2 de janeiro de 2020

Uso do pretérito mais-que-perfeito

Pretérito significa passado. Perfeito significa totalmente feito. Assim, o pretérito perfeito é aquele que começou e terminou no passado. Ex.: Vim, vi, venci.
O pretérito mais-que-perfeito (amara, soubera, quisera) é o passado anterior a outro passado. O pretérito mais-que-perfeito composto (tinha ou havia amado, sabido, querido)é mais usado. Veja exemplos:
“Justamente no último dia de aula, o das despedidas, após a festinha de formatura, voltei (pretérito perfeito) para a classe a fim de reunir meus cadernos e objetos escolares, antes do adeus. Mas onde estava O Coração? Onde? Desaparecera (mais-que-perfeito). (…) Algum colega na certa o furtara (mais-que-perfeito). (…), reconheci (pretérito perfeito) o retrato de Plínio num jornal. (…) Magistrado de futuro o tal que furtara
(mais-que-perfeito) meu presente de fim de ano! Que toldara
(mais-que-perfeito) muito cedo minha crença na humanidade!” O coração roubado – Marcos Rey

“Vim (pretérito perfeito) para não deixar de vir”, dissera
(mais-que-perfeito) ela a Zilda, e em seguida sentara-se
(mais-que-perfeito) ofendida.

Zilda, a dona da casa, arrumara (mais-que-perfeito) a mesa cedo, enchera-a (mais-que-perfeito) de guardanapos de papel colorido e copos de papelão alusivos à data, espalhara (mais-que-perfeito) balões sungados pelo teto em alguns dos quais estava escrito “Happy Birthday!”, em outros “Feliz Aniversário!” No centro havia disposto (mais-que-perfeito composto) o enorme bolo açucarado. Para adiantar o expediente, enfeitara (mais-que-perfeito) a mesa logo depois do almoço, encostara (mais-que-perfeito) as cadeiras à parede, mandara (mais-que-perfeito) os meninos brincar no vizinho para não desarrumar a mesa.

E, para adiantar o expediente, vestira (mais-que-perfeito) a aniversariante logo depois do almoço. Pusera-lhe (mais-que-perfeito) desde então a presilha em torno do pescoço e o broche, borrifara-lhe (mais-que-perfeito) um pouco de água-de-colônia para disfarçar aquele seu cheiro de guardado – sentara-a (mais-que-perfeito) à mesa. E desde as duas horas a aniversariante estava sentada à cabeceira da longa mesa vazia, tesa na sala silenciosa. Feliz Aniversário – Clarice Lispector

“Um dia chegou ao hospital um pai vestindo botas de couro, roupa rasgada, chapelão na cabeça, com uma criança de uns dois anos no braço, ambos muito sujos. Chamava-se José e viajara
(mais-que-perfeito) a pé e de carona por quatro meses, desde o seu sítio Três Bandeiras, na divisa do Maranhão com Piauí e Goiás. Ele tinha ouvido (mais-que-perfeito composto) pelo seu radinho de pilha que havia em São Paulo um hospital que tratava de crianças com câncer e suspeitava que essa era a doença do filho.” Histórias de pediatras – Alois Bianchi – Revista Crescer

“Betsy esperou a volta do homem para morrer.

Antes da viagem, ele notara (mais-que-perfeito) que Betsy mostrava um apetite incomum. … O homem pensou que Betsy havia morrido
(mais-que-perfeito composto). (…) A noite inteira o homem passou acordado ao lado de Betsy, afagando-a de leve, em silêncio, sem saber o que dizer. Eles haviam vivido (mais-que-perfeito composto) juntos dezoito anos.

De manhã, ele a deixou na cama e foi até a cozinha e preparou um café puro. Foi tomar o café na sala. A casa nunca estivera
(mais-que-perfeito) tão vazia e triste.” Betsy – Rubem Fonseca

“As paredes nem sequer eram rebocadas: faltara (mais-que-perfeito) dinheiro para isso.” Puxadinhos – Moacyr Scliar

“Uma noite, correu a notícia de que o bazar se incendiara
(mais-que-perfeito). / (…) O incêndio, porém, levou tudo. Felizmente, ninguém tinha morrido (mais-que-perfeito composto) – diziam em redor.” Brinquedos incendiados – Cecília Meireles

“Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera (mais-que-perfeito) aquilo de ouvido. Muitas vezes lhe acontecera (mais-que-perfeito) bater a campainha de uma casa e ser atendido por uma pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha lá de dentro, perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera (mais-que-perfeito) dizer para dentro: ‘não é ninguém não, senhora, é o padeiro’. Assim ficara (mais-que-perfeito) sabendo que não era ninguém…” O padeiro – Rubem Braga

“PROFESSOR UNIVERSITÁRIO, no gozo da liberdade que a aposentadoria traz, tinha agora tempo para ler os livros que não lera (mais-que-perfeito), fazer as viagens que não fizera (mais-que-perfeito composto), (…)” Rubem Alves

A forma simples é restrita à linguagem literária, religiosa, jurídica e científica, a exclamações e expressões consagradas.

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