se atira; é em vão (inutilmente)
Que brande no ar a maça bruta
A bruta mão. Profissão de Fé – Olavo Bilac

Rosas que desabrochais,/ Como os primeiros amores, / Aos suaves resplendores matinais;
Em vão (inutilmente) ostentais, em vão (inutilmente) , /A vossa graça suprema; / De pouco vale; é o diadema

Em vão (inutilmente) encheis de aroma o ar da tarde; / Em vão (inutilmente)
abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos; / Em vão (inutilmente) ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão (inutilmente) , como penhor de puro afeto,/ Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante; Da ilusão. As rosas – Machado de Assis

Em vão (inutilmente) Fabiano procura por uma raposa. Vidas Secas – Graciliano Ramos

Verbo casar / Crase e mudança de sentido

O verbo casar, com o sentido de unir-se em matrimônio, pode também ser usado com o pronome (casar-se). O padre casa os noivos, mas os noivos casam-se.
Em todos os exemplos citados adiante, ele pode vir acompanhado do pronome (me, nos; te, vos; se).
Ao perder a companheira, o homem de idade fica desamparado. Se não casar imediatamente e não tiver filhas ou irmãs por perto, estará perdido. O sexo frágil – Drauzio Varella

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. Quadrilha – C. Drummond de Andrade

Casa comigo – Fábio Júnior

Casar! Casar com uma dessas criaturinhas que neste instante acabam de encher-me de indignação e de vergonha? Casar com uma dessas moças ignorantezinhas, pretensiosas e malcriadas? Rendas e fitas – Aluísio Azevedo

Quando eu tinha nove anos, uma vez papai me trouxe aqui, me mostrou a fazenda. Disse: “Quando você casar, mande seu marido fazer uma casa aqui defronte para o nascente, (…). Rachel de Queiroz

Quando casara, estava eu na Europa. Machado de Assis

Ó Mar Salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar! Mar Português – Fernando Pessoa

Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz. – Álvaro de Campos

Responde ao que digo e casa comigo!
Se disseres que sim,
dou-te amendoim. Leonel Neves, O livro dos macacos

A prefeita Marta Suplicy, 56, vai casar de novo. Eliane Cantanhêde – 2001

Escolha a forma que lhe aprouver.

às vezes, um simples acento grave pode modificar o sentido. No caso de à, às (em questão), existe a presença do artigo definido, que determina. A ausência, nos pares de frases seguintes, indica indeterminação.
Veja exemplos:
Quem voltar a área de risco de PE será preso.
Se substituirmos pelo masculino: Quem voltar a lugar de risco (de modo geral) de PE será preso.
Quem voltar à área de risco de PE será preso. Se substituirmos pelo masculino: Quem voltar ao lugar de risco (um lugar determinado) de PE será preso.

Quando falar, dirija-se a mulher. Se substituirmos pelo masculino: Quando falar, dirija-se a homem (indeterminado).
Quando falar, dirija-se à mulher. Se substituirmos pelo masculino: Quando falar, dirija-se ao homem (determinado, já conhecido ou já mencionado pelo locutor e interlocutor).

Você está sujeito a multa. Se substituirmos pelo masculino: Você está sujeito a tributo (qualquer).
Você está sujeito à multa. Se substituirmos pelo masculino: Você está sujeito ao tributo (determinado, àquele).

Tenho direito a reclamação. Se substituirmos pelo masculino: Tenho direito a protesto (sentido genérico).
Tenho direito à reclamação. Se substituirmos pelo masculino: Tenho direito ao protesto (sentido específico).

Sonda inicia jornada a lua de Saturno. Se substituirmos pelo masculino: Sonda inicia jornada a satélite de Saturno (há mais de um satélite).
Sonda inicia jornada à lua de Saturno. Se substituirmos pelo masculino: Sonda inicia jornada ao satélite de Saturno (estou afirmando que só há um satélite).

Refiro-me a outra casa. Se substituirmos pelo masculino: Refiro-me a outro apartamento (há mais de um).
Refiro-me à outra casa. Se substituirmos pelo masculino: Refiro-me ao outro apartamento (só há um).

Então, antes de afirmarmos se o acento existe ou não, é necessário que se entenda o sentido do texto.

Agente da passiva / Se se / Em veludo ou de veludo? / Que é conjunção final?

Se falante é o que fala; ouvinte, o que ouve; declarante, o que declara; requerente, o que requer; amante, o que ama – agente é o que age, o que faz.
Por que passiva? Porque o verbo está na voz passiva, isto é, o sujeito sofre a ação.
Então, agente da passiva é o que sofre a ação quando o verbo está na voz passiva. Na voz ativa (o sujeito pratica a ação), ele exerce a função de sujeito. Ex.: Os presentes (sujeito) aplaudiram a ópera. Na voz passiva, fica: A ópera foi aplaudida pelos presentes (agente da passiva).
Normalmente, o agente da passiva é introduzido pela preposição por. Eventualmente, aparece também com a preposição de, comum em textos literários. Veja exemplos com este conectivo:
A loja de antiguidades tinha o cheiro de uma arca de sacristia com seus panos embolorados e livros comidos de traça (traça comeu panos embolorados e livros). Lygia Fagundes Telles – A caçada

Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico. Idem – Venha ver o pôr do sol

Eu tenho uma casinha lá na Marambaia, fica na beira da praia, só vendo que beleza; tem um trepadeira, que, na primavera, fica toda florescida de brincos-
-de-princesa (…),Henricão e Rubens Campos – Marambaia

Que de outrem* quem mandava era mandado (que quem mandava era mandado por outrem) – Camões – Os Lusíadas – Canto III, estância 91
Já se viam chegados junto à terra,
Que desejada já de tantos fora. Idem, ibidem ** – Canto VII, estância 1

Foi ele o cantor querido das multidões.
Todos o viram chegar acompanhado do chefe.
Aqueles infelizes são os esquecidos da vida.
Vimos que são estimados de todos.
O industrial vive cercado de bajuladores.
Encontramos o presidente rodeado de interesseiros.
Dizem que o imperador era temido dos prevaricadores.
Este curso compõe-se de três partes e destina-se a todos os interessados.

Conforme você pôde constatar, a preposição de ainda é usada.
* Cuidado com a pronúncia da palavra outrem (outra pessoa): a sílaba tônica é ou.
**Idem = o mesmo (autor) / Ibidem = no mesmo lugar

Às vezes, aparece numa frase, duas vezes, contiguamente, a palavra se; muita gente pensa em erro de impressão. Veja exemplos:
Se se armassem contra ele os espinhos; se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos, que havia de fazer? Padre Antônio Vieira – Sermão da Sexagésima

Raimundo Correia – Mal secreto

“Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”

No texto de Vieira e no de Raimundo Correia, o primeiro se é conjunção subordinativa condicional; exprime condição, como em: Se você vier amanhã, avise-me, por favor. Se não estudar, não serei aprovada no concurso.
O segundo se indetermina o sujeito, como em: Precisa-se de pessoas competentes no setor.
Trata-se de assuntos de grande importância.

Se se morre de amor

“Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!” Gonçalves Dias

No poema de Gonçalves Dias, o primeiro se (Se se morre) é expletivo, partícula de realce. O segundo é índice de indeterminação do sujeito.

Veja outros exemplos em que o se é partícula de realce:

“Vai-se a primeira pomba despertada.
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada…” Raimundo Correia – As pombas

“Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto eram sempre as peraltagens do herói. As mulheres se riam muito simpatizadas, falando que espinho que pinica de pequeno já traz ponta” Mario de Andrade – Macunaíma

– Você vai à festa?
– Se vou!

O expletivo aparece também com outros pronomes. Observe:

“Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?” Vinicius de Moraes

Quando se quiser fazer referência à matéria de que um objeto é feito, usa-se a preposição de, e não em. Assim se dirá: blusa de renda, saia de veludo, jaqueta de lã, anel de platina, taça de cristal. Veja outros exemplos:

Antonius Johannes Geesink foi o primeiro desportista não nascido no Japão a conquistar um título mundial de judô, em 1961. Entrou para história ao derrotar o judoca japonês Akio Kaminaga, favorito a medalha de ouro e herói local de um esporte de massa em seu país. Esportes Terra – 28-8-10

Vi no dia seguinte correr de novo aquela mesma cortina de seda azul que abrira para mim, como nuvem serena, um céu de delícias. Lucíola – José de Alencar

Com a timidez de seu olhar velado pelos longos cílios, com o modesto recato de sua graça e o seu vestido de cassa branca, Lúcia parecia-me agora uma menina de quinze anos, pura e cândida. Idem, ibidem *

Glória arredou de cima de si a colcha de retalhos, procurou com os pés as chinelas, calçou-as, e levantou-se da cama; Terpsícore – Machado de Assis

De tarde, perguntou rindo à mulher o que é que ela lhe daria se ele lhe trouxesse naquela semana um vestido de seda. Idem, ibidem *

Elas usam batas de fitas,
Mariana e Marina,
e penteados de tranças:
Marina e Mariana.

Tomam chocolate, as velhinhas,
Mariana e Marina,
em xícaras de porcelana:
Marina e Mariana. As duas velhinhas – Cecília Meireles

Melchior arranjou como pôde um jantarzinho, caseiro e simples, longe das comidas sofisticadas, das taças de cristal, dos metais e porcelanas. A cidade e as serras – Eça de Queirós

No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Venha ver o pôr do sol – Lygia Fagundes Telles

Marcha, soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso no quartel – Cantiga infantil.

Um castiçal de prata amassado, uma colher de prata quebrada, uma joia de ouro precisando de conserto, deviam ou perder-se, ou ir pedir conserto a Portugal. As mulheres de mantilha – Joaquim Manuel de Macedo

Idem = o mesmo (autor)
Idem = no mesmo lugar (na mesma obra)

Que é conjunção subordinativa final? É aquela que introduz uma oração que indica finalidade. O nome dessa oração é subordinada adverbial final. Os termos que introduzem a oração subordinada adverbial final são conjunção e locuções conjuntivas (mais de um termo): que, para que, a fim de que, porque.
Ex.: Foi transmitido aos marinheiros um sinal que não se aproximassem (com a finalidade de).

Todos os componentes do grupo chegaram cedo para que pudessem discutir o projeto (com a finalidade de).

Haverá eleições a fim de que escolhamos os candidatos que conduzirão nossas vidas (com a finalidade de).

A conjunção final porque, embora existente, é restrita a textos religiosos, jurídicos e científicos. É um dos casos em que o porquê é grafado num só vocábulo e sem acento gráfico. O verbo vem sempre no subjuntivo.

Ex.: A modelo faz de tudo porque a notem.

Não julgueis porque não sejais julgados.

Em Camões, numa só estância (estrofe), d’Os Lusíadas, a 7 do canto II, há três exemplos:

E de alguns que trazia, condenados
Por culpas e por feitos vergonhosos,
Porque pudessem ser aventurados
Em casos desta sorte duvidosos,
Manda dous mais sagazes, ensaiados,
Porque notem dos Mouros enganosos
A cidade e poder, e porque vejam
Os cristãos, que só tanto ver desejam.

Se você quiser mais exemplos de Camões, lá vão:

Mas saberás que o fez, porque cumprisse
O regimento, em tudo obedecido Canto II, estância 83

De peitos tão leais em si desfaça,
Só porque a meu desejo satisfaça. Canto II, estância 87

Porque levasse avante seu desejo,
Ao forte filho manda, o lasso velho Canto III, estância 75

E porque mais aqui se amanse e dome
A soberba do imigo furibundo Canto IV, estância 41

Um etíope ousado se arremessa
A ele porque se não lhe escapasse Canto V, estância 32

Porque, ventando Noto, manso e frio,
Não nos apanhasse a água da enseada. Canto V, estância 73

E porque os que me ouvirem daqui aprendam
A fazer feitos grandes de alta prova Canto VI, estância 42

E se queres, com pactos e lianças
De paz e de amizade sacra e nua,
Comércio consentir das abundanças
Das fazendas da terra sua e tua,
Porque cresçam as rendas e abastanças
(Por quem a gente mais trabalha e sua)
De vossos Reinos, será certamente
De ti proveito, e dele glória ingente. Canto VII, estância 62

Informação mui larga, pois fazia
Nisso serviço ao Rei, porque soubesse
O que neste negócio se faria. Canto VII, estância 68

Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,
Porque nenhuma à pátria mais tornasse Canto VIII, estância 83

Seus ministros ajunta, porque leve
Exércitos conformes à peleja Canto IX, estância 29

Virá ali o Samorim, porque em pessoa
Veja a batalha, e os seus esforce e anime Canto IX, estância 17

Conforme foi dito anteriormente, o verbo das orações iniciadas pela conjunção final porque está sempre no modo subjuntivo.