2 de janeiro de 2020

Agente da passiva / Se se / Em veludo ou de veludo? / Que é conjunção final?

Se falante é o que fala; ouvinte, o que ouve; declarante, o que declara; requerente, o que requer; amante, o que ama – agente é o que age, o que faz.
Por que passiva? Porque o verbo está na voz passiva, isto é, o sujeito sofre a ação.
Então, agente da passiva é o que sofre a ação quando o verbo está na voz passiva. Na voz ativa (o sujeito pratica a ação), ele exerce a função de sujeito. Ex.: Os presentes (sujeito) aplaudiram a ópera. Na voz passiva, fica: A ópera foi aplaudida pelos presentes (agente da passiva).
Normalmente, o agente da passiva é introduzido pela preposição por. Eventualmente, aparece também com a preposição de, comum em textos literários. Veja exemplos com este conectivo:
A loja de antiguidades tinha o cheiro de uma arca de sacristia com seus panos embolorados e livros comidos de traça (traça comeu panos embolorados e livros). Lygia Fagundes Telles – A caçada

Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico. Idem – Venha ver o pôr do sol

Eu tenho uma casinha lá na Marambaia, fica na beira da praia, só vendo que beleza; tem um trepadeira, que, na primavera, fica toda florescida de brincos-
-de-princesa (…),Henricão e Rubens Campos – Marambaia

Que de outrem* quem mandava era mandado (que quem mandava era mandado por outrem) – Camões – Os Lusíadas – Canto III, estância 91
Já se viam chegados junto à terra,
Que desejada já de tantos fora. Idem, ibidem ** – Canto VII, estância 1

Foi ele o cantor querido das multidões.
Todos o viram chegar acompanhado do chefe.
Aqueles infelizes são os esquecidos da vida.
Vimos que são estimados de todos.
O industrial vive cercado de bajuladores.
Encontramos o presidente rodeado de interesseiros.
Dizem que o imperador era temido dos prevaricadores.
Este curso compõe-se de três partes e destina-se a todos os interessados.

Conforme você pôde constatar, a preposição de ainda é usada.
* Cuidado com a pronúncia da palavra outrem (outra pessoa): a sílaba tônica é ou.
**Idem = o mesmo (autor) / Ibidem = no mesmo lugar

Às vezes, aparece numa frase, duas vezes, contiguamente, a palavra se; muita gente pensa em erro de impressão. Veja exemplos:
Se se armassem contra ele os espinhos; se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos, que havia de fazer? Padre Antônio Vieira – Sermão da Sexagésima

Raimundo Correia – Mal secreto

“Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”

No texto de Vieira e no de Raimundo Correia, o primeiro se é conjunção subordinativa condicional; exprime condição, como em: Se você vier amanhã, avise-me, por favor. Se não estudar, não serei aprovada no concurso.
O segundo se indetermina o sujeito, como em: Precisa-se de pessoas competentes no setor.
Trata-se de assuntos de grande importância.

Se se morre de amor

“Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!” Gonçalves Dias

No poema de Gonçalves Dias, o primeiro se (Se se morre) é expletivo, partícula de realce. O segundo é índice de indeterminação do sujeito.

Veja outros exemplos em que o se é partícula de realce:

“Vai-se a primeira pomba despertada.
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada…” Raimundo Correia – As pombas

“Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto eram sempre as peraltagens do herói. As mulheres se riam muito simpatizadas, falando que espinho que pinica de pequeno já traz ponta” Mario de Andrade – Macunaíma

– Você vai à festa?
– Se vou!

O expletivo aparece também com outros pronomes. Observe:

“Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?” Vinicius de Moraes

Quando se quiser fazer referência à matéria de que um objeto é feito, usa-se a preposição de, e não em. Assim se dirá: blusa de renda, saia de veludo, jaqueta de lã, anel de platina, taça de cristal. Veja outros exemplos:

Antonius Johannes Geesink foi o primeiro desportista não nascido no Japão a conquistar um título mundial de judô, em 1961. Entrou para história ao derrotar o judoca japonês Akio Kaminaga, favorito a medalha de ouro e herói local de um esporte de massa em seu país. Esportes Terra – 28-8-10

Vi no dia seguinte correr de novo aquela mesma cortina de seda azul que abrira para mim, como nuvem serena, um céu de delícias. Lucíola – José de Alencar

Com a timidez de seu olhar velado pelos longos cílios, com o modesto recato de sua graça e o seu vestido de cassa branca, Lúcia parecia-me agora uma menina de quinze anos, pura e cândida. Idem, ibidem *

Glória arredou de cima de si a colcha de retalhos, procurou com os pés as chinelas, calçou-as, e levantou-se da cama; Terpsícore – Machado de Assis

De tarde, perguntou rindo à mulher o que é que ela lhe daria se ele lhe trouxesse naquela semana um vestido de seda. Idem, ibidem *

Elas usam batas de fitas,
Mariana e Marina,
e penteados de tranças:
Marina e Mariana.

Tomam chocolate, as velhinhas,
Mariana e Marina,
em xícaras de porcelana:
Marina e Mariana. As duas velhinhas – Cecília Meireles

Melchior arranjou como pôde um jantarzinho, caseiro e simples, longe das comidas sofisticadas, das taças de cristal, dos metais e porcelanas. A cidade e as serras – Eça de Queirós

No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Venha ver o pôr do sol – Lygia Fagundes Telles

Marcha, soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso no quartel – Cantiga infantil.

Um castiçal de prata amassado, uma colher de prata quebrada, uma joia de ouro precisando de conserto, deviam ou perder-se, ou ir pedir conserto a Portugal. As mulheres de mantilha – Joaquim Manuel de Macedo

Idem = o mesmo (autor)
Idem = no mesmo lugar (na mesma obra)

Que é conjunção subordinativa final? É aquela que introduz uma oração que indica finalidade. O nome dessa oração é subordinada adverbial final. Os termos que introduzem a oração subordinada adverbial final são conjunção e locuções conjuntivas (mais de um termo): que, para que, a fim de que, porque.
Ex.: Foi transmitido aos marinheiros um sinal que não se aproximassem (com a finalidade de).

Todos os componentes do grupo chegaram cedo para que pudessem discutir o projeto (com a finalidade de).

Haverá eleições a fim de que escolhamos os candidatos que conduzirão nossas vidas (com a finalidade de).

A conjunção final porque, embora existente, é restrita a textos religiosos, jurídicos e científicos. É um dos casos em que o porquê é grafado num só vocábulo e sem acento gráfico. O verbo vem sempre no subjuntivo.

Ex.: A modelo faz de tudo porque a notem.

Não julgueis porque não sejais julgados.

Em Camões, numa só estância (estrofe), d’Os Lusíadas, a 7 do canto II, há três exemplos:

E de alguns que trazia, condenados
Por culpas e por feitos vergonhosos,
Porque pudessem ser aventurados
Em casos desta sorte duvidosos,
Manda dous mais sagazes, ensaiados,
Porque notem dos Mouros enganosos
A cidade e poder, e porque vejam
Os cristãos, que só tanto ver desejam.

Se você quiser mais exemplos de Camões, lá vão:

Mas saberás que o fez, porque cumprisse
O regimento, em tudo obedecido Canto II, estância 83

De peitos tão leais em si desfaça,
Só porque a meu desejo satisfaça. Canto II, estância 87

Porque levasse avante seu desejo,
Ao forte filho manda, o lasso velho Canto III, estância 75

E porque mais aqui se amanse e dome
A soberba do imigo furibundo Canto IV, estância 41

Um etíope ousado se arremessa
A ele porque se não lhe escapasse Canto V, estância 32

Porque, ventando Noto, manso e frio,
Não nos apanhasse a água da enseada. Canto V, estância 73

E porque os que me ouvirem daqui aprendam
A fazer feitos grandes de alta prova Canto VI, estância 42

E se queres, com pactos e lianças
De paz e de amizade sacra e nua,
Comércio consentir das abundanças
Das fazendas da terra sua e tua,
Porque cresçam as rendas e abastanças
(Por quem a gente mais trabalha e sua)
De vossos Reinos, será certamente
De ti proveito, e dele glória ingente. Canto VII, estância 62

Informação mui larga, pois fazia
Nisso serviço ao Rei, porque soubesse
O que neste negócio se faria. Canto VII, estância 68

Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,
Porque nenhuma à pátria mais tornasse Canto VIII, estância 83

Seus ministros ajunta, porque leve
Exércitos conformes à peleja Canto IX, estância 29

Virá ali o Samorim, porque em pessoa
Veja a batalha, e os seus esforce e anime Canto IX, estância 17

Conforme foi dito anteriormente, o verbo das orações iniciadas pela conjunção final porque está sempre no modo subjuntivo.

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