2 de janeiro de 2020

Infinitivo e futuro do subjuntivo

O futuro do subjuntivo dos verbos regulares é igual ao infinitivo: quando (se) eu cantar, cantar eu; quando eu beber, beber eu; quando eu partir, partir eu.
Nos verbos irregulares, quase sempre ele é também irregular.
Para que não haja confusão, experimente substituir o verbo por um irregular bem conhecido; se a substituição for: souber, quiser, será o futuro do subjuntivo. Se a substituição for saber, querer, teremos o infinitivo. Ex.: Para sair, é necessário assinar o ponto (para querer, é necessário saber) = infinitivo. Se sair, feche a porta (se puder) = futuro do subjuntivo.
Veja exemplos de futuro do subjuntivo com verbos irregulares:

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me derVontade de me matar
– Lá sou amigo do rei –
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA – Manuel Bandeira

Se puderes guardar o sangue frio diante de quem fora de si te acusar, e, no instante
em que duvidem de teu ânimo e firmeza, tu puderes ter fé na própria fortaleza, sem desprezar contudo a desconfiança alheia… SE- Rudyard Kipling

Há um brilho de faca onde o amor vier, e ninguém tem o mapa da alma da mulher,mas no peito dormente espero um bem-querer e sei que não será surpresa
se o futuro me trouxer o passado de volta no semblante de mulher Entre A Serpente E A Estrel a – Zé Ramalho

Até amanhã se Deus quiser, se não chover, eu volto pra te ver, ó mulher – Noel Rosa
Mas, enquanto houver força em meu peito eu não quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar ela há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar – VINGANÇA – Lupicínio Rodrigues

Dessa forma, não poderíamos dizer, de acordo com a linguagem culta:

Você se importa se eu fazê-lo (se eu o fizer)
Se ele comprar os ingredientes, lavá-los corretamente, transportá-los como se recomenda e dá-los (e os der) aos carentes, terá feito uma boa ação.
Comete crime quem vender, ter (tiver) em depósito para vender ou expor à venda (…)
Quem oferecer o maior lance, ou seja, propor (propuser) o maior preço, levará a mercadoria.

É preciso tomar muito cuidado com o futuro do subjuntivo dos verbos derivados de pôr, ter, e vir.
Se o futuro do subjuntivo do verbo pôr é puser, os derivados terão apenas o acréscimo do prefixo. Exemplos de verbos derivados de pôr: antepor, apor, opor, compor, decompor, recompor, depor, dispor, expor, impor, interpor, justapor, propor, repor, supor, transpor. Então o futuro do subjuntivo é: Se ou Quando eu apuser, opuser, compuser, decompuser, recompuser, depuser, dispuser, interpuser, justapuser, propuser, repuser, supuser.
Observe que os derivados de pôr não têm acento. Pôr leva acento para distingui-lo de por – preposição. Ex.: Pôr sal na comida requer atenção. Vamos por aqui.
“Todo aquele que apuser a sua assinatura numa letra, como representante duma pessoa, para representar a qual não tinha, de facto, poderes, fica obrigado em virtude da letra.” Acórdão de Supremo Tribunal Administrativo nº 0049741, de 11 Dezembro 2001 “GM amplia oferta para credor que não se opuser à reestruturação.” Gazeta Mercantil – 29-5-2009

O mesmo ocorre com os derivados de ter. O futuro do subjuntivo de ter é tiver. Basta acrescentar-lhe o prefixo. Exemplos de verbos derivados de ter: abster, ater, conter, deter, entreter, manter, obter, reter, suster.
Então: Se ou Quando eu abstiver, ativer, contiver, detiver, entretiver, mantiver, obtiver, retiver, sustiver.
“A licitante que se abstiver de apresentar lance verbal, quando convocada pelo Pregoeiro, ficará excluída dessa etapa e terá mantido o seu último preço apresentado para efeito de ordenação das propostas.” Universidade Federal do Piauí – Comissão Permanente de Licitação

“Multa e cadeia para quem mantiver focos de dengue em casa.” Leonardo Fontanelle

Os derivados de vir são conjugados como ele; apenas se lhe acresce o prefixo. Exemplos de verbos derivados de vir: avir, convir, desavir, intervir, provir, sobrevir.

“Escute o que diz seu coração e ignore-o quando convier.” Sexta-Feira – Biquíni Cavadão

Lei nº 11.340/06, art. 20, parágrafo único: “O juiz poderá revogar a prisão preventiva se, no curso do processo, verificar a falta de motivo para que subsista, bem como de novo decretá–la, se sobrevierem razões que a justifiquem.” Código de Processo Penal – artigo 16

Nacionalidade / estado civil

Quando um homem vai preencher um formulário, questionário, ficha de inscrição ou documento de inscrição, o que deve colocar em nacionalidade?
Se ele for brasileiro, a lacuna será preenchida com – brasileirO (eu sou brasileiro). Não é a nacionalidade que é brasileira; é ele.

Outras lacunas – Nacionalidade: abissínio, afegão, alasquenho, albanês, alemão, argentino, australiano, austríaco, boliviano, chileno, chinês, dinamarquês, espanhol, europeu, francês, grego, holandês, indiano, inglês, irlandês, italiano, mexicano, norueguês, paraguaio, português, russo, uruguaio.

Evidentemente, uma mulher porá o adjetivo no feminino.

E quanto a estado civil? Uma mulher colocará: solteira, casada, divorciada, viúva. Não é o estado civil que é casado; é ela. 

Combinação de pronomes

Se você disser: Entreguei o envelope, o complemento do verbo poderia ser substituído por O = Entreguei-o.
Se você disser: Entreguei ao presidente, o complemento poderia ser substituído por lhe: Entreguei-lhe.
Se você disser: Entreguei o envelope ao presidente, os complementos poderiam juntar-se: Entreguei-lho. Lho é a junção de lhe + o.
Assim, se juntarmos me+a, teremos ma.
É claro que, na linguagem moderna, essas formas são desusadas e raramente usadas, mas você pode encontrá-las e não entendê-las. No Brasil, não são usadas desde o século XIX, restritas a textos literários mais antigos, textos bíblicos e textos jurídicos e científicos muito formais. Em Portugal, são muito usadas.

Exemplos de combinação do pronome oblíquo:
“Este inferno de amar – como eu amo!
Quem MO pôs aqui n’alma… quem foi?” (Almeida Garrett)
O poeta está perguntando: Quem o (este inferno de amar) pôs no meu (me) peito.

“Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota para ele e dele para a compota, como a pedir-lhe que MA servisse; mas fazia-o em vão.” (Machado de Assis – Memórias Póstumas de Brás Cubas)
“Tinha achado a minha Marcela dos primeiros dias, e disse-LHO; ela sorriu, e foi guardar a joia, enquanto eu descia a escada.” (id. ib.)
“Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-réis, – a menos limpa, – e dei-LHA.”(id. ib.)

Para encerrar, veja esta trovinha:

Entreguei-te o coração,
E que tratos tu lhe deste!
É talvez por ‘star estragado
Que ainda não MO devolveste … Quadra popular
E se o pronome fosse nós?
Veremos como fica em outra ocasião.

Me = mo, ma, mos, mas
Te = to, ta, tos, tas
Lhe = lho, lha, lhos, lhas
Nos = no-lo, no-la, no-los, no-las
Vos = vo-lo, vo-la, vo-los, vo-las

Vírgula - valor semântico / restrição e explicação / sentido amplo e restrito

Quando digo: “Meu vizinho que tem um cachorro muito bravo gosta de animais”, estou afirmando que tenho mais de um vizinho.
Se eu tivesse apenas um vizinho, haveria vírgulas: Meu vizinho, que tem um cachorro muito bravo, gosta de animais.
Imagine que as vírgulas são guindastes – o que está no meio foi levantado: que tem um cachorro muito bravo. Daí: Meu vizinho gosta de animais.
Assim:
A excelente peça teatral que perdi saiu de cartaz. Há mais de uma excelente peça teatral.
A excelente peça teatral, que perdi, saiu de cartaz. Só há um excelente peça.

Veja como a imprensa publicou as frases seguintes:

Marina Silva diz que espera ser a primeira mulher negra de origem pobre a governar o País.
Como está escrito, afirma-se que já tivemos mulher (es) no comando do País. Ela seria a primeira negra, de origem pobre.
Se não tivemos presidenta (ou presidente), faltaram vírgulas: Marina Silva diz que espera ser a primeira mulher, negra, de origem pobre, a governar o País.
Seria: Marina Silva diz que espera ser a primeira mulher a governar o País (mulher negra e de origem pobre).
E a frase de Carlos Eugênio Simon – árbitro:

Escolheram um gaúcho macho para apitar. Somente o gaúcho escolhido para apitar é macho? E os outros?
Deveria estar escrito:
Escolheram um gaúcho, macho, para apitar.

Os micros, que são modernos, custam caro.
Oração subordinada adjetiva explicativa - Generalização

Os micros que são modernos custam caro.
Oração subordinada adjetiva restritiva - Restrição

Os reis, que foram tiranos, maltrataram o povo.
Oração subordinada adjetiva explicativa - Sentido amplo

Os reis que foram tiranos maltrataram o povo.
Oração subordinada adjetiva restritiva - Sentido restrito

Regência de apologia

O substantivo apologia exige a preposição de, e não a, por influência do substantivo elogio, que exige a preposição a. Cuidado, pois, ao usá-la.
Apologia, segundo Houaiss, é o discurso ou texto em que se defende, justifica ou elogia (esp. alguma doutrina, ação, obra etc.).
Ex.: fez a apologia. do catolicismo.
Ou defesa apaixonada de (alguém ou algo) [geralmente pessoa singular, incomum]; elogio, enaltecimento
Exs.: religiosa, fez a apologia. do santo do qual era devota
apologia do socialismo
apologia da comida baiana
Outros exemplos:

Sergio Vega era conhecido por canções que faziam apologia do narcotráfico.
Aquele atleta fez apologia do uso de anabolizantes numa roda de amigos.
A frase na camiseta e as supostas drogas que aparecem na página podem ser consideradas apologia do crime – disse o delegado.
Há quem diga que Bob Marley foi apenas um cantor que fazia apologia da maconha.
Parece que estavam fazendo apologia da prostituição naquele jantar de ex-alunos da instituição.
Comunidades fazem apologia da automutilação.
Criminosos picham frases com suposta apologia do PCC em ônibus.
Apologia do uso de blogs por evangélicos está se expandindo.
As imagens não podem conter: apologia das drogas; apologia da pirataria; apologia do nazismo nem de regimes ditatoriais em geral.
Esse blog não faz apologia da anorexia nem da bulimia.
Jovem rejeita apologia do cigarro.

Verbo suicidar-se

Dizemos que quem mata o pai é parricida e comete um parricídio. Quem mata a mãe é matricida e comete um matricídio. Quem mata o irmão é fratricida e comete um fratricídio. Quem mata o filho é filicida. O infanticida é o que mata criança, especialmente recém-nascida.Juridicamente falando, é a morte do filho provocada pela mãe por ocasião do parto ou durante o estado puerperal (segundo Houaiss). Quem mata a esposa é uxoricida. Quem mata o marido é mariticida. Quem mata o cônjuge é conjugicida (o VOLP registra). O que mata rato é raticida. O que mata formiga é formicida. O que mata inseto é inseticida.
E o que mata a si próprio? É o suicida.O verbo correspondente é suicidar-se. Então, reforçando, o suicida mataa alguém (a si próprio).
Veja, portanto, se você concorda com a notícia seguinte:
Britânico mata 12 nas ruas

A polícia britânica está investigando a tese de que um taxista que atirou e matou 12 pessoas na região de Cumbria, no norte da Inglaterra, na quarta-feira tenha agido motivado por uma disputa familiar.
Derrick Bird, 52, saiu de sua casa no vilarejo de Rowrah e percorreu as cidades de Whitehaven, Seascale e Egremont em seu Citroen Picasso, escolhendo suas vítimas aparentemente aleatoriamente, até tirar sua própria vida com um tiro.

Matematicamente falando, são 13, não são?

O verbo "suicidar-se" vem do latim sui ("a si" = pronome reflexivo) + cida (= que mata). Isso significa que "suicidar" já é "matar a si mesmo". Dispensaria, dessa forma, a repetição causada pelo uso do pronome reflexivo "se".
É importante lembrar que as palavras terminadas pelo elemento latino "cida" apresentam essa idéia de "matar": formicida - que mata formigas; inseticida - que mata insetos; homicida - que mata homens.
Voltando ao verbo "suicidar-se", se observarmos o uso contemporâneo deste verbo, não restará dúvida: ninguém diz "ele suicida" ou "eles suicidaram". O uso do pronome reflexivo "se" junto ao verbo está mais que consagrado em nosso idioma. É, na verdade, um pleonasmo irreversível.
Etimologicamente, seria um pleonasmo vicioso dizer ''ele suicidou'', porque seria o mesmo que ''ele se se matou'', o correto seria ''ele cometeu suicídio''.
O verbo "suicidar-se" hoje é tão pronominal quanto os verbos abster-se, ater-se, apiedar-se, atrever-se, compadecer-se, condoer-se, dignar-se, indignar-se, esvair-se, jactar-se, queixar-se, zangar-se, vangloriar-se, apropriar-se.
Diferente é o caso do verbo "autocontrolar-se". O prefixo auto vem do grego e significa "a si mesmo". Existe o substantivo "autocontrole" (= controle de si mesmo"), mas não há registro do verbo "autocontrolar-se". Se você quer "controlar a si mesmo", basta "controlar-se". O pronome se, reflexivo, dispensa o prefixo auto no verbo controlar.
É interessante, porém, saber que os nossos dicionários registram "autocriticar-se", "autodefender-se", "autodefinir-se", "autodenominar-se", "autodestruir-se", "autodisciplinar-se", "autoenganar-se", "autogovernar-se"...

Vão e em vão

Vão é adjetivo e flexiona em gênero e em número: vã, vãos, vãs. Significa inútil, vazio.
É comum substituirmos esse adjetivo por em vão. Cuidado!
Veja alguns exemplos:

Todas as tentativas para conseguir o visto foram vãs (inúteis).

Os esforços foram vãos (inúteis): nada se resolveu.

Lutar com palavras é a luta mais vã (inútil). Carlos Drummond de Andrade

Melhor que mil palavras vãs (inúteis).é uma palavra que dá paz a quem ouve Siddartha Gautama Buda

Enganosa é a graça, e vã (inútil) é a formosura; mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada”. (Pv.30:10,29 e 30).

Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs (inúteis)! Castro Alves – O navio negreiro

Exemplos de Camões em Os Lusíadas apud Wikcionário

E por trabalhos vãos nunca repousas, – V-41-4
Em vão (inutilmente) aos Deuses vãos, surdos e imotos. – X-15-8 –
E, por mais segurar-se os Deuses vãos (inúteis), – V-58-3 –
Não menos gritos vãos (inúteis) ao ar derrama – VI-75-5 –
Inventará traições e vãos (inúteis) venenos, – X-17-7 –
Farão dos Céus ao mundo vãos (inúteis) queixumes – X-68-5 –

Em vão tem função de advérbio, portanto não flexiona, e quer dizer inutilmente.
Em vão (inutilmente) aos Deuses vãos, surdos e imotos. – X-15-8 – Wikcionário

É em vão (inutilmente) que as forças cansa, e à luta
Se atira; é em vão (inutilmente)
Que brande no ar a maça bruta
A bruta mão. Profissão de Fé – Olavo Bilac

Rosas que desabrochais,/ Como os primeiros amores, / Aos suaves resplendores matinais;
Em vão (inutilmente) ostentais, em vão (inutilmente) , /A vossa graça suprema; / De pouco vale; é o diadema

Em vão (inutilmente) encheis de aroma o ar da tarde; / Em vão (inutilmente)
abris o seio úmido e fresco
Do sol nascente aos beijos amorosos; / Em vão (inutilmente) ornais a fronte à meiga virgem;
Em vão (inutilmente) , como penhor de puro afeto,/ Como um elo das almas,
Passais do seio amante ao seio amante; Da ilusão. As rosas – Machado de Assis

Em vão (inutilmente) Fabiano procura por uma raposa. Vidas Secas – Graciliano Ramos

Verbo casar / Crase e mudança de sentido

O verbo casar, com o sentido de unir-se em matrimônio, pode também ser usado com o pronome (casar-se). O padre casa os noivos, mas os noivos casam-se.
Em todos os exemplos citados adiante, ele pode vir acompanhado do pronome (me, nos; te, vos; se).
Ao perder a companheira, o homem de idade fica desamparado. Se não casar imediatamente e não tiver filhas ou irmãs por perto, estará perdido. O sexo frágil – Drauzio Varella

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. Quadrilha – C. Drummond de Andrade

Casa comigo – Fábio Júnior

Casar! Casar com uma dessas criaturinhas que neste instante acabam de encher-me de indignação e de vergonha? Casar com uma dessas moças ignorantezinhas, pretensiosas e malcriadas? Rendas e fitas – Aluísio Azevedo

Quando eu tinha nove anos, uma vez papai me trouxe aqui, me mostrou a fazenda. Disse: “Quando você casar, mande seu marido fazer uma casa aqui defronte para o nascente, (…). Rachel de Queiroz

Quando casara, estava eu na Europa. Machado de Assis

Ó Mar Salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar! Mar Português – Fernando Pessoa

Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz. – Álvaro de Campos

Responde ao que digo e casa comigo!
Se disseres que sim,
dou-te amendoim. Leonel Neves, O livro dos macacos

A prefeita Marta Suplicy, 56, vai casar de novo. Eliane Cantanhêde – 2001

Escolha a forma que lhe aprouver.

às vezes, um simples acento grave pode modificar o sentido. No caso de à, às (em questão), existe a presença do artigo definido, que determina. A ausência, nos pares de frases seguintes, indica indeterminação.
Veja exemplos:
Quem voltar a área de risco de PE será preso.
Se substituirmos pelo masculino: Quem voltar a lugar de risco (de modo geral) de PE será preso.
Quem voltar à área de risco de PE será preso. Se substituirmos pelo masculino: Quem voltar ao lugar de risco (um lugar determinado) de PE será preso.

Quando falar, dirija-se a mulher. Se substituirmos pelo masculino: Quando falar, dirija-se a homem (indeterminado).
Quando falar, dirija-se à mulher. Se substituirmos pelo masculino: Quando falar, dirija-se ao homem (determinado, já conhecido ou já mencionado pelo locutor e interlocutor).

Você está sujeito a multa. Se substituirmos pelo masculino: Você está sujeito a tributo (qualquer).
Você está sujeito à multa. Se substituirmos pelo masculino: Você está sujeito ao tributo (determinado, àquele).

Tenho direito a reclamação. Se substituirmos pelo masculino: Tenho direito a protesto (sentido genérico).
Tenho direito à reclamação. Se substituirmos pelo masculino: Tenho direito ao protesto (sentido específico).

Sonda inicia jornada a lua de Saturno. Se substituirmos pelo masculino: Sonda inicia jornada a satélite de Saturno (há mais de um satélite).
Sonda inicia jornada à lua de Saturno. Se substituirmos pelo masculino: Sonda inicia jornada ao satélite de Saturno (estou afirmando que só há um satélite).

Refiro-me a outra casa. Se substituirmos pelo masculino: Refiro-me a outro apartamento (há mais de um).
Refiro-me à outra casa. Se substituirmos pelo masculino: Refiro-me ao outro apartamento (só há um).

Então, antes de afirmarmos se o acento existe ou não, é necessário que se entenda o sentido do texto.

Agente da passiva / Se se / Em veludo ou de veludo? / Que é conjunção final?

Se falante é o que fala; ouvinte, o que ouve; declarante, o que declara; requerente, o que requer; amante, o que ama – agente é o que age, o que faz.
Por que passiva? Porque o verbo está na voz passiva, isto é, o sujeito sofre a ação.
Então, agente da passiva é o que sofre a ação quando o verbo está na voz passiva. Na voz ativa (o sujeito pratica a ação), ele exerce a função de sujeito. Ex.: Os presentes (sujeito) aplaudiram a ópera. Na voz passiva, fica: A ópera foi aplaudida pelos presentes (agente da passiva).
Normalmente, o agente da passiva é introduzido pela preposição por. Eventualmente, aparece também com a preposição de, comum em textos literários. Veja exemplos com este conectivo:
A loja de antiguidades tinha o cheiro de uma arca de sacristia com seus panos embolorados e livros comidos de traça (traça comeu panos embolorados e livros). Lygia Fagundes Telles – A caçada

Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira. Sorriu melancólico. Idem – Venha ver o pôr do sol

Eu tenho uma casinha lá na Marambaia, fica na beira da praia, só vendo que beleza; tem um trepadeira, que, na primavera, fica toda florescida de brincos-
-de-princesa (…),Henricão e Rubens Campos – Marambaia

Que de outrem* quem mandava era mandado (que quem mandava era mandado por outrem) – Camões – Os Lusíadas – Canto III, estância 91
Já se viam chegados junto à terra,
Que desejada já de tantos fora. Idem, ibidem ** – Canto VII, estância 1

Foi ele o cantor querido das multidões.
Todos o viram chegar acompanhado do chefe.
Aqueles infelizes são os esquecidos da vida.
Vimos que são estimados de todos.
O industrial vive cercado de bajuladores.
Encontramos o presidente rodeado de interesseiros.
Dizem que o imperador era temido dos prevaricadores.
Este curso compõe-se de três partes e destina-se a todos os interessados.

Conforme você pôde constatar, a preposição de ainda é usada.
* Cuidado com a pronúncia da palavra outrem (outra pessoa): a sílaba tônica é ou.
**Idem = o mesmo (autor) / Ibidem = no mesmo lugar

Às vezes, aparece numa frase, duas vezes, contiguamente, a palavra se; muita gente pensa em erro de impressão. Veja exemplos:
Se se armassem contra ele os espinhos; se se levantassem contra ele as pedras, e se lhe fechassem os caminhos, que havia de fazer? Padre Antônio Vieira – Sermão da Sexagésima

Raimundo Correia – Mal secreto

“Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”

No texto de Vieira e no de Raimundo Correia, o primeiro se é conjunção subordinativa condicional; exprime condição, como em: Se você vier amanhã, avise-me, por favor. Se não estudar, não serei aprovada no concurso.
O segundo se indetermina o sujeito, como em: Precisa-se de pessoas competentes no setor.
Trata-se de assuntos de grande importância.

Se se morre de amor

“Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n’alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!” Gonçalves Dias

No poema de Gonçalves Dias, o primeiro se (Se se morre) é expletivo, partícula de realce. O segundo é índice de indeterminação do sujeito.

Veja outros exemplos em que o se é partícula de realce:

“Vai-se a primeira pomba despertada.
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada…” Raimundo Correia – As pombas

“Nas conversas das mulheres no pino do dia o assunto eram sempre as peraltagens do herói. As mulheres se riam muito simpatizadas, falando que espinho que pinica de pequeno já traz ponta” Mario de Andrade – Macunaíma

– Você vai à festa?
– Se vou!

O expletivo aparece também com outros pronomes. Observe:

“Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?” Vinicius de Moraes

Quando se quiser fazer referência à matéria de que um objeto é feito, usa-se a preposição de, e não em. Assim se dirá: blusa de renda, saia de veludo, jaqueta de lã, anel de platina, taça de cristal. Veja outros exemplos:

Antonius Johannes Geesink foi o primeiro desportista não nascido no Japão a conquistar um título mundial de judô, em 1961. Entrou para história ao derrotar o judoca japonês Akio Kaminaga, favorito a medalha de ouro e herói local de um esporte de massa em seu país. Esportes Terra – 28-8-10

Vi no dia seguinte correr de novo aquela mesma cortina de seda azul que abrira para mim, como nuvem serena, um céu de delícias. Lucíola – José de Alencar

Com a timidez de seu olhar velado pelos longos cílios, com o modesto recato de sua graça e o seu vestido de cassa branca, Lúcia parecia-me agora uma menina de quinze anos, pura e cândida. Idem, ibidem *

Glória arredou de cima de si a colcha de retalhos, procurou com os pés as chinelas, calçou-as, e levantou-se da cama; Terpsícore – Machado de Assis

De tarde, perguntou rindo à mulher o que é que ela lhe daria se ele lhe trouxesse naquela semana um vestido de seda. Idem, ibidem *

Elas usam batas de fitas,
Mariana e Marina,
e penteados de tranças:
Marina e Mariana.

Tomam chocolate, as velhinhas,
Mariana e Marina,
em xícaras de porcelana:
Marina e Mariana. As duas velhinhas – Cecília Meireles

Melchior arranjou como pôde um jantarzinho, caseiro e simples, longe das comidas sofisticadas, das taças de cristal, dos metais e porcelanas. A cidade e as serras – Eça de Queirós

No centro do cubículo, um altar meio desmantelado, coberto por uma toalha que adquirira a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de madeira. Venha ver o pôr do sol – Lygia Fagundes Telles

Marcha, soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso no quartel – Cantiga infantil.

Um castiçal de prata amassado, uma colher de prata quebrada, uma joia de ouro precisando de conserto, deviam ou perder-se, ou ir pedir conserto a Portugal. As mulheres de mantilha – Joaquim Manuel de Macedo

Idem = o mesmo (autor)
Idem = no mesmo lugar (na mesma obra)

Que é conjunção subordinativa final? É aquela que introduz uma oração que indica finalidade. O nome dessa oração é subordinada adverbial final. Os termos que introduzem a oração subordinada adverbial final são conjunção e locuções conjuntivas (mais de um termo): que, para que, a fim de que, porque.
Ex.: Foi transmitido aos marinheiros um sinal que não se aproximassem (com a finalidade de).

Todos os componentes do grupo chegaram cedo para que pudessem discutir o projeto (com a finalidade de).

Haverá eleições a fim de que escolhamos os candidatos que conduzirão nossas vidas (com a finalidade de).

A conjunção final porque, embora existente, é restrita a textos religiosos, jurídicos e científicos. É um dos casos em que o porquê é grafado num só vocábulo e sem acento gráfico. O verbo vem sempre no subjuntivo.

Ex.: A modelo faz de tudo porque a notem.

Não julgueis porque não sejais julgados.

Em Camões, numa só estância (estrofe), d’Os Lusíadas, a 7 do canto II, há três exemplos:

E de alguns que trazia, condenados
Por culpas e por feitos vergonhosos,
Porque pudessem ser aventurados
Em casos desta sorte duvidosos,
Manda dous mais sagazes, ensaiados,
Porque notem dos Mouros enganosos
A cidade e poder, e porque vejam
Os cristãos, que só tanto ver desejam.

Se você quiser mais exemplos de Camões, lá vão:

Mas saberás que o fez, porque cumprisse
O regimento, em tudo obedecido Canto II, estância 83

De peitos tão leais em si desfaça,
Só porque a meu desejo satisfaça. Canto II, estância 87

Porque levasse avante seu desejo,
Ao forte filho manda, o lasso velho Canto III, estância 75

E porque mais aqui se amanse e dome
A soberba do imigo furibundo Canto IV, estância 41

Um etíope ousado se arremessa
A ele porque se não lhe escapasse Canto V, estância 32

Porque, ventando Noto, manso e frio,
Não nos apanhasse a água da enseada. Canto V, estância 73

E porque os que me ouvirem daqui aprendam
A fazer feitos grandes de alta prova Canto VI, estância 42

E se queres, com pactos e lianças
De paz e de amizade sacra e nua,
Comércio consentir das abundanças
Das fazendas da terra sua e tua,
Porque cresçam as rendas e abastanças
(Por quem a gente mais trabalha e sua)
De vossos Reinos, será certamente
De ti proveito, e dele glória ingente. Canto VII, estância 62

Informação mui larga, pois fazia
Nisso serviço ao Rei, porque soubesse
O que neste negócio se faria. Canto VII, estância 68

Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,
Porque nenhuma à pátria mais tornasse Canto VIII, estância 83

Seus ministros ajunta, porque leve
Exércitos conformes à peleja Canto IX, estância 29

Virá ali o Samorim, porque em pessoa
Veja a batalha, e os seus esforce e anime Canto IX, estância 17

Conforme foi dito anteriormente, o verbo das orações iniciadas pela conjunção final porque está sempre no modo subjuntivo.

A presidente ou a presidenta?

De acordo com a norma culta, é indiferente falar a presidente ou a presidenta.
Você pode empregar o que lhe soar mais agradável ou, simplesmente, exercer o direito de escolha.

Há muitos nomes referentes a funções, cargos ou títulos com o feminino diferente do masculino: autora, baronesa, capitã, condessa, consulesa, coronela, czarina, deputada, doutora, duquesa, embaixadora (mulher que exerce a função de embaixador), episcopisa (bispo), escritora, generala, governadora, juíza, marani (marajá), marquesa, oficiala, papisa, poetisa, prefeita, princesa, promotora, rabina, rabinisa, rainha, sacerdotisa, senadora, vereadora.

No caso de presidente (reforçando), o feminino tem duas formas.

Veja exemplos com presidenta:

Em fevereiro de 1990, Violeta Chamorro foi eleita presidenta da Nicarágua, e governou até 1997, promovendo reformas significativas. observatoriodegenero.gov.br

Morre Corazón Aquino, antiga Presidenta de Filipinas – 1-8-09

Presidenta da Libéria promete dupla cidadania para afrodescendentes brasileiros. Uneb- 9-4-10

A Conferência foi aberta pela presidenta da Índia, Pratibha Devisingh Patil, que convidou os representantes da Índia, Brasil, China e África. Canal Rural – 18-4-10
Bento XVI recebe a Presidenta de Confederação Helvética – Acidigital- 6-5-10
Presidenta da Caixa Econômica lança serviços para a comunidade – Portal Web News – 4-6-10

Presidenta argentina recebe seleção da Espanha para amistoso. Uol – Esporte – Futebol – 6-9-10

Ex-presidenta chilena, Michelle Bachelet, dirigirá nova agência da ONU para as mulheres – UNIC – Rio de Janeiro – 14 -9-10

Presidenta argentina fica mais popular que o marido Kirchner – Portal Exame – 22-9-10

Deputada Aparecida Gama é aclamada presidenta da Unale – Unale 2010

Além de presidenta do Flamengo, a Patrícia Amorim poderia ter se candidatada musa do Brasileirão pelo Flamengo.

Neologismo, ainda não dicionarizado, é a forma presidanta, erótica, mistura de presidente com anta.

Uso de meia, meios, meias

Meio flexiona quando tiver o significado de metade e concorda com a palavra a que se refere. Assim, diremos: Agora é meio-dia e meia (hora).
Não use meios-termos; seja claro.
Para bom entendedor, meia palavra basta
À Meia- Luz – (Jorge Vercilo E Altay Veloso)
(…) Prata, linho, taças de cristal, à meia-luz num clima sensual.
Pra te envolver e te contar, abrir meu coração.
Por que será que essa princesa ainda não apareceu?(…) Este, um padre de meia-idade, virtuoso por fora, mas bastante diferente por dentro, envolve-se com uma cigana, a mesma, aliás, com quem Leonardo-Pataca vivera depois da fuga de Maria-da-Hortaliça. Manuel Antônio de Almeida – Memórias de um sargento de milícias
Meia-lua é o nome dado a um movimento de capoeira, que se executa erguendo-se o pé, empurrando-o para fora e puxando para dentro em forma de uma meia-lua. pt.wikipedia.org/wiki/

O candidato do Psol à presidência da República, Plínio de Arruda Sampaio, disse que os estudantes brasileiros estão sendo vítimas de uma conspiração patrocinada pelo Banco Mundial, que visa a “transformar as universidades brasileiras em universidades meia-boca, que vão formar profissionais não totalmente capacitados para exercer profissões mais sofisticadas da era da informação”.

Escrevi uma coluna na Folha.com com o título provocativo “Céticos de meia-tigela”. Os ditos cujos morderam a isca e partiram para os impropérios, como era de esperar. Ora, apesar de provocativo, o título é correto: os contrários ladram, mas não mordem. Marcelo Leite

MEIA-CURA
Queijo típico de Minas Gerais, o meia-cura (também conhecido como curado) é uma variação do minas frescal. Embora bastante parecidos na composição, o meia-cura passa por uma maturação de cerca de 30 dias, adquirindo uma consistência mais seca e firme. Luís Joly – Revista Mundo Estranho
]
LEI Nº 2519, DE 17 DE JANEIRO DE 1996. Institui a cobrança de meia-entrada em estabelecimento culturais e de lazer do Estado do
Rio de Janeiro –

Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. Recusar prazeres incompletos e meias porções. Danuza Leão

E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia-luz
E te farei, vaidoso, supor
Que és o maior e que me possuis … Folhetim – Chico Buarque

Hóspeda, parenta

APRENDA MAIS!HÓSPEDA, PARENTA :: BOLETIM 299Postado por capcursos|02 janeiro de 2012
Hóspede e parente apresentam duas formas para o feminino: a hóspede ou a hóspeda / a parente ou a parenta. A primeira forma é considerada corrente; a segunda forma é considerada literária.

Governante, infante e presidente admitem os femininos governanta, infanta e presidenta.
Elefante e gigante admitem os femininos elefanta e giganta.
Veja exemplos com a forma existente, mas restrita à linguagem religiosa, jurídica e científica:

«D. Antónia, tartamudeando, satisfez assim os primeiros assomos de curiosidade às suas hóspedas, mas evitou-lhes os segundos, que deviam ser-lhes atribulados…» (Mistérios de Lisboa, 1.º vol., Camilo Castelo Branco.
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D. Antônia perguntou à hóspeda:
– Onde está Lalau?
– Onde há de estar! talvez brincando com o pavão. Mas, não faz mal, sinhá D. Antônia, vamos jantando; ela pode ser que nem tenha vontade de comer; antes de vir comeu um pires de melado com farinha.
– A sege chegou muito tarde? perguntou Félix à hóspeda. Machado de Assis – Casa Velha
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Avó querida – parenta preferida – Carlos Barata
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Em resumo, depois de muitas cenas em que expulsou de casa a sua parenta, tentou bater-me e prendeu-me no quarto. Clarice Lispector – (tradução e adaptação) Tom Jones
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Um guarda-civil tinha visto tudo, e no outro dia fomos chamados à delegacia, mas o delegado era casado com uma parenta minha e eles abafaram a história. Carlos Drummond de Andrade – entrevista a Luiz Fernando Emediato, O Estado de S. Paulo – 15 de agosto de 1987
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Dona Laura mandava lhes ensinar o catecismo por uma parenta pobre, muito religiosa, coitada! Mário de Andrade – Amar, verbo intransitivo
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Mas o cinema era o único lugar em que as meninas — às vezes insuportavelmente acompanhadas por uma parenta mais velha, embora houvesse algumas extremamente compreensivas em trair a confiança familiar e outras fossem fãs de Richard Egan mesmo — podiam freqüentar em nossa companhia. João Ubaldo Ribeiro – No escurinho do cinema
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Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação feminina. José de Alencar – Senhora

Retalhar e retaliar

RETALIAR
Significa vingar agressão ou ofensa; desagravar, revidar; desforrar; invectivar.
A raiz é a mesma de talião – lei de talião – tal (qual). Observe que talião se escreve com letra minúscula, pois não é nome próprio, mas substantivo comum.

O substantivo correspondente ao verbo retaliar é retaliação, que significa desforra, vingança, represália, revanche, revide, desagravo, desafronta, troco.

Veja exemplos:

“Se a Coreia do Norte lançar uma provocação militar contra nosso território e nosso povo novamente, deveremos retaliar imediatamente e com força.” Estadão – 4-12-10

“Brasil está pronto para retaliar contra medida dos EUA em ‘guerra cambial’, diz ‘FT’ – O Globo – Economia

Coronéis ameaçam retaliar Polícia Civil – A Tarde online – 8-3-10

Chirac disse, há cerca de uma semana, que retaliaria com armas nucleares contra qualquer ataque terrorista em solo francês. João Carlos da Silva – online -25-1-06

Angola pode retaliar com encerramento de contas dos EUA. – Visão News. com -24-11-10

Pode resultar também de idiossincrasias, de miúdas e mesquinhas vinditas e retaliações pessoais, como se deu na célebre inclusão do nome do escritor Lima Barreto no índex do “Correio da Manhã”, que ficou célebre na história da imprensa e do jornalismo. Mauricio Azedo – O Globo – 24-8-07

“No Acre vigorava a lei de talião. Ele [Hildebrando] era polícia, juiz, promotor de Justiça e carrasco”, acusou o promotor Álvaro Pereira. Folha online – 23-9-09

Não está na hora de rever o Código Penal Brasileiro e aplicar, para crimes hediondos, a lei de talião? (…) Os primeiros indícios da lei de talião foram encontrados no Código de Hamurabi, em 1780 a.C., no reino da Babilônia -O Expresso – 29-11-10

RETALHAR

Significa cortar em pedaços ou em retalhos; dividir, fracionar, separar; abrir sulcos em (a terra); talhar; fender, cortar; recortar; despedaçar; lancinar; afligir, penalizar, atormentar; difamar, ferir, golpear; desfiar, esquartejar.

O substantivo corresponde ao verbo retalhar é retalho, que significa parte, fração, segmento.
Exemplos:

Casamento – Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

— A medicina! Mas, onde iria eu buscar paciência e disposição para retalhar cadáveres e aprender os remédios que se aplicam no tratamento de tais e tais moléstias?… Aluísio Azevedo – O Coruja

(…) A minha alma é escura,/Retalhada de amor./Capa negra, minha vida,

Minha amada, minha dor. Fado -Letra e música de Miguel Oliveira

Depois, quando vira entrar no quarto Paulo de Andrade, quando compreendera que era aquele o seu rival, o príncipe esperara-o a pé firme, olhando-o face a face, num ímpeto daquele seu belo temperamento, tão seu e tão nobre, que o faria afrontar todos os perigos, que o fez uma vez, mais tarde, sozinho, em S. Cristóvão, esperar na rua um homem que o ofendera, e retalhar-lhe o rosto a chicote. O esqueleto, Bilac e Mallet

Patente de invenção “aparelho para retalhar material sólido à base de celulose, dispositivo para formar uma mistura contendo celulose dispersa em um solvente para a mesma, (…)”. Patentes online

Verbo pagar - Regência

O verbo pagar exige objeto direto da coisa e objeto indireto da pessoa física ou jurídica (ou instituição).

O pronome lhe nunca funciona como objeto direto.

É claro que você já ouviu a expressão Deus lhe pague. Lhe é objeto indireto.

Se dissermos: A fatura vence hoje; vou pagá-la, la (a fatura) funciona como objeto direto.

Somente o objeto direto pode ir para a voz passiva, na qual funcionará como sujeito.

A fatura vai ser paga.

João vai pagar o pato. O pato vai ser pago por João.

Não poderemos, então, passar para a voz passiva Deus lhe pague; não cabe aqui Deus seja pago. Somente os verbos obedecer e desobedecer, embora sejam transitivos indiretos, admitem transposição para a voz passiva.

Assim, pagamos ao banco (uma conta), ao colégio (a mensalidade), ao supermercado (uma compra), ao pedreiro (um serviço), à escola (um documento), à livraria (um dicionário). Somente o que está entre parênteses pode funcionar como sujeito da voz passiva: Uma conta é paga (ao banco); A mensalidade é paga (ao colégio); Uma compra é paga (ao supermercado), Um serviço é pago (ao pedreiro); Um documento é pago (à escola); Um dicionário é pago (à livraria).

O mesmo ocorre com o verbo comunicar, de sorte que não podemos dizer que O comandante foi comunicado. O fato pode ser comunicado, a pessoa (ou instituição), não.

Não se pode dizer: A mídia será comunicada do assalto. De acordo com a norma culta, fica: À mídia será comunicado o assalto. O assalto será comunicado à mídia. A mídia será avisada / informada do assalto.

O fato pode ser avisado ou informado, a pessoa ou instituição pode ser informada. Avisar e informar admitem duas regências: objeto direto de coisa e objeto indireto de pessoa e objeto direto de pessoa e objeto indireto de coisa.

Verbo haver no sentido existencial e verbo fazer indicando tempo transcorrido

O verbo haver com o significado de existir nunca vai para o plural. É interessante observar que ninguém usa o presente do indicativo no plural (hão); no presente do subjuntivo, porém, é corriqueiro encontrar o plural, assim como nos demais tempos e modos.

Há muitas mães interessadas no novo brinquedo.

Espero que haja muitas mães interessadas no novo brinquedo.

Havia mais craques na praça do que vagas no time, e nada superava a honra de uma convocação. Ruy Castro – Seleção sem povo

Dissidentes cubanos dizem que havia ratos em suas celas. Veja- 15-7-2010
Não, não houve tantas lágrimas assim. As últimas, em certo sentido, foram deixadas no próprio Maracanã, quando acabou o jogo e a multidão, atônita, sentiu que o sonho acabara. Carlos Heitor Cony – A copa e o tempo

O diretor ainda afirma que, como não houve reclamações, uma fiscalização mais efetiva por ora não acontecerá. André Simões ‘Não houve queixas’

Lula desautoriza Mantega e diz que não haverá cortes no PAC. Veja – 7-12-2010

Aeroviários: haveria problemas no Natal com ou sem greve – Terra – 17 -12-2010

Nova Santa Rita: deve haver mais abstenções do que no primeiro turno. Jornal NH – 31-10-2010

Silêncios onde deveria haver palavras, palavras onde poderia haver carinho, batidas de frente, gritos até. Depois faremos as pazes. Ou não? Antonio Prata – A gente não tem como saber se vai dar certo

Mas, ao final, não costuma haver vencedores. Marcelo Freixo – Não haverá vencedores

Tem havido notas melhores na escola, os pais procuram o projecto, muitos estão a ter formações que os ajudam em várias áreas e há cada vez mais interesse pelas nossas actividades”. Revista Escolhas – dezembro de 2010

Nesse exemplo, se o verbo auxiliar estivesse no plural, levaria acento (têm).

Tinha havido grandes e inúmeras modificações. Lima Barreto – Triste fim de Policarpo Quaresma.

Cuidado para não substituir o verbo haver pelo ter, isso é construção típica da linguagem informal cotidiana e da linguagem literária e religiosa, devendo ser evitada na linguagem jurídica, técnica e científica.
A regra também se aplica ao verbo haver no sentido de acontecer ou realizar-se.
O que se segue, parece que é sujeito, mas na verdade é objeto direto.

O verbo fazer, quando faz referência a tempo, não vai para o plural. Se ele vier com auxiliar, o auxiliar ficará no singular.
Ex.: Faz três dias que ela procura o cachorro desaparecido.
Fez dois anos que sua irmã passou no concurso para fiscal.
Fazia meses que não assistia a um filme tão bom.
No próximo sábado, fará dois meses que ele a pediu em casamento.
Deve fazer umas cinco horas que o paciente aguarda atendimento médico.
Pode fazer uns três minutos que a criança está quieta.

Faz alguns meses que eu e minha mulher nos mudamos. No começo, foi estranho. Demora certo tempo para que um apartamento novo se transforme, de fato, num lar. Antônio Prata – A lagartixa

Cante conosco:

Saudosa Bahia – Noriel Vilela

Está fazendo três semanas que eu cheguei de lá
Está fazendo três semanas que eu cheguei de lá
Eu visitei trezentas e sessenta e cinco igrejas
Visitei terreiros e benzi meu patuá
Revi amigos e vi minha mãe querida
Tenho saudades do povo de lá!
Está fazendo três semanas que eu cheguei de lá
Está fazendo três semanas que eu cheguei de lá
No terreiro eu vi o candomblé
O meu acarajé provei urugunzá
Tenho saudades da minha Bahia
Só tenho vontade de voltar pra lá
Só tenho vontade de voltar pra lá
Só tenho vontade de voltar pra lá
Está fazendo três semanas que eu cheguei de lá
Está fazendo três semanas que eu cheguei de lá

Excesso de possessivos

Possessivo é o pronome que, teoricamente, indica posse. São eles: meu, teu, seu, nosso e vosso. Eles têm feminino e plural.

É desnecessário e deselegante o uso do possessivo que não acrescenta informação. O francês é pródigo em possessivos; como nossa língua oficial é o português, vamos dispensar, sempre que possível, essa redundância. Na redação, o pronome possessivo pode ser substituído pelo artigo ou omitido.

Assim, em vez de dizer Tenho o documento em minhas mãos, basta dizer tenho o documento em mãos (ou em mão – mais elegante – afinal, ficamos em pé e não em pés).

Estou na enchente e já molhei as minhas calças. Seria esquisito eu estar na enchente e molhar as calças de outra pessoa no contexto em que foi dita a frase.

A regra não se aplica só para partes do corpo, mas também para peças de vestuário, faculdades do espírito, objetos de uso pessoal, relações de parentesco e a palavra casa, quando significa lar próprio.

Veja outros exemplos em que o possessivo pode ser dispensado:

Menino, você já escovou os seus dentes e tomou seu banho? O garoto ainda não penteou os seus cabelos. Estou com dor nas minhas pernas. Agora é hora do meu almoço.

Regência - Localizado em ou a?

APRENDA MAIS!REGÊNCIA :: BOLETIM 313Postado por capcursos|02 janeiro de 2012
Quando se diz que alguma coisa está localizada, ela está localizada
EM algum lugar, e não a algum lugar.
Veja:
O banco está localizado em São Paulo, no Brasil, e não A São Paulo,
ao Brasil. O verbo localizar e adjetivos com a mesma raiz exigem a
preposição em.

O mesmo ocorre com morar, residir, situar e estabelecer-se, e os adjetivos morador, residente, situado e sito (abreviação típica do contexto jurídico).

Moro numa casa bonita, bem decorada, num lugar aprazível. Vera Ferreira

Resta só a coincidência de morar na Rua da Harmonia uma das costureiras do luto. Machado de Assis – Quincas Borba

Aproveita agora, que ele ainda não se separou da primeira esposa, pois, quando isso acontecer, ele virá morar novamente na sua casa. Mario Prata – Filho é bom, mas dura muito.

Pra morar no morro tem que ter muita versatilidade
Ouvir muito e falar pouco ser, bom malandro e ter muita amizade- Bezerra da Silva

A Bondade, a Ternura, o Ódio, a Saudade, moravam nele. (…) Era nesse edifício que morava, chamando a atenção de todos, um cavalheiro moço, forte, musculoso, que, às vezes, se mostrava doce, polido, gentil, tolerante, e outras, irritado, hostil, intransigente, e, não raro, malcriado. Humberto de Campos – Os dois hóspedes

Lembre-se de substituir o lugar por Brasil, São Paulo (em São Paulo, no Brasil).

Digo: O correio está situado na Rua X ou a Rua X?

Lembre-se, primeiramente, que “na” é a contração da preposição “em” com o artigo definido feminino “a”!

Algumas pessoas mudam o termo “situado” ou “situada” por “sito” ou “sita”, respectivamente. Não há problema ao se fazer isso, pois o significado continua o mesmo. Então, vejamos: quem se situa, o faz em algum lugar e não a algum lugar. A preposição “em” conota um sentido de local determinado, demarcado. Portanto, é errado quando utilizamos a preposição “a” quando queremos indicar o endereço fixo de uma casa, estabelecimento comercial, etc.

Portanto, vejamos alguns exemplos:

a) A velha senhora morava em uma casa rosa situada no centro da cidade.
b) Aquela loja está situada na Rua Araxá, perto da Central dos Correios.
c) O correio está situado na Rua X.
d) Dirigiu-se à empresa de telefonia sita na Rua do Comércio, a fim de fazer uma entrevista de emprego.
e) Ela conversou com o proprietário do apartamento sito no Condomínio fechado “El Parque”.

No entanto, quando quiser indicar a distância ou a direção de determinado local “situado(a) a” é aceito. Observe:

a) A escola onde a Maria estuda está situada a duas quadras daqui.
b) O apartamento que gostei fica em um prédio situado a uns 300 metros deste local.
c) A loja que você procura está situada à direita daquele colégio.
d) A praia que você deseja conhecer está situada ao sul do estado. (direção)

Observamos que “situado em” estabelece a posição fixa de determinado objeto ou lugar exato, enquanto “situado a” estabelece a distância, tempo preciso ou direção do mesmo.

Acentuação e diferença de significado

Existem palavras cujo significado varia conforme a acentuação tônica.
Veja, por exemplo, os pares:

Abóbada = construção arqueada em forma de cunha. Ex.: Jorge de Rezende pontua que “a anencefalia é uma anomalia do sistema nervoso central, que se caracteriza pela ausência da abóbada craniana e massa encefálica reduzida a vestígios da substância cerebral,(…)”. (Obstetrícia, 3ª edição, 1974, Editora Guanabara-Koogan, páginas 805/807).

Abobada = atoleimada, aparvalhada, abobalhada. Ex.: A pobre moça ficou abobada com a riqueza de detalhes dos trajes carnavalescos.

Amassemos = presente do subjuntivo do verbo amassar.

Amássemos = imperfeito do subjuntivo do verbo amar.

Você se lembra daquela propaganda de bolo que dizia: Jesus disse que nos amássemos e não que nos amassemos?

Cupido = deus do amor; personificação do amor. Ex.: Amélie Poulain (Audrey Tautou) gosta de unir pessoas, servir de cupido e realizar sonhos alheios, mas seus métodos são sempre complicados.

Cúpido = cobiçoso. Ex.: Percebe-se muito claramente também que a obra é totalmente permeada por sentimentos opostos, pululando entre o bizarro e o banal, o ordinário e o apurado, o benevolente e o cúpido, o pulha e o decente, a tal ponto de passar ao leitor o sentimento de estabelecer no próprio leitor essa dualidade, através da ora repulsa ao romance ora a sedução por ele. Escrito por Regina Marina de Paula

Fluido (úi) = corrente, que se expande como um líquido. Ex.: Muito se ouve sobre os fluidos de freio, norma DOT, mas pouca gente sabe que, além de ter um padrão determinado pela temperatura, o fluido de freio precisa ser trocado periodicamente.

Fluído = particípio do verbo fluir. Ex.: Era tarde; o estrago estava feito – as palavras tinham fluído inevitavelmente.

Vivido = particípio do verbo viver. Ex.: Os filhos tinham vivido bem até ali.

Vívido = vivo, ardente. Ex.: Brasil, um sonho intenso, um raio vívido De amor e de esperança à terra desce Se em teu formoso céu, risonho e límpido, (…) Hino Nacional Brasileiro

porém = conjunção coordenativa adversativa ou substantivo
porem = verbo pôr na 3ª pessoa do plural do infinitivo pessoal

amém = interjeição ou advérbio
amem = verbo amar na 3ª pessoa do plural do presente do subjuntivo, imperativo afirmativo ou negativo

clínico = adjetivo ou substantivo
clinico = verbo clinicar na 1ª pessoa do singular do presente do indicativo

médico = substantivo
medico = verbo medicar na 1ª pessoa do singular do presente do indicativo

científico = adjetivo
cientifico = verbo cientificar na 1ª pessoa do singular do presente do indicativo

e = conjunção coordenativa aditiva, adversativa, conclusiva ou alternativa
é = verbo ser na 3ª pessoa do singular do presente do indicativo

até = preposição ou palavra denotativa de inclusão
ate = verbo atar na 3ª pessoa do singular do presente do subjuntivo, imperativo afirmativo ou negativo

vítima = substantivo
vitima = verbo vitimar na 3ª pessoa do singular do presente do indicativo ou na 2ª pessoa do singular do imperativo afirmativo

Coletivos com mais de um elemento

Há coletivos que dizem respeito a mais de um elemento. É o caso de bando: depredador, desordeiro, facínora, gitano, ladrão, malandro, malfeitor, malvado, marginal, pássaro, pessoa, salteador, sicário, vadio, vagabundo, valdevinos.
Quando isso ocorrer, você deverá especificar:
Um bando de pássaros seguiu em direção ao mar.
A polícia deteve o bando de ladrões que acabara de intimidar os transeuntes.
Cambada: cafajeste, canalha, cebola, malandro, maldizente, malfeitor, malvado, vadio, vagabundo, valdevinos, velhaco.
Essa cambada de vagabundos não tem o que fazer e vem incomodar os estudantes.
Que cambada de canalhas anda se apresentando na vida pública!

Rebanho: bode, boi, cabra, devoto, diocesano, fiel, gado, ovelha, paroquiano.
O rebanho de fiéis ouvia atentamente a pregação.
O rebanho de ovelhas balia sem parar.

Você sabe qual é o coletivo de abelha?
É colmeia (éia ou êia); cortiço; enxame; apiário.

Nem sempre colmeia diz respeito a abelha. Há, por exemplo, um site chamado Colmeia de ofertas.

Ocorre o mesmo com enxame:
É filho de um enxame de crimes e vergonhas!… Aquilo é o próprio crime feito gente!… É um diabo! É o inferno em carne e osso! Aluísio Azevedo – O mulato

O coletivo de banana é cacho, penca, mas você vai ver que nem sempre penca se refere a banana.
Ele apresentou uma penca de amigos dispostos a ajudá-lo.
O casal tinha uma penca de filhos.
Que penca de chaves é essa?

Se o coletivo se referir a apenas um elemento, não há por que mencioná-lo. Assim, você dirá que o panapaná ou o panapanã (coletivo de borboletas) agradou aos olhos de todos.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas . Manuel Bandeira – Os sapos

Outros exemplos: abacaxizal, abecedário, abelhal, algodoal, anedotário, arrozal, atilho, bacalhoada, bacurizal, boataria, bufê, buquê, capangada, carrilhão, casaria ou casario, eleitorado, formigueiro, gentarada, harém, inquilinato, jericada, lio, madeixa, nominata, obituário, papelório, pulguedo, ramalhete, séquito (ki ou qui), teclado, tirirical, universidade, vozearia, zurraria.

Lista de substantivos coletivos mais usados
acervo: conjunto de obras de arte ou de bens de propriedade
álbum: conjunto de fotografias, de figurinhas, de selos ou de autógrafos
alcateia: conjunto de lobos
ano: conjunto de doze meses
antologia: conjunto de textos ou de músicas
armada: conjunto de navios de guerra
armento: conjunto de bois ou de búfalos
arquipélago: conjunto de ilhas
arsenal: conjunto de armas ou de munições
arvoredo: conjunto de árvores
assembleia: conjunto de parlamentares ou de membros de associações
atilho: conjunto de espigas de milho
atlas: conjunto de mapas
baixela: conjunto de utensílios de mesa
banca: conjunto de examinadores
bancada: conjunto de examinadores ou de parlamentares
banda: conjunto de músicos
bando: conjunto de aves, de malfeitores ou de ciganos
batalhão: conjunto de soldados
bateria: conjunto de instrumentos de percussão, de perguntas ou de canhões
biblioteca: conjunto de livros
boiada: conjunto de bois
cabido: conjunto de cônegos
cacho: conjunto de bananas ou de uvas
câmara: conjunto de parlamentares ou de desembargadores
cáfila: conjunto de camelos ou de dromedários
cambada: conjunto de malandros ou de caranguejos
cancioneiro: conjunto de canções e de poemas líricos
caravana: conjunto de viajantes, de mercadores ou de peregrinos
cardume: conjunto de peixes
caterva: conjunto de malfeitores ou de desordeiros
cavalaria: conjunto de cavalos
cavalgada: conjunto de cavaleiros
choldra: conjunto de malfeitores ou de malandros
chusma: conjunto de pessoas ou de marinheiros
cinemateca: conjunto de filmes
clero: conjunto de sacerdotes
clientela: conjunto de clientes
colégio: conjunto de cardeais ou de eleitores
coletânea: conjunto de textos, de músicas ou de pensamentos ou provérbios escolhidos
colmeia: conjunto de abelhas
coleção: conjunto de livros, de poesias ou de selos
colônia: conjunto de pescadores, de imigrantes, de insetos ou de bactérias
comitiva: conjunto de acompanhantes
companha: conjunto de tripulantes
companhia: conjunto de marinheiros
comunidade: conjunto de cidadãos
concílio: conjunto de bispos convocados pelo Papa
conclave: conjunto de cardeais reunidos para eleger o Papa
confederação: conjunto de estados
confraria: conjunto de pessoas religiosas reunidas
congregação: conjunto de religiosos
congresso: conjunto de deputados, de senadores, de cientistas, de diplomatas, de estudiosos ou de especialistas
constelação: conjunto de estrelas
cordilheira: conjunto de montanhas
corja: conjunto de desordeiros, de velhacos, de tratantes, de ladrões ou de vadios
coro: conjunto de cantores ou de anjos
década: conjunto de dez anos
doutrina: conjnto de conhecimentos
discoteca: conjunto de discos
elenco: conjunto de atores, de artistas
enxame: conjunto de abelhas, de vespas ou de marimbondos
enxoval: conjunto de acessórios para a casa
esquadra: conjunto de navios de guerra
esquadrilha: conjunto de aviões
exército: conjunto de soldados
falange: conjunto de soldados ou de anjos
farândola: conjunto de desordeiros, de vadios ou de maltrapilhos
fardo: conjunto de palha ou de papéis
fato: conjunto de cabras
fauna: conjunto de animais de uma região
feixe: conjunto de capim, de canas ou de lenha
flora: conjunto de plantas de uma região
fornada: conjunto de pães ou de tijolos
frota: conjunto de navios ou de ônibus
galera: conjunto de amigos
galeria: conjunto de quadros, de estátuas, de obras de arte e de canais subterrâneos para escoamento das águas pluviais
girândola: conjunto de fogos de artifício
grosa: conjunto de doze dúzias
grei: conjunto de fiéis reunidos, de paroquianos ou de diocesanos, ou de gado de pequeno porte
grêmio: conjunto de intelectuais
grupo: conjunto de pessoas ou de coisas
irmandade: conjunto de membros de associações religiosas
hemeroteca: conjunto de jornais e de revistas arquivados
horda: conjunto de desordeiros, de invasores, de selvagens, de aventureiros ou de bandidos
junta: conjunto de médicos, de examinadores ou de bois
júri: conjunto de jurados
legião: conjunto de soldados, de demônios ou de anjos
leva: conjunto de presos ou de pessoas em deslocação
magote: conjunto de pessoas
maloca: conjunto de bandidos, malfeitores e criminosos
malta: conjunto de desordeiros ou de vadios
manada: conjunto de bois, de búfalos, de cavalos ou de elefantes
matilha: conjunto de cães
maquinaria: conjunto de máquinas
milênio: conjunto de mil anos
molho: conjunto de chaves, de verduras ou de coisas agrupadas
multidão: conjunto de pessoas
museu: conjunto de coisas raras ou históricas, sejam antigas ou modernas
ninhada: conjunto de crias de animais
novena: conjunto de nove dias
nuvem: conjunto de mosquitos, de insetos ou de gafanhotos, de fumaça ou de coisas em tamanho reduzido
orquestra: conjunto de músicos
parlamento: conjunto de casas legislativas
patrulha: conjunto de soldados em ronda
panapaná: conjunto de borboletas
penca: conjunto de frutas ou de chaves
pilha: conjunto de objetos empilhados
pinacoteca: conjunto de quadros
pinhal: conjunto de pinheiros
plateia: conjunto de espectadores
plêiade: conjunto de artistas, de escritores, de cientistas ou de poetas: pessoas ilustres, brilhantes ou eminentes
pomar: conjunto de árvores de fruto
praga: conjunto de insetos nocivos
quadrilha: conjunto de bandidos ou de dançarinos em grupo
ramalhete: conjunto de flores
rancho: conjunto de pessoas reunidas para um fim comum
rebanho: conjunto de ovelhas ou de cabras
récua: conjunto de animais de carga
renque: conjunto de árvores
repertório: conjunto de peças teatrais ou musicais
resma: conjunto de papéis
réstia: conjunto de alhos ou conjunto de cebolas
revoada: conjunto de aves
roda: conjunto de pessoas
romanceiro: conjunto de poemas narrativos
saraivada: conjunto de tiros, de perguntas ou de vaias
seleta: conjunto de trechos literários escolhidos
século: conjunto de cem anos
sínodo: conjunto de párocos ou de religiosos reunidos
súcia: conjunto de desonestos ou de velhacos
talha: conjunto de lenha
time: conjunto de jogadores
tertúlia: conjunto de amigos, de pessoas íntimas ou de intelectuais
tripulação: conjunto de marinheiros ou de aviadores
tropa: conjunto de soldados, de pessoas ou de cavalos
trouxa: conjunto de roupas
turma: conjunto de estudantes, de amigos ou de trabalhadores
universidade: conjunto de faculdades e de escolas superiores
vara: conjunto de porcos
viveiro: conjunto de aves presas e de peixes confinados
vocabulário: conjunto de palavras

Outros coletivos:

data: conjunto de tapas, de bofetões ou de palmadas
dilúvio: conjunto de perguntas feitas com a intenção de embaraçar
datilioteca: conjunto de anéis, de joias e de pedras preciosas
enfiada: conjunto de tudo o que se enfia em linha
flotilha: conjunto de aviões e de pequenos navios
crestomatia: conjunto de textos selecionados
correição: conjunto de formigas
capela: conjunto de bugios
claque: conjunto de pessoas pagas ou combinadas para aplaudir ou vaiar, em um comício ou show
cineral: conjunto de cinzas
chusma: conjunto de votos
carrilhão: conjunto de sinos
cavalgada: conjunto de cavaleiros em marcha
chorrilho: conjunto de coisas efêmeras
batelada: conjunto de gêneros alimentícios
avalanche: conjunto de objetos volumosos que caem
bandeira: conjunto de garimpeiros, de exploradores de terra ou minérios
braçada: conjunto de coisas que se abraçam com os braços
congérie: conjunto de quaisquer coisas, concretas ou abstratas
cordame: conjunto de cordas ou cabos de qualquer espécie
lio: conjunto de tudo o que se encontra atado ou em pacote
monturo: conjunto de tudo o que repugna
mortualha: conjunto de cadáveres
paremiologia: conjunto de provérbios
rosário: conjunto de perguntas feitas com a intenção de embaraçar
tuna: conjunto de estudantes que dão concertos e excursionam
vizindário: conjunto de vizinhos

Concordância com o pronome indefinido

Quando houver um pronome indefinido que não esteja no plural seguido de especificação plural, o verbo fica, obrigatoriamente, no singular.
Eis pronomes indefinidos: algum, nenhum, todo, outro, muito, pouco, certo, tanto, quanto, vário, bastante, qualquer, alguém, ninguém, outrem, tudo, nada, cada, algo, quem, mais, menos, demais, fulano, sicrano, beltrano.
Algo das lembranças ainda incomodava o pobre infeliz.
Alguma das irmãs se prontificará a levar o casal para conhecer a chácara.
Nenhuma das inúmeras janelas ficou aberta, conforme se esperava.
Nenhuma das duas teve o nome divulgado por absoluta necessidade de proteção.

Os diferentes planetas têm muitas características que os distinguem, e cada um deles é um mundo exótico.
Cada um dos 51 vereadores do Rio de Janeiro terá direito a um carro de 65.000 reais.

Nenhum de vocês me ilude ao dizer que ela vai muito bem
Prefiro a verdade, existe a saudade, ela tem coração
Se um de vocês amou tanto assim, na certa me entenderá e dirá e dirá. – Nenhum de vocês – Kramer / Pallavicini / Vrs. Nazareno de Brito

Uma das candidatas disse que não encontrou dificuldades na prova, uma vez que estava bem preparada.
Um dos itens principais para fazer uma dinamite é o amendoim.

Emprego dos pronomes de tratamento como vocativo

Os pronomes de tratamento começados por Vossa correspondem ao pronome você. Para usá-los corretamente, basta fazer a substituição.
É comum vermos, em filmes, a confusão que se faz.

Veja, por exemplo, uma fala do filme O Discurso do Rei:

Você (o senhor) estará ao vivo em dois minutos, Vossa Alteza. Bastaria dizer: Você estará ao vivo em dois minutos, Alteza.

Como foi traduzido, é o mesmo que: Você estará ao vivo em dois minutos, você.

Na série Law and Order (e em várias outras) também se observa esse tipo de construção:

– O senhor concorda com o que foi proposto?

– Sim, Vossa Excelência.

Conforme você já viu, é o mesmo que: Sim, você.

Então, ao usar o pronome de tratamento como vocativo (para chamar, avisasr, interpelar), dispensa-se o pronome possessivo (Vossa e Sua). O uso da vírgula é obrigatório.

Veja outros exemplos:

Tive a honra e o prazer de receber de Vossa Majestade duas cartas, (…) O Brasil, Senhor, ama a Vossa Majestade, reconhece-o e sempre o reconheceu como seu Rei. Carta de D. Pedro I ao pai.

- Excelência, seu discurso foi brilhante.

– Alteza, sua carruagem a aguarda.

Lembre-se:

Vossa Excelência = você

Excelência = substitui o nome da pessoa. O mesmo se dá com: Alteza, Majestade, Eminência.

Pronomes de tratamento - uso cerimonioso ou oficial

Pronome / Abreviatura / Usado para se dirigir a
Vossa Alteza / V. A. / príncipes, duques e arquiduques
Vossa Eminência / V. Ema. / cardeais
Vossa Excelência / V. Exa. / altas autoridades do Governo e oficiais-generais das Forças Armadas
Vossa Magnificência / V. Maga. / reitores de universidades e de outras instituições de ensino superior
Vossa Majestade / V. M. / reis e imperadores
Vossa Excelência Reverendíssima / V. Exa. Revma. / bispos e arcebispos
Vossa Paternidade / V. P. / abades, superiores dos conventos
Vossa Reverendíssima / V. Revma. / sacerdotes e religiosos em geral
Vossa Santidade / V. S. / papa e Dalai Lama
Vossa Senhoria / V. Sa. / funcionários públicos graduados, oficiais até coronel e pessoas de cerimônia. Normalmente se usa em textos escritos, como cartas comerciais, ofícios, requerimentos etc.

1 de janeiro de 2020

Não se anseie. Remedeie! / Se bem negoceio você me premeia?

1- EAR: Os verbos terminados em ear recebem um i depois do e nas formas rizotônicas.



• Formas rizotônicas: eu, tu, ele e eles do presente do indicativo e do presente do subjuntivo:





Presente do indicativo: eu receio, tu receias, ele receia, nós receamos, vós receais, eles receiam;
Presente do subjuntivo: que eu receie, tu receies, ele receie, nós receemos, vós receeis, eles receiem

O substantivo é receio, mas o adjetivo é receoso e o verbo é recear.
O substantivo é estreia, mas o adjetivo é estreante e o verbo é estrear.



2- IAR: Os verbos terminados em iar têm conjugação regular.



Por exemplo, o verbo adiar:



Presente do indicativo: eu adio, tu adias, ele adia, nós adiamos, vós adiais, eles adiam.
Presente do subjuntivo: que eu adie, tu adies, ele adie, nós adiemos, vós adieis, eles adiem.



Há, porém, dois grupos especiais:





I- Mediar, intermediar, ansiar, remediar, incendiar e odiar: recebem um e antes do i nas formas rizotônicas:



Presente do indicativo: eu anseio, tu anseias, ele anseia, nós ansiamos, vós ansiais, eles anseiam;
Presente do subjuntivo: que eu intermedeie, que tu intermedeies, que ele intermedeie, que nós intermediemos, que vós intermedieis, que eles intermedeiem





II- O texto do Acordo Ortográfico registra que existem verbos terminados em -iar ligados a substantivos com as terminações átonas ia, io que admitem variantes na conjugação das rizotônicas.



A conjugação de negociar e de premiar ficam assim:



Negociar (verbo ligado ao substantivo negócio):



Presente do indicativo: eu negocio, tu negocias, ele negocia, nós negociamos, vós negociais, eles negociam ou eu negoceio, tu negoceias, ele negoceia, nós negociamos, vós negociais, eles negoceiam;
Presente do subjuntivo: que eu negocie, tu negocies, ele negocie, nós negociemos, vós negocieis, eles negociem ou que eu negoceie, tu negoceies, ele negoceie, nós negociemos, vós negocieis, eles negoceiem

Premiar (verbo ligado ao substantivo prêmio):



Presente do indicativo: eu premio, tu premias, ele premia, nós premiamos, vós premiais, eles premiam ou eu premeio, tu premeias, ele premeia, nós premiamos, vós premiais, eles premeiam;
Presente do subjuntivo: que eu premie, que tu premies, que ele premie, que nós premiemos, que vós premieis, que eles premiem ou que eu premeie, que tu premeies, que ele premeie, que nós premiemos, que vós premieis, que eles premeiem

O imperativo é obtido de acordo com o esquema já conhecido.

Se bem negoceio você me premeia?

Conforme o Novo Acordo Ortográfico, os verbos terminados por IAR, ligados a substantivos com terminação átona IO ou IA, admitem variantes na conjugação. Ex.: premiar (prêmio): eu premio (ou premeio); negociar (negócio): eu negocio (ou negoceio). O Acordo só menciona esses dois verbos como exemplos. Nesses verbos, a primeira pessoa do singular do presente do indicativo e seus derivados têm duas possibilidades de conjugação.

Outros (de acordo com a regra): agenciar (agência), evidenciar (evidência), gerenciar (gerência), vitoriar (vitória), gloriar (glória), renunciar (renúncia), diligenciar (diligência), aliviar (alívio), angustiar (angústia), cadenciar (cadência), comerciar (comércio), copiar (cópia), denunciar (denúncia), ludibriar (ludíbrio), negligenciar (negligência), obsequiar (obséquio), parodiar (paródia), policiar (polícia), reverenciar (reverência), viciar (vício), noticiar (notícia), beneficiar (benefício), consorciar (consórcio), contagiar (contágio), contrariar (contrário), distanciar (distância), divorciar (divórcio), domiciliar (domicílio), expropriar (próprio), expatriar (pátria), historiar (história), oficiar (ofício), principiar (princípio), pronunciar (pronúncia), refugiar (refúgio), sentenciar (sentença), substanciar (substância), silenciar (silêncio), supliciar (suplício), vistoriar (vistoria), vivenciar (vivência), caluniar (calúnia), estagiar (estágio), influenciar (influência), iniciar (início), licenciar (licença), financiar (finança), irradiar (rádio), judiar (judeu), injuriar (injúria), insidiar (insídia), apropriar (próprio), referenciar (referência), fantasiar (fantasia), fatiar (fatia), indiciar (indício), inventariar (inventário), prestigiar (prestígio), privilegiar (privilégio), reiniciar (reinício), tangenciar (tangência), conciliar (concílio), confidenciar (confidência), auxiliar (auxílio), adverbiar (advérbio), cambiar (câmbio), assalariar (salário), assediar (assédio), compendiar (compêndio), conferenciar (conferência), credenciar (credência), deliciar (delícia), ensaiar (ensaio), diferenciar (diferença), espoliar (espólio), espraiar (praia), guiar (guia), gandaiar (gandaia), inebriar (ébrio), obviar (óbvio), periciar (perícia), plagiar (plágio), prefaciar (prefácio), prestigiar (prestígio), pressagiar (presságio), providenciar (providência), propiciar (propício), repudiar (repúdio), repatriar (pátria), sequenciar (sequência), vigiar (vigia), esquiar (esqui).

Tautologia e pleonasmo / Evolução favorável?

1) Pleonasmo (de pleos, em grego, que quer dizer abundante) significa, em síntese, uma repetição, no falar ou escrever, de idéias ou palavras que tenham o mesmo sentido.

2) Trata-se de termo genérico, que tanto pode adornar a linguagem, como torná-la feia e sem encanto. No primeiro caso, em que se busca dar força à expressão, chama-se pleonasmo literário, de reforço, estilístico ou semântico. Ex.: "Vi com meus próprios olhos". No segundo caso, caracteriza vício da linguagem e chama-se pleonasmo vicioso, porquanto, longe de enfeitar o estilo, apenas repete desnecessariamente idéia já referida. Ex.: "Subir para cima".

3) Na lição de Vitório Bergo, a expressão com pleonasmo de estilo trata-se de construção irrepreensível, porque "o pleonasmo deixa de considerar-se vício para classificar-se como figura desde que, sem tornar deselegante a frase, contribua para dar maior relevo à idéia".1


4) Quanto à tautologia (de tautos, em grego, que exprime a idéia de mesmo, de idêntico), trata-se de outra denominação que recebe o pleonasmo vicioso e se caracteriza pela seguida repetição, por meio de palavras diferentes, de um pensamento anteriormente enunciado, baseando-se "no desconhecimento da verdadeira significação dos termos empregados, provocando redundância ou condenável demasia verbal".2


5) Além dos lapsos mais comuns nesse campo (subir para cima, descer para baixo, entrar para dentro, sair para fora, menino homem...) e verificáveis até com perfunctório cuidado, há outros de identificação mais difícil, mas que, de igual modo, devem ser evitados, ainda que à custa de maior atenção: 24 horas por dia, acabamento final, almirante da Marinha, aprimorar para melhor, autocontrolar-se, brigadeiro da Aeronáutica, climatologia geográfica, consenso geral, deferir favoravelmente, déficit negativo, degenerar para pior, demasiadamente excessivo, demente mental, descer para baixo, detalhe minucioso, elo de ligação, empréstimo temporário, entrar para dentro, erário público, escolha opcional, feminismo libertário, evidência concreta, alvo certo, medidas extremas de último caso, general do Exército, hermeticamente fechado, limite extremo, metades iguais, modelo de referência, consultoria especializada, holerite de pagamento, monopólio exclusivo, outra alternativa, prefeitura municipal, própria autobiografia, propriedade característica, quantia exata, resultado do laudo, retornar de novo, sair para fora, seguir em frente, si mesmo, sintoma indicativo, subir para cima, superávit positivo, surpresa inesperada, todos foram unânimes, vereador da cidade, voltar atrás, exultar de alegria, destaque excepcional, vandalismo criminoso, propriedade característica, demasiadamente excessivo, pilar de sustentação, consumismo exagerado, preconceito intolerante, assessor direto, número exato, despesas com gastos, labaredas de fogo, goteira no teto, um mês de mensalidade, última versão definitiva, fone de ouvido, estrelas do céu, canja de galinha, países do mundo, hepatite do fígado, infarto do coração, hemorragia de sangue, decapitar a cabeça, infiltrar-se para dentro, exportar para fora, importar para dentro, louco da cabeça, surdo do ouvido, cego dos olhos, comer com a boca, cheirar com o nariz, lamber com a língua, adicionar mais, formato PDF, número PIN, display LCD, rede LAN, memória RAM, modulação FM / AM, protocolo HTTP / IP, VoIP, frequência VHF / UHF, código UPC, sistema DOS, número ISBN, síndrome AIDS, frango KFC, gás LPG, computador RISC, interface MIDI, conferência NFC, formato GIF, míssil SAM, laboratórios UL, adaptador VGA, unidade CPU, índice CPI, hospital MASH, países OPEC, teste SAT, número VIN, trens ferroviários, panaceia universal, esquecimento involuntário, filho primogênito, utopia inatingível, abismo sem fundo, túnel subterrâneo, safra agrícola, programar primeiro, seus respectivos lugares, criança pequena, breve alocução, desembolsar dinheiro do bolso, pomar de frutas, plebiscito popular, emulsão de óleo, pancreatite do pâncreas, milênios de anos, lugar incerto e não sabido, recuar para trás, defecar pelo ânus, receber mensalmente pelo mês, manusear com as mãos, crise caótica, árvore oca por dentro, desejar votos de felicidade, palavra de honra, individualidade inigualável, jantar de noite, luzes acesas, filhote novo, filhote pequeno, mínimos detalhes, dois gêmeos, direito individual de cada um, transporte coletivo de todos, cair um tombo, teimar com insistência, palma das mãos, planta dos pés, voar pelos ares, descobrir primeiro, novidade inédita, ocasião favorável, pico culminante, eis aqui, reincidir de novo no mesmo erro, repetir outra vez, substituir um dispositivo por outro, manter o mesmo time, batom na boca

6) Veja-se como nem sempre é fácil identificar tautologias, quer por desconhecimento do real significado das palavras, quer porque há expressões que estão enraizadas no uso e são de difícil expurgo: motorista de táxi de praça, acordo amigável, contratempo inesperado, parâmetro de comparação, sabatina de perguntas, histeria feminina, intenção pretendida, vacina preventiva, suposição hipotética, útero materno, loção de barba para homens, visor ótico, biografia pregressa, blitz relâmpago, vomitar impropérios pela boca, lugar incerto e não sabido, liquidação dos liquidantes, coexistir simultaneamente, check-up geral, adega de bebidas, distinguir a distinção, valor unitário de R$ 10,00 cada, parte integrante da diretoria, detalhe feminino da mulher, decreto governamental, expectativa futura, o mais predileto, gerenciamento da rotina do trabalho diário, percorrer a pé, vereador municipal, cair um tombo, pé de laranjeira, pescar peixe, laços de aliança.

7) São Luís do Maranhão não é pleonasmo nem tautologia, pois, no Brasil, existem outros municípios que também se chamam São Luís, não somente no Maranhão.

8) O antônimo do pleonasmo vicioso é o paradoxo vicioso, que consiste em uma antítese desnecessária, não intencional e sem valor estilístico. Exemplos de paradoxos viciosos: déficit positivo, descer para cima, elo de desligação, entrar para fora, erário privado, metades diferentes, monopólio inclusivo, sair para dentro, subir para baixo, superávit negativo, surpresa esperada, acabamento inicial, quantia inexata, empréstimo permanente, escolha obrigatória, consumismo moderado, uma semana / um ano de mensalidade, destaque habitual, limite suave, prefeitura estadual / federal, vereador do estado / do país, única alternativa, juntamente sem, pilar de deterioração, consultoria novata, modelo de omissão, vandalismo de vítima / de herói, demente intelectual / auditivo / físico / mental, consenso individual / particular, hermeticamente aberto, imprópria autobiografia, demasiadamente controlado, propriedade genérica, sintoma de contraindicação, exultar de tristeza, prejuízo do laudo, retornar uma vez, seguir atrás, preconceito tolerante, número impreciso, assessor indireto, aprimorar para pior, general da Marinha, almirante da Aeronáutica, brigadeiro do Exército, esquecimento voluntário, panaceia particular, individualidade igualável, palavra de desonra, jantar de manhã / de tarde, luzes apagadas, abismo curto, utopia atingível, hepatite do intestino, infarto do pulmão, hemorragia de suco de beterraba, plebiscito impopular, longa alocução, transporte exclusivo de todos, desejar votos de infelicidade, ocasião desfavorável, etc.

dúvida do leitor
O leitor André Lopes Martins envia-nos a seguinte mensagem:

"Prezado Dr. José Maria da Costa, é redundância dizer 'evolução favorável', ou 'evoluir positivamente'? A palavra 'evolução' já guarda em si mesma o sentido de algo positivo, bom, para frente? É possível 'evoluir negativamente'? Um abraço do Gramatigalheiro."

envie sua dúvida


Evolução favorável?

1) Em evolução e evoluir, está presente a idéia de uma transformação gradual de um quadro para outro.

2) Em termos de análise valorativa ou de conteúdo axiológico, o ponto para o qual se evolui tanto pode ser melhor quanto pode ser pior que o anterior, e o que importa é que tenha havido mudança de um estado anterior para um outro posterior.

3) Veja-se um exemplo prático: o quadro de um paciente internado em hospital, se não se acha estável, encontra-se em evolução, quer esteja o doente melhorando, quer esteja piorando. Assim, o resultado final dessa evolução tanto pode ser positivo, culminando com a convalescença, como pode ser negativo, desaguando em óbito.

4) Bem por isso, pode-se dizer que estão corretas todas as seguintes expressões, que não constituem pleonasmo, mas o substantivo qualificado por um adjetivo:

I) – evolução favorável;

II) – evolução desfavorável;

III) – evoluir positivamente;

IV) – evoluir negativamente.

Grafia em nomes próprios

dúvida do leitor
A leitora Rita de C. S. Morais envia-nos a seguinte mensagem:

"Prezado Dr. José Maria da Costa, bom dia! Gostaria de obter informações sobre transliteração de nomes próprios de pessoas, exigido em concursos militares mas é megarraro em concursos de grande porte. Agradeço antecipadamente."

Observado o fato de que indagar sobre transliteração é, em última análise, perguntar sobre o modo como se escrevem os nomes próprios de pessoas.

envie sua dúvida


1) As leis de ortografia - que também norteiam a escrita dos nomes próprios de pessoas - mandam que se escreva Antônio, Luís, Mateus, Rui, e não Antonio, Luiz, Matheus ou Ruy, grafias tipicamente literárias ou a menos que a pessoa assine dessa forma.

2)Veja o que a esse respeito determina, desde 1943, com força de lei, o Formulário Ortográfico, elaborado pela Academia Brasileira de Letras: "Os nomes próprios personativos, locativos e de qualquer natureza, sendo portugueses ou aportuguesados, serão sujeitos às mesmas regras estabelecidas para os nomes comuns".

3) Vale dizer: como qualquer outra palavra da língua, os nomes próprios sujeitam-se às regras normais de ortografia e de acentuação gráfica, têm sua forma correta de grafar.

4) Assim, Antônio, Cláudio, Sérgio, Márcia e Patrícia se acentuam, porque são paroxítonas com ditongo na última sílaba, assim como advérbio, memória e ciência; Teófilo, porque é proparoxítona, assim como sábado; Vítor, porque é paroxítona terminada por r, como repórter; Nélson, porque é paroxítona terminada por n, como elétron; Taís, porque nela aparece o i tônico, seguido de s na mesma sílaba, formando hiato com a vogal anterior.

5)Nesse sentido, assim determina o mesmo Formulário Ortográfico: "Para salvaguardar direitos individuais, quem o quiser manterá em sua assinatura a forma consuetudinária. Poderá também ser mantida a grafia original de quaisquer firmas, sociedades, títulos e marcas que se achem inscritos em registro público".

6) Se alguém, todavia, teve seu nome registrado com uma grafia incorreta, abrem-se-lhe duas saídas: pode usá-lo como aparece nos documentos, como tem sido mais usual; ou pode solicitar-lhe a correção, quer ao próprio responsável pelo serviço de registro de pessoas naturais, quer ao Juiz de Direito, na hipótese de recusa daquele.

7) Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante, por fim, fazem importante e oportuna observação: "A grafia dos nomes de todos os que se tornam publicamente conhecidos aparece corrigida em publicações feitas após a morte dessas pessoas".1

8) De Arnaldo Niskier também é lição nesse sentido, para o nome dessas pessoas: "passando desta para a melhor, a norma é escrever seus nomes de acordo com as regras ortográficas", razão pela qual "um Antonio Luiz só se for registrado no cartório ou se for usado literariamente: depois da morte passará a ser, gramaticalmente, Antônio Luís".2

Verbos irregulares terminados em iar

O saudoso Adoniran Barbosa cantava uma canção em que dizia:

"É que de um relógio pro outro as hora vareia".

Ele tinha o jeitão dele, "as hora vareia", com uma linguagem bem popular. Só que "as hora" não "vareia", todo mundo sabe que as "horas variam".

A hora varia
As horas variam

O verbo "variar", assim como evidenciar, comerciar, licenciar, termina em iar e é regular, ou seja, segue um determinado modelo, um determinado paradigma, como esses exemplos:

anunciar - anuncia
denunciar - denuncia
reverenciar - reverencia
policiar - policia

Não existem formas como evidenceio, comerceia, licenceia.

Alguns verbos terminados em iar, ligados a substantivos com terminações átonas ia ou io, podem ser conjugados regularmente ou irregularmente:

negociar - negocio ou negoceio / negocia ou negoceia
premiar - premio ou premeio / premia ou premeia

E o verbo "incendiar", como fica? Será que está certa a frase "Você incendia meu coração"? Vamos ver o quer diz a letra da canção "Você pra mim", gravada por Fernanda Abreu:

"... Um segredo inviolável
de uma paixão inflamável
mas que nunca incendeia
nem em noite de lua cheia..."

Essa é a forma correta, "incendeia", do verbo incendiar, que não é regular, não segue a conjugação padrão. Vamos a mais alguns exemplos de verbos irregulares terminados em iar:

mediar - medeia
ansiar - anseia
remediar - remedeia
intermediar - intermedeia
incendiar - incendeia
odiar - odeia

Uma maneira de memorizar esses verbos é o anagrama "Mario": As letras iniciais dos cinco verbos formam a palavra "Mario": mediar, ansiar, remediar, incendiar e odiar. Assim também se conjuga o verbo intermediar, derivado de mediar. É um pequeno truque para facilitar a memorização desses verbos irregulares.

Não tropece na língua - Pretensão ou pretenção? / Conceção ou concessão?

A forma correta de escrita da palavra é pretensão, com s. A palavra pretenção, com ç, está errada, não existe. O substantivo feminino pretensão indica principalmente falta de modéstia ou o desejo ou ambição de alguma coisa. Pode significar também qualquer tipo de solicitação ou exigência.

Exemplos com pretensão
Foi muita pretensão de sua parte achar que você seria a escolhida.
Na entrevista, perguntaram qual seria a minha pretensão salarial.
Desde pequena ela tem pretensão de ser uma cantora famosa.
Tudo que eu fiz foi com a pretensão de ser feliz.

Pretensão é sinônimo de presunção, arrogância, afetação, vaidade e imodéstia, bem como de aspiração, ambição, desejo, anseio e sonho. Pode ser sinônimo também de solicitação, exigência, pedido e reivindicação.

Por que pretensão se escreve com s?

A palavra pretensão tem sua origem na palavra em latim praetensionis, devendo assim ser escrita com s e não com ç. Também com s deverão ser escritas todas as palavras cognatas de pretensão:

pretensioso;
pretensiosa;
pretensiosidade;
despretensão;
despretensioso;
despretensiosa;
...

Além disso, na língua portuguesa, os verbos terminados em -nder, -ndir, -erter, -ertir, -ergir, -correr e -pelir formam substantivos com s:

defender - defesa;
ofender - ofensa;
expandir - expansão;
fundir - fusão;
confundir - confusão;
ascender - ascensão;
pretender - pretensão;
compreender - compreensão;
repreender - repreensão;
estender - extensão;
suspender - suspensão;
distender - distensão;
inverter - inversão;
converter - conversão;
verter - versão;
reverter - reversão;
perverter - perversão;
subverter - subversão;
aspergir - aspersão;
imergir - imersão;
emergir - emersão;
submergir - submersão;
correr - curso;
concorrer - concurso;
discorrer - discurso;
recorrer - recurso;
percorrer - percurso;
expelir - expulsão;
impelir - impulsão;
repelir - repulsão;
compelir - compulsório

A forma correta de escrita da palavra é concessão. As palavra conceção, conseção e consessão estão erradas, não existem. Sempre que nos quisermos referir ao ato de conceder, permitir ou ceder, permissão, consentimento, outorga, entrega, transigência, devemos utilizar o substantivo comum feminino concessão. Esta palavra também significa uma autorização oficial cedida pelo poder público a um particular ou empresa privada, do direito de executar, em seu nome e mediante certos encargos e obrigações, uma obra ou a exploração de serviço público ou de certos bens, como recursos minerais, por exemplo, por tempo determinado. Na gramática, refere-se a um fato subordinado e contrário ao da ação principal de uma oração, mas incapaz de impedir que tal ação venha a ocorrer.
A palavra conceção existe, mas é usada no português falado em Portugal, equivalendo à palavra concepção, usada no Brasil.

A palavra concessão tem sua origem na palavra em latim concessio, devendo assim ser escrita com ss e nunca com ç. Também com ss deverão ser escritas todas as palavras da família de concessão (palavras que partilham o mesmo radical): concessão, concessionar, concessionário, concessionador, concessionária, concessor, concessivo, concessiva, concessório, concessível,…
Concessiva é o feminino substantivado do adjetivo concessivo, uma redução da locução substantiva conjunção concessiva

Além disso, na língua portuguesa, os verbos terminados em -ceder, -gredir, -mitir, -cutir, -meter e -primir formam substantivos com ss.
Exemplos: conceder/concessão, regredir/regressão, permitir/permissão, discutir/discussão, remeter/remessa, imprimir/impressão,…

Exemplos:
Foi-me dada concessão para utilizar este computador.
É preciso haver concessão de uma das partes.
Aquela empresa obteve a concessão da exploração das linhas ferroviárias do estado.

Exceço ou excesso / Excessão ou exceção

A forma correta de escrita da palavra é excesso. As palavras exceço e ecesso estão erradas, não existem.

O substantivo masculino excesso indica tudo o que ultrapassa o normal e o aceitável, bem como tudo aquilo que sobra, sendo sinônimo de excedente, restante, resto, sobra, remanescente.

Refere-se também a um exagero e a um descomedimento, indicando qualquer tipo de imoderação, demasia, exorbitância, intemperança, desregramento, abundância, despropósito, fartura, overdose, superabundância, superfluidade, pleonasmo, tautologia, redundância e prolixidade. Excesso significa ainda qualquer tipo de abuso, violência, brutalidade, truculência, crueldade, desumanidade, atrocidade.

Exemplos com excesso
O uso de aerossóis em excesso prejudica o ambiente.
O excesso de mercadoria poderá desestabilizar o barco.
Estou cansada de lidar com seus excessos, não volte a tocar em mim!
Este dispositivo protege os sistemas elétricos do excesso de corrente elétrica.
Origem da palavra excesso
A palavra excesso tem sua origem na palavra em latim excessus, devendo assim ser escrita com x na primeira sílaba e com c na segunda sílaba, bem como com o dígrafo ss nas últimas duas sílabas: ex-ces-so.

Também assim deverão ser escritas as palavras cognatas de excesso, como:

excessivo;
excessividade;
excessivismo.
Além disso, na língua portuguesa, os verbos terminados em -ceder, -gredir, -mitir, -cutir, -meter e -primir formam substantivos com ss:

exceder - excesso; ceder - cessão; aceder - acesso; conceder - concessão; proceder - processo; interceder - intercessão; retroceder - retrocesso
discutir - discussão; repercutir - repercussão; percutir - percussão
regredir - regressão; agredir - agressão; progredir - progressão; transgredir - transgressão
permitir - permissão; admitir - admissão; demitir - demissão; transmitir - transmissão; emitir - emissão; omitir - omissão; remitir - remissão
remeter - remessa; prometer - promessa; intrometer - intromissão; comprometer - compromisso
imprimir - impressão; reprimir - repressão; oprimir - opressão; deprimir - depressão; suprimir - supressão; exprimir - expressão

Excesso e exceção: não confundir!
Não confunda a palavra excesso com a palavra exceção! Exceção e excesso não partilham o mesmo radical. São palavras distintas com significados e grafias distintas.

Exceção significa o ato de excluir ou excetuar.
Excesso é o resultado do ato de exceder.

Exemplos com excesso e exceção:

Na festa de casamento comi em excesso! (Comi muito, em exagero).
Na festa de casamento comi de tudo, sem exceção! (Comi um pouco de tudo, provei todas as comidas).
Fique sabendo mais: os valores de x
Na língua portuguesa, a consoante x pode assumir várias pronúncias, representado os seguintes fonemas: ch, cs, z, ss, s.

Contudo, não tem valor fonético, não devendo soar, quando aparece nos grupos xce e xci, como em excesso e excitação.

A forma correta de escrita da palavra é exceção, com ç. A palavra excessão, com ss, está errada.

O substantivo exceção indica o ato de excetuar ou excluir, ou seja, refere-se a alguém ou algo que foi excluído ou que não foi incluído, sendo sinônimo de exclusão, isenção, reserva, ressalva e restrição. Indica também um desvio dos padrões convencionais, aquilo que não confirma uma regra.

Exceção significa ainda uma condição privilegiada, sendo sinônimo de privilégio, vantagem, prerrogativa e regalia.

Exemplos com exceção
Toda regra tem uma exceção.
Todos concordaram com as medidas propostas, você foi a única exceção.
Todos devem comparecer na hora certa, sem exceção.
Assista ao vídeo e acabe com todas as dúvidas de forma bem rápida!


Origem da palavra exceção
Exceção tem sua origem na palavra em latim exceptione. Todas as palavras da família de exceção são escritas com c e nunca com ss:

excepcional;
excepcionalmente;
excepcionalidade.
Na língua portuguesa, o x pode assumir várias pronúncias, representando os seguintes fonemas: ch, cs, z, ss, s. Contudo, não tem valor fonético, não devendo soar, quando aparece nos grupos xce e xci, como em exceção e excitação.

Exceção e excesso: não confundir!
Nunca confundir a palavra exceção com a palavra excesso! Exceção e excesso não partilham o mesmo radical, são palavras distintas com significados e grafias distintas.

Exceção significa o ato de excluir ou excetuar.
Excesso é o resultado do ato de exceder.

Exemplos com exceção e excesso
Na festa de casamento comi em excesso! (Comi muito, em exagero).
Na festa de casamento comi de tudo, sem exceção! (Comi um pouco de tudo, provei todas as comidas).

Resumo - Vícios de linguagem

Embora frequentes no dia a dia dos falantes, os vícios de linguagem são desvios gramaticais, ou seja, palavras, expressões e construções que fogem às regras da norma padrão ou norma culta. Os vícios de linguagem ocorrem, normalmente, por falta de atenção e pouco conhecimento dos significados das palavras pelos falantes.

Confira alguns vícios de linguagem:

Barbarismo
Erros de pronúncia, acentuação, ortografia, flexão e significação (emprego inadequado de homônimos ou parônimos) são considerados barbarismo.

Solecismo
Erros de sintaxe (concordância, regência e colocação pronominal) são considerados solecismo.

Pleonasmo vicioso, tautologia ou redundância
Ocorre pleonasmo vicioso, tautologia ou redundância quando há uma repetição de ideias desnecessária, não intencional e sem valor estilístico para a transmissão do conteúdo da frase.

Ambiguidade ou anfibologia
Nas frases com falta de clareza que acarreta sentido duvidoso ocorre ambiguidade ou anfibologia.

Cacofonia ou cacófato
Ocorre cacofonia ou cacófato quando a pronúncia de duas ou mais palavras seguidas produz um som desagradável ou sugere outra palavra menos apropriada, de sentido inconveniente.

Eco
Dissonâncias causadas por terminações iguais nas palavras são consideradas eco.

Hiato
Dissonâncias causadas por sequências de vogais idênticas ou semelhantes são consideradas hiato.

Colisão
Dissonâncias causadas por sequências de consoantes idênticas ou semelhantes são consideradas colisão.

Vulgarismo
O uso de expressões que não se enquadram no padrão culto é considerado vulgarismo. Pode ser fonético, morfológico e sintático.

Plebeísmo
Refere-se a gírias, palavras de baixo calão, regionalismos e expressões populares que indicam falta de instrução e erudição.

Nota: Também a utilização de clichês é considerada por muitos autores como vício de linguagem, por empobrecer o discurso e limitar a autonomia do pensamento humano.

Estrangeirismo
Considerado por muitos gramáticos como barbarismo, o estrangeirismo consiste no uso exagerado e desnecessário de palavras de outros idiomas em vez das formas equivalentes em português, fora da linguagem da informática, da internet e do mundo dos negócios.

Neologismo
Consiste na criação exagerada de novas palavras, muitas vezes desnecessárias, por já haver palavras análogas no português.

Arcaísmo
Refere-se à utilização de palavras ou expressões em desuso.

Preciosismo e prolixidade
Refere-se a uma linguagem exacerbada para referir ideias normais, bem como ao excesso de palavras para transmitir ideias simples, prejudicando a clareza e naturalidade do discurso. É o famoso falar difícil.

Fique sabendo mais!

Existem ainda outros vícios de linguagem como: gerundismo (uso excessivo e desnecessário do gerúndio), queísmo (uso excessivo e desnecessário do pronome que), lheísmo (uso excessivo e desnecessário do pronome lhe como objeto direto, sem valor possessivo) e parequema (sílaba final e inicial iguais em palavras seguidas – regra gramatical, importante tempo).

Existir, hesistir ou esistir?

A forma correta de escrita da palavra é existir. As palavras esistir e hesistir estão erradas, não existem. Devemos utilizar o verbo existir sempre que quisermos referir o ato de ter existência real, ou seja, viver, estar, permanecer, haver.

O verbo existir tem sua origem na palavra em latim existere, devendo assim ser escrito com x na segunda sílaba e sem h na primeira sílaba. Também desta forma deverão ser escritas todas as palavras cognatas de existir, bem como todas as formas conjugadas deste verbo.

Exemplos:
Palavras da mesma família: existir, existente, existência, existencial, inexistente, inexistência, inexistir, existencialismo, existencialista, existencialístico,...
Verbo existir – Presente do indicativo:
(Eu) existo
(Tu) existes
(Ele) existe
(Nós) existimos
(Vós) existis
(Eles) existem

Exemplos:
Deixar de pensar no assunto não fará com que ele deixe de existir.
Existem muitas crianças com fome no mundo.
Se você não existisse, minha vida seria mais triste!